6. Discussão
6.2 Depressão
Sabe-se que o CGP é um momento que favorece o desencadeamento de sofrimento psíquico, sendo comum o aparecimento de transtornos mentais (Bortoletti et al., 2007; Maldonado, 1976, 2013; Reis et al., 2015).
Para verificar a presença ou não de depressão foi utilizada a escala CES-D, que mede a sintomatologia depressiva (Radloff, 1977), esta escala mostrou-se confiável para detecção de depressão entre mulheres no CGP (Tandon, Cluxton-Keller, Leis, Le, & Perry, 2012).
Os transtornos de humor no pós-parto afetaram 15,85% das mulheres, os principais fatores de risco foram: altos níveis dos traços de personalidade neuroticismo e introversão, medo intenso do parto, necessidade de apoio social, bem como a realização de uma cesariana (Maliszewska, Bidzan, Świątkowska-Freund, & Preis, 2016). Já em outro estudo, com 95 mulheres no CGP mais de um quarto das mulheres (28,4%) estavam com depressão maior (Tandon et al., 2012).
Nesta amostra foi rastreada a presença de depressão e houve diferença significativa entre os dois grupos nos três momentos, quanto maior o nível de neuroticismo maior a presença da depressão. Estes resultados indicam que o neuroticismo pode ser um fator de risco para o desencadeamento da depressão, o que corrobora a literatura que aponta o neuroticismo ligado a aspectos emocionais negativos (McCrae & Costa, 1982) e estudos que apontam associação significativa entre neuroticismo e transtornos mentais, tendo como o principal, o transtorno do humor (Fergusson, Horwood, & Lawton, 1989; Lahey, 2011; Schmutte & Ryff, 1997; Spijker, Graaf, Oldehinkel, Nolen, & Ormel, 2007).
Em se tratando do CGP, o traço de personalidade Neuroticismo foi apontado como fator de risco para a presença de depressão no pós-parto (Arrais & Araujo, 2017; Axfors, Sylvén, Ramklint, & Skalkidou, 2017; Denis & Luminet, 2018; Dørheim et al., 2016; Enatescu et al., 2014; Iliadis et al., 2015; Keller et al., 2016; Koutra et al., 2013, 2017; Lin et al., 2014; Maliszewska et al., 2017; Maliszewska, Bidzan, et al., 2016; Maliszewska, Świątkowska-Freund, Bidzan, & Preis, 2016; Martín-Santos et al., 2012; Nolvi et al., 2016; Oddo-Sommerfeld et al., 2016; Peñacoba-Puente, Marín-Morales, Carmona-Monge, & Velasco Furlong, 2016; Podolska et al., 2010; R. A. da Silva, Jansen, et al., 2010; Tian et al., 2012; Yang et al., 2015; Zanardo et al., 2017).
De acordo com Iliadis et al. (2015), mulheres não deprimidas que relataram altos níveis de neuroticismo no final da gestação apresentaram alto risco de desenvolver sintomas depressivos no pós-parto. Mulheres grávidas não deprimidas com altos escores de neuroticismo têm um risco quase quatro vezes maior de desenvolver sintomas depressivos no pós-parto, e a associação permanece robusta mesmo após o controle da maioria dos fatores de confusão conhecidos (Iliadis et al, 2015).
Ao desencadear transtorno de humor no CGP, a mulher traz consigo grande sofrimento, visto que os sintomas depressivos como tristeza, choro, desânimo, entre outros, não são aceitos nesta fase da vida. Com a idealização da maternidade, há uma ideia de que as mulheres grávidas ou com bebês pequenos não podem ficar tristes e têm de demonstrar extrema felicidade e euforia. “Mesmo diante das dificuldades da maternidade, espera-se que as mães sejam sempre ternas, acolhedoras, férteis e disponíveis. Em contrapartida, elas não deverão demonstrar sentimentos de tristeza, afinal, tudo isso está ligado ao milagre da vida que presume um instinto materno, uma predisposição inata para o sacrifício” (Arrais, 2005, p. 116).
Algumas mulheres com sintomas depressivos tentam esconder seus sentimentos e sentem-se culpadas por não estarem eufóricas diante da situação. Por se tratar de um período
bastante idealizado, o CGP traz consigo uma grande necessidade de adaptação e de dificuldades, a partir do momento em que a mulher precisa sair da idealização para lidar com o bebê real ou a gestação real, ela pode se decepcionar com o CGP e desenvolver um quadro depressivo. Em meio a todas a emoções vivenciadas no CGP encontra-se grandes contradições, como a da maternidade romantizada, idealizada e a experiência real, a disparidade entre realidade e fantasia leva muitas mulheres a uma decepção profunda com a maternidade e, consequentemente, pode encaminhar para um quadro depressivo (Arrais, 2005).
Logo que a mulher está com o bebê em seus braços ela se dá conta que o bebê não é aquele que ela fantasiou e sim outra pessoa, e então, é necessário elaborar a perda do bebê idealizado para entrar em contado com o bebê real (Arrais, 2005).
Nesta amostra, as mulheres do GC apresentaram presença de depressão apenas no puerpério, o que corrobora com a ideia de decepção com a realidade e que após o processo de elaboração ela não apresenta mais presença de depressão. No puerpério é comum que a mulher sinta tristeza, tal tristeza pode estar associada ao baby blues que afeta de 40% a 80% das puérperas, este fenômeno se caracteriza por alteração do humor, com intensidade de leve a moderada, sensação de tristeza, irritabilidade, ansiedade, diminuição da concentração, insônia, choro fácil e crises de choro. No entanto, estes sintomas têm um pico no quinto dia após o nascimento do bebê e são remissivos, diminuem com o passar das primeiras semanas após o parto (Brasil, 2013).
Enquanto o GE denotou presença de depressão em todos os momentos, com uma ligeira declinação a cada momento da pesquisa, este declínio pode estar associado a uma característica do traço de personalidade neuroticismo que tende a prever situações como catastróficas e mais difíceis do que realmente são. Logo que o tempo passou e o contato com a maternidade real foi se instalando, estas mulheres diminuíram a média da presença de depressão, embora as médias estejam bastante acima do ponto de corte da escala. Isso corrobora com as pesquisas citadas anteriormente que aponta o traço de personalidade neuroticismo como fator de risco para a presença de depressão no pós-parto.
Há achados que apontam que mulheres não deprimidas com altos níveis de neuroticismo no final da gestação apresentaram alto risco de desenvolver sintomas depressivos no pós-parto, tanto quanto, mulheres grávidas não deprimidas com altos escores de neuroticismo têm um risco quase quatro vezes maior de desenvolver sintomas depressivos no pós-parto, e a associação permanece robusta mesmo após o controle da maioria dos fatores