2.2 Classificação das decisões interlocutórias segundo Rafael Vinheiro Monteiro
2.2.4 Decisões sobre o comportamento das partes, dos patronos e de
As partes, os advogados, o juiz, os serventuários, os representantes do Ministério Público e da Defensoria e todos os demais sujeitos que por ventura adentrem ao processo devem se submeter às diretrizes morais e éticas do princípio da boa-fé objetiva.102 O descumprimento desse preceito pode constituir (i) ato atentatório à dignidade da justiça ou caracterizar (ii) litigância de má-fé.103
Na lição de Ronaldo Cramer, boa-fé objetiva e boa-fé subjetiva distinguem-se. Pode- se dizer que para a boa-fé subjetiva um ato pode ser considerado desonesto, mas se o
100 PEGORARO JUNIOR, Paulo Roberto. Imparcialidade como direito processual fundamental: impedimento e suspeição no novo código de processo civil. In: NERY JUNIOR, Nelson... [et al.] (coord.). Crise dos poderes da
república: judiciário, legislativo e executivo. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 397-412, 2017. p. 411.
101 BARBOSA, Rafael Vinheiro Monteiro. Os regimes de recorribilidade das decisões interlocutórias proferidas
no primeiro grau de jurisdição. Tese (Doutorado em Direito). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
São Paulo, 2016. p. 134.
102 “Art. 5º Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a boa-fé” (BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em dezembro de 2019). 103 BARBOSA, Rafael Vinheiro Monteiro. Os regimes de recorribilidade das decisões interlocutórias proferidas
no primeiro grau de jurisdição. Tese (Doutorado em Direito). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
indivíduo não teve a intenção de ser desleal ou causar danos ao outro, esse ato não será tido como de má-fé. Na boa-fé objetiva, ainda que o sujeito não tenha tido a intenção, se o ato é reputado desleal, esse ato viola o preceito. A boa-fé subjetiva constitui um fato (ser leal), cuja presença, em alguns casos, é controlada por regras que, se desrespeitadas, levam à punição do indivíduo. A boa-fé objetiva constitui um princípio jurídico, que, em vez de punir o sujeito, extrai consequências jurídicas de seu comportamento, a fim de impor ou vedar outros comportamentos na mesma relação jurídica.104
O CPC/2015 prevê o princípio da boa-fé objetiva para a relação processual ao estabelecer, no art. 5º, que “[a]quele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a boa-fé”. O art. 5º do CPC/2015 encontra-se no capítulo das normas fundamentais do processo civil, junto coma previsão de garantias processuais importantes, como a inafastabilidade do controle jurisdicional, a isonomia, a duração razoável do processo, a cooperação, dando a entender que a boa-fé ali disposta configura-se um princípio e, por conseguinte, corresponde à boa-fé objetiva.105
O art. 77 do CPC/2015 traz em seus incisos quais são os deveres das partes e de seus procuradores, sem prejuízo de outros previstos ao longo da lei processual: (i) expor os fatos em juízo conforme a verdade; (ii) não formular pretensão ou de apresentar defesa quando cientes de que são destituídas de fundamento; (iii) não produzir provas e não praticar atos inúteis ou desnecessários à declaração ou à defesa do direito; (iv) cumprir com exatidão as decisões jurisdicionais, de natureza provisória ou final, e não criar embaraços à sua efetivação; (v) declinar, no primeiro momento que lhes couber falar nos autos, o endereço residencial ou profissional onde receberão intimações, atualizando essa informação sempre que ocorrer qualquer modificação temporária ou definitiva; (vi) não praticar inovação ilegal no estado de fato de bem ou direito litigioso. O § 1º do mesmo artigo consigna que nas hipóteses dos incisos IV e VI o juiz advertirá qualquer das pessoas mencionadas no caput de
104 CRAMER, Ronaldo. O princípio da boa-fé objetiva no novo CPC. In: DIDIER JR., Fredie... [et al.] (coord.).
Normas fundamentais (Coleção Grandes Temas do Novo CPC). Salvador: JusPodivm, p. 197-212, 2016. p. 198-
199.
105 O princípio da boa-fé objetiva, muito embora se encontre previsto expressamente na legislação infraconstitucional, tem fundamento na Constituição Federal. Para Fredie Didier Jr.: “[U]m processo para ser devido (giusto, como dizem os italianos, equitativo, como dizem os portugueses) precisa ser ético e legal” (DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. 17. ed. v. 1. Salvador: JusPodivm, 2015. p. 109). Em acertado complemento, Antonio do Passo Cabral: “As plurais funções do princípio do contraditório não se esgotam na sua compreensão como direito de informação-reação. Além de representar uma garantia de manifestação no processo, o contraditório impõe deveres. [...] O contraditório não pode ser exercido ilimitadamente. O Estado tem, portanto, o direito de exigir das partes retidão no manuseio do processo – instrumento público –, ao qual está relacionado o dever de atuação ética, de colaboração para a decisão final” (CABRAL, Antonio do Passo. O contraditório como dever e a boa-fé objetiva. Revista de Processo. São Paulo, v. 126, p. 59-82, ago. 2005, p. 62-63).
que sua conduta poderá ser punida como ato atentatório à dignidade da justiça. O § 2º, mais enfático, afirma que a violação ao disposto nos incisos IV e VI constitui ato atentatório à dignidade da justiça, devendo o juiz, sem prejuízo das sanções criminais, civil e processuais cabíveis, aplicar, ao responsável, multa de até vinte por cento do valor da causa, de acordo com a gravidade da conduta.106
No mesmo sentido: (i) o depositário infiel responde civilmente pelos prejuízos causados, sem prejuízo de sua responsabilidade penal e da imposição de sanção por ato atentatório à justiça (art. 161, parágrafo único, CPC/2015); (ii) o não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado (art. 334, § 8º, CPC/2015); (iii) o executado que descumprir ordem de comparecimento ao processo de execução também poderá cometer ato atentatório à dignidade da justiça, a depender da análise do julgador no caso concreto (art. 772, II, CPC/2015); (iv) considera-se ato atentatório à dignidade da justiça a suscitação infundada de vício com o objetivo de ensejar a desistência do arrematante, devendo o suscitante ser condenado, sem prejuízo da responsabilidade por perdas e danos, ao pagamento de multa, a ser fixada pelo juiz e devida ao exequente, em montante não superior a vinte por cento do valor atualizado do bem (art. 903, § 6º, CPC/2015).107
De outra banda, o art. 80 do CPC/2015 considera litigante má-fé aquele que: (i) deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso; (ii) alterar a verdade dos fatos; (iii) usar do processo para conseguir objetivo ilegal; (iv) opuser resistência injustificada ao andamento do processo; (v) proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo; (vi) provocar incidente manifestamente infundado e (vii) interpuser recurso com intuito manifestamente protelatório. A sanção a tais comportamentos, prevista pelo art. 81 do CPC/2015, possibilidade que oficiosamente ou à requerimento, o juiz condene o litigante de má-fé (i) a pagar multa, que deverá ser superior a um por cento e inferior a dez por cento do valor corrigido da causa, (ii) a indenizar a parte contrária pelos prejuízos que esta sofreu e (iii) arcar com os honorários advocatícios e com todas as despesas que o adverso prejudicado efetuou. Os parágrafos do referido artigo trazem balizas para
106 BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em dezembro de 2019. 107 BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Disponível em: <
condenação em caso de dois ou mais litigantes de má-fé ou em casos cujo valor da causa não permita fixar multa conforme o caput. O valor das sanções impostas ao litigante de má-fé reverterá em benefício da parte contrária, e o valor das sanções impostas aos serventuários pertencerá ao Estado ou à União (art. 96, CPC/2015).108
O reconhecimento, pois, do ato atentatório à dignidade da justiça pode ser feito – e assim o será com certa frequência – por meio de decisão interlocutória. A deliberação acerca da ocorrência de litigância de má-fé poderá, ao seu turno, será igualmente tomada através de decisão interlocutória. Contudo, a depender do caso e do momento em que verificada a prática desses atos, também poderão ser tomadas por sentença.109