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Desafios e contexto atual da mediação notarial

No documento Mediação nas serventias extrajudiciais (páginas 63-67)

4. A mediação nas serventias extrajudiciais no Brasil

4.3. Especificidades da mediação nas serventias extrajudiciais

4.3.3 Desafios e contexto atual da mediação notarial

A mediação nas serventias extrajudiciais no Brasil

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de sucesso de eventual impugnação judicial do documento, dissuadindo assim, uma resistência ao cumprimento acordado141.

Quanto a isso, Pinheiro ressalta que:

Esta confiabilidade acaba por diminuir os custos do negócio. Ao contratar ainda que nem toda cadeia obrigacional contratada chegue ao final sem pontos controvertidos, a atuação do tabelião resolverá rápida e seguramente a desavença, e sem depender da atuação de mais nenhum outro profissional, ainda que seja opcional o comparecimento de advogados, por exemplo. Desta maneira, como o dinheiro investido na contratação não ficará inerte por muito tempo, a tendência é que os custos decorrentes da contratação caiam142.

Em relação aos locais de realização das mediações destaca-se que as serventias extrajudiciais, em geral, situam-se em locais de fácil acesso nas cidades, estando os cartórios em instalações estruturadas para receber o público, inclusive portadores de necessidades especiais. Nesse sentido, bastaria apenas reservar um ambiente para a realização da mediação, nos termos do art. 21 do Provimento nº 67/2018 do CNJ143.

Quanto à abrangência territorial, os cartórios encontram-se praticamente em todos os municípios brasileiros: há mais de 10.000144 cartórios espalhados por todo o território nacional, conferindo, portanto, uma ampla capilaridade. Esta é uma característica fundamental para a disseminação da mediação, tornando os métodos de resolução de conflitos mais acessíveis a parte da população que não está presente nos grandes centros145.

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64 de fácil acesso a respeito dos custos, dos riscos que envolve o procedimento e, também, do tempo demandado para resolver o conflito147.

No que se refere aos custos destaca-se que também podem ser uma questão para os notários e registradores, uma vez que a forma de cobrança pode não refletir as horas de trabalho e os custos demandados quando se tratar de casos complexos148. Quanto a isso, Pinheiro pontua que:

O risco enfrentado, o preparo exigido, o tempo necessário e o custo demandado, quando comparados à remuneração ajustada pelo CNJ, não incentiva os tabeliães a terem interesse em qualificar-se e a seus prepostos, tendo em vista o baixo número de cadastros efetuados desde a edição do provimento. Talvez uma revisão na questão da remuneração pudesse fazer com que mais notários cadastrem e, assim, todo o potencial de diminuir o número de demandas que chegam ao poder judiciário149.

Em contato com alguns cartórios, verificamos que o processo de estruturação ainda é lento. O Cartório Colorado, 8º Ofício de Registro Civil, Títulos e Documentos, Pessoas Jurídicas do Distrito Federal, que tem como oficial titular Marcus Vinícius Alves Porto, em contato realizado, informou que:

Apesar de o nosso Cartório ter profissionais qualificados, ter espaço voltado para esta prática, não estamos realizando por "falta de demanda". Apesar de existir a permissão legal (Art. 168 e seguintes do CPC), precisávamos do apoio do Tribunal local, detentor de todas as ações (NUPEMEC), o que, infelizmente não é realizado. Assim, pela não efetivação da legislação, por não podermos fazer publicidade em razão de nossa natureza, não temos demanda e, consequentemente, não estamos realizando mediações. De qualquer forma, no início, chegamos a realizar em torno de 40 mediações, tivemos alguns acordos, outros não. Foi bem oportuno praticarmos as técnicas. A experiência foi válida e quem sabe um dia, retomaremos nosso projeto de disseminar o diálogo como forma de pacificação social150

Nesse sentido, o que se observa é que não basta ter apenas a legislação e a estrutura física bem montada. É preciso ter pessoas que busquem desenvolver o procedimento, que esclareçam a importância para o bem-estar coletivo e a obtenção da paz social. Além disso, podemos perceber que esse desenvolvimento dos métodos alternativos de resolução de conflitos precisa do envolvimento de todos os interessados, como os advogados, as partes, a OAB e o próprio judiciário, peças fundamentais para o processo151.

147MELO, Michelly Pereira - Desjudicialização e acesso à justiça: mediação e conciliação nas serventias extrajudiciais, p. 97.

148MELO, Michelly Pereira - Desjudicialização e acesso à justiça: mediação e conciliação nas serventias extrajudiciais, p. 97.

149PINHEIRO, Ygor Ramos Cunha - Arbitragem Notarial, p. 166.

150Contato realizado via e-mail no dia 26 de outubro de 2020 com o 8º Ofício | Registro Civil, Títulos e Documentos, Pessoas Jurídicas, Apostilamento, Mediação | DF.

151MELO, Michelly Pereira - Desjudicialização e acesso à justiça: mediação e conciliação nas serventias extrajudiciais, p. 98.

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65 Em pesquisa, verificamos que o Cartório do 2º Ofício de Nova Mutum registrou a realização de duas sessões de mediação extrajudicial em 2019. De acordo com a tabeliã interina, Velenice Dias:

É com imenso prazer que realizamos nossas duas primeiras sessões de mediação, cujos resultados foram positivos. Sou entusiasta e disseminadora dessa nova forma de resolução de conflitos, pois acredito que, realmente, é a única forma de pacificação social. Nesse procedimento, as partes sentam e conversam, expõem suas versões sobre os fatos, fazem propostas e contrapropostas, e tentam chegar a um acordo, diferentemente do que acontece no processo judicial, em que as partes, na grande maioria das vezes, já vão para as audiências desgastadas152.

Em contato realizado com o 26º Ofício de Notas de São Paulo, que tem como tabelião titular Paulo Roberto Gaiger Ferreira, informou que: “fomos aprovados pelo tribunal para realizar mediação e conciliação extrajudicial. Pretendemos lançar o serviço em julho deste ano. Estamos estruturando o setor”153.

No Estado de Alagoas há quatro cartórios já autorizados pela Corregedoria Geral de Justiça de Alagoas para realização de mediação e conciliação: são eles Tabelionato do Único Ofício de Coqueiro Seco, 2º Cartório de Protesto de Títulos e Letras de Maceió, 2º Serviço Notarial e Registral de Palmeira dos Índios e o Tabelionato do Único Ofício de Santa Luzia do Norte154.

A titular do 2º Cartório de Protesto de Títulos e Letras de Maceió, Karoline Mafra Sarmento Bezerra, afirma que:

A regulamentação abre mais uma porta para a sociedade alagoana resolver seus conflitos de forma mais célere e eficaz, favorecendo as partes e sendo um auxílio para desafogar o Poder Judiciário alagoano. Com essa facilidade, os processos judiciais podem ser evitados e, para o usuário, isso torna-se uma importante alternativa na resolução de conflitos, poupando desgastes emocionais, econômicos e de tempo, gerando assim, agilidade nas questões.

Registra-se também, que a serventia que fornecer o serviço de mediação e conciliação, além dos emolumentos da sessão da mediação, poderão surgir outros emolumentos decorrentes do desdobramento do conflito, como exemplo, a escrituração de bens em caso de partilha de bens, uma vez que realizado o acordo será fornecida via do termo de conciliação ou de mediação a cada uma das partes presentes à sessão, que será considerado documento público com força de título executivo extrajudicial, nos termos do art. 784, IV, do CPC155.

152PORTAL ANOREG MT - Cartório de Nova Mutum realiza duas sessões de mediação durante o

“Cartório Amigo”. 2019.

153Contato realizado em 14 de junho de 2021 via e-mail no 26º Tabelionato de Notas de São Paulo.

154CORREGEDORIA GERAL DA JUSTIÇA DE ALAGOAS - Conciliação e mediação - Listagem pública dos serviços notariais e registrais.

155CORREGEDORIA GERAL DA JUSTIÇA DE ALAGOAS - CGJ estabelece normas para mediação e conciliação em cartórios. 2020.

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66 Portanto, o que podemos perceber é que se trata de um caminho longo que vai sendo construído à medida que a legislação vai se firmando e que as serventias extrajudiciais vão aderindo ao procedimento. Quanto a isso é essencial um estímulo também à adesão e a conscientização por parte dos advogados e das partes, o que faz com que os resultados, embora ainda tímidos, comecem a surgir.

Além disso, quanto ao desenvolvimento do tema:

O Conselho Nacional de Justiça apresentou os resultados de um estudo que evidenciam a importância da atuação dos cartórios para cumprir os objetivos e metas do Poder Judiciário conforme os parâmetros definidos na Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas (ONU).(...)Entre as medidas para desburocratização, está a publicação de provimentos que visam agilizar os serviços praticados pelo Poder Judiciário como o Provimento nº 67, de 2018, que dispõe sobre os procedimentos de conciliação e de mediação nos serviços notariais e de registro do Brasil156.

Por fim, El Debs afirma que se trata de “um tema jurídico-social e filantrópico.

Ora, a mediação e conciliação, além de ser outra forma de acesso à justiça, é forma de proteção da dignidade da pessoa humana”157. Assim, o que percebemos é que há um novo paradigma social que começa a ser construído e difundido, que busca a mediação nas serventias extrajudiciais (menos custosa e célere) em detrimento de um processo judicial (mais caro e moroso).

156COLEGIO NOTARIAL DO BRASIL - CNJ inclui atuação dos cartórios extrajudiciais no cumprimento de metas da Agenda 2030. 2019.

157EL DEBS, Martha; EL DEBS Renata; SILVEIRA, Thiago - Sistema Multiportas - a mediação e a conciliação nos cartórios como instrumento de pacificação social e dignidade humana, p. 205.

A mediação em Portugal

67 5. A mediação em Portugal

5.1. Legislação de mediação portuguesa

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