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Das relações de tempo objetivas e subjetivas

2. LEGALIDADE E CAUSALIDADE.

2.3 Da interpretação de Strawson Gegenstand

2.3.1 Das relações de tempo objetivas e subjetivas

No corpo do prefácio a The Bounds of Sense, conhecido ensaio na tradição da filosofia analítica em torno da Crítica de Razão Pura, Strawson distingue três linhas de pensamento que servirão como parâmetro para o desenvolvimento de seu raciocínio. Ali, ele se reporta a três metafísicas: a Metafísica da Experiência, a Metafísica Transcendente e a Metafísica do Idealismo Transcendental, que estão expostas numa seqüência ordenada e interdependente no

escopo da obra (Strawson, 1966, p.12), que no todo destaca que a Crítica da Razão Pura está estruturada a partir de um princípio fundamental compatível com o idealismo empírico que lhe perpassa do começo ao fim: tal é o “princípio da significatividade” [A t B; B ⊢ A], cujo enunciado afirma que “não pode haver nenhum uso legítimo, nem inclusive com sentido, de idéias ou conceitos, se estes não estiverem relacionados com as condições empíricas ou experimentais de sua aplicação” (Strawson, 1966, p.16). É em nome do conteúdo e da centralidade deste princípio, que Strawson interpreta o pensamento kantiano com base num uso notável que consegue fazer dele na forma proposicional de argumentos cético-naturalistas que não assumem um fundamento transcendental, e que vamos contrapor à posição de Allison que, através do termo “condições epistêmicas” [A t B; A ⊢ B], sustenta a tese do idealismo transcendental. No que resta desta segunda parte, vamo-nos concentrar nas implicações deste embate para a plausibilidade da Segunda Analogia da Experiência. Assim, com base no capítulo III da Metafísica da Experiência - “Permanência e Causalidade” -, analisaremos como Strawson se dedicou ao exame analítico em torno da cogência das relações de causa e efeito na Segunda Analogia da Experiência ou da questão levantada acima, a saber, se ela implica a existência e/ou a necessidade das leis causais empíricas54.

Strawson inicia a sua interpretação tecendo algumas considerações históricas de vasta literatura sobre a exposição kantiana dos princípios do entendimento puro bem como dos comentários a ele pertinentes, que no mais das vezes aludem quanto ao cuidado de discriminar com correção metodológica estes [princípios transcendentais] dos princípios científicos55. Na seqüência, cabe ainda destacar a expectativa de que a argumentação kantiana que respalda a Analítica dos Princípios não seja tão obscura e sinuosa como a que se atribui com quase unanimidade à Dedução, ainda que se reconheça a dificuldade intrínseca desta solução não só por conta de ser um argumento transcendental de implicação estrita que em hipótese alguma vai transigir com o cético-naturalismo, mas, principalmente, porque com ela Kant inaugurava

54 Cumpre alertar que na literatura filosófica mais recente sobre a causalidade, distingue-se entre leis causais

empíricas, como por exemplo, determinada espécie de leis físicas, e o principio de causalidade, decorrente da conhecida máxima segundo a qual todo acontecimento tem sua causa. Independente disto, a linguagem de Kant também apresenta suas sutilidades: na Analítica dos Princípios informa que chegou o momento de se referir aos “princípios”, naquilo que na Analítica dos Conceitos ele chamava de “leis”. Cito Kant em C. R. P., B198, p.195: “Mesmo as leis da natureza, quando consideradas leis fundamentais do uso empírico do entendimento, implicam um caráter de necessidade, portanto, pelo menos, fazem presumir uma determinação extraída de princípios que são válidos a priori, e anteriormente a toda a experiência”. Os princípios, são assim um fio condutor do juízo para a investigação científica, que não repousa nem em derivações lógico-formais, nem num agregado rapsódico de fatos, mas, em primeira análise, representa uma tékhne de julgamento, no melhor sentido que possamos atribuir à palavra “cogência”.

55 Tópicos para aprofundamento dessa visão histórica, sugerimos consultar Sales Lima, 2003, p.66-101, 157-225

algo inusitado: seu estilo transcendental de pensar, como explicitamos ao longo da temática “Do objeto e da referência”.

De fato, o coração da Crítica da Razão Pura, assim como seus trechos mais difíceis estão em boa medida contidos na Analítica Transcendental, onde se pode destacar a tese da objetividade e a tese da unidade, dentre as seis que Strawson supõe estarem adjudicadas à Metafísica da Experiência (Strawson, 1966, p.24): a tese da objetividade afirma que a consciência de meus estados mentais deve incluir a consciência de objetos diferentes deles; a da unidade, que as percepções devem ser reunidas para que possam ser conceituadas como percepções de objetos, ou seja, devem obedecer ao princípio da Apercepção Transcendental. O fato é que nossa experiência é temporal, sucessiva, esticando o antes e o depois; e também nos oferece, a cada instante, uma extensão espacial, prolongando-se a partir de um centro de experiência pessoal. Uma “teoria da mente fabricando a natureza”, como dirá Strawson (1966, p.22), em alusão à importância da metáfora da revolução copernicana em Kant ou, como afirmara o próprio Hume, é algo parecido com o que acontece “quando transferirmos a determinação do pensamento para os objetos externos e supomos que existe, entre estes uma conexão real e inteligível (...)” (T., I, III, 14: 202, 27) a qual não hesitamos em chamar de “poder” ou “eficácia” causal.

Isto talvez já seja suficiente para estabelecer um fio condutor com a nossa discussão precedente em torno “Do objeto e da referência” e que perpassou todos os conteúdos de 2.2: o princípio supremo de todos os juízos sintéticos, ao sustentar que há uma interdependência entre a unidade da consciência e a objetividade da experiência, vai instituir uma ponte entre as teses 2 e 3 da Metafísica da Experiência de Strawson (ver 2.2.2). Sendo assim, fica confirmado o que antes havíamos presumido na ocasião em que colocamos o problema (ver 2.1): a compreensão prévia da temática kantiana “Do objeto e da referência” é seguramente um ponto de partida de grande importância para a análise crítica de Strawson sobre a cogência da Segunda Analogia da Experiência. O mesmo deve permanecer válido para a interpretação de Allison, que terá o seu lugar mais adiante, em parte como uma réplica à acusação de Strawson de que ela se constitui num argumento do tipo non sequitur56, mais precisamente uma falácia de relevância, com probabilidade indutiva baixa.

56 A interdependência entre as teses 2 e 3 de Strawson, está, portanto, presente na “Representação sistemática de

todos os princípios sintéticos do entendimento puro” (C. R. P., B197, p.195). Veja o que Strawson diz (1966, p. 28): “Na famosa argumentação da segunda Analogia, ele [Kant] pretende mostrar que a experiência da mudança objetiva, da sucessão que tem lugar no mundo objetivo e não meramente na série de nossas experiências subjetivas, só é possível si se toma cada sucesso como algo causalmente determinado (o grifo é nosso); de qualquer forma, somente se pode tomar como legítimo o passo crucial deste raciocínio se a faculdade crítica

Dito isto, Strawson nos encaminha ao que no capítulo “Permanência e causalidade” ele titula “Relações de tempo objetivas e subjetivas” que é o cerne das chamadas Analogias da Experiência, ou das relações de intertemporalidade entre Objekt e Gegenstand que se ocupa da justaposição, segundo o princípio da significatividade, das teses 2 e 3 de sua Metafísica da Experiência, conforme se pode ratificar no argumento transcendental que se segue:

As nossas analogias apresentam, pois, verdadeiramente, a unidade de natureza no encadeamento dos fenômenos sob certos exponentes que não exprimem outra coisa que não seja a relação do tempo (...) com a unidade da apercepção, unidade que só pode verificar-se na síntese segundo regras. Concordam em dizer, estas analogias, que todos os fenômenos residem numa natureza e nela têm de residir, porque sem esta unidade a priori não seria possível qualquer unidade da experiência nem por conseguinte, qualquer determinação dos objetos na experiência (C. R. P., B263, p.236).

Com efeito, numa descrição retrospectiva, que nos faz remontar ao §26 da Dedução, Kant já admitia que as Analogias da Experiência são as leis transcendentais da natureza, ou melhor: enquanto os fenômenos - Gegenstände - representam a própria natureza, os objetos - Objekte – são fonte de suas leis e, no seu caso, seus próprios princípios [a priori]. A grande questão das Analogias não é outra senão a de sua plausibilidade: como se deve representar uma ordem intertemporal entre o sucessivo e o simultâneo (Strawson, 1966, p.123)57, numa experiência que exibe essencialmente uma sucessão temporal, como está postulado na tese [primeira] da temporalidade em The Bounds of Sense (Strawson, 1966, p.24)? A seu modo, Kant vai chamar as analogias [ou relações] de esquemas transcendentais do tempo (ver 2.2.3), regras de determinação geral do tempo que precedem todas as medidas empíricas do tempo como fundamento de sua possibilidade e, portanto, são princípios, cujo enunciado comum é que a “experiência só é possível pela representação de uma ligação necessária das percepções” (C. R. P., B218, p.208), ou como as coisas parecem relacionadas no tempo58.

Com o tema “Das relações de tempo objetivas e subjetivas”, Strawson aborda as analogias da experiência em geral antes de falar sobre seus modos de tempo - duração, sucessão e coexistência. Com esta providência, ele procura reparar naquilo que em sua opinião é uma falha de Kant, que apresentara a questão a partir de uma forma um tanto

curva-se à falácias não dedutivas do tipo non sequitur...”, um argumento no qual a conclusão “não se segue” das premissas.

57 Neste sentido, Strawson (Ibid), na sua interpretação de Kant, continua: “é certo que para o mundo ser

concebido como objetivo, deve ser possível distinguir entre a ordem de percepções que tem lugar em uma rota experimental de pensamento e a ordem e relação que possuem os constituintes objetivos do mundo”.

58 Para Kant, há três possibilidades para a ligação temporal: a permanência, a sucessão e a simultaneidade e, em

decorrência, três formas para a relação das percepções entre si ou três analogias: 1. o princípio da permanência da substância, 2. o princípio da sucessão temporal conforme à lei da causalidade e 3. o princípio da simultaneidade conforme à lei da reciprocidade ou comunidade.

dispersa na terceira seção do capítulo II da Analítica dos Princípios, a saber, ao longo das próprias Analogias, na “Refutação do Idealismo” e na “Observação Geral ao Sistema dos Princípios” (Strawson, 1966, p.122) o que, numa análise mais atenta, são tópicos que exigem uma melhor coesão. À parte este tipo de consideração, o que Strawson vai insistir, mas não concordar, como indispensável na abordagem kantiana, é que se não houver nenhuma condição de fazer uma distinção [lógica] entre relações de tempo objetivas e subjetivas, vem abaixo todo o edifício teórico das Analogias da Experiência e com isso a própria tentativa de justificação [e fundamentação] dos argumentos transcendentais face aos cético-naturalistas, o que resulta no impedimento de que os primeiros possam justificar a representação da ordem necessária dos eventos do mundo.

De fato, podemos acolher melhor este raciocínio de Strawson (1966, p.124) quando, com o auxílio de R. P. Wolff, fazemos uma breve incursão na Parte IV do Livro I do Tratado. Segundo Wolff (1973, p.269), Hume parece dissimular a distinção entre os nossos conteúdos mentais perceptivos tais como as impressões e as idéias e os objetos que eles representam, o que, de resto, corrobora o seu propalado ceticismo quanto à existência do mundo externo59, tema onde ele passa a desenvolver, através de uma extensa análise, uma postura teórica que acentua suas posições céticas, onde insiste “que é impraticável mostrar os limites precisos do conhecimento e da probabilidade” (T., I, IV, I: 214, 3) e, igualmente, nesse desiderato, se dedica a sumariar algumas críticas e considerações gerais sobre diversos sistemas filosóficos relevantes constituídos ao longo da história, ai incluídos os antigos e modernos. Ora, isso apenas confirma o que já havíamos constatado em nossa primeira parte: Hume não faz uma clivagem rigorosa entre o Gegenstand e o Objekt ou, como diria seu seguidor Strawson, não distingue clara e distintamente “(i) as relações de tempo entre os objetos que produzem as percepções; [e] (ii) as relações de tempo entre os membros da série subjetiva das próprias percepções” (Ibid.) o que embora seja consistente com o princípio da significatividade, como veremos, está na origem das chamadas falácias de non sequitur.

À diferença de Kant, o cético-naturalismo humeano confundira esquema com imagem, o que o impedira de considerar no seu discurso elementos como conceitos puros do entendimento como, por exemplo, os de substância e causalidade. Se para o empirismo

59 Transcrevemos a sugestiva passagem de Hume que Wolff toma como base: “Ora, já observamos que, embora

os filósofos possam distinguir entre os objetos e as percepções dos sentidos, supondo-os coexistentes e semelhantes, a generalidade dos homens não compreendem essa distinção; como percebem apenas um ser, jamais poderiam concordar com a opinião de uma dupla existência, isto é, do objeto e da representação (...). Portanto, para me ajustar às suas noções, começarei supondo que há apenas uma única existência, a que chamarei indiferentemente objeto ou percepção, conforme pareça mais adequado a meu propósito, entendendo por ambos os termos aquilo que todo homem comum entende por um chapéu, um sapato, uma pedra ou qualquer outra impressão transmitida por seus sentidos” (T., I, IV, 2: 235, 31).

nenhum conceito é puro, nem quanto ao seu conteúdo, nem quanto à sua natureza, segue-se que seu objeto [que é o Gegenstand] não se reduz a ser pensado, ou seja, seu esquema é a própria imagem (exemplo), e a imaginação que Hume suporia ligar as representações fica aqui restrita a uma reprodução [habitual] que traz novamente à mente uma impressão derivada ou precedentemente ocorrida, mas não, como Kant, uma imaginação produtiva que precede e produz a necessidade de uma experiência objetiva, revelando as categorias do entendimento como a fonte de princípios que produzem as conexões dessas representações através do esquematismo transcendental. Se me limito à imaginação reprodutiva, tal como vimos na descrição do modelo humeano, estou circunscrito aos ditames do conhecimento empírico, impossibilitando que o entendimento seja reportado através das categorias a priori ao caráter figurativo do próprio tempo como agente transcendental de conexão, função que lhe é provida pelo esquematismo transcendental em geral, mas, sobretudo e de forma sistemática, através das Analogias da Experiência. Sendo assim, a posição teórica de Wolff se alinha à descrição de Strawson de que a determinação das relações de intertemporalidade entre o objeto no sentido lógico - Objekt - e o objeto no sentido real - Gegenstand - é função precípua das Analogias da Experiência em geral60.

Compreende-se, portanto, que a falta do esquema de tempo ou da síntese transcendental da imaginação nos impede de determinar uma conexão [pura] entre representações, de modo que fica um tanto indiferente se ela se dá na percepção ou no objeto, ocasionando, por parte de Hume, a aparente crença de que a formulação de duas definições intercambiáveis de causa pode se fundar numa intencional e, não obstante, ambígua, equiparação entre objeto e sua percepção. Daí resulta o seu célebre questionamento apenso a T., I, IV, 2: 221, 2 a respeito da reidentificação de objetos num certo ideal de racionalidade indutivo: “por que atribuímos uma existência CONTÍNUA aos objetos, mesmo quando não estão presentes aos sentidos? e por que supomos que possuem uma existência DISTINTA da mente e da percepção?”61.

60 De acordo com Wolff (1973, p.264): “Specifically, the object is that which coerces the mind’s connection of

representations in judgment; a proposition is true precisely if it connects in judgment what is connected in the object. Now, if the object cannot be a distinct entity from representations of it, and if at the same time it must serve as the ground for their objective connection, then the object must be simply a special way of organizing the

representations (…) Our problem, then, is not to find some entity on which we can pin the label “object”, but rather to find some order of the manifold which is different from the order of subjective consciousness and has the requisite marks of objectivity”, o que implica o trabalho conjunto das três analogias.

61 Ora, o estilo literário de Hume é muito propício a confundir seus leitores, mormente aos neófitos: enquanto ao

vulgo não faz a menor diferença especular sobre temas como a distinção entre objeto e percepção [ou representação], para o filósofo isto é de fundamental importância. Não nos esqueçamos de seu alerta aos leitores: “Não deixarei de avisar quando retornar a um modo mais filosófico de falar e pensar” (T., I, IV, 2: 235, 31), e isto é importante, pois já vimos suficientemente na nossa primeira parte que essa distinção corresponde exatamente ao diferencial de sua filosofia quando comparada com um mero sensualismo elementar, de modo que, quando ele filosofa, evidentemente vai distinguir, embora não demonstrativamente, relações intertemporais

É possível que Kant não soubesse avaliar, em uma primeira análise, o alcance dessas questões, quando na segunda Analogia lida com um Hume que não distingue racionalmente objeto e percepção. De fato, pelos motivos expostos, a começar na Dedução Transcendental das Categorias (ver 2.2.2), ele não equipara objeto com percepção e sua tendência, por oportuno, é admitir que a proposta humeana seja predominantemente cética e restrita à primeira definição de causa. Ciente dessa ambigüidade, Strawson prepara sua alternativa com o fito de descortinar quais são as formas de conexão e unidade entre as condições para determinar as relações de tempo objetivas, em oposição aquelas que decorrem de relações de tempo meramente subjetivas, que há entre as experiências (Strawson, 1966, p.124). Cumpre

de justaposição entre o que a estrutura conceitual kantiana caracteriza como Objekt e Gegenstand. É, neste contexto, que ao apresentar suas duas definições de causa, embora a primeira vista não seja fácil de distinguir, uma está fundada no objeto e a outra na representação, causalidade e indução, nos termos que introduzimos na primeira parte (ver 1.9). Podemos assim afirmar que a opinião da dupla existência, quando analisada no modo filosófico, não porta nenhuma ambigüidade: é exatamente ela que parece resultar das duas acepções humeanas do conceito de causa. Vejamos a opinião de Wolff sobre isso: “As a consequence of this identification of object and perception, it becomes possible to frame the conclusion of Hume’s analysis of causation indifferently in either two ways: (1) Objects are observed to be repeatedly conjoined, and this constant conjunction of like objects is all we mean by causation. The observed conjunction induces in us a habit of thinking of the one when the other is presented. (2) Perceptions are observed to be repeatedly conjoined, and this induces us to connect the two objects in our minds with that vivacity or force which we call necessity. In short, from a repeated subjective succession we develop a habit of association. Whether Kant was actively aware of these alternatives is difficult to ascertain” (Wolff, 1973, p.270). Verifica-se que Wolff expõe aqui versões ligeiramente modificadas das nossas duas conhecidas definições de causa: embora possamos admitir, pelas circunstâncias históricas avaliadas, que Kant não levou em consideração os contextos teóricos decorrentes dessa dupla definição de causa para sua resposta a Hume, outra coisa seria concordar, de uma maneira simplista, que elas são indiferentes. Ora, num modo mais filosófico de refletir, em que Hume não identificara, mas probabilizara objeto com percepção, os problemas da vida comum se impõem e, sobre isso, as provas exaustivas que formulamos na primeira parte são incontestes. Com efeito, é esse pequeno detalhe que vai se tornar fundamental na avaliação da resposta de Kant ao problema de Hume contida na Segunda Analogia da Experiência: ali Kant responde exclusivamente ao Hume cético, não ao cético-naturalista; ali, e esta é a principal evidência que nos forçou a perquirir as posições de Strawson e Allison, parece ficar manifesto a insuficiência dos argumentos transcendentais [determinantes] para responder às questões postas pelos argumentos cético-naturalistas, de modo que, ao que parece, a Crítica de

Razão Pura não dá provimento, em seu todo, a resposta de Kant ao problema de Hume, o que corrobora a

posição que defendemos em Sales Lima, 2003. De fato, no próprio Tratado chega um momento que Hume vai dizer que objetos e percepções, a rigor são distintos: “Embora a propensão natural da imaginação nos leve a atribuir uma existência contínua a esses objetos ou percepções sensíveis que vemos assemelharem-se uns aos outros em sua aparição descontínua, um pouco de filosofia basta, contudo, para nos fazer perceber a falácia dessa opinião. Já observei que existe uma conexão íntima entre o princípio de uma existência contínua e o de uma