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RETIRADA PARA A VENEZUELA E BRASIL

A REVOLTA DO RUPUNUN

5- RETIRADA PARA A VENEZUELA E BRASIL

Na parte da tarde do dia do início da Revolta, começaram a circular informação entre os revoltosos dizendo que os venezuelanos não viriam132, e que todos deveriam se retirar para a fronteira do Brasil, para dali serem conduzidos para a Venezuela:

Harry, que eu me lembre, nunca participou de nada. Ele ficou responsável pelo Good Hope que só tinha um soldado. Logo que o movimento começou, ele e a mulher se retiraram para a Venezuela (Avarell Melville).

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Note-se que os líderes do movimento não transmitiram aos demais os motivos da ausência da Venezuela na Revolta.

Eu estava no Uarumã e um filho chegou à meia-noite dizendo que tinha uma má noticia: a Venezuela não viria mais, e a CIA sabia o que a Venezuela estava fazendo e disse para a Venezuela desistir, e que tinha que voltar com as armas. Sabe o que vamos fazer agora? Jogar todas as armas num poço mais fundo do rio. Se Burnhan souber vai ter problema, eu disse para jogar tudo. E o senhor o que vai fazer? Eu vou ficar, eu tenho minha fazenda, não vou sair por aí. Harold disse: não faça isso, papai. Eu sei o que vai acontecer contigo. Vão saber que seus filhos, todos estavam nessa Revolta, eles vão te matar, te bater. Então vá para o Brasil. E eu fui. Eu disse que a melhor coisa a fazer é fechar os aeroportos para não deixar ninguém aterrissar. Eu fui até Aisherton numa noite e voltei (Teddy Melville).

Eu fui para o Manari e tinha poucos quilômetros para chegar no Brasil. Tinha alguns GDF, mas dava para chegar à travessia. Estava com Jofrey Lomas, queria saber sobre gasolina para ir ao Brasil, e ele tinha uma motocicleta. Quando atravessei, os soldados [do Brasil] perguntaram: Teddy Melville? Eu disse: sou eu. Coloquei a mão para cima, e eles me revistaram. Com duas horas pegamos um avião para Boa Vista. Encontramos amigos brasileiros e venezuelanos. Eram dezesseis deles em poder do Brasil, por uma semana (Teddy Melville).

Quando cheguei a Lethen, entreguei os prisioneiros no frigorífico e Harold disse que tudo estava acabado. Então, decidi ir ao Pirara. Quando chegue, logo chegou o Jimmy no caminhão que eu havia deixado em Lethen. Ele não sabia passar as marchas no caminhão. Eu pensei: o que vou fazer aqui, se todos já tinham ido para a Guanabara. Quando vi a todos, as filhas dele, os parentes da mulher, aí eu fui, não adiantava eu ficar lá. Eu cheguei ao Annai meio-dia, cheguei a noite e fui para o Pirara. Depois fomos para a Guanabara. Quando o avião chegou, estava Orlando Garcia e Harry, eu disse: por que você veio? Só para tomar lugar de outro? (Lawrence Hart).

Quando saí, Jimmy me deu uma granada e disse para eu lançá-la dentro do frigorífico. Eu não poderia matar pessoas. Jimmy me disse para eu ir para o Pirara por que lá se ia organizar uma resistência para enfrentar o GDF. Quando estava no mato escondido dos dois índios passou meu irmão Avarell e com ele eu cheguei ao Manari, mas já havia a ordem para todos nós sairmos. Então eu atravessei o rio e fui para uma fazenda; lá eles me receberam já de noite. Lembro que havia um forró e eu pensava na Guiana, no que nós havíamos feito, no meu pai. Não podia me divertir. Então saí para ver o tempo e ficar sozinho. Foi quando eu vi que aquela era uma noite de lua cheia (Harold Melville).

Assim, o dia 02 de janeiro foi o marco do fim da Revolta do Rupununi, quando Orlando Garcia foi escalado por Yépez Daza para a retirada dos revoltosos através do Brasil, em vôos clandestinos, levando-os para a Venezuela.

Mais ou menos em torno do final do mês de dezembro apareceu em Santa Teresa um militar de Caracas para me levar porque queriam o fim do movimento. Eu disse: não saio daqui enquanto não cumprir a missão da qual fui designado. Ele podia me prender ali mesmo, mas não o fez. Eu queria dar suporte para a retirada de todos que estavam no Rupununi; sabia do perigo que estavam correndo. Requisitei todos os aviões civis do Estado de Bolívar para a missão. Depois que a última pessoa estava em Santa Teresa, eu disse: agora pode me levar (Yépez Daza).

Como a maioria das armas leves não possuía nenhum número de série que pudesse denunciar a procedência, foram abandonadas pelo caminho. As pesadas que foram incorporadas ao arsenal, estas Orlando Garcia recebeu ordens explícitas de recolhê-las por pertencerem às forças armadas da Venezuela133. Byran conta que durante uma repreenda a ele e a Small John, inadvertidamente Garcia teria batido no chão o fuzil que segurava em uma das mãos, fazendo-o disparar: o projétil perfurou sua mão de uma ponta a outra, forçando-o a sair da operação de retirada para tratar-se em Caracas.

Eu estava atirando com minha arma no lavrado, no Boqueirão da Lua. Jimmy quando viu veio até mim e deu uma repreenda áspera, foi muito grosseiro. Falou coisas que até hoje eu não esqueço. Quando cheguei perto do avião Orlando Garcia estava segurando uma arma pelo cano, e zangado a bateu no chão quando estava falando comigo. A arma disparou, fazendo com que o projétil atravessasse sua mão (Bryan Melville).

Jimmy, Dick e Harry passaram, a partir do Boqueirão da Lua, a coordenar a evacuação dos soldados revoltosos. Aqueles que não conseguiram chegar ao lugar para serem resgatados pelos venezuelanos atravessaram o Rio Tacutu em direção ao Brasil. No segundo dia da Revolta, um pelotão da companhia de fronteira do Exército Brasileiro em Boa Vista foi deslocado para Bonfim, já no final da tarde, depois que um brasileiro havia saído de Bonfim, em uma motocicleta, para informar os militares do acontecimento na fronteira e sobre os refugiados que se encontravam na vila. Foi esse grupo de militares que capturou Edward E. Melville, Tonny I. Melville, Kenneth M. Melville, Olaf Melville,

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Muitas armas foram abandonadas, enterradas ou escondidas entre pedras pelos revoltosos. Poucos dias depois do fim da Revolta, segundo depoimento de Damásio Douglas, uma granada foi encontrada por índios nas proximidades do Boqueirão da Lua; na tentativa de abri-la por curiosidade, o artefato explodiu provocando a morte de sete deles.

Winston Melville, Ivan Melville, Ronald Melville, John A. Melville (Big John), Neville Júnior e Bendy Hart na margem esquerda do Rio Tacutu, e os levou para Boa Vista.

Todos os capturados foram levados a Boa Vista, por decisão do General Edmundo Costa Neves, na época o comandante do GEF – Grupamento Especial de Fronteira – sediado em Manaus, que viera a Roraima por conta da Revolta na fronteira com o Brasil. Em Boa Vista, no dia 03 de janeiro de 1969, pousou no aeroporto da cidade um avião guianense com 17 soldados armados, supostamente para resgatar os prisioneiros que haviam sido capturados pelo Exercito Brasileiro. O avião ficou retido no aeroporto por soldados brasileiros e por membros da Guarda Territorial em cumprimento à decisão do General.

Nessa mesma ocasião, segundo informação de Damásio Douglas, encontrava-se em Georgetown um grupo de escoteiros de Boa Vista, que havia viajado para lá para conhecer as cercanias da capital. Justamente no momento do início da Revolta, encontravam-se em Bartica, quando foram avisados de que não poderiam retornar e que aguardassem autorização para retorno em um posto da GDF, em Georgetown. Em Boa Vista, as mães dos escoteiros pressionaram o general para que seus filhos pudessem retornar, temendo represálias do governo do Georgetown em função da retenção do avião. O argumento do comandante do avião foi o de que a aeronave que deveria trazer os escoteiros, dada a situação de emergência pela eclosão da Revolta, acabou sendo utilizada para transportar soldados ao Manari, e por um erro de percurso, veio parar em Boa Vista.

Se procede ou não a história, sabe-se que a presença militar em Roraima na ocasião limitava-se tão somente a um pelotão de fronteira, de tal maneira que justamente no dia da Revolta havia chegado de Manaus uma companhia de engenharia para ficar estabelecida em Boa Vista. Os guianenses certamente tinham conhecimento dessa realidade e planejaram o resgate dos prisioneiros prevendo a facilidade dessa ação. Por decisão do General, o avião pôde retornar para Georgetown e os escoteiros devolvidos através de Lethen.

No dia 05 de janeiro, chegou a Boa Vista um general de brigada, Rodrigo Otávio Jordão Ramos, comandante da 8ª. Região, com objetivo explicito de tomar conhecimento da realidade na fronteira. Foi dele a decisão de levar os revoltosos capturados a Manaus e depois para o Rio de Janeiro, onde foram liberados, como o caso de um Melville:

Eu estava trabalhando em Lethen, consertando um caminhão que tinha o tanque furado. Comecei a ouvir tiros e chegaram dizendo que era para eu ir embora. Eu saí para o Brasil, deixei tudo e fui de carona para Boa Vista. Não tinha um tostão no bolso, só a roupa do corpo, suja de graxa. Em Boa Vista, um amigo me emprestou roupa. Eu estava com medo de que me pegassem. Então chegou um avião da Guiana no aeroporto. Eu fiquei com medo, quando me levaram para o quartel com outros. Estavam Charles, Edwina, outros; depois para o Rio de Janeiro. Lá me deram documentos para eu viajar até a Venezuela. No Rio de Janeiro, um dia chegou lá Orlando Garcia e me deu dinheiro para comprar sapato, outras coisas. (Olaf Melville).

Uma parte permaneceu no Rio de Janeiro134, e outra retornou para Boa Vista, posteriormente seguindo para Ciudad Bolívar com ajuda do governo venezuelano. Os que tinham ascendência americana, logo se transferiram para os Estados Unidos, os outros, sobretudo os Melville, ficaram na Venezuela onde vivem até os dias de hoje. Um grupo de índios que acompanhou os fazendeiros deixou San Ignácio de Yuruani e retornou para Roraima (na mesma ocasião em Lawrence Hart também voltava para Boa Vista), criando a aldeia Raposa II, localizada no que é hoje o município de Normandia.

Das propriedades dos Hart e Melville no Rupununi, pouca coisa restou: os automóveis, tratores, edifícios foram todos incendiados pela tropa de Burnhan, com assaz interesse em eliminar qualquer possibilidade de reorganização dos fazendeiros. O gado, base da prosperidade dos mixed, espalhou-se pelo lavrado capturado por índios e oportunistas do lado brasileiro; estes últimos chegaram a formar pequena fortuna com esse espólio. Teddy Melville talvez tenha sido o único que conseguiu atravessar uma pequena parte do rebanho para a Serra da Lua,

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Alguns seguiram vivendo no Rio de Janeiro e São Paulo por algum tempo, retornando depois de anos para Boa Vista, como é o caso de Tony Melville. Big John trabalha até os dias de hoje como operário em uma fábrica no interior de São Paulo.

deixando-o aos cuidados de conhecidos. Uma outra parte significativa foi abatida por soldados da GDF nos campos, no mesmo instante da destruição das fazendas. Durante a Era Burnhan tentou-se reativar, em moldes estatais, a criação de gado na Fazenda Pirara, reconstruindo prédios, currais e adquirindo gado, porém em momento algum tal iniciativa logrou qualquer sucesso.

6- EXPRESSÕES DE UM JOVEM DO RUPUNUNI E AS IMPLICAÇÕES DAS