A REVOLTA DO RUPUNUN
3.2 O CASO TAYLHARDAT
Em 1967, no dia 14 de abril, o Governo da Guiana denunciou que um diplomata venezuelano e um britânico organizaram uma reunião de tuxauas em Kabakaburi, no rio Pomeron, na qual o objetivo era instigar os índios a assinar
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A invasão, que aconteceu após a segunda rodada de conversações da Comissão Mista, foi antecedida pela admissão formal da Assembléia Legislativa do Estado Bolívar, em 13 de dezembro de 1965, que Anacoco era parte de seus limites. Segundo Singh, que procura mostrar a versão guianense do Laudo Arbitral, os venezuelanos tinham conhecimento de que a ilha estava dentro das fronteiras guianenses, “el limite de Ankoko como está demonstrado (...) fue realmente reproduzido en mapas venezolanos, publicados em 1911 e 1917. El primero fue publicado bajo autoridad expresa de la administração del general Gómes, entonces presidente de Venezuela (Idem, p. 67).
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Cf. HUBBARD, Henry J. Makepiece. . Venezuelan Border Issue and Occupation of Ankoko: A Sell-out by the Coalition Government. Georgetown: publicação do PPP, 1967.
uma resolução de desenvolvimento comum na região do Essequibo. O Presidente da Amerindian Association, Stephen Campbell, que supostamente teria organizado a reunião, era membro do parlamento pela UF. A ação foi negada por ele, mas a relação entre o Governo e a UF, por conta deste incidente, ficaria maculada, doravante. O diplomata venezuelano era Leopoldo Taylhardat, vice- cônsul na guiana; e o inglês, Michael Wilson, que acabou sendo expulso do país sob acusação de desenvolvimento de atividades antiguianenses, e o vice-cônsul, convidado a abandonar a Guiana.
Assim, através dessas incursões na região do Essequibo, Taylhardat tomou contato com os Hart e soube deles a indisposição em relação a Burnhan. A insatisfação foi justificada a Taylhardat pela política de terras de Burnhan, que já não mais contemplaria latifúndios na Guiana (e os Hart eram proprietários de grandes extensões de terra) e pela orientação cooperativista, ou guianicista de seu governo, que não incluía grupos sociais fundiários como os do Rupununi.
A insatisfação dos Hart e dos Melville pareceu adequada para os objetivos de Taylhardat no Essequibo. Contudo, sua idéia original era a de que os indígenas fossem inseridos como parte do processo que desencadeou, a partir dessa insatisfação, a Revolta. Isto é, o Congresso Ameríndio de Cabacabure, em 1966, havia tirado uma proposição em que sustentava a requisição venezuelana do desenvolvimento conjunto:
Cuando llegué a Guyana, empecé a buscar contactos con los amerindios; Yo había leído algo sobre sus costumbres, sus ideas, y sabian que era una población que estaba en situación de tercer nivel, ni siquiera ciudadanos de segundo nivel, sino de tercer nivel, descuidados por los gobierno, y que eran venezolanos porque nacieron en Esequibo, y ellos eran buenos para llevar adelante unas acciones prácticas a favor de la reclamación... 215.
Taylhardat pensou poder unir a insatisfação dos fazendeiros do Rupununi à requisição tirada no Congresso Ameríndio para satisfazer as demandas venezuelanas naquela ocasião, em relação à reivindicação sobre o
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Essequibo216. O Congresso acabou se tornando o embrião do Guyana National
Party, que seguindo a tendência da etnização da política na Guiana, seria o
partido que expressaria a vontade dos ameríndios. Taylhardat esteve presente na organização do partido, inclusive quando James Lowe foi eleito secretário geral. Taylhardat assevera que,
James Lowe era un mestizo del Pomeron que fue electo como la secretaria general del Partido Ameríndio, y quien estuvo en el contacto conmigo todo tiempo. Nos reunimos en la Gran Savana, en agun sítio de la Gran Savan, en el Barima, en el Amacuro. Entonces me conocia a mi unicamente y eso porque yo estaba en el consulado y yo no ocultaba mi identida (...)217.
Foi a partir do Congresso que os fazendeiros, para os venezuelanos, passaram a ser identificados como ameríndios, como uma estratégia de Taylhardat para inseri-los dentro do projeto da administração conjunta, que seria uma passo importante para efetiva recuperação da região do Essequibo pela Venezuela.
As ações venezuelanas na região do Essequibo estavam supostamente direcionadas para reforçar a etnicidade dos índios, na contramão da história se comparado ao Brasil, por exemplo, ou a toda América Latina, que desenvolvia um tipo de relação com as populações indígenas baseado na subordinação social e cultural. É preciso ter em vista, que tal intento esteve sempre associado aos interesses político-estratégicos da Venezuela; não era de forma alguma o reconhecimento da etnicidade per se das populações indígenas
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O Congresso, segundo Taylhardart, fora um desdobramento da Associação dos Ameríndios que havia se convertido em partido. Na verdade, a Amerindian Association of Guyana, ligada a UF, foi fundada em 1963, por “algunos pocos ameríndios altamente aculturados de Georgetown, y limitada en su constituición a ameríndios y personas vinculadas con ellos, com rasgos parecidos a un conjunto de asociaciones similares que, em esos anõs, van surgindo en distintos países americanos”. In: Serbin, op, cit. 1980, p. 72. Ishmael aduz que: Nothing more was heard about the Venezuelan threat until the 14 April 1967 when the Guyana Government announced that a meeting of Amerindian Chiefs held at Kabakaburi on the Pomeroon River (in the western Essequibo area claimed by Venezuela), a Venezuelan diplomat and the British husband of a Guyanese Amerindian participated and carried out subversive activities relating to the border controversy with Venezuela. The announcement claimed that the Chiefs were influenced by these persons to move a resolution in favour of "joint development" by Guyana and Venezuela of the area claimed by the latter”. ISHMAEL, op. cit, Cap. XXI.
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do Essequibo, de tal modo que em momento algum tais iniciativas chegaram a se formar um movimento indígena com bases próprias. Serbin argumenta:
que el transito de los ameríndios de uma ideologia étnica difusa, reforzada por el proceso de aculturación europea, a uma ideologia étnica vinculada com uma estrategia política (que se inicia con las primeras asociaciones ameríndias y culmina com la constituición de um partido ameríndio), no dejó de estar signalado por la carga ideológica anti-africana y anti-índia [indo-guianense] que le confirieron los europeos218.
Isso sugere um breve parêntese; se os ameríndios passaram a ter uma participação mais efetiva na Guiana na década de setenta, mesmo sob influência de uma ideologia européia, como sugere Serbin, é preciso dizer que a definição conceitual dos índios como ameríndios tem mais objetivos políticos integracionistas do que propriamente uma concepção efetivamente etnicista. Dentro desta conceituação toda a diversidade étnica estaria plasmada num só conjunto étnico, seguindo a esteira dos outros grupos étnicos na Guiana, objetivos pretendidos por Burnhan.
A Venezuela, ao propor o projeto de administração conjunta, o fez destinado a desenvolver economicamente a área do Essequibo, ocupada exclusivamente por indígenas, considerada desassistida pela Guiana. Assim, não teria sentido a Venezuela prestar ajuda a um grupo de pessoas que formava uma elite na Guiana, sendo que e a assistência só deveria ser prestada a ameríndios, por isso a necessidade de incluí-los nessa categoria como parte de um interesse com vistas a dilatar esta conceituação dada aos indígenas da Guiana. Para isso, foram utilizados, como pressuposto essencial, a ascendência e o convívio dessa gente com os indígenas. Praticamente, todos os fazendeiros falavam a língua dos índios com fluência, o que acabou sendo um fator positivo para a inclusão deles na categoria de ameríndios.
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Portanto, Taylhardat estaria no Rupununi em contato, não com fazendeiros abastados, mas com ameríndios, e este contato parecia-lhe essencial. Teddy conta que:
Em Lethen tinha muito movimento de mini-mooks [um tipo de carro pequeno que praticamente se transformou no transporte mais requisitado no Rupununi, dado ao seu tamanho e robustez]. Quando eu vi esse movimento, vi um índio andando no mini-mook. Eu pensei como ele ganhou dinheiro para comprar isso? Esse dinheiro veio da Venezuela, de um partido político interessado em ganhar votos, eles achavam que na outra eleição, ela já seria na Guiana da Venezuela. O índio disse que eu devia ajudá-lo, pra eu falar bem no partido venezuelano. Eu vi muito índio do lado de Burnhan querendo carro também (Teddy Melville).
As viagens de Taylhardat pelo Rupununi evidenciaram-lhe o descontentamento dos fazendeiros contra Burnham. No seu ponto de vista bastava transformar esse descontentamento numa arma de guerra. Todavia, o Congresso Ameríndio, que interessava mais a Venezuela do que aos índios, tornou-se conhecido através da imprensa pela publicação da Declaração dos Ameríndios, uma proposta dos índios para a administração conjunta no Essequibo, levando Taylhardat a ficar exposto, e a inteligência do governo guianense tomar conhecimento de suas atividades. Taylhardat havia estado nas áreas do Essequibo em contato com os índios, conclamando-os de que a Venezuela, diante da situação de abandono em que se encontravam, era uma saída daquela situação.
Para a Guiana, isso significava que a Venezuela estava pronta para invadir seu território, o que criava uma situação diplomática muito delicada, e como os guianenses não haviam ainda deferido a carta patente de Taylhardat, decidiram por negá-la, o que em si representou-lhe a expulsão219.Taylhardat havia estado durante cinco meses no Essequibo, incluindo o Rupununi, período em que fez contatos com os fazendeiros, aproximando a demanda venezuelana à insatisfação dos fazendeiros, que assumiu uma proporção bem maior quando aconteceu a visita de um ministro de Burnhan ao Rupununi, aludida anteriormente.
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Foi a partir dessa reunião que ficou evidente que se necessitava de uma ação mais eficaz contra Burnhan, a via armada. Neste caso um evento foi muito importante para empurrar os fazendeiros para esta solução: a exclusão da participação do Partido Ameríndio nas eleições de 68. Taylhardat aduz que
.... . el Partido Ameríndio había sido excluido o prohibido para actuar en las elecciones guyanesas; fue cuando hicieran contacto conmigo James Lowe, que era el secretário general, quien me dijo:" Esta gente no nos permiten ir a las elecciones, nosotros estamos dispuestos a levantarnos en armas, usted nos ayudaran? Bueno espere llevar esa pregunta a las Relaciones Exteriores; en varias reuniones que sostuvimos, se decidió que se les iba ayudar... [con] armas, apoyo táctico y entreinamiento....220.
No geral, os fazendeiros do Rupununi não estavam inseridos na rede de relações políticas com a região do Essequibo, formavam um mundo quase hermético, baseado na subordinação das populações indígenas do Rupununi. Portanto, associá-los a “ameríndios” serviu aos interesses estratégicos da Venezuela naquele momento.