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Desenvolvimento e expansão dos direitos da propriedade intelectual

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CAPÍTULO 1 A CRISE DA PROPRIEDADE INTELECTUAL EM FACE DAS

1.2 Compreendendo a propriedade intelectual

1.2.2 Panorama histórico

1.2.2.2 Desenvolvimento e expansão dos direitos da propriedade intelectual

Como qualquer direito, não se espera que este permaneça imutável. Insta salientar que é mais interessante analisar a expansão do instituto da propriedade intelectual como um todo ao invés da expansão una dos direitos autorais, haja vista que, os direitos autorais e a propriedade industrial apresentam vários pontos de conexão em seus desenvolvimentos históricos.

Mizukami (2007, p. 271) afirma que a propriedade intelectual passou por dois tipos de expansões: territorial e substancial. No surgimento da proteção autoral, por exemplo, esta contemplava apenas autores nacionais. Com o decorrer do tempo, fez-se necessário que esta proteção abarcasse também autores de outras nacionalidades. Assim, tem-se que a expansão territorial deste instituto é marcada por sua internacionalização, que é personificada pela Convenção de Berna de 1886.

99 Tradução livre: A indústria do entretenimento tem um longo histórico de caracterização de suas estratégias de

maximização de lucros como crises existenciais gravíssimas. Eles dizem que se não puderem controlar as impressoras/gravadoras/rádio/TV a cabo/VHS/Internet, irão morrer. A realidade é mais “Se nós não pudermos controlar essas coisas, nós teremos que inventar novas formas de fazer dinheiro e usar menos os modos antigos”. Isto aconteceu várias vezes no passado.

Desde então, mais tratados sobre o assunto foram firmados internacionalmente, dos quais destaca-se o Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights (TRIPS) em 1994 que qual atrela a proteção à propriedade intelectual às normas de comércio internacional. Moncau (2015, p. 62) aponta que:

Referido acordo foi assinado ao fim da Rodada Uruguai, que transformou o antigo GATT na Organização Mundial do Comércio (OMC). Com o atrelamento das agendas de comércio internacional e de propriedade intelectual, a assinatura e implementação do acordo TRIPS tornou-se um dos requisitos para qualquer país ingressar e fazer parte da OMC, de modo que referido acordo é hoje considerado como o padrão mínimo de proteção aos direitos intelectuais.

Nota-se que, assim como no nascimento da propriedade intelectual, a expansão territorial deste instituto também é marcada por questões estritamente econômicas que objetivam atender primariamente os interesses e direitos dos titulares da propriedade intelectual, ficando os direitos dos autores em segundo plano.

Somado ao TRIPS, existem acordos com focos comerciais como o Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA) e o Trans-Pacific Partnership (TPP). Chama-se atenção para o fato de que o ACTA foi aprovado em um contexto de dificuldade dos países “desenvolvidos” em fazer com que os países “periféricos” aprovassem acordos que tornassem a proteção à propriedade intelectual mais rígida:

Diante da dificuldade em aprovar regras mais rígidas de proteção aos direitos intelectuais nos foros multilaterais existentes, os países desenvolvidos, pressionados pela indústria local, têm buscado a expansão do sistema de proteção por meio de tratados bilaterais de comércio ou da formação de novos acordos multilaterais por fora do sistema vigente (MONCAU, 2015, p. 61).

Insta salientar que estratégia semelhante foi adotada para aprovação do TPP, do qual o Brasil não é signatário. Todavia, caso aprovado, este tratado é capaz de influenciar também o contexto intelectual nacional e mundial100. No que se diz da expansão da proteção dos conteúdos da propriedade intelectual, tem-se que o processo de “gato e rato” descrito anteriormente foi decisivo para a maximização destes direitos.

Olhar para o direito internacional, entretanto, dá uma idéia por demais ordenada dos impactos tecnológicos que podem ser observados nos regimes de direito de autor. A expansão se deu de forma pouco suave, com noções de autoria, obra, distribuição, reprodução etc., sendo criadas artificialmente, e direitos nem sempre acomodados de forma coerente às legislações (...) na maior parte das vezes os movimentos de expansão substancial dos direitos autorais foram motivados em função das estruturas do mercado cultural, e não em razão de um reconhecimento da necessidade de proteção do gênio do autor (MIZUKAMI, 2007, p. 277).

100 TREVISAN, Claudia. A TPP vai mudar o sistema mundial de comércio. Disponível em

<http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-tpp-vai-mudar-o-sistema-mundial-de-comercio,1779090>. Acesso em 08.11.2015.

Nota-se ainda como o mesmo padrão de expansão substancial, em território nacional, seguiu a tendência internacional, resultando em um direito de autor mais abrangente e duradouro. Em verdade, tem-se que a tendência de expansões protecionistas ainda está longe do fim. Assim, torna-se essencial acompanhar o desenvolvimento da proteção à propriedade intelectual no contexto internacional, de modo que o desenvolvimento do mesmo instituto no contexto doméstico se torne um pouco mais previsível (MONCAU, 2015, p. 65). Mizukami (2007, p. 515) resume as afirmações daqueles que buscam a expansão da proteção dada à propriedade intelectual da seguinte maneira:

O discurso da indústria do conteúdo retoma as fundamentações clássicas da forma como abordadas acima, mas tem inovado com o desenvolvimento de uma fundamentação utilitarista ex post criação, de modo a justificar o aumento na duração de direitos autorais e a concessão de proteção a travas tecnológicas para preservar a escassez artificial dos bens intelectuais em ambiente digital. A indústria, ainda, insiste em reduzir todo o universo da produção cultural ao que é produzido no modelo industrial, seguindo-se a configuração mercado/exclusão, como se o que fosse produzido conforme outros modelos não fosse cultura, ou sequer existisse. Há, ainda, por parte da indústria, a defesa dos direitos de propriedade intelectual como se fossem valores absolutos, e recurso a produção normativa extra-estatal a partir de advertências de direito autoral que propagam interpretações contra legem dos direitos em jogo. Essas interpretações acabam sendo incorporadas ao discurso jurídico e popular por repetição.

Nota-se como aqueles que desejam a expansão da proteção tem empregado o discurso utilitarista para arguir que a única forma de estimular o autor a criar é através da proteção concedida pela propriedade intelectual. Todavia, como já argumentado anteriormente, não existem estudos que comprovem a veracidade desta afirmação. A sensibilidade deste argumento fica ainda mais evidente se for analisado por exemplo, o modelo de negócio no qual se funda o streaming.

Serviços como Spotify101 e Deezer102 vem sendo bastante questionados no cenário atual em vista da distribuição que fazem dos valores que são arrecadados em seus serviços. A discussão a respeito de que forma é feita a divisão destas receitas se torna relevante se for

101 “Spotify é um serviço de música comercial em streaming, podcasts e vídeo comercial que fornece conteúdo

provido de restrição de gestão de direitos digitais de gravadoras e empresas de mídia, incluindo a BBC, Sony, EMI, Warner Music Group e Universal. As músicas podem ser navegadas ou pesquisadas por artista, álbum, gênero, lista de reprodução ou gravadora. As assinaturas pagas "Premium" removem anúncios, melhora a qualidade do áudio e permite aos usuários baixar músicas para ouvir off-line” (WIKIPEDIA. Spotify. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Spotify>. Acesso em 08.08.2015).

102 “Deezer é um site de streaming musical pago que oferece uma experiência intensa e personalizada para todo o

mundo numa forma ilimitada, seja via web ou por aplicativos em Smartphones e tablets. Foi criado na França em junho de 2007 pelo hacker Daniel Marhely, de apenas 20 anos. O Deezer já é líder na Europa com mais de 26 milhões de usuários e está disponível em 182 países” (WIKIPEDIA. Deezer. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Deezer>. Acesso em 08.08.2015).

considerado que, atualmente, os serviços de streaming são uma das principais – se não a principal – forma de comercialização de músicas.

Em 2014, a receita com serviços de streaming de assinatura como Rdio e Spotify e de rádio como Pandora aumentou 29% e chegou a US$ 1,87 bilhão de dólares só nos Estados Unidos. Em comparação, a receita com a venda de CDs caiu 12,7% de 2013 para 2014 e ficou em US$ 1,85 bilhão. E não são apenas as vendas físicas que estão em crise: os downloads digitais, até pouco tempo considerados a salvação da indústria, atingiram seu pico em 2012 e vem caindo desde então. De 2013 para 2014, a queda foi de 8,7%, para US$ 2,58 bilhões (CALEIRO, 2015).

Estes dados estão totalmente de acordo com a ofensiva adotada atualmente pela indústria detentora de propriedade intelectual: como visto anteriormente, o foco tem sido o bloqueio de sites e rompimento da neutralidade da rede, não mais focando em processos judiciais em face de plataformas p2p ou usuários que fazem download de músicas.

Assim, em pesquisa recente, a empresa de consultoria Ernst & Young revelou que mais de 45% do valor pago por assinantes do Spotify e do Deezer fica com as gravadoras. Enquanto isso, os intérpretes não chegaram a receber 7% do valor. Os autores (letristas) – junto às suas editoras – ficaram com 10% e as próprias plataformas com quase 21%. Em vista disto, torna- se essencial questionar: a quem serve, atualmente, a proteção fornecida pela propriedade intelectual? Não é válido resumir esta questão apenas à problemática do streaming, sendo este caso apenas um exemplo da forma pela qual a propriedade intelectual tem se desenvolvido, desde o seu nascimento: como visto no panorama histórico, nem em seu surgimento o direito autoral visava proteger o autor, mas sim a Coroa e o editor (livreiro).

O mesmo padrão é observado no desenvolvimento internacional deste instituto, totalmente movido por interesses econômicos e em contextos nos quais os autores (verdadeiros criadores das obras) são deixados em segundo plano. Isto fica evidente quando se observa, por exemplo, quais são as empresas que compõe os quadros de associações como MPAA e RIAA: Walt Disney, Sony Pictures, Paramount Pictures, 20th Century Fox, Universal Studios, Warner Bros, BMG, MTV, Universal Records.

Todas estas são empresas que, por natureza, não são criadoras de conteúdo, mas sim adquirentes de direitos autorais alheios através de contratos de cessão e licença de direitos autorais. Por vezes tais contratos podem ser abusivos, de forma que os criadores cedem ou licenciam mais do que poderiam ou deveriam, abrindo mão da arrecadação de receitas oriundas de serviços streaming, por exemplo, o que ocasiona na distribuição discrepante das receitas destes serviços, no qual aquele que cria recebe menos receita do que aquele que distribui suas obras.

Em vista disto é que a representante do Partido Pirata103 na União Europeia, Julia Reda, propõe que as próximas reformas das leis autorais abarquem proibições contra contratos com cláusulas abusivas que dizem respeito a cessão ou licença dos direitos autorais dos criadores104.

Conclui-se que, no que se diz da expansão das proteções da propriedade intelectual, (i) esta continua privilegiando interesses econômicos, (ii) que geralmente são dos titulares das propriedades intelectuais e não necessariamente dos autores, (iii) autores estes que estão em segundo plano quando se fala em distribuição de receitas arrecadadas por serviços streaming, (iv) que são a principal forma de consumo de conteúdos autorais atualmente.

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