• Nenhum resultado encontrado

Dificuldades para interação entre laboratórios públicos e empresas

O SETOR PRIVADO

4 ANÁLISE DOS RESULTADOS

4.4 Dificuldades para interação entre laboratórios públicos e empresas

No início da pesquisa, durante a fase das entrevistas, ao falar das dificuldades de realizar parcerias com empresas, os pesquisadores dos laboratórios davam respostas gerais, tais como problemas com a burocracia, com a administração e a falta de tempo para realizar atividades de ensino, pesquisa e, ainda, cuidar dos projetos em parceria. Na tentativa de melhor definir o que os pesquisadores entendiam por burocracia ou problemas administrativos, os seus relatos foram analisados e identi-ficaram-se pontos e aspectos comuns que permitiram classificar as dificuldades em quatro grupos. Esses conjuntos de variáveis foram agrupados, tendo em vista os atores/instituições e seus regramentos jurídicos envolvidos na realização das parcerias.

O primeiro conjunto, aqui denominado de ambiente regulatório (gráfico 12), mostra que a complexidade da legislação que regula as relações entre instituições de pesquisa pública e empresas é considerada dificuldade alta pela maioria dos pesquisadores. De fato, a cooperação entre instituições públicas de pesquisa e empresas não depende apenas da motivação de ambas as partes, embora esta seja fundamental. A interação entre público e privado requer compatibilização de normas que regem a gestão do patrimônio público, com regras específicas de acordo com as normas que regem as empresas. A Lei de Inovação (Lei no 10.973),13 promulgada em 2004, por meio dos seus artigos 4o, 8o e 9o, buscou estabelecer regras para atuação de centros públicos de pesquisa, tanto no estabelecimento de parcerias com empresas quanto na prestação de serviços e na utilização dos seus laboratórios. Entretanto, essa legislação tem que dialogar com outros regramentos, tais como os que definem as formas de contratação, gestão de pessoal e licitações para compra de equipamentos, entre outros (Lei no 8.666/1993, Lei no 8.112/1990, Lei no

12.772/2012 e Lei no 8.691/1993).14

13. As alterações na Lei de Inovação (promovidas pela Lei no 13.243/2016), no âmbito do marco legal de CT&I, buscaram reduzir as dificuldades do ambiente regulatório para inovação. Embora tenha havido avanços no sentido de criar um ambiente regulatório mais apropriado para inovação, a nova legislação carece de regulamentações que permitam a plena efetivação dos objetivos da lei. Para uma análise mais aprofundada sobre as discussões na revisão do marco legal da inovação relacionadas ao Artigo 10 da Lei de Inovação, ver Rauen (2016).

14. Lei no 8.666/1993 institui normas para licitações e contratos da administração pública (disponível em: <https://goo. gl/Ze026W>); Lei no 8.112/1990 dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União (disponível em: <https://goo.gl/f6R3oR>); Lei no 12.772/2012 dispõe sobre a estruturação do plano de carreiras e cargos de magistério federal (disponível em: <https://goo.gl/lO0FnH>); Lei no 8.691/1993 dispõe sobre o plano de carreiras para a área de ciência e tecnologia da administração direta federal (disponível em: <https://goo.gl/oZx1RI>).

GRÁFICO 12

Dificuldades no ambiente regulatório (Em %) 0 20 40 60 80 100 Tempo para aprovação do projeto Complexidade da legislação Processos administrativos Retorno por parte das empresas Liberação de recursos pela empresa Prestação de contas

Baixo Médio Alto

16,5 31,2 33,9 10,7 12,5 11,0 26,8 26,5 40,8 23,2 16,1 25,8 56,7 42,4 25,3 66,1 71,4 63,2

Fonte: Ipea, survey 2015.

Além de ambiente legislativo complexo, que exige ajuste fino entre as normas que regem a atuação de instituições públicas de pesquisa e as normas do direito privado, as instituições e as empresas interessadas em realizar parcerias dependem de interpretações jurídicas sobre aspectos da legislação que não estão bem regula-mentados. Entrevistas realizadas com coordenadores de laboratórios apontam que diferenças nas interpretações jurídicas sobre o mesmo tema têm gerado insegu-rança entre os interessados em realizar parcerias, assim como contribuído para a morosidade na aprovação de projetos em parcerias.15 É de se esperar que, em um ambiente de insegurança jurídica, os procedimentos de gestão e controle dos projetos sejam vistos como dificuldades para processo de interação entre instituições públicas e privadas.

No segundo conjunto de dificuldades, observado no gráfico 13, estão agru-pados itens relacionados aos mecanismos de gestão da universidade. Tempo gasto em contratação e monitoramento das parcerias foram apontados pela maioria dos pesquisadores como de alta dificuldade. Em seguida estão o número e a qualificação de técnicos para administrar os procedimentos de parcerias e a experiência da ICT em operacionalizar parcerias.

15. A pesquisa sobre o tema insegurança jurídica na interação universidade-empresa foi realizada pelas pesquisadoras Cristiane Rauen e Lenita Turchi e será apresentada no capítulo 4.

GRÁFICO 13

Dificuldades com a gestão da universidade (Em %)

Baixo Médio Alto

0 20 40 60 80 100 Experiência da universidade para

operacionalizar parcerias com empresas Número de pessoal administrativo Qualificação da equipe Tempo gasto na contratação e no monitoramento Ausência de departamentos/linhas

de pesquisa atrativos às empresas 51,2 21,1 27,7

17,3 13,3 69,4

23,0 21,8 55,2

21,0 25,0 54,0

30,0 21,1 48,9

Fonte: Ipea, survey 2015.

No conjunto de itens referentes à infraestrutura de pesquisa (gráfico 14), observou-se que os respondentes apontam a quantidade insuficiente de técnicos (61,1%), os problemas para manutenção de equipamentos (43,0%) e o número insuficiente de pesquisadores (27,5%) como de alta dificuldade. A qualificação dos pesquisadores e o estado de conservação dos equipamentos não são vistos pela maioria dos coordenadores de laboratórios como obstáculos para realizar parcerias com empresas.

GRÁFICO 14

Dificuldades com as condições da infraestrutura (Em %)

Baixo Médio Alto

0 20 40 60 80 100 34,4 22,6 43,0 51,6 24,5 23,9 73,0 13,8 13,2 47,6 24,9 27,5 20,4 18,2 61,3

Tamanho da equipe técnica Número de pesquisadores Qualificação dos pesquisadores Estado de conservação dos equipamentos Manutenção dos equipamentos

Fonte: Ipea, survey 2015.

Em relação às empresas parceiras (gráfico 15), grande parte dos coordenadores de laboratórios avalia de forma bastante positiva aspectos referentes ao pagamento do acordado, à comunicação entre pesquisadores e técnicos da empresa e à liberação de recursos em tempo hábil. Normas da empresa para divulgação de conteúdo dos projetos é um aspecto que 33% dos pesquisadores consideram bastante problemático para realizar parcerias.

GRÁFICO 15

Dificuldades com as empresas (Em %)

Baixo Médio Alto

0 20 40 60 80 100

Comunicação entre pesquisadores e empresa Capacitação de equipe da empresa para acompanhamento do projeto Liberação de recursos pela empresa Pagamento do acordado pela empresa Normas da empresa

para divulgação de conteúdo 40,7 25,6 33,7

67,9 20,8 11,3

44,0 29,5 26,5

43,6 29,3 27,1

54,5 31,0 14,4

Fonte: Ipea, survey 2015.

Em síntese, os coordenadores de laboratórios de pesquisa avaliam os aspectos relacionados ao ambiente regulatório como aqueles que representam maiores dificuldades para realização de parcerias. Mais especificamente, a grande maioria dos pesquisadores apontou a complexidade da legislação e o tempo gasto em processos administrativos e para aprovação de projetos como aspectos com alto grau de dificuldade para desenvolvimento de parcerias entre seus laboratórios e as empresas. Em consonância com esses achados, também a maioria dos coordenadores atribuiu alto grau de dificuldade à gestão da universidade em casos tais como o tempo gasto na contratação e no monitoramento das parcerias e a pouca experiência da universidade para fazer a gestão destas. Somam-se a essas dificuldades o número e a qualificação da equipe administrativa para gerir parcerias.

A questão que se coloca a seguir é se essas dificuldades para interagir com empresas seriam influenciadas pelas características dos laboratórios, áreas do conhecimento em que concentram suas atividades ou região em que se encontram. Assim, com o intuito de melhor especificar as dificuldades vivenciadas pelos coordenadores de laboratórios, foram realizados cruzamentos das escalas que medem a intensidade das dificuldades com porte dos laboratórios, a região e as áreas do conhecimento. No gráfico 16, observa-se que a complexidade da legislação é avaliada de forma bastante semelhante por laboratórios com valores diversos. Aqui, tanto coordenadores de laboratórios de menor valor estimado quanto os

de maiores valores avaliam como altas as dificuldades geradas pela complexidade da legislação. O mesmo pode ser observado em relação aos itens que tratam dos processos administrativos e do tempo para aprovação de projetos.

GRÁFICO 16

Dificuldades no ambiente regulatório por valor da infraestrutura

0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 4,5 Tempo para aprovação do projeto Retorno por parte das empresas Liberação de recursos pela empresa Processos administrativos Prestação de contas Complexidade da legislação Acima de R$ 500 mil até R$ 1 milhão

Até R$ 500 mil Acima de R$ 1 milhão até R$ 3 milhões Acima de R$ 5 milhões

Acima de R$ 3 milhões

até R$ 5 milhões Total geral Fonte: Ipea, survey 2015.

O cruzamento das dificuldades colocadas pelo ambiente regulatório por número de pesquisadores (gráfico 17) aponta que, em geral, laboratórios com mais de dez pesquisadores tendem a atribuir médias menores (menor grau de dificuldade) do que os laboratórios com menos pesquisadores. Mesmo assim, a complexidade da legislação, o tempo para aprovação de projetos e os procedimentos administrativos são considerados problemas para as diferentes categorias.

GRÁFICO 17

Dificuldades no ambiente regulatório por número de pesquisadores da infraestrutura

0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 4,5

De seis a dez pesquisadores Até cinco pesquisadores

Total geral Acima de dez pesquisadores

Tempo para aprovação do projeto Retorno por parte das empresas Liberação de recursos pela empresa Processos administrativos Prestação de contas Complexidade da legislação

Fonte: Ipea, survey 2015.

O recorte por área do conhecimento (gráfico 18) mostra que a complexidade da legislação é dificuldade alta para laboratórios de ciências da saúde, exatas e da terra e engenharia, e de média para ciências agrárias e biológicas. Embora não seja possível, neste estudo, explicar as razões dessas diferentes avaliações, é relevante aqui apontar que nenhuma das áreas avaliou como baixas as dificuldades do ambiente regulatório.

GRÁFICO 18

Dificuldades no ambiente regulatório por área do conhecimento da infraestrutura

0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 4,5 Tempo para aprovação do projeto Retorno por parte das empresas Liberação de recursos pela empresa Processos administrativos Prestação de contas Complexidade da legislação Ciências biológicas

Ciências agrárias Ciências da saúde Engenharias

Ciências exatas e

da terra Total geral Fonte: Ipea, survey 2015.

Em suma, esta pesquisa, ao analisar como coordenadores de laboratórios públicos de pesquisa avaliam os benefícios e as dificuldades para a realização de parcerias com empresas, aponta outros condicionantes, além da natureza e das características da infraestrutura de pesquisa, que são relevantes para estimular a interação entre ICTs e empresas. Entre as dimensões que condicionam o sucesso dessas interações estão o arcabouço jurídico que regulamenta as atividades das instituições públicas e sua gestão, assim como a forma como está estruturada a carreira de pesquisador nessas instituições. Buscou-se, na construção de tipologias de dificuldades (ambiente regulatório, gestão das ICTs, condições de funcionamento e características do laboratório), identificar e qualificar o que, nas entrevistas realizadas antes do survey, era definido de forma geral como burocracia. Nesse sentido, o estudo aponta para a análise de temas relacionados à complexidade e às divergências de interpretação das legislações que regulam parcerias entre instituições públicas de pesquisa e empresas.