A REVOLTA DO RUPUNUN
9- EXÍLIO NA VENEZUELA
Depois da saída do Rupununi, os revoltosos foram levados para a Venezuela na condição de refugiados. No dia 31 de dezembro, as famílias que foram retiradas do Rupununi através da Fazenda Pirara, haviam sido levadas para a Fazenda Santa Tereza, nas proximidades de Santa Elena da Uairén; igual destino tiveram aqueles que saíram pelo Boqueirão da Lua.
Taylhardat, que havia prometido cidadania venezuelana aos revoltosos, incumbiu-se de conseguir, em Ciudad Bolivar, um lugar que lhes servisse de residência. Havia um prédio popular recém construído, Vista Hermosa, localizado perto do aeroporto de Ciudad Bolívar, que foi cedido para abrigá-los, embora o lugar fosse habitado também por moradores que não tinham relação nenhuma com a Revolta ou com o Essequibo.
Como todos os revoltosos foram classificados na condição de Ameríndios, cuja principal característica era a ocupação com o gado, Taylhardat planejou a construção de San Ignácio de Yuruani, perto de Santa Helena, para onde foram levadas “pessoas que tinham um nível social muito mais baixo”157, na sua maioria indígenas, como foi o caso de Nilas John:
Trabalhei um mês em San Ignácio, tínhamos que construir tudo, casas, tudo. Mas eu não quis ficar lá porque não tinha nada. A água era escura, não tinha peixe, não tinha nada. Não dava para viver naquele lugar (Nilas John).
O governo havia destinado doze milhões de bolívares para o projeto, e cerca de 2.000 cabeças de gado deveriam ser criadas no lugar, porém o projeto fracassou no governo Caldera, e praticamente foi esquecido. Nas proximidades dos Rios Venano e Cuyuni foi fundado o povoado de San Martín de Turumbang, ocupado com indígenas saídos da região do Essequibo. A construção das duas vilas foi planejada para que ficasse pronta antes da posse de Caldera, que já havia insinuado uma posição contrária à participação da Venezuela na Revolta do Rupununi, embora San Martín tenha sido concluído apenas no final de julho de 1969.
Os revoltosos, agora na condição de exilados na Venezuela, inicialmente eram providos de alimentação, vestuário e habitação pelo governo Venezuelano. Valerie Hart havia sido escolhida como representante deles na Vista
Hermosa, e era ela quem organizava, todo mês, uma relação das principais
necessidades de todos os moradores exilados158. No Rupununi, Valerie era considerada pelos outros como dotada de uma personalidade ambiciosa e de um amor próprio excessivo. Valerie era uma mulher numa sociedade de criadores em que os homens desempenhavam as funções de coordenação de todas as atividades, estando à frente das ligações políticas com Georgetown e na organização dos próprios criadores: representava a Associação de Criadores de Gado do Rupununi. Fora ela também quem teria feito os primeiros contatos com
157
TORREALBA, op. cit. p. 273.
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As informações sobre o exílio, condições em que viviam na Venezuela e as expectativas em torno da suposta ajuda venezuelana aos exilados foram extraídas do diário de Dick Hart.
os Venezuelanos. Mas ela, por ser mulher numa sociedade cuja liderança sempre estivera sob controle dos homens, não era unanimidade. A maioria das famílias de fazendeiros não nutria grande simpatia por ela. Por causa disso, logo viria a ser substituída na liderança de Vista Hermosa por Dick Hart.
Valerie era uma pessoa muito estranha. Não quero afirmar nada, mas tem muita gente que ficou rica com os refugiados. Só nos davam comida e roupas. Valerie fazia uma lista de tudo que a gente precisava, aí os representantes do governo saiam para comprar. Era muita gente, então eles colocavam coisas a mais e depois vendia. Isso me dava revolta. Mas era só a comida, não tinha roupa, nada, só comida. Na minha casa não tinha nem onde sentar (Avarell Melville).
Valerie nunca foi aceita pelos Hart. Só que ela era bem posicionada em Georgetown, então confiaram nela, mas soube que ela estivera reunida com Burnhan uma semana antes do movimento (Paul Hardy).
Acho que o Harry e Valerie ganharam muito dinheiro. Nós não tínhamos roupas e sapatos para as crianças, nada. A gente colocava Xampu, por exemplo, ela tirava, dizia que a gente não precisava de Xampu. A gente se reuniu e tirou ela. Daí passamos a pedir produtos e depois trocar por roupas e outras coisas que a gente precisava. Mas ninguém tinha dinheiro; era a Geórgia quem passou a cuidar das compras. Mas as coisas foram ficando ruins, o governo venezuelano não nos ajudava em nada, só com comida. Aí eu e Dick saímos para San Ignácio de Yuruani (Lawrence Hart)
Cerca de um ano após a Revolta, os fazendeiros começaram a se dar conta de que estavam jogados à própria sorte. O governo, depois de março de 1969, passara a ser de Rafael Caldera, que não nutria simpatias pelo movimento do Rupununi. Sem suas propriedades no Rupununi, sem perspectivas na Venezuela, o grupo passou a se desarticular, e a vida que viviam na Venezuela em nada se parecia com a do Rupununi: sem dinheiro, sem as fazendas e sem influência política, cada qual passou a buscar seu próprio destino.
Uma vez chegou um domingo, e nós somos católicos, e pedimos uma missa de um padre, um capelão do Exército, o Padre Chaves, e chegou umas mulheres chorando, e então uma mulher me perguntou: por que vocês não dão sapato para seus filhos? [Avarell chora neste momento]. É porque nós não temos dinheiro. Não temos alpargatas. Isso doeu, e eu queria matar aquela mulher. Nós éramos tratados como num zoológico, como animais, fechados e vigiados (Avarell Melville).
Eu não agüentei mais viver no San Ignácio [de Yuruani]. Nós éramos vigiados dia e noite. Qualquer lugar para onde a gente ia, tinha de dar satisfação para o pessoal que nos vigiava. Eu tive que ir a Caracas para dizer que eu não queria ficar na Venezuela (Lawrence Hart).
Dick escreveu uma carta (anexo V) que não foi entregue em função de sua prematura morte, dirigida ao Coronel Llavanara, datada de 02 de março de 1982, na qual é narrada a situação de penúria vivida pelos revoltosos na condição de exilados na Venezuela. Também, em seu diário, escrito quanto vivia em Santa Elena, mencionou sua insatisfação à recepção na Venezuela:
I have been told by Venezuelans that the people who come were most ungrateful because they were offered fee food and housing. Those who said that simply did not understand the situation, or, more important, did no understand the Guyanese. Yes, some did receive fee food and housing for a while, but not all. We did not come to Venezuela looking for handouts. We were and still case, perfectly capable of feeding and housing ourselves if permitted to do so.
Entre os exilados, devido a maneira como vinham sendo tratados na Venezuela, passou a existir a convicção que estavam largados à própria sorte. Dick mencionou que:
Even to their day, people from these who come to Venezuela are being denied the right to be Venezuelans. Many are now beginning to believe that Venezuela does not consider them as Venezuelans…
Em conseqüência a essa situação, os Hart, beneficiando-se da cidadania americana migraram para os Estados Unidos, com exceção de Lawrence, que de San Ygnácio de Yuruani transferiu-se para Boa Vista, onde passou a viver, e Elmond, que permaneceu em Ciudad Bolívar até alguns meses antes de falecer. Teddy Melville mudou-se para o Canadá e os demais Melville incorporaram-se à Venezuela. Atualmente, apenas duas famílias Melville vivem em Vista Hermosa: a Olaf e as filhas de Avarell.
As crianças, que provavelmente alheias ao destino dos pais, quando brincavam no parque do conjunto onde viviam, eram corrigidas por um dos vigias escalados para cuidar da segurança dos revoltosos exilados, com a seguinte frase: donde está el sapato... Shoes!, Numa referência àquelas crianças que se
encontravam com os pés descalços. Vivendo uma outra realidade na Venezuela, segundo Avarell, “os filhos de fazendeiros já não tinham sequer sapatos”. Essa referência serve para demonstrar como os “barões do gado”, como Burnhan os chamava, passaram a ser aqueles que, numa época em que a Venezuela vivia o seu milagre econômico, perderam a importância socioeconômica que desfrutavam no Rupununi.
Talvez, por viverem essa realidade adversa, ainda se ensaiou uma iniciativa para a retomada do Rupununi, liderada por Jimmy Hart, inclusive com a aquisição de armas, como já foi lembrado. Mas o governo de Caldera mantinha os revoltosos sob vigilância e a operação foi reprimida no início. A Venezuela de Caldera não queria se ver envolvida em outro incidente diplomático com a Guiana; os tempos eram outros.