3 DOS DITOS E NÃO-DITOS SOBRE O CASO
3.2 Soltando a voz nas redes sociais
3.2.1 Dos usos e formatos
3.2.1.1 Das imagens
Estes conteúdos se dividem, quanto à composição, em dois tipos: no primeiro, agrupamos os cards de feitura publicitária; no segundo, reunimos os registros fotojornalísticos. Nivelamos o conteúdo presente nestes indicadores a partir dos caracteres do conteúdo e suas finalidades narrativas. Em card, estabelecemos as seguintes categorias: Tratamos por ‘Programação’ o chamado público para atividades realizadas nos espaços ocupados; ‘Notas’ exprimem posicionamentos políticos, tecem pontes de solidariedade e divulgam conquistas; ‘Campanha’ trata das ações de solicitação de apoio de doações para manutenção das ocupações; ‘Meme’ é voltado à comicidade sobre assuntos correlatos; ‘Explicativo’ reúne publicações voltadas a justificar a ação e denunciar o status estrutural das universidades; ‘Cartoon’ agrega a comunicação por meio de expressões visuais e, por fim; ‘Gestão’ orientada ao manejo do suporte, como troca de capas e outras fundamentações – registrada na figura 6.
68 Figura 5 – Categorias dos Cards
Fonte: Páginas no Facebook das ocupações (2018)
Quanto as fotografias, classificamos em: ‘Cotidiano’ as que conjugam narrativa de ação comum nas ocupações; ‘Ato de Rua’ para as fotografias de manifestações em vias públicas; ‘Natureza’ para registros contemplativos do espaço natural; ‘Histórica’ para o compartilhamento de registros remetentes a tempos passados; ‘Demarcação’ para registro de intervenções não-cotidianas, a exemplo de ações diretas; e, por fim, ‘Mobilização’ que reunia as imagens de espaços amplos e de participação geral, a exemplo de assembleias. Essas duas últimas categorias também se subdividem em Externa, dado que notamos a presença de publicações destas categorias, mas que não dizem respeito às unidades ocupadas.
69 Figura 6 – Categorias das Fotografias
Fonte: Páginas no Facebook das ocupações (2018)
Deste modo, ao tabular as categorias, realizamos a classificação das postagens seguindo essa tipologia para quantificação destas e, assim, produzindo instrumentais para a realização das análises propostas neste trabalho. Uma questão importante a ser destacada neste momento, quanto a execução metodológica, é: na medida em que publicações com imagens constituem o maior agrupamento de corpus, permite, por um lado, maior complexidade na análise destes; por outro, este mesmo quesito não é possível nas demais em decorrência da quantidade mínima disponível no estudo. Ao classificarmos, temos:
70 Tabela 3 – Composição e finalidade das imagens
PÁGINAS DAS OCUPAÇÕES EM
UFC IFCE URCA UFCA UNILAB
Iguatu Fortaleza CARDS 125 79,9% 47 64,3% 71 67,7% 52 60,5% 83 55,3% 66 68,8% Programação 109 70,4% 34 46,6% 50 47,6% 32 37,2% 75 50% 55 57,2% Nota 5 3,2% 5 6,8% 3 2,9% 1 1,15% 1 0,6% 1 1% Campanha 1 0,6% --- --- 4 3,8% 1 1,15% 1 0,6% --- --- Meme 1 0,6% 2 2,7% 3 2,9% --- --- --- --- 3 3,2% Explicativo 1 0,6% --- --- 2 1,9% 14 16,4% 2 1,4% 2 2,1% Gestão 7 4,5% 6 8,2% 6 5,7% 4 4,6% 4 2,7% 3 3,2% Cartoon --- --- --- --- 3 2,9% --- --- --- --- 2 2,1% FOTOGRAFIA 30 20,1% 26 35,7% 34 32,3% 34 39,5% 67 44,7% 30 31,2% Cotidiano 7 4,5% 9 12,4% 27 25,7% 20 23,3% 60 40% 11 11,4% Ato de Rua 2 2,1% 1 1,4% --- --- 2 2,3% 1 0,6% --- --- Demarcação 12 7,7% 6 8,2% 4 3,8% 6 7% 3 2% 4 4,2% Dem. Externa --- --- 3 4,1% --- --- 2 2,3% --- --- 9 9,3% Mobilização 9 5,8% 1 1,4% 3 2,8% 4 4,6% 2 1,4% 4 4,2% Mob. Externa --- --- 2 2,7% --- --- --- --- 1 0,6% --- --- Natureza --- --- 4 5,5% --- --- --- --- --- --- --- --- Históricas --- --- --- --- --- --- --- --- --- --- 2 2,1% TOTAL 155 73 105 86 150 96
Fonte: Produzido nesta pesquisa (2019).
Primeiro, percebemos como cards são maioria das imagens postadas em todos os cenários, chegando na linha do extremo de 80% no caso da UFC. Com atenção a este índice, notamos que a categoria com majoritária expressão é a de ‘Programação’, alcançando métricas superiores a 50% em @ocupaunilab com 57,2% e @greveestudantilUFC com 70,3% no quadro total de imagens dessas páginas e tendo apenas @ocupaurca2016 com valores inferiores a 45%.
Na medida em que convida para agendas voltadas à produção de conhecimentos nas ocupações, limita-se à baixa expressão de posicionamentos políticos via notas ou de processos explicativos sobre as ocupações. Os valores de cards ‘Explicativos’ são ínfimos
71 quando comparados aos de ‘Programação’ e, nisto, apenas @ocupaurca2016 obtém razão numérica que possui a segunda casa decimal neste quesito.
@ocupaurca2016 também possui um alto valor em ‘Programação’, marcado em 36,2%. Contudo, diferente das outras páginas, se dedica a radicar campanha de diálogo em redes sobre as motivações políticas que impulsionam a ação. O número diminuto de postagens de cunho ‘Explicativo’ nas outras páginas revelam, assim, que estas mais apelavam para uma política paliativa voltada a reduzir os efeitos da criminalização decorrente da ação, ofertando serviços e com reduzida tônica política ao invés de travar o debate público sobre os impulsionadores da ação. Esta correlação nos faz perceber que não existia uma pulsão pública de ode as ações como ‘tomadas de poder’, mas uma insessante produção de peças para defender e legitimar as ocupações.
É justo notar, ainda, que meme é um artifício pouco explorado e os que foram publicados, em todos os casos, são produções de agentes externos às ocupações – e, inclusive, de outros estados.
O uso restrito de fotografia está relacionado não a uma baixa valorização da pragmática contemporânea discutida por Susan Sontag (2004, p. 16), ao dispor da relação humana com a fotografia onde mecanismos visuais “fornecem um testemunho” de experiências, mas pela articulação de medidas protetivas aos ocupantes frente à criminalização iminente – o que não impediu, entretanto, a fotografia de rostos dos ocupantes.
Dentre as fotografias, o registro do Cotidiano é uma categoria majoritária neste índice. Com exceção a UFC, única que não atinge a segunda casa decimal na porcentagem total entre imagens, a categoria desponta a construção de sentidos sobre o uso comum das ocupações. @ocupaufca é quem melhor assume esta envergadura, ao calcular 40% das imagens voltadas a esta finalidade com cobertura fotográfica da ampla maioria das atividades realizadas. Em ampla maioria, a expressão do cotidiano é o registro fotográfico da programação divulgada – reforçando, assim, o sentido narrativo de abertura das ocupações, de zelo com o espaço e de não-violência que, na constância, estabelece esse paradigma como a normalidade do espaço ocupado.
Ao somar os valores dos cards de ‘Programação’ e das fotografias de ‘Cotidiano’ e estabelecer valores abissais em todos os cenários, nos permite dizer que a função central das páginas estava voltada a ecoar uma ideia de normalidade, para dirimir criminalização do que se propunha a versar sobre os marcadores políticos que fundamentavam a ação.
As medidas de ‘Demarcação’ e de ‘Mobilização’ são capazes de romper lógicas cotidianas e, quando somadas, apenas em @greveestudantilUFC alcança mais que 2 dígitos
72 com 13,5% do total de postagens com imagens. Identificamos que os atos de rua pouco aparecem nas páginas, mesmo sendo um momento político bastante aquecido e midiatizével, propicio ao agendamento dado o caráter frequente e grandiosos em todas as cidades em que ocorreram. A baixa quantidade de registro, por sua vez, denota pouco tato com a prática de comunicação contrahegemônica no sentido de furar as brechas. Não que estes ensinamentos sejam novos – há muito o MST já produzira táticas como os famosos bonés vermelhos para identificar a multidão em coberturas aéreas de ocupações de terras e, assim, ampliar sentidos sobre a representação de si – mas que não existiu atenção em beber das fontes ou de atentar-se a construção de tática neste sentido.
Se esses valores são pequenos, não podemos passar despercebido que @ocupaunilab mais compartilha ações de ‘Demarcação’ e de ‘Mobilização’ externas a instituição do que divulga as ocorridas na própria Universidade. @ocupaifce e @ocupaurca também realizam a ação de modo notório, mas os valores não superam as marcas da ação local. Uma observação que não queremos perder de vista é: em todos esses casos, nenhuma externa diz respeito à outra experiência cearense. Apenas @ocupaufca realiza um post, fazendo alusão a mobilização das federais no estado – sendo este o único caso do tipo.
Note-se, ainda, o caráter pontual presente em cards de ‘Cartoon’ e nas fotografias de ‘Natureza’ e de caráter ‘Histórica’, sendo lidas como usufruto das características sociais e técnicas dos territórios em que estas se expressam.