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Capítulo 3. O ENSINO DA MÚSICA EM ESCOLAS REGULARES DE ENSINO

5.2 DIFICULDADES OBSERVADAS

5.2.2 Desenvolvimento das atividades

Na visão dos professores

Segundo os professores, eles não encontram muitas dificuldades em realizar as atividades em sala, mas, por vezes, reclamam do comportamento dos alunos nas aulas, como foi dito anteriormente. Nesta parte os professores puderam falar especificamente sobre a maneira como os alunos recebem e reagem às atividades propostas pelos professores, e também as dificuldades dos alunos durante realização destas atividades. Segundo o professor João Paulo (A) “Há muita receptividade”. “A receptividade dos alunos é muito boa em todas as atividades que a gente faz”.

Com relação às dificuldades dos alunos em algumas atividades realizadas, segundo o Professor João Paulo (A), o importante é estar sempre buscando atividades “que tenham a ver com a faixa etária” da criança. “A gente vê que eles não têm a capacidade de desenvolver aquilo, então, a gente pára ou põe no nível deles”. O professor ainda prossegue referindo-se a heterogeneidade das turmas, falando da importância do diferente e de se respeitar às diferenças.

Porque temos uma sala heterogenia, onde alguns alunos, talvez algum dia queiram ser músicos, outros que participam, mas, não tem tanto interesse assim, [...] eles como alunos participam normalmente e quando alguns mostram desinteresse eu também não fico muito preocupado justamente por isso, pela naturalidade, eu não cobro desse aluno, deixo que ele fique, e desperte seu interesse naturalmente.

A professora Ângela (B) diz que, em sua opinião, durante as atividades, os alunos,

São participativos, porque a aula tem todo um processo; ela (aula) tem introdução, desenvolvimento e conclusão [...] Essa organização é necessária, pra saberem o que a gente faz, e pra não ficar enjoativo, um dia tocam metalofone, outro dia pau-de- chuva, eu trago instrumentos novos, diferentes.

Ainda na Escola B, quanto às dificuldades dos alunos na realização das atividades, segundo a professora Ângela, “A dificuldade vem dos que vêm de outras escolas que não tiveram iniciação musical, que não tiveram musicalização. [...] eles sentem dificuldade, mas o que são da própria escola não”. Isso se dá ao fato de que os alunos da escola já vêm

desenvolvendo seu contato com a música desde o grupo dois, então não sentem dificuldades quando passam para o Fundamental I (1ª a 4ª séries), pois já vivenciaram muito a música nos grupos de musicalização.

A professora Alice (C) diz que “Os alunos de 1ª e de 2ª série têm muita dificuldade de níveis diferentes”. Ela observa que “na 2ª série eles têm bastante facilidade pra aprender as letras por mais difícil que ela seja, eles aprendem com facilidade”.

Segundo o professor João (A), Com relação aos conteúdos, “Na 1ª e 2ª série eles têm dificuldades em acompanhar o ritmo, repetir ou seguir uma seqüência, na 3ª e 4ª série já é nítido que eles conseguem fazer essas atividades corretamente”.

A professora Kelly (C), relata que a dificuldade provém em diferentes níveis, que ocorre de maneira diferente a depender da turma e que nem todos os alunos têm ou criam dificuldades nas aulas de música.

Ó, da 3ª eles não tem muita dificuldade não, agora, tem duas 4ª séries, tem a 4ª A e a 4ª B, a 4ª B que eu encontro alguma dificuldade porque é uma turma difícil, desde o ano passado quando eles eram terceira série, foram meus alunos também. Eles se acham muito adultos. Então é assim, qualquer coisa para eles é coisa boba, é uma coisa menor, é uma coisa infantil. Eles se acham adultos, então assim, eu tive dificuldades.

Outra dificuldade relatada pela professora Kelly (C), com uma turma de 4ª série, foi durante desenvolvimento das atividades, onde para uma canção foram criados gestos que a acompanhavam,

Por exemplo, no dia das mães mesmo, com a música, os gestos que foram criados por outros professores [...] a música apresentada foi da autoria de outra professora em parceria com outro professor de música, e ela criou gestos, mas não é coreografia, são movimentos, e eles criticaram muito, achando que era muito infantil.

Pode-se perceber, através das observações feitas acima, que os alunos de turmas maiores já estão se tornando pré-adolescentes e acham, por este motivo, que não devem participar de atividades feitas quando eram menores, mas é uma questão de como se coloca para eles. Pode-se observar que esta situação só ocorreu com turmas maiores, de 4ª série, onde os alunos já estão (segundo a professora Kelly da Escola C), “se achando adultos”. Agora isso deve ser observado numa ótica que não são todos os alunos das turmas de 4ª série, são alguns, principalmente meninos, eles ficam preocupados com o que os amigos irão achar e o que as meninas irão pensar, e deixam de fazer as atividades que contenham gestos, expressividade. Isto também tem a ver com a própria sociedade em si e essa questão de se cultuar o machismo, que já começa na infância por separação de cores: azul é de menino, rosa é de menina; por separação de atividades, jogos e brincadeiras, e com relação à dança também, que se expressa na frase da professora Kelly (C), “ela criou gestos, mas, não é coreografia”.

Esta frase implica que existe uma diferença no contexto entre gestos que se utilizam na música e coreografias feitas para as músicas, até onde se diferenciam e se dividem, e até onde se aplica essa diferenciação é difícil de perceber ou saber diferenciar dentro do contexto. Mas segundo a professora Kelly (C), as dificuldades dos alunos referentes às atividades de música, desenvolvidas em sala e com relação aos conteúdos específicos, utilizados durante as aulas, ela diz que existem “Dificuldades” por parte de alguns alunos “porque não tá conseguindo fazer as atividades, mas, são raros”.

Ainda segundo Kelly (C), com relação aos gestos ou dificuldades relacionadas às atividades desenvolvidas, os alunos não gostam,

Só de algumas coisas que assim, de repertório como você colocou, algumas coisas de gestos, porque assim, a nossa sociedade ainda é muito travada, principalmente os meninos né? Pra movimentos, aí que eles ficam com esse discurso de que “é muito bobo”, não sei o quê, mas, no fundo é timidez e vergonha de ta ali se expondo mesmo, mas, no geral, eles participam muito bem das aulas.

A professora Daniela (D) reconhece que é difícil manter os alunos da musicalização (1ª série) atentos durante toda a aula e para isso tem que, por vezes, construir e desenvolver atividades que, segundo ela, chamem a atenção deles:

A gente tem que ter muito tento de saber como a gente vai desenvolver essa atividade pra criança porque assim, ela tem que ser feita de maneira atrativa e que chame a atenção dela (criança), que desperte a curiosidade. [...] Com bastante brincadeiras, histórias e cantigas. Eu gosto muito de usar cantigas folclóricas, então, uma forma de chamar a atenção deles.

Com relação ao desenvolvimento das atividades abordando os conteúdos a professora Daniela (D) diz que:

Na primeira série, na verdade com todos, desde os menorzinhos eu já ponho em contato com instrumentos. Claro que os pequenininhos a gente deixa mais livre, pra eles manusearem e tocarem da forma que eles acham que tem que ser tocados até descobrir o som. Agora Alfa e 1ª série, então a gente já começa a coordenar instrumentos, relacionar cada instrumento à propriedade do som, por exemplo, o que é mais grave, o que é mais agudo, se o som é mais longo, se o som é mais curto, e eles já conseguem distinguir.

Também se pode perceber que nesta escola (D), durante as aulas de música, tem iniciação à teoria e noções de partitura musical, desde as aulas de musicalização, se estendendo aos do Ensino Fundamental. A professora Daniela realiza com os alunos:

Leitura a partir da 1ª série já identifica, apesar de que com os menorzinhos a gente já identifica claves de sol, de fá, e a partir da 1ª série a gente começa a identificar a posição das notas na pauta, aos pouquinhos. Eu tô colocando também aos pouquinhos, trago notas e vou apresentando, deixo que eles tenham curiosidade.

Com relação à preferência dos alunos quanto às atividades desenvolvidas em sala, a professora Daniela (D) considera que:

Bom, é, eu acho que as atividades mais práticas, de canto coral ou com os instrumentos, eles gostam bastante, agora, a gente tem que ter cuidado porque eles

dispersam muito mais rapidamente, então, não basta eles gostarem mais, pois tem mais chance de dispersar. Quando já é uma atividade, por exemplo, uma colagem, uma pintura que é o que eles gostam bastante de fazer, então eles se contêm mais, e sempre que eles estão fazendo alguma coisa assim; de pintar, de escrever, eles estão ouvindo alguma música que tenha haver com aquela atividade que eles estão desenvolvendo.

Nesta frase pode-se perceber que a música é utilizada junto com outras atividades de Artes para que os alunos se comportem melhor, ou passa a ter um valor de pano de fundo atrás de uma atividade desenvolvida. Neste caso, a música complementa outra atividade.

Segundo Kelly, professora da Escola C,

Olhe, a primeira atividade a gente trabalhou assim, com a 3ª e 4ª eu trabalhei, por exemplo, fundamentos dos sons, aí trabalhei altura, o piano, eles adoram quando é pra pegar instrumento. Aí trabalhei gráficos também, gráficos de altura com aquelas bolinhas. É, fazia atividades assim, dei vários modelos com gráficos impressos e executava pra ver, pra eles marcarem, colocarem a ordem da execução, eles adoraram essas atividades assim. Também a parte de timbre levei cds com instrumentos diferentes, pra eles ouvirem, aí pedia pra eles fazerem o desenho do instrumento, então assim, eles participam, eles gostam dessa parte bem prática mesmo. Eles só não gostam quando é pra copiar alguma coisa no quadro, porque a aula tem que ser mias prática mesmo ainda mais que é só de 15 em 15 dias.

Na visão dos alunos

Dentre as atividades desenvolvidas em sala, fora perguntado aos alunos o que mais gostavam de fazer nas aulas de música e eles responderam (Tabela 6):

Tabela 6- Atividades das aulas de música que os alunos (190) mais gostam de fazer nas quatro escolas do estudo.

Atividades que os alunos mais gostam Freqüência Alunos Porcentagem (%)

Cantar Com freqüência 70 36,0

Percepção de sons Com pouca freqüência 21 11,0 Anotar letras de músicas no caderno Raramente 6 3,5 Tocar e experimentar instrumentos musicais Com freqüência 49 25,0 Apreciação musical Com pouca freqüência 35 18,0 Dançar, fazer gestos, coreografar Raramente 9 5,0 Atividades de ritmo (repetição, improvisação) Raramente 4 2,0 Pesquisar sobre obras e compositores Raramente 3 1,5 Desenhar instrumentos musicais Raramente 5 3,0 Apresentar em público Raramente 4 2,0 Teoria musical, partitura, atividades escritas Com pouca freqüência 17 9,0

Não respondeu Raramente 4 2,0

Fonte: dados obtidos através de entrevistas aplicadas a 190 alunos das quatro escolas participantes do estudo.

Dentre as atividades desenvolvidas em sala, fora perguntado aos alunos o que eles não gostavam de fazer nas aulas de música (Tabela 7):

Tabela 7- Atividades da aula de música que os alunos (190) não gostam de realizar.

Atividades que os alunos não gostam Freqüência Alunos Porcentagem (%)

Cantar Com pouca freqüência 5 3,0 Música repetida Raramente 2 1,0 Escrever letras de música Com Freqüência 28 15,0

Desenhar Raramente 4 2,0

Teoria Raramente 1 0,5

Danças, gestos, coreografias Com pouca freqüência 7 4,0 Pesquisar sobre obras e compositores Raramente 1 0,5 Percepção de sons Com pouca freqüência 5 3,0 Não responderam a questão Com muita freqüência 105 55,0

Fonte: dados obtidos através entrevistas aplicadas a 190 alunos das quatro escolas participantes do estudo.

Pode-se perceber, segundo as tabelas mostradas anteriormente, com relação às atividades que os alunos mais gostavam e as que eles menos gostavam de fazer em sala de aula, durante as aulas de música que: segundo os alunos entrevistados, a maioria respondeu que não achavam interessantes atividades de escrever, isso demonstra que eles acham mais interessantes atividades que proporcionam a eles prática e vivência musical mesmo, atividades como: tocar instrumentos, perceber sons, altura, timbre, duração, atividades de ritmos.

Pode-se também observar que 105 alunos (55% dos entrevistados) não responderam a questão. Os outros alunos que não constam em porcentagem nem dentro da tabela em nenhuma atividade são alunos que quando foram perguntados sobre atividades que não gostavam das aulas de música, falaram sobre questões como: comportamento dos colegas (24 alunos, 13%); reclamações do professor em aula (seis alunos, 3, 5%); brigas (nove alunos, 5%) e batuques fora de hora (seis alunos, 3,5%).

Quando se perguntou sobre as atividades das aulas de música que os alunos achavam difícil fazer, eles responderam (Tabela 8):

Tabela 8- Atividades das aulas de música consideradas pelos alunos (190) difíceis de realizar

Atividades em que os alunos sentem dificuldades Freqüência Alunos Porcentagem (%)

Cantar Raramente 2 1,0

Tocar instrumentos de percussão Raramente 1 0,5 Tocar instrumentos melódicos/ harmônicos Com pouca freqüência 10 6,0 Coordenar ritmos corporais Com pouca freqüência 6 3,5 Coordenar ritmo dos instrumentos Raramente 1 0,5 Coordenar ritmo do instrumento com o canto Raramente 2 1,0 Perceber sons (altura, timbre, duração, intensidade) Raramente 4 2,0 Fazer gestos pedidos pela música Com pouca freqüência 10 6,0 Danças, fazer coreografias Raramente 3 1,5 Escrever letras de música (longas) Com freqüência 22 11,0 Imitar ou seguir a música num andamento Raramente 2 1,0

Solfejar Raramente 1 0,5

Desenhar instrumentos musicais Raramente 2 1,0 Decorar músicas Raramente 3 1,5 Notação musical, teoria Raramente 3 1,5

Fonte: dados obtidos através de entrevistas aplicadas a 190 alunos das quatro escolas participantes do estudo.

Não responderam a essa questão 129 alunos (68 %), com relação às dificuldades na realização das atividades das aulas de música, e cinco não souberam responder (3%) e quatro (2%) disseram não lembrar.