INOVAÇÃO NAS INOVAÇÕES OU MAIS DO MESMO? O PAPEL DO
2 APOIO À INOVAÇÃO TECNOLÓGICA NO BRASIL
4 DESEMBOLSOS DO BNDES EM ATIVIDADES INOVATIVAS: 2002-2015
Esta seção tem por objetivo analisar o perfil das destinações de recursos do BNDES para o financiamento de atividades inovativas, a partir do momento em que “inovação” adquire uma posição de centralidade em sua política estratégica. Para tanto, foram analisadas as diversas operações do banco voltadas para esse tipo de atividade, ao longo do período compreendido entre os anos de 2002 e 2015.
4.1 Bases de dados
Os dados e as informações aqui utilizados foram solicitados e recebidos por meio do “sistema de acesso à informação” da instituição, e levaram em consideração o conceito amplo de inovação adotado pelo banco, conforme descrito nas seções anteriores. Dessa forma, os projetos avaliados incluem não somente ativida-des tradicionais, tais como modernização de processos por meio da compra de
máquinas e equipamentos e gastos correntes em P&D, mas também apoio a infraestrutura de P&D, inovações em marketing e distribuição, capacitações para as empresas inovarem etc.13
O trabalho concentra-se especialmente nas operações não automáticas (ONAs), diretas ou indiretas.14 Operações automáticas (OAs), por sua menor relevância nos dispêndios inovativos, foram analisadas com um grau menor de detalhamento. A base de dados disponibilizada engloba informações entre 2002 e 201515 e inclui as seguintes variáveis: nome e cadastro nacional de pessoas jurídicas (CNPJ) do cliente, modalidade (direta ou indireta), data de contratação, valor contratado, juros, prazo de carência e de amortização, produto, instrumento financeiro, objetivo e setor do projeto.
A partir do CNPJ dos clientes foi possível identificar sua origem de capital e o número de patentes depositadas. Os indicadores de patentes, que incluem patentes de invenção e modelos de utilidade, foram obtidos a partir da base de microdados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Para identificação da origem de capital, foi utilizada a base de microdados do Censo de Capitais Estrangeiros (CCE), ano-base 2010, disponibilizada pelo Banco Central do Brasil (BCB, 2011). Nesse censo, são obrigadas a prestar informações as seguintes empresas:
• empresas residentes no Brasil, tomadoras de créditos concedidos por não residentes, com saldo devedor na data-base de 31/12/2010 de valor igual ou superior a US$ 1 milhão;
• empresas – inclusive fundos de investimento – com participação direta de não residentes em seu capital social em qualquer valor.
Neste trabalho, uma empresa foi considerada “estrangeira” quando o somatório do poder de voto de todos os estrangeiros equivale a 50% ou mais.16,17
Complementarmente a essas informações, na análise também se utilizou a base total de ONAs, disponível no sítio do BNDES,18 e os resultados da Pintec, cujas cinco edições estão disponíveis no sítio do IBGE.19
13. Para mais detalhes, ver: <https://goo.gl/Qoknfu>. Acesso em: 6 mar. 2017.
14. As informações oriundas dessa base de dados serão denominadas ONA_Inovação, no caso de ONAs, e OA_Inovação, no caso das automáticas.
15. Até 17 de dezembro de 2015, no caso de ONAs.
16. Portanto, há empresas que, mesmo sem a participação de capital estrangeiro, foram identificadas no CCE. Empresas identificadas na base de projetos inovadores das ONAs do BNDES, mas não no CCE, representaram 24,2% do valor contratado.
17. As informações sobre origem de capital apresentam algumas limitações. Por exemplo, uma empresa pertencente a uma subsidiária estrangeira é classificada como empresa nacional. Portanto, a participação estrangeira realizada nessa análise tende a estar subestimada.
18. Disponível em: <https://goo.gl/ZyRrYx>. Acesso em: 6 mar. 2016. 19. Disponível em: <https://goo.gl/fvv8uq>. Acesso em: 6 mar. 2016.
O trabalho trata exclusivamente dos projetos pertencentes aos setores da indústria de transformação, que representam 73,2% dos valores contratados das ONAs direcionadas à inovação no período citado.
4.2 Evolução dos desembolsos do BNDES no apoio à inovação: ONAs
O BNDES vivenciou diversas modificações em seus programas de apoio à inovação na última década, buscando elevar os recursos voltados à atividade. Entre 2002 e 2015, o total de ONAs alcançou a cifra de R$ 219,5 bilhões, sendo que, em média, 6,5% desse montante, ou R$ 14,3 bilhões, foram direcionados a projetos relacio-nados a inovações. Esse percentual, contudo, apresentou modificações importantes ao longo do tempo: até 2009, tais projetos representavam, em média, somente 1,0% dos recursos disponíveis. Em 2010, já é possível observar um crescimento nessa participação, que passa para 4,5%. O salto mais relevante, todavia, ocorre a partir de 2011, quando os projetos inovadores passam a representar mais de 8,0% dos recursos totais, chegando ao pico de 20,8% em 2013.
GRÁFICO 1
Valor contratado das ONAs na indústria de transformação: total e percentual destinado à inovação (Em %) 0 5 10 15 20 25 0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000 30.000 35.000 40.000 45.000 2015 2 2014 2013 2012 2011 2010 2009 2008 2007 2006 2005 2004 1 2003 2002
Total (R$ milhões) Participação: ONA_Inovação / ONA_Total (%) Fonte: BNDES.
Notas: ¹ Em 2004, foram encontradas somente quatro operações, todas no setor de informação e comunicação. ² Dados disponíveis até 17/12/2015.
4.2.1 ONAs por destino dos recursos
Ainda que o valor destinado a projetos inovadores tenha crescido, tanto em termos absolutos quanto em termos proporcionais, o número de empresas atendidas ao
longo do período é restrito: apenas 168 empresas da indústria de transformação, contempladas com recursos financeiros em 362 operações. O valor médio por operação é elevado: R$ 39,5 milhões; entretanto, a maior parte das empresas (125 empresas, ou seja, 74,4% do total) contratou menos de R$ 39 milhões. Cabe ressaltar que, somente entre as empresas industriais de grande porte, a Pintec identificou, entre 2009 e 2011, 1.006 empresas que realizaram dispêndios em atividades inovativas e, dessas, seiscentas receberam algum tipo de apoio governa-mental para inovar. Portanto, os investimentos em inovação realizados no país que foram levados a efeito por meio das ONAs do BNDES alcançaram um percentual ainda limitado de empresas, mesmo se considerando apenas as de grande porte e inovadoras. Além disso, ao longo de todo o período, a concentração de valores foi significativamente elevada: 60% dos recursos, equivalente a R$ 8,5 bilhões, foram contratados tão somente por dez empresas.
Assim como o montante de recursos, o número de empresas atendidas, o número de operações e o valor médio por operação também aumentaram ao longo dos anos, chegando, todos eles, aos níveis máximos em 2013.
TABELA 1
ONA_Inovação: número de operações e empresas beneficiadas por ano
Ano Número de operações Valor médio por opera-ção (R$ milhões) Número de empresas beneficiadas Valor médio por em-presa (R$ milhões)
2002 2 8,7 2 8,7 2003 4 7,8 1 31,4 2004* - - - -2005 2 11,5 2 11,5 2006 8 9,9 7 11,3 2007 15 12,0 11 16,4 2008 16 12,7 13 15,6 2009 17 27,8 15 31,5 2010 25 37,3 18 51,8 2011 37 43,7 17 95,0 2012 46 57,0 29 90,4 2013 86 64,4 54 102,6 2014 69 28,0 46 42,0 2015 35 18,6 21 30,9 Total 362 39,5 168¹ 85,1 Fonte: BNDES.