CAPÍTULO 2 A IMPRESSORA 3D
2.4 Possibilidades inauguradas pela impressora 3D
2.4.2 Movimento maker
O movimento maker surgiu oficialmente nos Estados Unidos em meados de 2005 e pode-se dizer que se concretizou em 2007 com a criação da primeira impressora 3D open source, a já citada RepRap, da qual se desenvolveu a popular MakerBot (umas das atuais líderes de mercado no ramo caracterizada pela facilidade e acessibilidade de uso por parte do consumidor comum).
This nascent movement is less than seven years old, but it’s already accelerating as fast as the early days of the PC, where the garage tinkerers who were part of the
170 TERZON, Emilia. Plastic Fantastic: Indigenous community taking to 3D printing to turn plastic waste into
phones cases and sunglasses to boost school attendance. Disponível em <http://www.abc.net.au/news/2015-11- 06/plastic-fantastic-indigenous-community-recycling-plastic-waste/6918498>. Acesso em 20.11.2015.
171 OSKUI, Shirin et. al. Assessing and Reducing the Toxicity of 3D-Printed Parts. Environmental Science and
Technology Letters. vol. 2, nov. 2015.
172 FREITAS, Bruna Castanheira de. Iniciativa quer investigar se impressoras 3d emitem substâncias tóxicas.
Disponível em <http://direitotech.com/2015/05/19/iniciativa-quer-investigar-se-impressoras-3d-emitem-substan cias-toxicas/>. Acesso em 20.11.2015.
Homebrew Computer Club in 1975 created the Apple II, the first consumer desktop computer, which led to desktop computing and the explosion of a new industry (ANDERSON, 2012, p. 32).173
A chegada das impressoras tridimensionais acessíveis no mercado consumidor fez fervilhar no mundo inteiro este movimento, caracterizado por pessoas com vocação para a criação e empreendedorismo e que carregam consigo a filosofia do Do It Yourself (DIY): basicamente, o consumidor também é o criador daquilo que quer utilizar.
O movimento maker é uma extensão tecnológica da cultura "faça-você-mesmo" ou, em inglês, 'do-it-yourself' - DIY. Ele toma como base a ideia de que pessoas comuns podem construir, consertar, modificar e fabricar, com suas próprias mãos, os mais diversos tipos de objetos e projetos de seu interesse. O aumento da facilidade de acesso a ferramentas dos mais variados tipos, somados à explosão de informações sobre tecnologia e técnicas acontecendo na internet, faz com que o movimento maker ganhe cada vez mais força e pessoas envolvidas (BURTET, 2014, p. 34).
Em 18 de junho de 2014, o Presidente Barack Obama promoveu a Primeira Feira Maker da Casa Branca174. Na ocasião, Obama afirmou que o casamento entre tecnologia e acessibilidade tornou possível para qualquer pessoa usar o design de suas ideias e fazer um produto. Ainda, anunciou medidas da sua administração que dariam a mais norte-americanos, jovens e idosos, acesso às ferramentas e técnicas para executarem suas ideias. Inclusive, o presidente norte-americano já havia declarado em 2013 seu apoio ao desenvolvimento da impressão 3D que, nas palavras dele, “é uma tecnologia com potencial para revolucionar a forma como as pessoas produzem praticamente tudo”.175
Além das impressoras 3D, as cortadoras a laser e os scanners 3D são as principais ferramentas dos makers. Elas estão presentes nos makerspaces que ganham espaço também no Brasil, e disponibilizam a quem quiser um espaço para a prática do DIY, incentivando o empreendedorismo e criatividade local. É interessante fazer uma distinção entre os espaços que proporcionam ferramentas para que o usuário faça seus próprios objetos: Hackerspace, Makerspace, TechShop e FabLab.176 A respeito da diferença entre hackerspace e makerspace:
173 Tradução livre: Esse movimento nascente tem menos de sete anos de idade, mas já está acelerando tão rápido
quanto os primeiros dias do computador, onde os inventores de garagem que eram parte do Homebrew Computer
Club em 1975 criaram o Apple II, o primeiro computador para consumidores, que levou para a computação desktop
e a explosão de uma nova indústria.
174 President Obama to Host First-Ever White House Maker Faire. Disponível em <http://www.whitehouse.gov/
the-press-office/2014/06/18/fact-sheet-president-obama-host-first-ever-white-house-maker-faire>. Acesso em 20.11.2015.
175 GROSS, Doug. Obama's speech highlights rise of 3-D printing. Disponível em <http://edition.cnn.com/
2013/02/13/tech/innovation/obama-3d-printing/>. Acesso em 20.11.2015.
176 “Diferenças entre hackerspaces e makerspaces não são claras ou consensuais, e muitos envolvidos não fazem
Recentemente, a denominação “makerspace” tem ganhado força, especialmente nos Estados Unidos. Embora seja muitas vezes vista como um sinônimo para hackerspace, a mudança de nome é um indicativo de uma inclinação maior a associações com a emergente cultura maker e DIY em detrimento de uma cultura estritamente hacker (MATTOS, 2014, p. 63).
O termo “makerspace” não existia até a criação da revista MAKE Maganize, em 2005. Inclusive, ele só se tornou popular em 2011, quando Dale Dougherty (criador da revista) registrou o domínio “makerspace.com” na internet e começou a usá-lo para se referir a espaços públicos e acessíveis para criar objetos. Cavalcanti (2013) salienta que esses espaços se desenvolveram de forma que atualmente já não guardam relação com a revista, sendo centros onde a prática do DIY encontra seu principal objetivo.
Fato é que os hackerspaces e makerspaces guardam inegáveis semelhanças entre si. Inclusive, os primeiros makerspaces eram entendidos como hackerspaces. Dale Dougherty comenta que sua revista iria se chamar “HACK”, todavia como o termo “hacker” ainda hoje é estigmatizado177, optou por usar a palavra “make” (em português, “fazer”) que é mais propícia para a identificação do público em geral.
Um hackerspace nasce da cultura hacker178, possuindo forte caráter ideológico: “Hackerspace: espaços hackers, nos quais entusiastas por tecnologia e conhecimento, que compartilham a crença de que o conhecimento é um direito básico e universal, se encontram para trocar ideias e incentivas a concretização de projetos” (BURTET, 2014, p. 17). Por serem espaços mais focados nas questões relativas à informação e software, talvez se difiram dos makerspaces aí também, já que estes últimos priorizam trabalhar com objetos físicos e hardware. Os TechShop e FabLabs em muito se diferem:
TechShop é uma rede estadunidense de oficinas e estúdios de prototipagem e DIY baseado na filiação de membros e que fornece uma ampla gama de ferramentas, equipamentos, recursos e espaço de trabalho. É um empreendimento com marca registrada e fins lucrativos iniciado em 2006 na Califórnia e atualmente conta com seis espaços estabelecidos em todo o país (...) o fato se tratar de um empreendimento comercial - que se compromete no oferecimento de serviços específicos em troca de retorno financeiro - marca uma clara e forte distinção com os hackerspaces que são na sua maioria geridos pela própria comunidade em prol do bem comum (MATTOS, 2014, p. 63).
177 “Os hackers não são o que a mídia diz que são. Não são uns irresponsáveis viciados em computador
empenhados em quebrar códigos, penetrar em sistemas ilegalmente, ou criar o caos no tráfego dos computadores. Os que se comportam assim são chamados de "crackers", e em geral são rejeitados pela cultura hacker, embora eu pessoalmente considere que, em termos analíticos, os crackers e outros ciber-tipos são subculturas de um universo hacker muito mais vasto e, via de regra, não destrutivos” (CASTELLS, 2003, p. 38).
178 “A cultura hacker, a meu ver, diz respeito ao conjunto de valores e crenças que emergiu das redes de
programadores de computador que interagiam on-line em torno de sua colaboração em projetos autonomamente definidos de programação criativa” (CASTELLS, 2003, p. 39); e “Em geral, na matriz do pensamento hacker está enraizada a ideia de que as informações, inclusive o conhecimento, não devem ser propriedade de ninguém, e, mesmo se forem, a cópia de informações não agride ninguém dada a natureza intangível dos dados” (SILVEIRA, 2010, p. 34).
Assim, o fim lucrativo da rede TechShop é bastante visível, algo inexistente nos FabLabs. Estes são criação fruto do Center for Bits and Atoms (CBA) do MIT que já em 2007 publicou uma carta contendo os princípios de um FabLab. Em 2009 fundou a FabFoundation. A carta, conhecida como “The Fab Charter”179, foi reestruturada em 2012 e hoje tem como
pontos principais o fato de estabelecer o FabLab como um espaço gratuito (que pode receber auxílio) e aberto ao público (ao menos uma parte da semana). Ainda, deve o FabLab ter o compartilhamento de ferramentas e processos de forma que uma participação ativa dos usuários do espaço seja realizada.
Mattos (2014, p. 65) ressalta que “como os hackerspaces, os FabLabs (...) se apoiam nos mecanismos de trabalho colaborativo. Neles são favorecidas e encorajadas as trocas entre pares (peer-to-peer), a colaboração, a cooperação, a interdisciplinaridade, o compartilhamento e a aprendizagem através da prática”. Ainda, sobre a diferença entre FabLabs e hackerspaces, afirma a autora:
É notória a diferença entre Fab Labs e hackerspaces no aspecto organizacional e ideológico. O movimento dos hackerspaces se organiza de baixo para cima (bottom- up), com locais criados e geridos pela própria comunidade enquanto os Fab Labs são uma iniciativa de cima pra baixo (top-down), nascida no meio acadêmico do MIT. Os Fab Labs tendem a ser espaços com hierarquia, regras claras e uma maior burocracia do que os hackerspaces, embora ambos dividam valores de democratização do conhecimento tecnológico, a valorização do compartilhamento de informações e a experiência prática especulativa para aprendizagem e inovação (MATTOS, 2014, p. 67).
Assim, devido ao fato dos FabLabs terem nascido a partir do trabalho do MIT, obedecerem a uma hierarquia (sistema “top-down”) e possuírem ligações com a FabFoundation é que se diz que eles tanto se diferem de espaços como os makerspaces e hackerspaces, que tiveram um desenvolvimento descentralizado e heterogêneo (sistema “bottom-up”). Apenas os espaços que seguem os princípios do The Fab Charter é que podem se nomear “FabLab”.
Em meio a esta diversidade é que se desenvolveu e tem se desenvolvido a cultura maker. A progressiva concretização deste movimento no Brasil incentiva e propaga a impressão 3D entre profissionais como designers, engenheiros e outros, além de incentivar o hobby da criação. Ainda, faz com que esta tecnologia se torne mais acessível ao consumidor (e agora criador) médio, através de workshops oferecidos pelos próprios makers.
Importante observar que à medida em que a tecnologia da impressão tridimensional se torna acessível (tanto economicamente quanto tecnicamente), mais pessoas a adquirirem, e no mesmo sentido, mais arquivos STL são criados e, principalmente, compartilhados na rede. Toda
esta ideologia está de acordo com a do movimento open source que foi fortificado em torno da primeira impressora 3D acessível, a RepRap. Este movimento pró-acessibilidade da impressora, como visto, foi essencial para que o método FDM decolasse no mercado popular.
Vale dizer que igual a qualquer arquivo no computador, o arquivo STL também pode ser compartilhado na internet. E em vista disso é que surgiram inúmeros fóruns online (como o Thingiverse, Shapeways e o brasileiro Designoteca) que servem como plataformas para que seus usuários compartilhem suas criações digitais. Estas podem ser baixadas e impressas por qualquer outro usuário que também possua uma impressora 3D.
Assim, os makers podem baixar o design alheio e o melhorar ou modificar, remixando os objetos físicos e ampliando as possibilidades de desenvolvimento e adaptação das obras. Cria-se assim um ecossistema online de constantes renovações e compartilhamento, com reflexos diretos no mundo dos átomos, vez que todas estas criações que sofrem mutações no mundo digital são transportadas para o meio físico através da impressão: “3D printing technologies will make Makers, consumers, and small companies into ants with factories (LIPSON; KURMAN, 2013, p. 47).180
Assim, os makers são agentes essenciais para a propagação da tecnologia da impressora 3D, e são figuras criadas graças ao advento desta tecnologia. Todavia, importante ressaltar que não são apenas os makers os agentes capazes de desfrutar da tecnologia da impressora 3D, haja vista que por esta cada vez se tornar mais acessível e encontrar o apoio dos makerspaces para vencer barreiras técnicas, qualquer um poderá se tornar um criador individual, na privacidade de sua casa.
Assim, os makers e “usuários comuns” possuem um interessante valor devido ao fato de serem consumidores e produtores constantes do ecossistema criativo, fundamentando um cenário inovador em que qualquer um que busque por conhecimentos técnicos mínimos também se torne um criador, maker, trazendo assim a possibilidade de manufatura mais próxima ao homem médio.