2 O CONTEXTO DAS TERAPIAS INTEGRATIVAS EM JACOBINA
2.1 DELINEAMENTOS E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Como já manifesto, este é um estudo de caso de natureza etnográfica e, dadas suas características peculiares, é resultado de um contato intenso com a realidade pesquisada. Apresenta-se aqui sob a forma de uma narrativa, que descreve e analisa uma experiência comunitária fundamentada em práticas integrativas de cuidado, formação de círculos de práticas cuidadoras e apoio recíproco. Pretendemos neste trabalho contribuir na compreensão:
Da mútua implicação entre dádiva e cuidado;
Das características favoráveis (e desfavoráveis) observados nestas experiências com práticas integrativas para a construção do cuidado a partir de relações de reciprocidade.
Os objetivos desta pesquisa são: Objetivo Geral:
Estabelecer relações entre dádiva e cuidado, com base em reflexões sobre as dinâmicas relacionais que envolveram a construção do cuidado nos circuitos terapêuticos alternativos da cidade de Jacobina-BA
Objetivos Específicos:
Refletir acerca da mútua implicação entre dádiva e cuidado;
Compreender aspectos favorecedores à construção do cuidado com base em relações de reciprocidade;
Refletir acerca das mudanças nas dinâmicas relacionais do cuidado promovidas pelas práticas integrativas em saúde;
74 Compreender a potência e os limites de experiências comunitárias de construção de cuidado fundamentadas exclusivamente na prática das terapias integrativas, apartada dos sistemas oficiais de assistência em saúde, como observado em Jacobina-BA;
Favorecer a constituição de uma Sociologia do Cuidado, a partir das imbricações teórico-práticas propostas entre dádiva e cuidado.
A narrativa, composta por descrições minuciosas das realidades socioculturais observadas (GEERTZ, 1994) e análises engendradas a partir do modelo interpretativo da dádiva, é alimentada pelo material empírico resultante de um ano de imersão e pesquisa de campo, em que participamos de diversas rotinas, estabelecendo contatos frequentes com os grupos e indivíduos participantes daquela realidade. Esta intensidade do contato com o contexto sociocultural estudado é defendida pelos autores canônicos da etnografia como forma de “vivenciar em si” (LAPLANTINE, 2004) a realidade que estuda, buscando a densidade dos fenômenos em uma descrição o mais fiel e detalhada possível (MAUSS, 2003; MALINOWSKI, 1976; LEVI-STRAUSS, 1996).
Outro aspecto que marca estudos desta natureza é a necessidade de considerar a multidimensionalidade dos fenômenos com atenção a tudo o que ocorre em campo, mesmo que aparentemente não relacionado com o estudo realizado (idem), atenção que se justifica por uma condução em favor da formulação de uma totalidade complexa dos fenômenos estudados, o que não impede, conforme revisões do método etnográfico impressas na atualidade, o enquadre da análise em teorias ou modelos interpretativos.
Além da intensa convivência com o fenômeno estudado, entre os anos de 2011 e 2012, as entrevistas feitas com usuários e terapeutas permitiram o acesso ao material empírico que nos auxiliou na análise das dinâmicas relacionais, dos significados compartilhados, dos processos de reconhecimento, das obrigações e dos prazeres compartilhados, das relações de reciprocidade, dentre outros aspectos que visam compor um relato o mais fiel da realidade pesquisada, mas, ao mesmo tempo, atento às exigências do modelo interpretativo adotado. Foram realizados setenta questionários com usuários das terapias integrativas no município, dez entrevistas semiestruturadas com usuários que propuseram ações integradas às atividades terapêuticas definidas aqui como Círculos de Práticas Cuidadoras (CPC) e oito entrevistas semiestruturadas com terapeutas. Preservamos, neste relato, as
75 identidades dos nossos interlocutores através da utilização de iniciais (no caso dos clientes) e de pseudônimos (no caso dos terapeutas e/ou líderes de movimento).
Além disso, foram gravados depoimentos e opiniões em relação a pontos específicos, como também histórias da cidade que remontaram à formação dos centros de atendimento terapêutico alternativos. Diferentemente dos questionários e entrevistas, que eram marcados previamente (no caso das entrevistas semiestruturadas) e tinham um roteiro fixo (no caso dos questionários), estes últimos depoimentos foram colhidos, utilizando a metodologia conhecida como “bola de neve”, em situações informais nas quais solicitávamos que os interlocutores da pesquisa expressassem sua opinião ou narrassem o seu ponto de vista sobre a constituição destas experiências de cuidado no município ou sobre algum evento em particular .
Também foram feitas consultas a órgãos públicos e a fontes de dados secundários, dentre outros esforços empenhados no sentido de alcançar o mais amplamente possível os detalhes do cotidiano dos indivíduos e grupos, ainda que se considere, sempre, aqui, a característica da inesgotabilidade do registro (MARTINS, 2007).
2.1.1 Organização dos Registros
Ao adotarmos a categoria “integrativa” para nos referirmos às experiências estudadas no presente trabalho de pesquisa, buscamos reduzir as distâncias entre as diversas práticas de cuidado (oficiais ou não), ainda que não se trate aqui de um estudo comparativo ou focado na interação entre práticas científicas e não científicas. Acreditamos ser possível alimentar uma mútua contribuição entre as práticas oficiais e alguns agenciamentos externos à ciência médica que, em sua prática cotidiana, ora visível e reconhecida ora não, dão testemunho dos múltiplos aspectos constitutivos de toda a sociabilidade a que corresponde também a prestação do cuidado.
A perspectiva inspirada no paradigma da dádiva viabilizou uma análise articulada com as dimensões do “autocuidado”, do “cuidado do outro”, do “cuidado como obrigação” e do “cuidado como liberdade”, identificados na experiência em questão. A escolha do referencial teórico-metodológico se justifica sobretudo por entendermos que a teoria da dádiva permite a compreensão do cuidado como um
76 sistema de prestações de bens que circulam entre os diversos atores e privilegia os processos de vinculação, apoio mútuo e solidariedade, então abordados como aspectos co-construtivos do cuidado.
Deste modo, o paradigma da dádiva nos forneceu um enquadre interpretativo adequado à diversidade de elementos constituintes da arriscada aposta do cuidar. A dinâmica da ação social articulada a partir da obrigação de dar, receber e retribuir, essa força teórica da dádiva na explicação da formação de alianças, nos colocou mais próximos de captar as dimensões integradoras das práticas de cuidado analisadas. Nesta medida, foi necessário adotar um quadro de análise que abarcasse as razões instrumentais, o cálculo, o risco, o interesse e o desinteressamento, a doação e a dívida, a obrigação e a liberdade.
Sem pretender esgotar a multiplicidade de questões trazidas nas discussões acerca do cuidado, pois devida a interdisciplinaridade que a permeia seria excessivo para o que pretendemos demonstrar, destacamos alguns pontos, que, em nossa análise, guardam fortes relações com as quatro dimensões integradas contempladas na teoria sociológica da dádiva, a saber: As dimensões da Obrigação, da Liberdade, do Interesse, e do Desinteressamento.
Neste sentido, o esquema a seguir, suporte de análise neste estudo de base etnográfica, busca associar as principais inquietações que destacamos no estudo do cuidado aos móveis que articulam a ação social conforme a Dádiva.
1. Cuidar e Ser Cuidado
O “cuidar e ser cuidado” está associado aqui à dimensão do “desinteressamento”, mas, também, à dimensão da obrigação, posto que aí residem as preocupações quanto aos princípios éticos que norteiam as práticas. Neste caso, os problemas levantados em relação às formas de cuidado – a atenção prestada ao outro, visto como o-lugar-do-cuidado – geram um conjunto de compromissos assumidos em larga escala, defendidos como princípios até o ponto da conversão em direitos e deveres, como a oficialização das políticas públicas e/ou contratos de prestação de serviços.
2. Cuidar de Si
No aspecto “cuidar de si”, encontramos a relação com a dimensão do “interesse”, o interesse em si e o aspecto do domínio instrumental das práticas, as práticas de autocuidado, o savoir-faire que promove o conhecimento de si e também
77 a capacidade de cuidar-se e de tomar decisões a respeito de sua saúde e bem- estar.
3. Cuidar e Criar
No que se refere ao “cuidar e criar”, a associação é feita com a dimensão da “liberdade”. Aqui os indivíduos se vêm diante da possibilidade de criar dispositivos, formar arranjos, recriar sua própria liberdade, propor, inventar.
As análises e interpretações foram feitas progressivamente, seguindo o roteiro da imersão etnográfica. Tal roteiro também indica as direções que tomamos em campo:
I – Visita a órgãos públicos e instituições com o objetivo de levantar informações gerais sobre a cidade e a rede de serviços prestados em Saúde;
II – Reconhecimento dos locais de tratamento com terapias integrativas na cidade;
III – Construção e aplicação de questionários os setenta questionários aplicados foram distribuídos, em proporções variáveis, pela clientela de cada um dos terapeutas atuantes. Esta seleção foi aleatória, pois foram abordados os clientes que compareceram nos dias destinados à observação em cada espaço. Destinamos três meses para a aplicação de questionários em visitação aos espaços, não mais que isto, pois notamos que a associação da nossa presença à aplicação de questionários comprometia o nosso processo de inserção. Ademais, como não recorremos a técnicas quantitativas de pesquisa, as informações recolhidas nos forneceram os temas a serem aprofundados em entrevistas como também guiaram a nossa inserção (observação, relatos, impressões, registros);
III – Realização de entrevistas com terapeutas, clientes e responsáveis pelos espaços alguns clientes foram selecionados aleatoriamente para entrevistas de aprofundamento nas questões trazidas pelos questionários e outros foram selecionados intencionalmente, tendo como critério a participação em círculos de práticas;
IV – Observação participante – incluímos aqui as inúmeras deambulações em campo, o registro de depoimentos e opiniões sobre serviços prestados e sobre a constituição de experiências comunitárias de cuidado. Além disto, as diversas “histórias da cidade” narradas e comentadas foram fundamentais para compor esta etnografia. Evidentemente, este trabalho foi facilitado através de nossa participação em diversas atividades, incluindo alguns círculos de prática.
78 Como o nosso estudo não consiste, exatamente, em uma abordagem sobre a situação da saúde em Jacobina e sim sobre as “artes de cuidado” ligadas ao movimento das terapias alternativas no local, em relação aos dados oficiais, não avançamos mais do que a consulta a órgãos públicos e a observação em locais de atendimento. O nosso objetivo nas visitas a estes locais estava circunscrito ao registro das impressões dos usuários que, associadas às informações acerca da estrutura oferecida, nos forneceram um quadro de referência para compreender em que contexto emergiam aquelas “artes”. Portanto, não há que se interpretar os relatos como ataques às práticas oficiais, pois não se trata de um julgamento crítico de suas ações, mas, sim, de uma análise de experiência que ocorre às suas margens, ainda que estas experiências estejam muitas vezes pautadas em uma reação às insatisfações com a prática médica. Deste modo, no relato a seguir, alternam-se narrativas descritivas e análises, que serão aprofundadas no decorrer da pesquisa, em função dos temas e questões trazidas pelos atores.
Como sugere Mauss, ao consagrar os modelos descritivos como fontes privilegiadas para a análise sociológica sob a perspectiva da dádiva, “chega-se assim a ver as próprias coisas sociais, em concreto, como elas são. Dentro das sociedades, distingue-se mais do que idéias ou regras, distinguem-se homens, grupos e seus comportamentos” (2008, p. 213).
Pensar a partir da dádiva é se colocar, antes de tudo, disposto ou aberto à imprevisibilidade, a algum grau de incertezas. Mas esta compreensão, como pano de fundo, não afugenta, ao contrário, estimula o reconhecimento e a reprodução de modelos mais favoráveis à circulação de dons positivos. Ademais, a conflitualidade, na dádiva, aparece como um elemento precursor de mudanças desejáveis (MACHADO, 2006), como uma preciosa bússola em um campo de incertezas.
2.2 IMAGENS COMPARTILHADAS: CIDADE QUE ADOECE, CIDADE QUE