A admissibilidade das decisões interlocutórias de mérito, que representam a possibilidade expressamente admitida de decomposição do conflito em capítulos, é uma opção evidente do novo sistema processual. O mérito é representado por uma das hipóteses apresentadas no art. 487 do CPC/2015, e o agravo de instrumento será cabível tanto na procedência quanto na improcedência. E não havendo interposição de recurso há preclusão e formação de coisa julgada.455
Na constatação de Araken de Assis: “Figuram no rol restrito das decisões agraváveis as que versem o mérito da causa (art. 1.015, II). Ora, as decisões parciais de mérito são objeto de regras específicas (v.g., o julgamento antecipado parcial de mérito, a teor do art. 356, § 5º), e, portanto, abrangidas pela cláusula geral do art. 1.015, XIII – ‘outros casos expressamente referidos em lei’ –, o que torna, senão inútil, redundante e paradoxal a explicação do art. 1.015, II”.456
453 STJ. REsp 1.827.553/RJ, rela. Mina Fátima Nancy Andrighi, j. 27/08/2019, DJe 29/08/2019. 454 STJ. REsp 1.744.011/RS, rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, j. 26/03/2019, DJe 02/04/2019.
455 FERREIRA, William Santos. Do agravo de instrumento. In: BUENO, Cassio Scarpinella (coord.).
Comentários ao código de processo civil. v. 4. São Paulo: Saraiva, p. 447-468, 2017. p. 448.
456 ASSIS, Araken de. Cabimento de agravo de instrumento contra decisão sobre prescrição e decadência proferida no saneamento do processo. In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM, Teresa; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Aspectos polêmicos dos recursos cíveis e assuntos afins. v. 14. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 59-86, 2018. p. 60.
Admite-se o emprego de agravo de instrumento contra decisões parciais de mérito, na forma do art. 354, parágrafo único, e art. 356, § 5º, do CPC/2015.457 Pode-se cogitar, então, do fracionamento da apreciação do objeto litigioso. Isto porque, o juiz decidirá parcialmente o mérito, quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela deles (i) mostrar-se incontroverso, e (ii) estiver em condições de imediato julgamento. “A decisão parcial de mérito proferida com base no art. 356 do CPC/2015 é impugnável por agravo de instrumento”. Não por outra razão, o Enunciado 103 do FPPC destaca que “a decisão parcial proferida no curso do processo com fundamento no art. 487, I, sujeita-se a recurso de agravo de instrumento”.458
Sendo admitida a solução parcial de mérito, não faria sentido determinar que o recurso fosse a apelação, porque a aceleração da solução do conflito não pode ficar represada na fase cognitiva, mas deve se espraiar para todas as fases: recursais, executivas e, por que não dizer, na formação da coisa julgada.459
Nesta toada, se mostra necessária incursão no tema quanto à possibilidade ou à obrigatoriedade da concessão de efeito suspensivo aos agravos de instrumento contra decisões parciais de mérito.
Inegável que o conteúdo da decisão que julga o mérito, ainda que apenas em parte, é conteúdo de sentença. Mas, ao contrário da apelação, o agravo de instrumento não possui efeito suspensivo ope legis. Contudo, vários autores defendem que o critério de conteúdo deve prevalecer neste sentido, atraindo para o agravo os mesmos efeitos da apelação.460
E nem se argumente com a inadequada previsão legislativa de execução imediata da decisão de julgamento antecipado parcial de mérito (art. 356, § 2º, CPC/2015), uma vez que, como bem considera Pedro Miranda de Oliveira, “deve ser conferida à parte a mesma chance de rediscutir a matéria perante o tribunal, sem que a decisão produza efeito algum, por se
457 Em comentários de Ricardo Alexandre da Silva: “Embora o cabimento de recurso não seja critério definitivo para a classificação de um ato jurisdicional, sem dúvida a previsão de cabimento de agravo de instrumento reforça o entendimento decorrente do art. 203, § 1º, do CPC/2015, de modo que sob o novo código não há dúvida sobre o caráter interlocutório da decisão que julgar fração do mérito” (SILVA, Ricardo Alexandre da. Julgamento antecipado parcial do mérito no novo CPC. In: MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro... [et al.] (coord.).
Impactos do novo CPC na advocacia. Florianópolis: Conceito Editorial, 2015. p. 189).
458 KOZIKOSKI, Sandro Marcelo. Sistema recursal CPC 2015: em conformidade com a Lei 13.256/2016. Salvador: JusPodivm, 2016. p. 169.
459 FERREIRA, William Santos. Do agravo de instrumento. In: BUENO, Cassio Scarpinella (coord.).
Comentários ao código de processo civil. v. 4. São Paulo: Saraiva, p. 447-468, 2017. p. 448.
460 Neste sentido: QUARTIERI, Rita; LINHARES, Isabella. Decisão parcial de mérito conceitual e suas consequências recursais. In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM, Teresa; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Aspectos polêmicos dos recursos cíveis e assuntos afins. v. 14. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 487-502, 2018. p. 493; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo código de processo civil comentado artigo
tratarem, decisão parcial e sentença, a rigor, da mesma situação, ou seja, pronunciamento de mérito proferido pelo juiz de primeiro grau”.461
De fato, há uma grande incoerência no sistema. A sentença, que julga os pedidos remanescentes ao final do processo, não tem eficácia imediata diante do efeito suspensivo da apelação. Na verdade, mesmo antes da interposição da apelação, a eficácia da decisão é suspensa. Isso decorre tão somente da eventual possibilidade de recurso. Pode-se dizer, então, que a mera eventualidade da apelação gera automaticamente a suspensão de eficácia da decisão durante todo o prazo previsto o exercício do recurso. Por outro lado, o julgamento parcial do mérito, por ser veiculado por decisão interlocutória, impugnável por agravo de instrumento sem efeito suspensivo automático, teria, na letra fria da lei, eficácia imediata. A diferença entre os dois regimes não faz sentido do ponto de vista sistêmico. O teor do pronunciamento é o mesmo, tanto na sentença quanto na decisão parcial de mérito. Ambos são proferidos com base em cognição exauriente e possuem aptidão para produzir coisa julgada. Diferem-se, apenas, quanto ao momento processual: em um caso sentença final, no outro, decisão interlocutória.462
Ainda assim, como quase tudo em matéria recursal, a opinião encontra críticas. Argumentam Ronaldo Vasconcelos e César Augusto Martins Carnaúba que “[c]om a devida vênia às respeitadas vozes retro transcritas e à outras [sic] que lhes fazem eco, não comungamos com a tese que advoga pela concessão automática de efeito suspensivo ao agravo de instrumento formulado contra decisão parcial de mérito, que não poderia estar mais errada”. Segundo os autores, a tutela jurisdicional satisfativa pode sofrer máculas com a concessão do efeito suspensivo, que deve ser encarado como exceção dentro do sistema. Não
461 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. O regime especial do agravo de instrumento contra a decisão parcial (com e sem mérito). Revista de Processo. São Paulo, v. 264, p. 183-205, fev. 2017. p. 193. Sobre a previsão do art. 356, § 2º do CPC/2015, explica Rogéria Dotti: “Justamente por ter eficácia imediata, a decisão parcial de mérito autoriza a execução provisória, inclusive com a dispensa do oferecimento da contragarantia. É o que prevê o § 2º ao estabelecer que a parte poderá liquidar ou executar, desde logo, a obrigação ali reconhecida, independentemente de caução, mesmo que tenha havido a interposição de recurso. O § 4º ainda esclarece que tal liquidação ou cumprimento da decisão poderão ser processados em autos suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz. Tal providência é salutar para não tumultuar o trâmite processual da parcela remanescente do pedido ou pedidos cumulados. Obviamente, por se [sic] cabível o recurso de agravo de instrumento e considerando-se que a ele poderá ser atribuído efeito suspensivo (art. 932, II e art. 1.019, I), a eficácia imediata da decisão dependerá da não atribuição desse efeito pelo relator, no tribunal. Mas, o que importa para a presente análise é a possibilidade dessa execução imediata sempre que não houver a suspensão opejudicis [sic]. Nessa hipótese, a execução provisória será inclusive mais vantajosa que o próprio cumprimento de sentença, o qual exige a prestação de caução (art. 520, IV)” (DOTTI, Rogéria. Decisão parcial de mérito no CPC/2015. In: LUCON, Paulo Henrique dos Santos; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Panorama atual do novo
CPC 2. Florianópolis: Empório do Direito, p. 495-510, 2017. p. 503-504).
462 DOTTI, Rogéria. Decisão parcial de mérito no CPC/2015. In: LUCON, Paulo Henrique dos Santos; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Panorama atual do novo CPC 2. Florianópolis: Empório do Direito, p. 495-510, 2017. p. 501-502.
bastasse, acreditam que as decisões parciais de mérito foram excepcionalmente determinadas pelo legislador para casos em que já exista alto grau de certeza sobre o provimento jurisdicional e, somado ao fato da lei não ter concedido efeito suspensivo automático ao agravo de instrumento, os recursos interpostos contra as parciais de mérito mereceriam ser recebidos apenas no efeito devolutivo.463
Argumentos contrários à parte, soa bastante razoável a interpretação doutrinária a qual defende a necessidade de concessão automática de efeito suspensivo ao agravo de instrumento interposto contra parciais de mérito, tomando por base a especificidade do processamento deste nos tribunais – à semelhança da apelação. Somado ao efeito suspensivo automático, outros procedimentos à semelhança da apelação devem ser adotados quando se está diante do processamento do recurso de agravo de instrumento contra decisão parcial (com ou sem resolução de mérito).
Segundo Pedro Miranda de Oliveira, o julgamento de agravo de instrumento contra decisões parciais (com e sem mérito) avoca para si prerrogativas que não estão expressamente previstas, mas que devem ser admitidas sob pena de incoerência sistêmica. A circunstância de o legislador não ter esboçado um regime especial para o agravo de instrumento interposto contra decisões parciais é absolutamente irrelevante:
É imprescindível que a leitura isolada dos dispositivos leve em conta o sistema como um todo, interpretando cada artigo sem perder de vista os valores adotados pelo Código. Há que se ter uma ideia de sistema.
Nessa perspectiva, o regime do agravo de instrumento interposto contra decisão parcial (com ou sem mérito) deve ser o mesmo do recurso de apelação. A única exceção é o órgão perante o qual o recurso deve ser interposto: a apelação no juiz de primeiro grau; o agravo de instrumento no respectivo tribunal. E só!
A explicação é óbvia. O recorrente não pode ser prejudicado por uma decisão que cinde o processo, conforme os pedidos estejam aptos para julgamento. Por tal motivo, ao recorrer da decisão parcial por meio de agravo de instrumento, o recorrente deve ter preservadas todas as garantias inerentes ao recurso de apelação. Portanto, o agravo de instrumento interposto contra decisão parcial tem um regime próprio, um verdadeiro regime especial, de modo que: (a) há remessa necessária por instrumento quando houver decisão parcial em que a Fazenda Pública é sucumbente; (b) a retratação do juiz só é possível nas hipóteses de improcedência liminar parcial e de decisão parcial sem resolução de mérito; (c) é possível a interposição de agravo de instrumento pela via adesiva; (d) no agravo de instrumento devem ser impugnadas as interlocutórias não agraváveis anteriores à decisão parcial, sob pena de preclusão; (e) o agravo de instrumento tem efeito suspensivo automático; (f) é vedado ao relator dar provimento singular ao agravo sem a oitiva do agravado; (g) aplica-se ao agravo a regra do julgamento imediato pelo tribunal (teoria da causa madura); (h) é admitida sustentação oral; (j) incidem honorários advocatícios; e por fim, (k) contra o acórdão que julga o agravo de instrumento cabe ação rescisória.
463 VASCONCELOS, Ronaldo; CARNAÚBA, César Augusto Martins. Efeito suspensivo do agravo de instrumento contra decisão parcial de mérito. In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM, Teresa; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Aspectos polêmicos dos recursos cíveis e assuntos afins. v. 14. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 525-540, 2018. p. 533-538.
Dessa forma, a aplicação de dispositivos do regime da apelação ao agravo de instrumento é inevitável quando se percebe o cabimento deste recurso contra decisões parcial (com ou sem mérito).464
Feitos estes registros, cumpre salientar, contudo, que há outras possibilidades de aplicação do art. 1.015, II, CPC/2015 para além das parciais de mérito.465
Uma delas é a decisão do órgão judiciário, tomada na etapa de saneamento do processo, que rejeita alegação de prescrição e decadência.
Já na vigência do art. 294 do CPC/1939, que generalizou no direito brasileiro a etapa de saneamento do processo (“despacho saneador”), controverteu-se a admissibilidade de o juiz decidir sobre prescrição e decadência, obviamente matérias de mérito. Sob essa mesma tela, a controvérsia renova-se perante o art. 1.015, II, CPC/2015.466
Da perspectiva do réu, processo e objeto litigioso, por natureza, atraem a respectiva defesa para dois alvos diferentes, mas concorrentes. Basta atingir um deles e o réu alcançará êxito, repelindo a pretensão do autor; porém, conforme o alvo tocado, variam os efeitos da decisão. O acolhimento da defesa processual conduzirá, na melhor das hipóteses, a extinção do processo, mas não impedirá sua renovação. O acolhimento da defesa de mérito revestir-se- á da autoridade de coisa julgada, impedindo a renovação da mesma demanda. É lícito ao réu atacar, simultaneamente, a regularidade do próprio processo, suscitando questões processuais e, em seguida, contestar o mérito. Por óbvio, a reação do réu à pretensão do autor talvez não seja passiva e vá além da mera resistência. Acontece de o réu revidar (defesa ativa) e deduzir pretensão contra o autor, por meio de autêntico contra-ataque, chamado de reconvenção. No
464 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Novíssimo sistema recursal conforme o CPC/2015. 3. ed. Florianópolis: Empório do Direito, 2017. p. 140-141.
465 Se o dispositivo quisesse se limitar a essas hipóteses de apreciação de um dos pedidos formulados, teria se referido ao “julgamento antecipado parcial do mérito”. Logo, permite-se concluir que são agraváveis também as decisões que, embora sem julgar procedente ou improcedente parte(s) do(s) pedido(s) – ou seja, sem julgar o mérito propriamente dito –, enfrentam alguma “questão de mérito” (que com ele não se confunde). De fato, o mérito deve ser entendido como o(s) pedido(s) formulado(s) pelas partes, iluminado(s) pela(s) causa(s) de pedir, e não se confunde com as questões de mérito, que encerram pontos controvertidos de fato e de direito que se antepõem como fundamentos necessários para que se atinja uma solução final para o(s) pedido(s) formulado(s) pelas partes. Neste sentido: WATANABE, Kazuo. Da cognição no processo civil. 2. ed. Campinas: Bookseller, 2000. p. 106.
466 “Art. 294. No despacho saneador, o juiz: I, decidirá sobre a legitimidade das partes e de sua representação, ordenando, quando for o caso, a citação dos litisconsortes necessários e do órgão do Ministério Público; II, mandará ouvir o autor, dentro em três dias, permitindo-lhe que junte prova contrária, quando na contestação, reconhecido o fato em que se fundou, outro se lhe opuser, extintivo do pedido; III, examinará se concorre o requisito do legítimo interesse econômico ou moral; IV – pronunciará as nulidades insanáveis, ou mandará, suprir as sanáveis bem como as irregularidades; V – determinará, ex-officio ou a requerimento das partes, exames, vistorias e outras quaisquer diligências, na forma do art. 295, ordenando que os interessados se louvem dentro de 24 horas em peritos, caso já não haja feito, e indicando o terceiro desempatador, como prescreve o art. 129” (BRASIL. Decreto-Lei n. 1.608, de 18 de setembro de 1939. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1937-1946/Del1608.htm>. Acesso em fevereiro de 2020).
entanto, defesa passiva, englobando, em tese, processo e mérito, é a atitude mais comum do réu, em que pesem outras modalidades defensivas.467
Compreensivelmente, haja ou não defesa processual contundente e promissora, os maiores esforços do réu recairão no mérito. A defesa de mérito direta se reparte em duas espécies: (i) impugnação de fato e (ii) impugnação de direito. A defesa de mérito indireta, por sua vez, concebe ao réu permissão para alegar fatos extintivos, modificativos ou impeditivos, deduzindo exceções (v.g., prescrição) e objeções substanciais (v.g., decadência, compensação). O epíteto se deve à circunstância dessa defesa elidir a pretensão do autor. Em alguns casos, como na exceção de inadimplemento, cabível nos negócios jurídicos em que haja prestações recíprocas simultâneas, a elisão é temporária, posto que seja extinto o processo; em outros, extingue-se a pretensão (v.g., prescrição) ou o próprio direito (v.g., decadência). A defesa de mérito indireta amplia o objeto litigioso e, havendo impugnação do auto da réplica, provoca o surgimento de questões de fato.468
Finda a etapa postulatória, cumpre ao órgão judiciário examinar o cabimento do julgamento conforme o estado do processo. Em não sendo o caso de barrar o desenvolvimento de pretensões inadmissíveis, extinguindo o processo, em todo ou em parte, ou julgar antecipadamente o mérito, abre-se espaço para a fase saneadora.
Revelando-se o desenvolvimento do processo útil, porque admissível a pretensão processual, e necessário, porque há questões de fato pendentes de esclarecimento pela prova técnica ou oral, impende que haja oportunidade definida e nítida para rejeitar a defesa processual peremptória (v.g., a alegação de coisa julgada) ou resolver a defesa processual dilatória (v.g., a alegação de conexão), saneando o processo, e, vencida semelhante etapa, condensar o processo, preparando-lhe a instrução. O itinerário do procedimento comum deve contemplar momento concentrado de saneamento, “haurido do vetusto ‘despacho saneador’ português, e adotado no direito brasileiro originalmente segundo a técnica escrita e, já nos estertores do CPC brasileiro de 1973, alternativa pela técnica oral, por meio de audiência preliminar – contato das partes, dos advogados e da pessoa investida na atividade judicante muito celebrado e acalentado, mas se escassa repercussão prática”.469
467 MONTENEGRO FILHO, Misael. Curso de direito processual civil. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008. p. 338-339. 468 ASSIS, Araken de. Cabimento de agravo de instrumento contra decisão sobre prescrição e decadência
proferida no saneamento do processo. In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM, Teresa; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Aspectos polêmicos dos recursos cíveis e assuntos afins. v. 14. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 59-86, 2018. p. 63-69.
469 ASSIS, Araken de. Cabimento de agravo de instrumento contra decisão sobre prescrição e decadência proferida no saneamento do processo. In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM, Teresa; MIRANDA DE
Nessas condições, a etapa de saneamento é oportunidade propícia tanto à emissão de sentença definitiva, fundada no art. 354, c/c art. 487, II, CPC/2015, quanto para rejeitar a defesa de mérito indireta do réu, relativa à decadência e à prescrição, ou assunto suscitado por impulso oficial, após debate prévio das partes. É verdade que, literalmente, o art. 487, II, CPC/2015, restringe a resolução do juiz às “questões processuais”. Mas, sobrepõem-se a essa aparente restrição a dever de o juiz conhecer dessa matéria a qualquer tempo e, se for o caso, proferir julgamento conforme o estado do processo baseado no acolhimento da prescrição da pretensão ou na decadência do direito. Cabendo-lhe proferir decisão em sentido positivo, apreciando a matéria, forçoso reconhecer não só a possibilidade, mas o dever de proferir a decisão em sentido negativo. A resolução das questões que, suscitadas e debatidas pelas partes, integram o objeto de declaração de saneamento, para fins de impugnação constitui decisão interlocutória, nem sempre suscetível a recurso imediato. Então, é possível enfrentar diretamente a inteligência do art. 1.015, II, CPC/2015, identificando o que comporta impugnação imediata no objeto do art. 357, I, CPC/2015.470
Não subsiste dúvida quanto à natureza das questões relativas à prescrição e à decadência. Elas integram o mérito; por isso, são prévias apenas no plano lógico, no itinerário racional do julgamento. Essas questões, uma vez acolhidas, ensejariam sentença; rejeitadas, constituem decisões interlocutórias. No primeiro caso cabe apelação; no segundo, agravo de instrumento.
Outra hipótese subsumível ao art. 1.015, II, CPC/2015 é a decisão interlocutória que julga procedente o pedido para condenar o réu a prestar contas, dentro da ação de exigir contas. Segundo Rita de Cássia Corrêa Vasconcelos:
Conforme se expôs no tópico anterior, na ação de exigir contas, a decisão que reconhece o dever de o réu prestar as contas não se considera sentença, e sim decisão interlocutória que versa sobre o mérito do processo, consistente no acolhimento da pretensão do autor em exigir que o réu lhe preste contas. A segunda fase da ação de exigir contas é que versará sobre as contas em si, e é nessa fase que se apurará eventual saldo devedor em favor do autor ou em favor do réu.
Embora nada tenha sido mencionado sobre a recorribilidade da decisão de primeira fase na ação de exigir contas, é possível concluir, interpretando-se sistematicamente as regras aqui aplicáveis, que se a decisão proferida ao final da primeira fase for de improcedência do pedido, ou mesmo de extinção sem resolução de mérito (por exemplo, reconhecendo-se a ausência de interesse de agir), terá natureza de
OLIVEIRA, Pedro (coord.). Aspectos polêmicos dos recursos cíveis e assuntos afins. v. 14. São Paulo: Revista
dos Tribunais, p. 59-86, 2018. p. 71.
470 ASSIS, Araken de. Cabimento de agravo de instrumento contra decisão sobre prescrição e decadência proferida no saneamento do processo. In: NERY JUNIOR, Nelson; ARRUDA ALVIM, Teresa; MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro (coord.). Aspectos polêmicos dos recursos cíveis e assuntos afins. v. 14. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 59-86, 2018. p. 81.
sentença, pois porá fim ao processo, sendo impugnável por meio de apelação (art. 1.009).
Da mesma forma, interpretando-se sistematicamente as regras do CPC do 2015, é possível concluir que a decisão que julga procedente o pedido para condenar o réu a prestar contas, seguindo-se, a partir daí, para a segunda fase do procedimento, tem natureza de decisão interlocutória. Decisão esta que, mesmo versando sobre mérito do processo (parte dele, no caso), é impugnável por meio de agravo de instrumento