3 DELÍRIO DAS NEGAÇÕES – SÍNDROME DE COTARD E MELANCOLIA
3.3 DANIEL PAUL SCHREBER – UM ESTUDO FREUDIANO
Daniel Paul Schreber, referência maior da paranóia na Psicanálise, é estudado por Freud e Lacan, por meio do magnífico relato Memórias de um doente
dos nervos (SCHREBER, 1903), em que o “analisado” faz uma descrição primorosa
de um surto Cotard. O relato se torna interessante porque de alguma forma demonstra que, mesmo em um delírio de perseguição ou em uma paranóia, pode-se instalar, e com muita virulência, o delírio das negações.
No capitulo XI do livro citado, Danos à integridade física através dos milagres, ele narra detalhadamente, como de resto em todo o livro, situações, experiências no seu corpo, mortais para qualquer mortal, mas que apesar das putrefações e mutilações, ele se mantém vivo.
Desde os primórdios da minha ligação com Deus até o dia de hoje, meu corpo vem sendo ininterruptamente objeto de milagres. Se eu quisesse descrever em minúcias todos esses milagres, poderia encher um livro inteiro. Posso afirmar que não há um único membro ou órgão do meu corpo que não
músculo que não tenha sido distendido por milagre, para pô-lo em movimento ou paralisá-lo, conforme o objeto visado. Até hoje, os milagres que experimento a toda hora são de tal natureza que deixariam qualquer pessoa em estado de pavor mortal; só que eu, devido ao hábito adquirido em muitos anos, consegui encarar como coisas sem importância a maior parte do que ainda acontece. Mas nos primeiros anos da minha estada no Sorenstein, os milagres eram de uma natureza tão ameaçadora que eu acreditava poder temer quase continuamente por minha vida, por minha saúde ou pelo meu entendimento.
Em si mesma, naturalmente, deve ser considerada como contrária à Ordem do Mundo toda situação em que os raios, essencialmente, só se prestam a infligir danos ao corpo de um individuo ou a pregar alguma peça nos objetos de que ele se ocupa – aliás, estes milagres mais inofensivos também se tornaram bastante freqüentes nos últimos tempos. Pois os raios têm por dever criar algo e não apenas perturbar ou fazer brincadeiras infantis. É por esta razão que todos os milagres dirigidos contra mim, com o tempo, acabam por não cumprir seu objetivo; o que foi prejudicado ou perturbado por raios impuros precisa depois ser reconstruído ou curado por raios puros. Com isto, não se quer dizer que, pelo menos temporariamente, não pudessem daí resultar danos muito graves, que reavivavam uma impressão de extremo perigo ou provocavam situações bastante dolorosas.
Os milagres que mais de perto evocavam uma situação em acordo com a Ordem do Mundo pareciam ser aqueles que tinham alguma relação com uma emasculação a ser efetuada no meu corpo. A este contexto pertencem em particular todo tipo de modificações nas minhas partes sexuais, que algumas vezes (particularmente na cama) surgiam como fortes indícios de uma efetiva retração do membro viril, mas freqüentemente, quando prevaleciam os raios impuros, como um amolecimento do membro, que se aproximava quase completa dissolução; além disso, a extração, por milagre, dos pelos da barba, em particular do bigode, e finalmente, uma modificação de toda a estatura (diminuição do tamanho do corpo) – provavelmente baseada numa contração da espinha dorsal e talvez também da substancia óssea das coxas. Este último milagre, proveniente do deus inferior, era regularmente anunciado com as palavras: “E se eu diminuísse um pouco? Eu próprio tinha a impressão de que meu corpo tinha se tornado de seis a oito centímetros mais baixo, aproximando-se, portanto, da estatura feminina. [...] Muitas vezes, durante períodos mais ou menos longos, vivi sem estômago, e algumas vezes declarei expressamente ao enfermeiro M., que talvez ainda se lembre disso, que eu não podia comer porque não tinha estômago. Algumas vezes, imediatamente antes da refeição, me era fornecido por milagre um estômago, por assim dizer, ad hoc. [...] Quanto aos demais órgãos internos, quero recordar ainda apenas o esôfago e os intestinos, que muitas vezes foram dilacerados ou desapareceram; a laringe, que mais de uma vez degluti junto com o alimento e, finalmente, o cordão espermático, no qual algumas vezes se operaram milagres bastante dolorosos, principalmente com o objetivo de reprimir a sensação de volúpia que surgia no meu corpo. Além destes, devo ainda mencionar um outro milagre, que atingia todo o baixo ventre.
Todos estes distúrbios – de memória, do sono, de compreensão e físicos – indicam igualmente dificuldades em relação à concatenação significante. Se para toda e qualquer retroação da reflexão, bem como toda a antecipação, toda possibilidade de antecipação, instala-se gradualmente no presente cada vez mais reduzido, com a perda gradual da temporalidade e a conseqüente angústia da vida eterna, da
imortalidade, que funda, por assim dizer, a súplica para as eliminadas, para que haja um fim como também uma fome, um movimento, um ciclo de desejo (SCHREBER, 1903).
Séglas chama à atenção sobre a morte do sujeito da enunciação, que pode ser formulada na terceira pessoa, designando-se por um pronome demonstrativo impessoal ou marcado pelo desprezo, do tipo “esta”, ou por perífrase despersonalizante. Assim, observa-se claramente como alguém que manifesta ter perdido seu nome vê esta perda acompanhada de um estreitamento temporal, com sua exclusão fora do tempo.
Então, sem referências, torna-se um, como lembra Czermak (1991, p. 157). Quando um sujeito perde seu nome, isto que o ancora no tempo e na cadeia das gerações, quando o psicótico perde o nome que o identifica, torna-se imortal. O nome próprio pode ser o tempo do sujeito e também seu espaço, seu elo e lugar na cadeia das gerações.
Os psiquiatras franceses clássicos já haviam dito que a Síndrome de Cotard é encontrada na melancolia, nas mais antigas e crônicas, mas também em outras psicoses. Schreber teve seu momento de Cotard. Torna-se interessante notar que na literatura desse período, muito de Cotard oscila entre a melancolia e a paranóia, ou depois de uma fase paranóica o paciente volta para a melancolia. Mas o mais recorrente são os melancólicos Cotard.
Verifica-se um esvaziamento das significações, de modo que o idioma, até então familiar, torna-se exterior, uma cascata de vivências xenopáticas. O que há de mais terrível para o humano do que a identificação a um Real ao qual não falta nada, a um Real sem buraco?
O paciente da Síndrome de Cotard evidencia o que Freud (1915) considera em As pulsões e suas vicissitudes, que a fisiologia dita normal não funciona senão do fato de que o sujeito esteja cativado em um discurso. Quando o sujeito perde seu discurso, há distúrbios da fisiologia, seus órgãos não estão mais ligados em função de um discurso; discordam.
No Cotard, a estrutura destes objetos impróprios para a constituição do eu, para uma integração, torna-se ameaçadora. Eis de onde advêm os fenômenos de
mãe deveria permitir à criança, pelo olhar e pela palavra, que o infans se aproprie de uma imagem ideal e familiar, interna e externa.
Lacan é explícito ao falar do estádio do espelho como fundante dessa imagem que no Cotard fica não somente despedaçada, mas tomada pela analgesia psíquica e física:
O que se trata no estádio do espelho é do estabelecimento de uma imagem, o que eterniza sob o aspecto de uma forma, um tipo imaginário onde algo transcende ao mutável da vida, onde a imagem sobrevive ao vivo. Para Lacan, quando esta imagem chega a ser percebida, não é apenas uma imagem que é proposta, já está sendo apresentada um urbild ideal, algo que subsiste por si, e diante da qual as fissuras de prematuro são ressaltadas e se apresenta uma insuficiência para responder à totalidade desta imagem .
O Cotard é estrangeiro a si mesmo; seu negativismo denuncia uma não- construção do urbilt ideal o qual faz o sujeito errar pela vida e insistir em um discurso
nonsense absoluto. Tal como entende Séglas, no Cotard, a angústia da idéia da
imortalidade, a angústia da vida eterna; a morte do sujeito, o desaparecimento de sua enunciação, coloca-o face a essa segunda morte da qual Lacan fala muitas vezes. Não é tanto a morte o temível, diz ele, mas a idéia de que a vida possa continuar indifinitamente, nessa zona qualificada de “entre-duas-mortes”, termo que Lacan toma de Sade. Por sua vez, em Kant com Sade (1963, p. 777), afirma que a “dor em estado puro modela a canção dos melancólicos”. Entre os inúmeros desdobramentos da Síndrome de Cotard, um deles tem lugar entre o antes e o depois: “eu era, eu me chamava, eu ia, eu amava”. E prossegue, o cotardiano: “agora eu não tenho mais, não tenho mais nome, não tenho mais pais, eu nunca nasci”. Não diz: “antes não ter nascido”; diz: “eu não sou, nunca nasci”. Não faz um lamento; faz uma afirmação.
A imortalidade cotardiana se inscreve no interior da negatividade que faz trama de seu discurso ao mesmo tempo em que esgota como testemunha o mutismo na qual sua existência se fecha e se cristaliza. Esta negatividade pode ser lida como o efeito mais radical da pulsão de morte quando dissociada da pulsão de vida.
Freud se dera perfeitamente conta no que diz respeito à descarga da pulsão de morte, quando afirmava que sua conversão em pulsão de vida se dava através da motricidade. Aqui é preciso mais uma vez lembrar que para Freud a pulsão de morte visa, antes de mais nada, o próprio individuo e não pode sobrepor-se ao desejo de destruição do outro. A questão que se coloca na clínica é a seguinte: será possível desviar esta pulsão destruidora para outros objetos que não o próprio indivíduo ?Em outras palavras: se ela se investe contra objetos internos, se ela investe contra o individuo, o que fazer no tratamento para que ela se desvie sobre objetos externos ? Ou, ainda, como fazer no plano clínico para passar da autodestruição à heterodestruição e da heterodestriução para à sublimação?
Esta possibilidade aventada por Zygouris também é impossível para o Cotard. Tais passagens que ela propõe como o caminho da sublimação estão interditadas por barreiras intransponíveis para este um que, por estrutura, é tão inábil para qualquer escalada na existência.