O agravo de instrumento contra decisões que deferem, indeferem ou postergam prejudicialmente o pleito acerca tutelas provisórias foi mantido pelo CPC/2015.
Sobre a tutela provisória, vale assentar que o CPC/2015 a adota como gênero no qual se inserem duas espécies: urgência e evidência. Para fins do inciso I do art. 1.015 do CPC/2015 pode-se entender como tutela provisória tanto a tutela de urgência quanto a tutela de evidência. A hipótese de cabimento fala de forma abrangente, o que sugere que todas as espécies contidas no gênero estão balizadas pelo conceito.
O CPC/2015 possui como um de seus alicerces o estímulo à efetividade do processo em tempo razoável, o que possibilita a adoção de medidas jurisdicionais de cognição sumária ou exauriente, assecuratórias, satisfativas e de execução em um processo sincrético. Tudo dentro da mesma relação processual, com o principal objetivo de assegurar ao jurisdicionado o fim útil do processo, inclusive antes do provimento jurisdicional final.442
Um detalhe interpretativo que sugere leitura ampla do inciso I do art. 1.015 do CPC/2015 reside no fato dele não trazer verbetes como “deferir” ou “indeferir” antes do conceito “tutelas provisórias”. Como a lei não sinalizou o cabimento do recurso apenas contra certo tipo de decisão com pano de fundo na tutela provisória, interpreta-se que toda e qualquer decisão que mergulhe no assunto – seja para conceder, afastar ou protelar – merece ser atacada via agravo de instrumento.443
442 DAL MONTE, Douglas Anderson. Tutela provisória no CPC/2015. In: LUCON, Paulo Henrique dos Santos; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Panorama atual do novo CPC 2. Florianópolis: Empório do Direito, p. 147-162, 2017. p. 148.
443 Segundo William Santos Ferreira: “Não importa se se está tratando de tutelas de urgência ou de evidência, cautelares ou antecipadas, deferidas incidentalmente ou em caráter antecedente, em todas as hipóteses, sendo ‘decisão interlocutória’ que verse sobre tutelas provisórias, seja o pronunciamento judicial positivo ou negativo (concessão ou denegação), caberá agravo de instrumento. Somente não caberá agravo de instrumento se a tutela provisória for deferida em sentença, hipótese em que caberá apelação sem efeito suspensivo (art. 1.012, § 1º, V),
A tutela provisória poderá ser concedida em qualquer momento processual, inclusive depois da sentença, bastando, para tanto, que a parte tenha feito o requerimento e que tenham sido preenchidos os seus pressupostos. Desde que o processo não tenha acabado, poderá ser concedida a tutela provisória. Quanto à revogação ou modificação, estas deverão ser analisadas antes da prolação da decisão final, desde que sobrevenha mudança nos elementos do processo que justificaram a concessão inicial.444
Com efeito, a tutela provisória pode ser concedida liminarmente, ou seja, in limine, no primeiro provimento judicial prolatado nos autos do processo, sem que a parte contrária tenha sido citada. Também pode ser concedida durante ou depois da instrução processual, até porque existe a possibilidade de os requisitos necessários ao deferimento da tutela provisória somente se tornarem presentes durante ou depois da instrução do processo. Pode ser concedida, ainda, na própria sentença, com o objetivo de conferir eficácia imediata da decisão, já que o CPC/2015 manteve a regra do efeito suspensivo automático à apelação, na mesma linha do Código anterior.445
embora possa ser requerida a concessão de efeito suspensivo ou antecipação da tutela recursal (v. comentários do
art. 1.012), cabendo na sessão de julgamento sustentação oral. As tutelas provisórias, mesmo na tutela de evidência, sempre provocam um impacto imediato e normalmente relevante na esfera jurídica das partes, seja um pronunciamento concessivo ou denegatório, o que aclara que essa escolha da ‘agravabilidade’ decorre de uma identificação de que situação de tamanho impacto não teria nenhum, ou praticamente nenhum, efeito prático, se julgada em sede de recurso de apelação” (FERREIRA, William Santos. Do agravo de instrumento. In: BUENO, Cassio Scarpinella (coord.). Comentários ao código de processo civil. v. 4. São Paulo: Saraiva, p. 447-468, 2017. p. 448).
444 Segundo Douglas Anderson Dal Monte: “Tendo como base os valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição Federal, o CPC/2015 disponibilizou ao jurisdicionado meios de assegurar a efetividade da prestação jurisdicional em prazo razoável, por decisão justa e efetiva, incluindo a atividade satisfativa, em especial em situações em que o pronunciamento final não pode ou não precisa ser aguardado pelo autor que tem razão aparente ou evidente. Nesse contexto, os julgadores possuem não apenas a faculdade, mas a obrigação de velar pela efetividade do processo e de determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub- rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial (art. 139, CPC/2015), sendo certo que o juiz poderá determinar as medidas que considerar adequadas para efetivação da tutela provisória (art. 297, caput, CPC), devendo observar as normas referentes ao cumprimento provisório da sentença, no que couber (art. 297, parágrafo único, CPC/2015). Ademais, a tutela de urgência de natureza cautelar pode ser efetivada por qualquer medida idônea para asseguração do direito (art. 301, CPC/2015). Com fundamento na interpretação dos arts. 297 e 301, do CPC/2015, conclui-se que o legislador concedeu ao julgador um poder geral de cautela e de antecipação ou efetivação, por meio do qual fica assegurada ao juiz a adoção de medidas idôneas para asseguração ou efetivação do direito deferido à parte em caráter provisório e definitivo” (DAL MONTE, Douglas Anderson. Tutela provisória no CPC/2015. In: LUCON, Paulo Henrique dos Santos; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Panorama atual do novo CPC 2. Florianópolis: Empório do Direito, p. 147-162, 2017. p. 149-154).
445 “Art. 1.012. A apelação terá efeito suspensivo” (BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em fevereiro de 2020).
O inciso V do § 1º do art. 1.012 do CPC/2015 reveste-se de exceção à regra do caput, permitindo que a sentença que confirma, concede ou revoga tutela provisória passe a produzir efeitos desde já.446
Ulteriormente, a tutela provisória pode ser concedida depois da prolação da sentença, inclusive em sede recursal.447 Cabe, mais uma vez, ressalva quanto à previsão do art. 1.013, § 5º, CPC/2015. Caso a decisão em questão seja a sentença cujo um dos capítulos tenha se dedicado a analisar pedido de tutela provisória, tal capítulo é impugnável por apelação – não por agravo de instrumento.448
Especificamente sobre a interpretação do inciso I do art. 1.015 do CPC/2015, o STJ já se pronunciou em pelo menos três oportunidades.
No REsp 1.745.358/SP, a Terceira Turma do STJ, por unanimidade, conheceu em parte do recurso especial e, nesta parte, deu-lhe provimento, nos termos do voto da ministra relatora Nancy Andrighi. O propósito do recurso especial consistia em definir, para além da negativa de prestação jurisdicional: (i) se seria recorrível, de imediato e por meio de agravo de instrumento, a decisão interlocutória que indefere a concessão de efeito suspensivo aos embargos à execução de título extrajudicial; (ii) se, na hipótese, estavam presentes os pressupostos para a concessão do efeito suspensivo.449
Em síntese, a tese recursal era no sentido de que a decisão interlocutória que indeferiu a concessão de efeito suspensivo aos embargos à execução de título judicial seria recorrível de imediato, fosse pela interpretação extensiva ao art. 1.015, X, CPC/2015 (que trata somente das hipóteses de concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução), fosse porque a referida decisão corresponderia à negativa de tutela provisória, de modo que se amoldaria à hipótese do art. 1.015, I, CPC/2015.
Na visão da ministra relatora, a decisão que versa sobre efeito suspensivo aos embargos à execução de título extrajudicial é, indiscutivelmente, uma decisão interlocutória
446 “Art. 1.012. A apelação terá efeito suspensivo. § 1º Além de outras hipóteses previstas em lei, começa a produzir efeitos imediatamente após a sua publicação a sentença que: [...] V - confirma, concede ou revoga tutela provisória” (BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em fevereiro de 2020). 447 “Art. 1.019. Recebido o agravo de instrumento no tribunal e distribuído imediatamente, se não for o caso de
aplicação do art. 932, incisos III e IV, o relator, no prazo de 5 (cinco) dias: I - poderá atribuir efeito suspensivo ao recurso ou deferir, em antecipação de tutela, total ou parcialmente, a pretensão recursal, comunicando ao juiz sua decisão” (BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em fevereiro de 2020). 448 “Art. 1.013. A apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada. [...] § 5º O capítulo da
sentença que confirma, concede ou revoga a tutela provisória é impugnável na apelação” (BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em fevereiro de 2020).
que versa sobre tutela provisória, como, aliás, reconhece de forma expressa o art. 919, § 1º, do CPC/2015, que inclusive determina a observância dos requisitos processuais próprios da tutela provisória.450
Ao seu turno, o REsp 1.827.553/RJ, novamente por unanimidade da Terceira Turma, conheceu e deu provimento ao especial interposto para acolher a tese de leitura de amplo espectro do art. 1.015, I, CPC/2015.451
Em breve resumo do caso: na origem, o magistrado de primeiro grau acolheu o pedido de concessão de tutela de urgência formulado por uma das partes com o escopo de suspender os descontos em folha que vinha sofrendo a pedido do adverso. Com o descumprimento da decisão, o juízo majorou a multa diária e a restituição dos valores indevidamente descontados (do dobro para o triplo). Contra esta última decisão foi interposto agravo de instrumento, não conhecido pelo tribunal local.
Segundo se depreende da fundamentação empregada no voto relator do REsp 1.827.553/RJ, o conceito de “decisão interlocutória que versa sobre tutela provisória” abrange as decisões que examinam a presença ou não dos pressupostos que justificam o deferimento, indeferimento, revogação ou alteração da tutela provisória e, também, as decisões que dizem respeito ao prazo e ao modo de cumprimento da tutela, a adequação, suficiência, proporcionalidade ou razoabilidade da técnica de efetivação da tutela provisória e, ainda, a necessidade ou dispensa de garantias para a concessão, revogação ou alteração da tutela provisória, motivo pelo qual o art. 1.015, I, do CPC/2015, deve ser lido e interpretado como uma cláusula de cabimento de amplo espectro, de modo a permitir a recorribilidade imediata das decisões interlocutórias que digam respeito não apenas ao núcleo essencial da tutela provisória, mas também que se refiram aos aspectos acessórios que estão umbilicalmente vinculados a ela.452
Nas palavras da relatora: “Na hipótese em exame, não há dúvida de que o conteúdo da primeira decisão interlocutória proferida no processo – deferindo a tutela de urgência satisfativa para sustar os descontos do empréstimo na folha de pagamento do recorrido sob pena de multa – amolda-se integralmente à hipótese de cabimento do art. 1.015, I, do CPC/15.
450 “Art. 919. Os embargos à execução não terão efeito suspensivo. § 1º O juiz poderá, a requerimento do embargante, atribuir efeito suspensivo aos embargos quando verificados os requisitos para a concessão da tutela provisória e desde que a execução já esteja garantida por penhora, depósito ou caução suficientes” (BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em fevereiro de 2020).
451 STJ. REsp 1.827.553/RJ, rela. Mina Fátima Nancy Andrighi, j. 27/08/2019, DJe 29/08/2019.
452 Em decisão diversa, mas com o mesmo pano de fundo jurídico: STJ. REsp 1.752.049/PR, rela. Mina. Fátima Nancy Andrighi, j. 12/03/2019, DJe 15/03/2019.
Ocorre que as subsequentes decisões interlocutórias cujos conteúdos se relacionem diretamente com àquele primeiro pronunciamento jurisdicional versarão, de igual modo, sobre a tutela provisória, especialmente quando a decisão posterior alterar a decisão anterior – na hipótese, houve a majoração da multa anteriormente fixada em razão da renitência da recorrente – e, inclusive, porque a alegação da recorrente é justamente de que houve o cumprimento tempestivo da tutela provisória e, consequentemente, não apenas inexistiriam fundamentos para a incidência da multa, como também não existiriam razões para majorá-la. Dessa forma, o agravo de instrumento interposto pela recorrente era indiscutivelmente cabível e, assim, a conclusão é de que o acórdão recorrido violou o art. 1.015, I, do CPC/15”.453
Derradeiramente, o STJ entendeu cabível agravo de instrumento contra decisão que determina busca e apreensão de menor, uma vez que tal pronunciamento judicial versa sobre tutela provisória, como se depreende do REsp 1.744.011/RS.454