2.2 Classificação das decisões interlocutórias segundo Rafael Vinheiro Monteiro
2.2.1 Decisões sobre a constituição e desenvolvimento regular do
Cabe, precipuamente, ao juiz, zelar e impulsionar o procedimento (art. 2º do CPC/2015) – apesar do CPC/2015 dar bastante ênfase à cooperação entre os atores processuais (art. 6º do CPC/2015).86 Significa dizer que todos aqueles que de alguma forma participam do processo precisam empregar esforços para que o mérito da causa seja analisado. O princípio da cooperação não prevê, necessariamente, que as partes concordem entre si acerca do bem da vida em disputa, mas que não oponham obstáculos processuais ou protelatórios à resolução meritória da lide.
84 ALVES DIAS DE SOUZA, Marcelo. Dos pronunciamentos do juiz. In: ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa... [et al.] (coord.). Breves comentários ao novo código de processo civil. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 691-700, 2016. p. 699.
85 BARBOSA, Rafael Vinheiro Monteiro. Os regimes de recorribilidade das decisões interlocutórias proferidas
no primeiro grau de jurisdição. Tese (Doutorado em Direito). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
São Paulo, 2016.
86 “Art. 2º O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei [...] Art. 6º Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva” (BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em dezembro de 2019).
Conhecido por princípio da primazia da decisão de mérito, espraia seu significado por todo sistema processual, em especial pelo plano recursal.87
Segundo Pedro Miranda de Oliveira, o sistema adotado pelo CPC/2015 é diametralmente oposto ao que estava em vigor antes do seu advento. O espírito é outro, na medida em que o foco do magistrado deve ser o mérito do recurso, não a forma, o que demonstra uma mudança significativa na postura que os tribunais deverão tomar no novo modelo. O princípio da primazia do mérito é uma decorrência particular do princípio da instrumentalidade das formas. A prevalência do mérito em detrimento da forma reflete, na opinião do autor, a vitória do direito material sobre o direito processual. No âmbito do sistema recursal o princípio em comento tem aplicação ainda mais contundente.88
Tomando por base tal princípio, é lícito concluir que todo e qualquer vício (sanável ou insanável) que por ventura esteja obstando o julgador de adentrar no mérito da contenta merece ser afastado. Essa análise, regra geral, acontece através de decisões interlocutórias. Se se tratar de vício sanável e a parte intimada para saná-lo assim o fizer, o processo retoma seu devido andamento. Se, no mesmo caso, a parte não o sanar, a solução será a extinção do processo sem resolução de mérito. Igualmente, se versar o vício sobre falha insanável, há de se ter neste caso a extinção parcial do feito, com a repulsa, sem ingresso na temática do mérito, apenas da parcela da pretensão deduzida em juízo.
Dentro do grupo temático das decisões interlocutórias que versam sobre a constituição e o desenvolvimento regular do processo, Rafael Vinheiro Monteiro Barbosa cita os seguintes exemplos: (i) interesse de agir; (ii) legitimidade ad causam; (iii) regularidade da petição inicial; (iv) autorização do cônjuge (nas hipóteses exigidas pelo CPC/2015); (v) capacidade das partes; (vi) designação de curador especial; (vii) regularidade da representação das pessoas jurídicas; (viii) representatividade do profissional da advocacia, da Defensoria
87 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Novíssimo sistema recursal conforme o CPC/2015. 3. ed. Florianópolis: Empório do Direito, 2017. p. 77-97.
88 O autor sustenta que o princípio da primazia do julgamento de mérito está arraigado no espírito do CPC/2015 e tem como fundamento teórico o tripé formado pelos seguintes dispositivos legais: (i) art. 4º, que positivou expressamente tal princípio; (ii) art. 932, parágrafo único, que obriga o relator a intimar o recorrente para sanar eventual vício antes de o recurso ser inadmitido e (iii) art. 1.029, § 3º, que permite aos tribunais superiores desconsiderar vício formal não grave de recurso tempestivo ou determinar sua correção. Nessa perspectiva, o atual Código flexibiliza os requisitos de admissibilidade, havendo 23 dispositivos com esse objetivo ao longo da lei. O princípio da primazia do julgamento do mérito recursal, portanto, parece seguir a tendência de não-estrita subjetivação ou de maior objetivação do julgamento dos recursos, que deixa de ter caráter marcadamente subjetivo ou de defesa de interesse das partes, para assumir, de forma decisiva, a função de uniformização da jurisprudência relativa ao direito substancial (MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Novíssimo sistema recursal
conforme o CPC/2015. 3. ed. Florianópolis: Empório do Direito, 2017. p. 79-80). Sobre a objetivação dos
recursos, ver obra do mesmo autor: MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Recurso extraordinário e o requisito da
Pública e do Ministério Público; (ix) nulidades; (x) emenda à inicial; (xi) suspensão do processo; (xii) acolhimento da alegação de litispendência ou coisa julgada relativa à parte do litígio; (xiii) confusão patrimonial parcial entre autor e réu.89
A decisão do magistrado a respeito de tais matérias, no sentido de que os defeitos deverão ser corrigidos para que o feito possa prosseguir, assumirá, no comum dos casos, a feição da decisão interlocutória, já que não terá o condão de extinguir o processo, mas oportunizar a sua emenda. À vista disso, considera-se tanto a existência de decisões interlocutórias que afirmam a presença das condições necessárias para evolução do procedimento e, consequentemente, para o julgamento do mérito, quanto as que indicam os defeitos, relacionados a estes específicos assuntos, que carecem de serem corrigidos, sob pena de extinção prematura. Outrossim, acerca das interlocutórias que abordam qualquer dos conteúdos previstos nos art. 485 e 487 do CPC/2015 (conforme o permissivo legal do parágrafo único do art. 354),90 a conclusão a que se chega é a de que o novo regramento processual admite o julgamento conforme o estado do processo de modo parcial. Por fim, não sendo o caso de o juiz proceder ao julgamento conforme o estado do processo, total ou parcial, deverá, na fase saneadora, resolver as questões processuais pendentes para que o procedimento avance às próximas etapas.91