• Nenhum resultado encontrado

Do contraponto entre conhecimento e probabilidade

1. A GÊNESE DO PROBLEMA DE HUME.

1.5 Do contraponto entre conhecimento e probabilidade

Vimos que dentre as qualidades do segundo princípio da natureza humana, é a causalidade que exerce o papel mais importante e, ao mesmo tempo, mais problemático. É através da relação de causa e efeito que transpomos nossa experiência imediata composta de impressões ou idéias da memória juntamente com as impressões presentes, anexando um segundo sistema, formado por conteúdos mentais que podemos inferir de forma mediata a partir daquelas percepções presentes à memória ou aos sentidos, isto que Hume esclarece no Tratado (T., I, III, 9), como mencionaremos oportunamente e com mais vagar. De fato, ao permitir transpor o sistema de dados imediatos dos sentidos e dos registros armazenados na memória, a causalidade possibilita-nos inferir a existência de algo que não está dado, fazendo- nos crer na idéia de um objeto que não está presente aos sentidos, de modo que, o próprio Hume vai tratar de especificar essa diferença, afirmando que o “primeiro sistema é objeto da memória e dos sentidos; o segundo do juízo” (T., I, III, 9: 138, 3). Assim, o privilégio da causalidade, mormente neste último sentido, que é o proposicional, está em que somente ela nos permite afirmar juízos sobre a existência; nos faz crer, pois ela confere à idéia do objeto uma solidez e uma objetividade que essa idéia não teria se o objeto estivesse associado somente por contigüidade ou por semelhança à impressão presente.

Sem dúvida, sem a relação de causa e efeito ficaríamos para sempre impossibilitados de efetuar previsões e de estabelecer relações entre o observável e o inobservável. E, de fato, é graças a ela que a partir da impressão presente podemos incursionar ao passado e ao futuro, inferindo efeitos de causas tais “que a audição de uma voz articulada e de um discurso com sentido na escuridão nos assegura da presença de alguma pessoa” (E., IV, IV: 55) ou, contrariamente, causas de efeitos tais como um “homem que encontre um relógio ou qualquer outra máquina em uma ilha deserta concluirá que homens estiveram anteriormente nessa ilha” (Ibid), quando fazemos induções sobre acontecimentos do passado como na arqueologia e, mais ainda, podemos, por exemplo, ajuizar sinteticamente que os corpos são gravosos através de um esquema que calcule seu peso a partir de sua massa vezes a aceleração da gravidade (ver 2.2.3) ou, de posse da regra de generalização [indutiva] dessa imagem, deduzir fenômenos além dos casos não observados.

Tais procedimentos, não obstante, seriam decerto problemáticos quando analisados sob a ótica do racionalismo dogmático, objeto da crítica cerrada de Hume, já que aquela filosofia compreendera que entre a causa e o efeito havia uma relação de necessidade estrita; um nexo intrínseco na passagem de um objeto dado para seu efeito. Ora, um nexo intrínseco é tudo,

menos uma relação natural58, o que implica atribuir ao liame entre a causa e o efeito não um modo ou relação, antes algo intencional que produza a própria existência do objeto, o princípio da razão suficiente, na terminologia dos racionalistas que professam as chamadas essências de re. Concebida assim, como uma relação de produção ou até como exercício de uma autoridade, a causalidade decide por arbítrio uma necessidade entre o evento causa e o evento efeito, ou vice-versa, podendo, no limite, estipular que esta operação seja deduzida a priori. Ora, tudo isso é muito artificial e só tem paralelo naquelas idéias que nos acostumamos a mal digerir, como “as de poder, força, energia ou conexão necessária, das quais nos é forçoso tratar a cada instante em todas as nossas investigações” (E., VII, III: 97), uma vez que elas são recorrentes no âmbito das doutrinas metafísicas adotadas pelo dogmatismo.

É neste sentido que procede a crítica devastadora de Hume aos princípios lógico- ontológicos da tradição, sendo a análise da causalidade basicamente uma resposta ao princípio da razão suficiente ao estabelecer que se o sujeito é certamente aquele que transpõe os dados de uma experiência imediata, não devemos atribuir previamente à experiência a autoridade de transpor a si própria. O que significa dizer, como veremos que doravante a suposta conexão necessária é dependente da relação entre nossas representações, ao invés destas dependerem de uma conexão extramental entre objetos. Isto é o mesmo que dizer que a eficácia das causas encontra-se na determinação da mente ou, o que é o mesmo, “a gênese do problema de Hume” se pauta na pesquisa de um sucedâneo cético-naturalista para o princípio lógico- ontológico da razão suficiente [ou causalidade] reduzindo-o psicologicamente à indução.

É essa inversão paradoxal que se constitui no cerne da revolução operada pelo empirismo subjetivo de Hume: não é só o princípio metafísico da razão suficiente que será reduzido a relações de causa e efeito59; o próprio conhecimento será reduzido a uma questão

58 “A relação de contrariedade pode, à primeira vista, ser considerada uma exceção à regra de que nenhuma relação de nenhuma espécie, pode subsistir sem algum grau de semelhança. Mas observamos que nenhuma

idéia, em si mesma, é contrária à outra, exceto as idéias de existência e de não-existência, que são claramente semelhantes, uma vez que ambas implicam uma idéia do objeto - embora a segunda exclua o objeto de todos os tempos e lugares em que se supões que ele não existe” (T., I, I, 5: 39, 8). Vemos que a atividade produtiva de uma causa jamais poderá configurar uma relação natural de causa e efeito. Quando muito ela é uma relação filosófica, pois a contrariedade sempre implica alguma semelhança, a menos que um objeto produza o outro e, neste caso, ele não é semanticamente deficiente, seja em qualidades, seja em relações, mas simplesmente existe, refutando a ontologia da imaginação humeana que se pauta exatamente por um modo de ser baseado em qualidade de e relações entre objetos e aqui “filósofos, que levam seu exame um pouco mais longe, percebem imediatamente que, mesmo nos acontecimentos mais familiares, a energia da causa é tão ininteligível quanto nos mais inusitados, e que apenas aprendemos pela experiência a conjunção freqüente de objetos, sem sermos jamais capazes de compreender algo como uma conexão entre eles” (E., VII, XXI: 107).

59 O Princípio da Razão Suficiente parece ter a função de um Deus ex machina em que as pessoas supõem-no

sempre dotado de uma infalibilidade na ligação da causa com o efeito. Melhor dizendo, um operador lógico e a

priori da natureza e de nossas ações que atuaria “como causa imediata do acontecimento que as surpreende e que

elas julgam não poder ser explicado pelos poderes usuais da natureza” (E; VII, XXI: 107), ou da experiência. Para Descartes, por exemplo, a causa comunica realidade a seu efeito, o que ele expõe numa passagem da

de probabilidade, pelo que introduz-se desse modo a incerteza no conhecimento. O itinerário teórico percorrido por ele ao longo desta parte III do livro primeiro do Tratado também não deixa de ser a chave de todas as reduções psicológicas operadas pelo seu pensamento. A generalização dessa economia psicológica se torna um fato quando a ciência da natureza humana estabelece um sentido bem definido para suas pesquisas: ela deve estar comprometida com a vida comum e isto significa sempre reduzir o possível ao provável, ou caminhar de relações filosóficas às relações naturais, da razão à imaginação e, enfim, do conhecimento à probabilidade. No que se segue, vamos tentar articular os passos desse itinerário tendo como pano de fundo a relação de causa e efeito. Melhor dizendo, como a causa filosófica é reduzida psicologicamente à causa natural e, além disso, tendo em mente que, de certo modo, este empreendimento corresponde a reconstruir o chamado “problema de Hume”. O objetivo desta primeira parte, insistimos, é conduzir apropriadamente essa redução psicológica de modo a que ela venha subsidiar, no conjunto das partes subseqüentes, o diálogo entre Hume e Kant acerca da causalidade, levando em consideração os aspectos já tematizados em nossa dissertação.

Hume inicia60 pelo conhecimento enumerando no Tratado as sete relações filosóficas que ele já havia listado na seção “Das relações” (T., I, I, 5), que são divididas entre aquelas “que dependem inteiramente das idéias comparadas e as que podem se transformar sem que

terceira Meditação (parágrafo 16), que reproduzimos aqui: “Agora, é coisa manifesta pela luz natural que deve haver ao menos tanta realidade na causa eficiente e total quanto no seu efeito: pois de onde é que o efeito pode tirar sua realidade senão de sua causa? E como poderia está causa lha comunicar se não a tivesse em si mesma?” (ver Descartes, 1994, p.143). Hume evoca Malebranche para tematizar o caráter eminentemente lógico [e racional segundo ele] do princípio da razão suficiente e isto está entre E., VIII, XVI e E., VII, XXV. Malebranche formulou, na esteira do pensamento de Descartes, uma doutrina de causa e efeito, a qual nominou de ocasionalismo e, nela, causa e efeito estão ligadas necessariamente, caso contrário não haveria relação causal. Esta teoria afirma que a causa [primeira] de todas as coisas é somente Deus e que as assim chamadas causas segundas ou finitas são somente ocasiões de que Deus se vale para levar a cabo seus decretos e, assim, nega ao homem qualquer iniciativa no mundo e, “de acordo com esses filósofos, todas as coisas estão cheias de Deus” (E., VII, XXII: 109). Portanto, nessa doutrina causal de cariz dogmático, os corpos e as mentes seriam apenas causas ocasionais, isto é, ocasiões na presença das quais Deus exerceria o seu poder infinito. Assim, por exemplo, quando pretendo mover meu braço, Deus o move para mim; e, quando duas bolas se chocam, essa é a

ocasião para ele mover a segunda bola, de acordo com a suficiência das leis da natureza que ele próprio arbitrou.

A minha vontade e o choque entre as bolas são somente causas ocasionais, ou naturais para a produção do efeito. Mas tanto a minha vontade, quando o choque das bolas não implicam necessariamente os respectivos efeitos. Por serem somente a ocasião na qual Deus, que é a única causa verdadeira, manifesta sua vontade e seu poder, esta doutrina justifica o nome recebido de ocasionalismo. Metafísicas que ignoram a diferença entre o princípio [lógico] da razão suficiente e o princípio [físico] de causa e efeito poderiam simplesmente deduzir o universo a partir do conceito de Deus e de seus atributos como onisciência e onipotência. Neste caso, até a “queda de um seixo pode, por tudo o que sabemos, extinguir o sol, ou a vontade de um homem controlar os planetas em suas órbitas” (E., XII, XXIX: 221). Da mesma forma, não há impossibilidade [lógica], ou melhor, haverá sempre possibilidade ou probabilidade de que “as árvores vão florescer em dezembro e janeiro e perder as folhas em maio e junho” (E., IV, XVIII: 65), ou até mesmo que os corpos gravosos subam sem que isso seja considerado uma contradição.

haja nenhuma transformação nas idéias” (Ibid)61. Na primeira Investigação dirá tratar-se de relações de idéias (ou conhecimento no sentido estrito) e questões de fato (ou conhecimento que comportará um maior ou menor grau de probabilidade)62. Com efeito, distinguimos duas espécies de razões na filosofia humeana: aquelas que oferecem certeza intuitiva ou demonstrativa e aquelas que procedem em função de probabilidades com base na imaginação e na experiência. Neste sentido, reiterando o que vimos no capítulo 1.3, a imaginação é considerada como uma faculdade capaz de ações cognitivas ou de assumir o caráter de autêntico entendimento, em oposição à fantasia.

Embora seja mais minucioso no Tratado do que na primeira Investigação, ao tratar da influência das relações de idéias na constituição do conhecimento, Hume descarta que esse tipo de proposição tenha importância decisiva na ciência da natureza humana. Ele é totalmente contrário a projetos do tipo cartesiano de uma mathesis universalis, para o qual a única tentativa de explicação acurada da realidade estaria numa filosofia axiomatizada com base numa descrição matemática subjacente, pautada, portanto, exclusivamente em relações de idéias. Este é certamente um dos motivos que o faz afirmar que isto “é tudo que penso ser necessário observar a respeito das quatro relações [filosóficas] que constituem o fundamento da ciência” (T., I, III, 2: 101, 1), e passa a tratar das demais: identidade, situações no tempo e no espaço e causalidade, basicamente as qualidades dependentes ou baseadas na faculdade da imaginação que, por serem mais importantes, “cabe explicá-las mais detalhadamente” (Ibid). Estas são questões de fato ou, como já visto, relações naturais e torna-se inicialmente imperativo comprovar de um modo lógico por que Hume considera a causalidade a de maior interesse teórico, a ponto de na primeira Investigação afirmar que todos “os raciocínios referentes a questões de fato parecem fundar-se na relação de causa e efeito” (E., IV, IV: 54), ou no Tratado, que só a “causalidade produz uma conexão capaz de nos proporcionar uma

61 Em T., I, III, 1: 98, 2, Hume especifica que das “sete relações filosóficas, apenas quatro” são relações de idéias

e tais “relações são semelhança, contrariedade, graus de qualidade e proporções de quantidade ou número”. As três primeiras são apreendidas por intuição e a quarta por demonstração e correspondem a relações de idéias que encontramos nos raciocínios da matemática, considerados por Hume estritamente a priori. Vale acrescentar, que no Tratado Hume não considera a geometria inteiramente a priori, não exibindo aquela “precisão e certeza peculiares à aritmética e à álgebra” (T., I, III, 1: 100, 6), embora supere “os juízos imperfeitos de nossos sentidos e imaginação” (Ibid). Na primeira Investigação, entretanto, ele passa a tratar a geometria em pé de igualdade com a álgebra e a aritmética (E., IV, I: 53), mas uma pesquisa sobre as explicações para esta mudança, estaria fora do escopo deste escrito. Ver Sales Lima, 2003, p. 205, nota 4.

62 Façamos uma comparação oportuna que terá o seu esclarecimento no decorrer da segunda e terceira partes: as

proposições que Hume chama de “relações de idéias” são, no entender de Kant, proposições analíticas; às proposições que representam “questões de fato” Kant vai chamar de proposições sintéticas. A existência de proposições sintéticas a priori, que são os argumentos [ou proposições] transcendentais de Kant, são aquelas [proposições ou argumentos] que representam concomitantemente questões de fato e são absolutamente a priori. Obviamente, elas não são objeto de tematização na doutrina cético-naturalista de Hume, o que nos levaria a acrescentar que os seus conhecidos argumentos [transcendentais do tipo] cético-naturalistas não assumiriam uma condição de fundamentação, ou não seriam a priori, o que foi visto na Introdução.

convicção sobre a existência ou ação de um objeto (...) seguido ou precedido por outra existência ou ação” (T., I, III, 2: 102, 2). Isto significa que todo raciocínio sobre questões de fato envolve uma inferência causal, a quem compete um papel preponderante na investigação dos limites do entendimento humano e que, portanto, jamais pode ser resumido a um mero procedimento de avaliação lógica de argumentos63.

Hume prossegue suas considerações introduzindo o termo “raciocínio”, como uma comparação, “uma descoberta de relações (...) entre dois ou mais objetos” (T., I, III, 2: 101, 2). O raciocínio, ou a inferência [imediata] causal64, atua somente no caso da relação de causa e efeito e as “outras duas relações só podem ser empregadas no raciocínio enquanto afetam ou são afetadas por ela” (T., I, III, 2: 102, 2), visto que identidade e situações no tempo e no espaço, isoladas ou conjuntamente, são insuficientes para que dois eventos sejam ditos em relações causais. Quando objetos estão presentes imediatamente aos sentidos “chamamos a isso antes de percepção que de raciocínio” (T., I, III, 2: 101, 2), pois temos impressão passiva de ambos, de forma que nessa operação nossa mente não se utiliza do recurso à inferência:

De acordo com esse modo de pensar, não deveríamos considerar como raciocínio nenhuma das observações que se podem fazer a respeito da

identidade e das relações de tempo e espaço. Em nenhuma delas, a mente é

capaz de ir além daquilo que está imediatamente presente aos sentidos, para descobrir seja a existência real, seja as relações dos objetos (T., I, III, 2: 102, 2).

A conclusão da passagem supra confirma que o raciocínio ou o processo de inferência só faz sentido quando se trata de relações de causa e efeito65 ou, dito de outro modo, todo

63 Assim como nosso conhecimento de relações de idéias é conhecimento intuitivo, pois seus princípios são

intuitivamente aprendidos em inferências demonstrativas ou dedutivas, nosso conhecimento de questões de fato é derivado de fatos imediatamente apresentados por meio dos sentidos e de memória ou fundados na relação de causa e efeito. Hume argumenta aqui o seu apreço pelo empirismo ao compreender que a base de sua doutrina propõe a noção de prioridade epistêmica ou naturalização de juízos causais, como veremos em 1.10. Esta noção enfatiza que caso nossas justificativas não chegassem a um termo, geraríamos uma regressão infinita carente de fundamentação e que, portanto, são os juízos perceptuais e da memória aqueles que constituem base suficiente para a investigação das questões de fato. Assim, ao afastar a necessidade matemática e o conhecimento demonstrativo do domínio da experiência, Hume recusa qualquer possibilidade de deduzir a ciência (ou efeitos de causas e causas de efeitos). Traduzindo: uma ciência necessária e universal composta de conexões necessárias ligando dois ou mais objetos torna-se difícil de defender, de modo que a ciência da natureza humana deve ter início na observação dos eventos se quiser se pronunciar consistentemente sobre fatos da vida comum.

64 O raciocínio é um processo de inferência. Fazer inferências significa pensar e raciocinar. Do ponto de vista da

lógica, ao pensar fazemos inferências; de ponto de vista psicológico, raciocinamos. É importante reter que Kant em C.R.P., B360, p.301 [ ,“quanto a mim, preferiria denominá-la inferência do entendimento”], bem como na

Lógica [Jäsche], se refere a esse tipo de inferência [de Hume] como inferência imediata. Essa questão terá

importantes desdobramentos quando tratarmos das inferências mediatas [ou da razão] em Kant, nas segunda e terceira partes. Podemos antecipar algo dizendo que: se Hume considerava insolúveis as questões teleológicas (ou relativas ao “fim último”), deve-se presumir que para ele as inferências da razão não tinham grande importância face às inferências do entendimento ou, no seu caso, da imaginação.

65 Uma boa maneira de resumir essa constatação de Hume seria dizer que, enquanto que identidade e situações

raciocínio em questões de fato envolve uma inferência causal e Hume começa o exame da relação causal perguntando de que impressão ou impressões deriva a idéia de causa, de modo que para “começar de maneira ordenada, devemos considerar a idéia de causação e examinar qual sua origem” (T., I, III, 2: 103, 4). Em primeiro lugar, a causação não poderia ser uma qualidade dos objetos, visto que qualidades são atributos de objetos, a eles inerentes e, portanto, nada indica que elas configurem uma relação entre eles, pois “não existe nada, interno ou externo, que não deva ser considerado uma causa ou um efeito” (T., I, III, 2: 103 5), e isto nem sempre acontece com qualidades. Nesse desiderato, se causa e efeito não dependem da qualidade de objetos, ela só pode ser uma relação entre objetos e a “idéia de causação, portanto, deve ser derivada de alguma relação entre os objetos...” (T., I, III, 2: 103, 6). Corroborando o que vimos em 1.4, tanto podemos pensar numa relação ou inferência lógica [hipotética] do princípio com sua conseqüência, quanto numa relação ou raciocínio psicológico da causa com seu efeito66. Neste caso, as relações de semelhança e contigüidade no tempo e no espaço, através de um processo de entrincheiramento que preside certos fenômenos da natureza, vão paulatinamente cedendo lugar à de causalidade, motivo pelo qual é nela que Hume vai concentrar sua temática, procedimento teórico que há pouco denominamos de redução psicológica onde importa considerar que as relações espontâneas que tem origem na imaginação adquirem vulto em face daquelas arbitrárias ou intencionais provenientes da faculdade da razão67.

principal fonte de persuasão factual. A impressão ou idéia de um objeto permite suscitar a idéia de uma que se assemelha a ela ou apareça em contigüidade a ela, ou mesmo contigüidade a um objeto similar, mas o processo não vai além disso e não nos conduz a acreditar em nada que exceda os limites de nossos sentidos e da memória. Tomadas singularmente, ou unidas, as relações de identidade e contigüidade, não nos persuadem da existência de realidades particulares que certamente ainda não passaram por nossa experiência, sendo apenas uma questão de possibilidades. Hume vai tematizar esta questão em T. Sinopse: 686-687, 8, quando trata com exclusividade das relações de causa e efeito.

66 A relação causal [entre objetos ou eventos] não é atemporal como a relação lógica do princípio para sua