2.4 Escorço histórico do recurso de agravo de instrumento
2.4.7 Leis modificadoras do Código de Processo Civil de 1973 em
Com o escopo de conferir maior agilidade ao agravo de instrumento, a Lei n. 9.139/1995 promulgou nova disciplina ao recurso em questão, incumbindo o agravante da formação do instrumento e determinando que o agravo fosse interposto diretamente no tribunal ad quem.268
Essa reforma legislativa ainda trouxe modificações para o agravo retido. Primeiramente, tornou-se possível, embora não obrigatório, que sua interposição fosse feita oralmente contra as decisões proferidas em audiência (art. 523, § 3º, CPC/1973). A forma retida se mostrou obrigatória contra decisões tomadas depois da sentença (art. 523, § 4º, CPC/1973). Foi a primeira vez, desde 1973, que o sistema readmitiu regra excepcionando o regime da ampla recorribilidade em separado das interlocutórias, apesar de bastante pontual.269
Na opinião de Cândido Rangel Dinamarco, a Lei n. 9.139/1995, portadora de profundas inovações na disciplina do recurso de agravo como um todo, foi a mais polêmica entre todas as que se inseriram na dinâmica da reforma do CPC/1973 até aquele momento. Não foi por outro motivo que tardou tanto a ser aprovado o projeto que nela se converteu, embora levado à Câmara dos Deputados bem antes de outros. O germe das perplexidades foi representado pela ruptura no tradicional sistema brasileiro de propositura de recursos perante
268 BRASIL. Lei n. 9.139, de 30 de novembro de 1995. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9139.htm>. Acesso em dezembro de 2019. Na opinião de Rogério Luiz dos Santos Terra: “Tal disciplina legislativa, na medida em que abreviou sobremaneira o hiato entre a interposição do recurso e o exame pelo Tribunal (o que se acentuou pela possibilidade de decisão monocrática do relator em termos de obtenção de imediato efeito suspensivo ao recurso) terminou por congestionar os tribunais de segundo grau com um manancial de agravos que passaram a tomar as pautas de julgamento em detrimento das apelações, em evidente paradoxo consubstanciado no fato de que se perdia mais tempo com o exame de questões interlocutórias – atividade jurisdicional de meio –, do que com a análise das apelações, cujo objeto era a sentença – atividade-fim do Poder Judiciário. A partir de então a tendência observada pelo legislador foi inversa: reduzir, paulatina e constantemente, a possibilidade de interposição de agravos de instrumento, em termos de uma prestação jurisdicional final que se deseja célere e efetiva” (SANTOS TERRA, Rogério Luiz dos. Panorama da recorribilidade interlocutória – aspectos da transição do CPC/1973 para o Novo CPC relativamente ao agravo de instrumento. Revista Forense. Rio de Janeiro, v. 426, p. 239-253, jul./dez. 2017. p. 242-243).
269 SICA, Heitor Vitor Mendonça. Recorribilidade das interlocutórias e sistema de preclusões no novo CPC – primeiras impressões. Revista Magister de Direito Civil e Processual Civil. Porto Alegre, v. 65, p. 22-66, mar./abr. 2015. p. 27-28.
o juízo a quo. Em suas palavras: “O tempo dirá a última palavra sobre as excelências ou mazelas da inovação, mas, de minha parte, vejo com bastante otimismo o novo sistema, porque como estava não poderia continuar e quem não ousa inovar não se aperfeiçoa. Como está dito na justificativa do projeto, e aliás é notório, mesmo sem ter efeito suspensivo a interposição de agravos e mais agravos perante o juízo a quo sempre foi fator de retardamento dos processos. Além disso, a nova lei não traz somente essa inovação e o saldo de todas as disposições nela contidas é significativamente positivo – inclusive pela possibilidade de o próprio agravo ter seu seguimento denegado pelo relator (arts. 527 e 557, red. lei n. 9.139, de 20.11.95) e pelo alargamento das possibilidades de outorga de efeito suspensivo pelo relator, por ato deste, o que restringirá a frequência com que vem sendo impetrado mandado de segurança para tal fim (art. 558)”.270
A simplificação do procedimento do agravo de instrumento e o incremento de sua eficácia, somados à generalização das tutelas de urgência (notadamente mercê do novo art. 273 do CPC/1973), contribuíram para uma notável proliferação dessa modalidade de recurso nos tribunais a partir de 1995.271
O congestionamento dos tribunais tornava-se ainda mais severo pelo fato de que essa mesma reforma lhes atribuiu carga extra de trabalho, ao lhes transferir providências antes executadas em primeiro grau (como a realização de exame de admissibilidade dos agravos de instrumento e colheita de contrarrazões).272
Ademais, se por um lado perderam espaço os mandados de segurança destinados a atribuir efeito suspensivo aos agravos de instrumento, por outro o sistema passou a contar com uma série de “agravos internos”.273
Com efeito, observa Luiz Sérgio de Souza Rizzi que “os agravos são interpostos em maior número contra as decisões proferidas no primeiro grau, o que sugere, em muitos questionamentos, que o causador da morosidade do processo é [o] recurso de agravo, fato que justifica sucessivas reformas desses recursos. [...] Mas, embora, todos estejam convencidos de
270 DINAMARCO, Cândido Rangel. A reforma do código de processo civil. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 1996. p. 179-180.
271 Nesta linha: CARMONA, Carlos Alberto. O sistema recursal brasileiro: breve análise crítica In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa; ALVIM, Eduardo Pellegrini de Arruda (coord.).
Aspectos polêmicos e atuais dos recursos. v. 3. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 34-51, 2000. p. 41;
TEIXEIRA, Sálvio de Figueiredo. O prosseguimento da reforma processual. Revista de Processo. São Paulo, v. 95, p. 9-12, jul./set. 1999. p. 10.
272 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Reformas do CPC em matéria de recursos. Revista Forense. Rio de Janeiro, v. 354, p. 177-186, mar./abr. 2001, p. 178.
273 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Reformas do CPC em matéria de recursos. Revista Forense. Rio de Janeiro, v. 354, p. 177-186, mar./abr. 2001, p. 177.
que não é possível suprimir os agravos no primeiro grau de jurisdição, como fez o Rei Afonso IV, vez ou outra há tentativas de reduzir a aplicação dos agravos”.274
Presente tal quadro, e dado o grau de congestionamento dos tribunais, uma onda de leis reformadoras passaram a atacar a sistemática de processamento do agravo de instrumento dentro do CPC/1973.
Essas razões levaram o legislador a mais uma vez reformar o regime do agravo, por meio da Lei n. 10.352/2001, que tornou obrigatório o agravo retido relativamente às decisões proferidas em audiência de instrução, independentemente do procedimento (art. 523, § 4º, CPC/1973) e, de modo bastante inovador, atribuiu ao relator o poder de converter o agravo de instrumento em retido (art. 527, II, CPC/1973) sempre que a decisão recorrida não tratasse de “provisão jurisdicional de urgência” e não houvesse “perigo de lesão grave ou de difícil ou incerta reparação”. A conversão era passível de ataque pelo agravo interno.275
Embora de forma tímida, o diploma aprofundou a tendência já antes verificada de ampliar os casos de agravo retido.276
Na opinião de Heitor Vitor Mendonça Sica, o resultado da Lei n. 10.352/2001 foi considerado decepcionante. “Mesmo à míngua de estatísticas, era possível afirmar que a exigência da forma oral para o agravo retido contra decisões proferidas em audiência de instrução teve impacto mínimo. Já a conversão do agravo de instrumento em retido mostrava- se pouco interessante, pois era mais simples para o relator processar o agravo de instrumento de uma vez do que se sujeitar ao agravo interno contra a sua conversão em retido”.277
Menos de quatro anos depois, a Lei n. 11.187/2005 tornou o agravo retido a regra do sistema, e o agravo de instrumento a exceção, uma vez que estatuído que “[d]as decisões interlocutórias caberá agravo, no prazo de 10 (dez) dias, na forma retida, salvo quando se
274 RIZZI, Luiz Sérgio de Souza. O novo regime do agravo. In: ALVIM, José Manoel de Arruda; ARRUDA ALVIM, Eduardo (coord.). Atualidades do processo civil. Curitiba: Juruá, 2007, p. 23.
275 SICA, Heitor Vitor Mendonça. Recorribilidade das interlocutórias e sistema de preclusões no novo CPC – primeiras impressões. Revista Magister de Direito Civil e Processual Civil. Porto Alegre, v. 65, p. 22-66, mar./abr. 2015. p. 28.
276 Neste sentido: TEIXEIRA, Sálvio de Figueiredo. O prosseguimento da reforma processual. Revista de
Processo. São Paulo, v. 95, p. 9-12, jul./set. 1999. p. 10; GARCIA MEDINA, José Miguel. A recentíssima
reforma do sistema recursal brasileiro – análise das principais modificações introduzidas pela lei 10352/2001 e outras questões. In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa (coord.). Aspectos
polêmicos e atuais dos recursos e outras formas de impugnação às decisões judicias. v. 6. São Paulo: Revista
dos Tribunais, p. 333-384, 2002. p. 353-354; CARVALHO, Fabiano. Os agravos e a reforma do código de processo civil. In: COSTA, Hélio Rubens Batista Ribeiro; RIBEIRO, José Horácio Halfeld Rezende; DINAMARCO, Pedro da Silva (coord.). A nova etapa da reforma do código de processo civil. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 288-289.
277 SICA, Heitor Vitor Mendonça. Recorribilidade das interlocutórias e sistema de preclusões no novo CPC – primeiras impressões. Revista Magister de Direito Civil e Processual Civil. Porto Alegre, v. 65, p. 22-66, mar./abr. 2015. p. 29.
tratar de decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação, bem como nos casos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida, quando será admitida a sua interposição por instrumento” (art. 522 do CPC/1973).278
A Lei n. 11.187/2005 representou nova tentativa de limitar o uso do agravo de instrumento. Em vez de dispor que o relator “poderá converter” o agravo de instrumento em retido (como resultava da reforma de 2001), o art. 527, II, do CPC/1973 passou a dispor que o relator “converterá” o recurso em retido, salvo as hipóteses do caput do art. 522 do CPC/1973. Tratava-se, agora, de um comando imperativo, que restava reforçado pela eliminação do “agravo interno” contra a decisão que decretava a conversão do agravo de instrumento em retido.
A Lei n. 11.187/2005 eliminou o recurso cabível contra a decisão que determinava a conversão de agravo de instrumento em agravo retido, ao inserir, no art. 527, parágrafo único com a seguinte redação: “A decisão liminar, proferida nos casos dos incisos II e III do caput deste artigo, somente é passível de reforma no momento do julgamento do agravo, salvo se o próprio relator a reconsiderar”.279
Depreendia-se do art. 522 do CPC/1973 reformado: “Das decisões interlocutórias caberá agravo, no prazo de 10 (dez) dias, na forma retida, salvo quando se tratar de decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação, bem como nos casos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida, quando será admitida a sua interposição por instrumento” (redação dada pela Lei 11.187/2005).
Da leitura do dispositivo fica claro que a intenção do legislador foi a de que as partes não se utilizassem do agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias de forma indiscriminada. Daí o agravo retido ter passado a ser a regra a partir de então.
A lei, de forma expressa, reservou o agravo de instrumento para impugnar apenas três hipóteses de decisões interlocutórias: (i) a que tem de urgência na reapreciação, ou seja, aquela suscetível de “causar à parte lesão grave e de difícil reparação”; (ii) a que inadmite apelação; (iii) a que declara os efeitos da apelação.280
278 BRASIL. Lei n. 11.187, de 19 de outubro de 2005. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11187.htm>. Acesso em dezembro de 2019. 279 ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa. Os agravos no CPC brasileiro. 4. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2006. p. 86.
280Essa era a interpretação conferida pela doutrina mais autorizada, ao discorrer sobre a Lei 11.187/2005, que deu novos contornos à recorribilidade das interlocutórias durante a vigência do CPC/1973: “Em certos casos, o recurso cabível é o agravo de instrumento: caso a parte esteja correndo o risco de sofrer lesão grave e de difícil reparação, caso se trate de decisão que indefere a apelação ou declare em que efeitos está sendo recebida. Nos
De fato, havia uma hipótese de caráter genérico e outras duas específicas. Mas eram apenas três, três hipóteses de cabimento de agravo de instrumento. Dessa forma, como medidas de exceção, as hipóteses deveriam ser interpretadas restritivamente, o que significa que não admitiam interpretação extensiva.281
Aparentemente, essas soluções engendradas ao longo de uma década de reformas processuais não se mostraram satisfatórias em termos de redução do congestionamento dos tribunais por agravos de instrumento, mas indicavam clara tendência à restrição máxima do cabimento de tal recurso.282
2.4.8 Código de Processo Civil de 2015: apelação como regra de recorribilidade das