A REVOLTA DO RUPUNUN
4- DEFLAGRAÇÃO DA REVOLTA
De acordo com o plano da Revolta, o fundamental era a tomada do Distrito para posterior chegada dos venezuelanos que deveriam usar como base uma região acima da aldeia Karasabay evitando a utilização de território brasileiro. Assim, as atividades militares foram distribuídas de acordo com a experiência militar dos fazendeiros: Harry, Dick, Elmond, Jimmy, Lawrence e Avarell foram os que comandaram as ocupações dos prédios públicos e assumiram as posições tidas como importantes pelo grupo. Teddy, que não tinha nenhuma experiência militar, mas pela facilidade de comunicação com índios, ficou responsável pela distribuição de armas e munições às aldeias.
A ação militar deveria tomar os pontos considerados estratégicos na região. Na verdade não se esperava muita complexidade militar devido a pouca quantidade de policiais que guarneciam o Rupununi. A idéia era concluir toda a operação no mesmo dia.
Papai me disse que eu devia fazer a parte militar. Que os venezuelanos não podiam esperar mais. Que já vem, que já vem. Eu saí de uma reunião como o responsável pela parte militar, Elmond e eu. Ele e eu nos sentamos e passamos como dois dias, planejando e vendo como ia ser, como seria o dia D. Como seria o planejamento da reunião. Então chegou Dick Hart e perguntou, as coisas já estão prontas? Eu disse que não, ele disse que os venezuelanos não podiam esperar mais. Trabalhamos toda a noite revisando mapas, fazendo as coisas. De manhãzinha já estava feito um esboço, muito superficial. Chegou Dick, ele pegou o papel e se foi. Isso não era para entregar para as autoridades venezuelanas. E assim foi. Aí nós esperamos, até que me levaram para Santa Tereza. Cheguei lá e falei com um general, ele perguntou se eu podia levar a cabo o movimento. Depois ele me levou para um acampamento. Ele perguntou se era possível fazer tudo isso, eu disse que sim. O que eu soube é que haveria a ajuda com armas, com logística e soldados vestidos de civil, porque não podia entrar soldado vestido de militar. Eles disseram que estariam lá entre 2 e 3 da tarde. Ia demorar a ocupar tudo, a região era muito grande. Depois voltei com Dick, aterrissamos na pista do Murirú. E lá estava Gorinsky, com filho seu, Peter, ele não estava de acordo, que não ia fazer nada, e que ia Georgetown falar tudo. Pegamos o avião e voamos para Warumã, lá encontramos papai (Avarell Melville).
Os jovens que estiveram treinando na Venezuela haviam chegado na madrugada do dia 31 de janeiro, por volta das 5 horas, e logo em seguida saíram para ocupar suas posições. Às 8 horas o movimento foi iniciado com a ocupação do posto policial em Lethen:
Nós estamos escondidos sob a ponte do Igarapé Tabatinga, quando foi disparado por nós, acidentalmente, o primeiro tiro da Revolta (Bryan Melville).
Talman e eu [também Small John e um venezuelano chamado Pablo] éramos os responsáveis pela explosão do posto. Nós ficamos em pé, e atrás de mim havia um mini-mook com uma metralhadora pesada em cima. Os policiais estavam dormindo. Todos eram negros. Nós disparamos dois tiros. Talman carregou a bazuca. Entre oito e nove da manhã, disparamos. O primeiro tiro, Talman errou a janela e acertou o telhado. Abriu um buraco grande no zinco. Eu disse: Talman, você errou a casa? Ele disse: “então, arme outra vez”. Nós estávamos a menos de cinqüenta metros. Acertamos o tiro. Queríamos evitar a morte de inocentes. Uma pessoa morreu com a explosão. Poderíamos entrar e prender todo mundo, mas quando vi estava Jimmy e Elmond atacando do lado esquerdo. Eu disse que a casa não estava tomada, eles lançaram uma granada incendiária - Elmond lançou - do outro extremo da casa. Começou a queimar. Eu não sabia que ele ia fazer isso. Havia três policiais. Um dos policiais estava tão assustado que os olhos pareciam duas bolas brancas, o outro estava nu no chão, quase nu, o outro correu e entrou no banheiro e ficou lá. Outro chegou, Mackenzie, correndo com um rifle. Então apareceu Clint [doravante todos os pseudônimos aparecerão em itálico] e começou a atirar. Então sobre a cabeça havia uma casa de caba que caiu, ele varreu Mackenzie. O outro que morreu saiu depois de Mackenzie, pulou pela janela e tentou pular a cerca, quando daí atiraram nele, Sean e um tal de Paulo, que era casado com uma índia do Napi. As pessoas não gostavam dele. Os outros policiais foram presos. Quando eu entrei vi uma foto de Burnhan e meti um tiro bem entre os olhos. Eu escolhi um lugar que guardava carne, não tinha janela, só tinha porta. Então eu prendi ali só aqueles que tinham relação com o governo. Quem devia cuidar de lá era Harold, mas por algum motivo ele não queria ficar lá. Lá prendemos todo mundo, todos os funcionários do governo (Avarell Melville).
Eu estava no Manari e aí apareceu o Harry e disse que eu tinha que ir para o Annai. Tinha começado o movimento.(Lawrence Hart)
Eu estava consertando um tanque de gasolina de um caminhão trazido por Lawrence quando ouvi um estrondo. Disseram que tinha começado um uprising e que eu devia sair dali. Mas eu não saí naquela hora. (Olaf)
O ataque ao posto foi concluído com a morte de três policiais. Depois de prenderem os sobreviventes, o Post-Office foi o próximo lugar a ser tomado.
Depois que avançamos até o Post-Office. Não me lembro quem estava lá. Foi quando Theodor matou o inspetor. Kenneth entrou com uma M-1 ao escritório para prender o inspetor, quando este lhe arrancou o rifle, e o usou para atacar-lhe o rosto com a ponta da arma. Ele ia matar Kenneth quando Theodor, que estava na janela, viu e atirou no inspetor. (Avarell).
Ao todo, quatro policiais haviam sido mortos durante o início da operação. Ainda na parte da manhã, um índio de nome, Victor Hernandez, o único civil morto, foi alvejado durante a tentativa de fuga por não obedecer à ordem de se entregar.
Depois que algumas pistas de aterrissagem foram fechadas por Teddy no sul do Distrito, o único lugar possível de desembarque para uma eventual repressão ao movimento era o Manari, e para protegê-lo havia sido designado um jovem com não mais de quinze anos, chamado Collins Melville. Pelos planos desenhados no Pirara, Lawrence Hart deveria controlar Manari, porém foi indicado por Harry para acompanhar Talman Davis ao Annai. Lá, na tentativa de controlar o lugar, o quinto policial foi morto; os demais (quatro) foram aprisionados. Para Lawrence, a recomendação para seguir em direção ao Annai era parte de um plano para assassiná-lo:
Eu não sei por que me mandaram para o Annai. Eu era para ficar no Manari, mas Harry disse que eu deveria ir para lá com Talman. Bem, eu fui, mas lá era o lugar mais perigoso, tinha muitos soldados e funcionários do governo. Nós tínhamos que fazer a todos prisioneiros. Chegamos lá quase meio-dia, a estrada era muito ruim, tinha que dirigir devagar. Rendemos os policiais [houve um morto na ação em Annai] e prendemos todos num quartinho com portas de madeira. Vimos que eles iam fugir dali. Distribuímos as armas entre os índios, e amarramos todos os negros dentro do caminhão. Eu os trouxe para Lethen e entreguei para Kenneth, que estava guardando o frigorífico. Depois não encontrei mais ninguém. Aí comecei a pensar: tudo era plano de Valerie para me matar. Ela não gostava de mim. (Lawrence Hart).
Até o meio-dia do dia 1º de janeiro de 1969, todos os representantes do governo da Guiana em Lethen já haviam sido presos no frigorífico,
transformado em prisão. Não obstante, devido à ausência dos venezuelanos, a Revolta passou a se desintegrar, dando início à retirada através do Brasil. Collins, segundo a versão de Avarell, devido a sua pouca idade e inexperiência, deixou-se convencer por um pastor sobre a liberação da pista, permitindo-lhe fazer uso do rádio de um avião e comunicar Georgetown dos ocorridos. À tarde do dia primeiro de 1969, oito policiais da GDF chegaram ao Manari; no dia seguinte, a eles se juntaram outros grupos, dando início ao movimento de repressão à Revolta.
O andamento da Revolta deixa evidente que não havia uma coordenação militar uniforme, pois, dentro das atribuições de cada revoltoso, cada qual agiu seguindo muito mais a intuição do que qualquer planejamento preestabelecido:
Esperamos Maurice Mitchell que operava o rádio. Aí vi que nada funcionava, nem os rádios e nem as armas, não havia detonador. Eu sabia que um aeroporto não estava fechado. Eu mandei Collins para lá, e Collins estava chorando. Eu disse: leve Collins para lá, ele era um curuminzinho. Quem abriu a pista foi Hockins, que era um pastor. Collins era muito pequeno. As armas não funcionavam e nós estamos no Manari, eu pensei: se o avião chegar vai nos matar, o que nós vamos fazer? Chegando lá, Winston me leva três carros de gente, e eu já estava ficando bravo. Estavam dois aviões, aterrissou um e aterrissou outro. Nós ficamos lá, olhando. Eu segurei um canhão sem recuo, chamei uns rapazinhos e estávamos a uns 200 metros. Quando eles aterrissaram foi em outro lugar. Winston que sempre viveu ali não sabia, me levou para um lugar errado. Aí um rapazinho atirou, mas não acertou. Harold estava do outro lado, mas não sabia usar o rifle. Depois disso, começamos a avisar todo mundo que era preciso fazer uma retirada (Avarell).
Não íamos impedir que o avião pousasse no Pirara, e ele sobrevoou o Manari, e nós estávamos lá. Quando Júnior foi disparar o tiro de bazuca, havia um dos nossos que não percebeu que arma liberava uma carga de gás com o tiro, e isso podia queimar alguém. Então, Junior, antes de atirar, tinha de ficar pedindo para que ele saísse de trás, com isso ele errou o tiro no avião (Bryan Melville).
Eu e Talman fomos para o Annai. E é muito longe para chegar ate lá, mais ou menos uma 5 horas de carro, a estrada é muito ruim. Quando chegamos fizemos prisioneiros. Nós estávamos esperando um contato de Dick que chegaria de avião. Nós prendemos todos numa casa porque a porta era de madeira. Vimos logo que isso não ia segurar os prisioneiros. Dick passou com o avião e sinalizou que as coisas estavam bem. Como Dick não parou, eu disse pro Talman que
devíamos levar os prisioneiros para Lethen. Amarrados, e eu os coloquei no caminhão e segui para Lethen. Talman ficou (Lawrence Hart).
Fiquei no Annai com Lourenço. Por que eu fui para lá? O Harry mandou. Depois voltei para Lethen a pé, quando já não havia mais ninguém, só GDF. Aí saí para o Brasil (Talman Davis).
No dia do movimento vi Jimmy e Elmond com roupas militares. Naquele dia eu me vesti de branco, até o chapéu. Não era a favor de matar pessoas. Eu estava subordinado ao Jimmy, e ele me disse para guardar o frigorífico. Mas eu não fiquei muito tempo; saí quando vi dois índios armados vindo na minha direção. Pensei que eles pudessem me matar. Eu me escondi e eles passaram por mim sem me fazer nada. Não fiquei mais ali; Avarell me encontrou e me levou de Jipe (Harold Melville).
Não havia confiança na Revolta. Tivemos uma reunião, acho que foi na fazenda Mitchell, havia um jovem, Tony Hardy, que estava amarrado. Os venezuelanos haviam descoberto que ele era um espião, que havia vindo com Jimmy dos Estados Unidos. Então disseram que quem não estivesse de fato unido à Revolta, que então deixasse o movimento e fosse embora. Eu deixei meu rifle no chão e saí. Voltei porque meus irmãos disseram que os venezuelanos iam nos matar (Bryan Melville).
Por conta de tais características, hoje os revoltosos reconhecem a Revolta do Rupununi como um desastre militar e uma confusão em termos de organização e liderança.