CONTEXTUALIZAÇÃO DA PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA E A FORMAÇÃO DE TÉCNICOS EM AGROPECUÁRIA
1.7 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E AGROECOLOGIA
O modelo de desenvolvimento rural aplicado ao Brasil e Argentina e grande parte da América Latina, desde os anos 1960, tem como base uso intensivo de agroquímicos, maquinários e técnicas com forte potencial de impacto ao ambiente e à saúde das pessoas. Este modelo tem origem na histórica presença da grande propriedade, desconsiderando as pessoas que sobrevivem da agricultura familiar e sem acesso à terra. Esse modelo de desenvolvimento resulta da manutenção de estrutura fundiária e das riquezas geradas no campo centrado nas mãos de pequena parcela da população, com grande contingente vivendo na linha da pobreza, enfim, que gera muitas formas de desigualdades sociais.
Cavalcante (2009), ao discorrer sobre o tema ‘injustiça socioambiental’, defende que um novo paradigma do desenvolvimento rural deve ser estabelecido, refletido, ou melhor, sobreposto por um ‘paradigma agroecológico’: “onde a visão da agricultura ultrapassa a simples técnica de produção e abraça a concepção de relacionamento com a terra, com as pessoas que dela vivem e com os grupos que nela atuam (...)”. (CAVALCANTE, 2009, p. 21).
A implantação de um projeto agroecológico em uma comunidade deve estar alicerçada na solidariedade de todos os sujeitos envolvidos, no desenvolvimento sustentável local endógeno, na distribuição de riqueza e recursos naturais, na proteção à vida, na soberania alimentar, perpassando não simplesmente a questão da produção agrícola e do desenvolvimento econômico, para a do desenvolvimento social e cultural das pessoas.
Para Caporal (2009), para o desenvolvimento agroecológico, tem que haver também ações e suporte que visem o fortalecimento da agricultura de base familiar, com alterações na estrutura fundiária; na emancipação financeira e retirada da esfera da pobreza milhares de pessoas no campo que estão longe de apresentar sequer um nível de produção de subsistência.
Constituir a agroecologia como modelo de desenvolvimento sustentável requer ações sociais, culturais e políticas específicas para o meio rural, como educação, assistência técnica, extensão rural, infraestrutura básica, uso racional dos recursos naturais, recuperação de áreas degradas, dentre outros. De acordo com Casado et al. (2000), a agroecologia dá aos elementos e agentes sociais, culturais, econômicos locais “por serem portadores de um potencial endógeno” o poder na tomada de soluções e execução de ações que denotem um caminho de desenvolvimento socialmente mais justo e ecologicamente menos exploratório. Desenvolvimento esse capaz de ocorrer somente em um contexto de desenvolvimento familiar, e não empresarial e capitalista.
A parceria entre a Agroecologia e a Pedagogia da Alternância, analisando como ambos são voltados para princípios semelhantes, é um fator fundamental para as mudanças sólidas necessárias à transição do modelo de produção no meio rural para as tecnologias notadamente agroecológicas. Por essa concepção é que, no que se refere aos pilares dos CEFFAs, como visto anteriormente, se tem o desenvolvimento sustentável e solidário do meio como uma das finalidades das escolas de alternância.
Verifica-se em Moreira e Carmo (2004) que o termo agroecologia foi usado, pela primeira, vez pelo russo Basil Bensin36 em 1928. Estes estudiosos que o sucederam foram dando o tratamento científico ao conhecimento agroecológico, resgatando e conservando os saberes tradicionais, que aos poucos vinham sendo substituídos pelos modelos ditos modernos.
Caporal (2009) reforça que enquanto ciência houve a preocupação de transformar em objeto de estudo todo o saber agrícola tradicional que se acumulou entre as famílias
agricultoras, em uma lógica de conhecer, praticar, melhorar tecnicamente, avaliar e gerar novas aprendizagens para o meio rural.
Com isso foram sendo validadas as técnicas agroecológicas e sua potencialidade para a sobrevivência da agricultura familiar. Além disso, para a sustentabilidade do modelo, associou a questão produtiva ao fortalecimento social e político das comunidades rurais e sua organização para o desenvolvimento endógeno.
Hoje, a agroecologia é um modelo para o desenvolvimento social e econômico, visando a proteção e produção das culturas agrícolas no que se refere à exploração e ao esgotamento dos recursos da natureza, o fortalecimento democrático e endógeno das famílias e comunidades, o bem estar coletivo e a busca e resgate de técnicas alternativas de produção. Em detrimento a isso, o saber e a prática produtiva, tanto agrícola quanto industrial, seguiram outras tendências, voltadas para o acúmulo de capital e evolução econômica que o capitalismo propunha. Como consequência deste modelo, ocorreu o esgotamento excessivo dos recursos naturais, o impacto ambiental por conta do uso de técnicas agressivas ao ambiente e a vida das pessoas, além da intensa concentração de riquezas nas mãos de poucos.
Conforme Moreira e Carmo (2004), ao longo dos tempos, a evolução das ciências provocou a fragmentação do saber, em prol das especializações das pesquisas. No campo, esse processo fez com que houvesse diferentes patamares de evolução entre o social, o ambiental e o conhecimento técnico. Assim, o desenvolvimento foi encarado tão somente como o crescimento da produção e da circulação de bens, mesmo que, na verdade, o social estivesse estagnado ou em franco retrocesso. Em outras palavras, as ciências centraram-se somente na evolução das técnicas de produção, com avanço no volume de produtos comercializados, enquanto que nas questões sociais ocorreu o esvaziamento do espaço rural, o êxodo das famílias que não se ajustavam ao sistema, a expansão da grande propriedade, o grande impacto e a instabilidade nos agrossistemas (CARMO, 1996).
Um exemplo destas transformações foi a Revolução Verde, que no caso brasileiro e argentino, a partir de 1960 levou para o campo a técnica de produção industrial, com intenso uso de maquinários e produtos agroquímicos (MOREIRA e CARMO, 2004). Esta transição para a agricultura industrial demandou um alto custo, o que fez com que muitas famílias ficassem fora do processo e não se inserindo nesta transformação. Esses produtores não tiveram a mesma capacidade de produção daqueles que puderam se inserir nas tranformações.
Para Calvalcante (2009), o processo de modernização da agricultura fez criar uma injustiça ambiental, ou seja, recaíam sobre as populações mais humildes de trabalhadores rurais, as consequências diretas da exploração intensiva dos recursos do meio rural, bem como as relacionadas com a adoção das técnicas advindas da revolução verde.
Para Moreira e Carmo (2004), os conceitos científicos e conhecimentos acumulados, foram assimilados e difundidos por ambientalistas que buscavam alternativas ao crescimento da agricultura industrial, acelerado pela Revolução Verde. As idéias construídas pelos movimentos ambientais, já nesta época, apontavam preocupações de se construir uma agricultura realmente sustentável. Assim, apontaram a necessidade de conservação da fertilidade do solo, de se recuperar e manter os mananciais, garantir a permanência e existência de vida silvestre e a restauração de vidas ameaçadas de extinção e dos ecossistemas naturais e, ao mesmo tempo, garantir a segurança alimentar. Para Carmo (1996), o modelo insdustrial de agricultura reforçou a injustiça social que vigorava desde o processo colonial, de concentração de terras nas mãos de poucos, na fome e miséira do camponês brasileiro. Na cidade, a migração provocou o crescimento descontrolado e o caos urbano e social.
A partir de 1970, segundo Gliessman (2001), os conhecimentos da ecologia passaram a ser valorizados como ciência integradora no estabelecimento de novo modelo de produção agropecuária. Por isso as práticas agroecológicas começaram a se valer da preocupação com a
aplicação direta de seus princípios, não só na agricultura, mas também na organização social e no estabelecimento de novas formas de relação entre a sociedade e natureza.
A agroecologia demanda conhecimentos de diversas fontes, desde o conhecimento empírico das famílias e comunidades rurais, como conceitos de outras ciências, como as racionalidades ecológicas advindas da antropologia, fundamentais para a fundamentação de uma agricultura mais sadia ao ambiente e a vida das pessoas (CAPORAL, 2009).
De acordo com Casado et al. (2000), essa preocupação ocorre pela necessidade de se responder à intensa industrialização da agricultura nos últimos 30 anos, com a expansão da Revolução Verde pelo mundo e o forte impacto ambiental e social deflagrado por uma produção econômica capitalista com uso intensivo dos recursos naturais. Se por um lado a Revolução Verde realmente aumentou a oferta de alimentos no mundo, da mesma forma ela acelerou as trocas comerciais entre o campo e a cidade e fortaleceu o processo industrial. Em contrapartida, não garantiu o fim da fome no mundo e avançou na concentração de renda no campo (CAPORAL, 2009).
A partir das discussões e proposições da Comissão Mundial para o Desenvolvimento e Meio Ambiente (CMMAD), em 1970, surgiu o termo “agricultura sustentável”, que na análise de Altieri (1989) refere-se ao processo de produção agropecuária com manejo ecologicamente adequados à realidade físico-natural do espaço, conservando a saúde daquele ambiente e das pessoas que lá vivem.
Atualmente as estratégias de Desenvolvimento que predominam estão atreladas ao fomento das indústrias, crescente consumo na cidade, e contínua vinculação dos meios de produção no campo a fatores exógenos. Para Casado et al. (2000), esse processo se caracteriza pela industrialização da agricultura e não oferece respostas substanciais aos problemas ambientais, sociais e estruturais do meio rural. Em contraponto, para os autores, os princípios para a implantação de um Desenvolvimento Rural de Base Agroecológica são os seguintes:
- Integridade: o manejo dos recursos naturais, humanos, econômicos necessários ao processo, presentes na região, devem ser aproveitados racionalmente no seu limite máximo disponível no ambiente onde se faz implantação de um projeto agroecológico. Em outras palavras, ter aproveitamento endógeno dos recursos existentes para minimizar intervenções externas, facilitando a adaptação do projeto à realidade social e ambiental.
- Harmonia e equilíbrio: deve haver equilíbrio entre a exploração dos recursos naturais, a produção econômica, a disponibilidade de recursos financeiros e a qualidade de vida e do meio ambiente.
- Autonomia de controle e gestão sendo exercida pela população local, garantindo poder de decisão e neutralidade de interferências externas que possam tirar o poder de decisão dos produtores, permitindo intervenções somente de fatores que venham a fortalecer o projeto. - Constituição e manutenção de circuitos curtos de comercialização, permitindo controle dos envolvidos no processo de retorno financeiro. A conquista dos mercados externos são decisões do processo e não da intervenção externa.
- Conhecimento local interagindo com as bases científicas propícias as técnicas agroecológicas.
- Pluriatividade: atividades agrícolas e não agrícolas integradas entre si e controladas pelo agricultor. Isso minimiza perdas, garante a subsistência do agricultor e diminui a dependência da unidade de produção a fatores externos.
Esses princípios podem ser aplicados de forma diferente em cada unidade de produção, ou seja, sendo distinto na realidade micro, mas que possuem um parâmetro macro
no que se refere ao espaço comunitário. Como se lê na passagem abaixo, uma dinâmica de crescimento endógeno, porém, heterogêneo:
“O Desenvolvimento Endógeno é o ingrediente fundamental dessa estratégia, pois parte da valorização dos recursos e processos locais mediante a participação ativa dos habitantes na gestão e controle e do desenvolvimento, como forma de recriar a heterogeneidade no meio rural e de criar soluções tecnológicas específicas para cada agrossistema”. (CASADO et al., 2000).
1.8 - CONCLUSÕES
A pedagogia da Alternância nasceu em um contexto histórico da agricultura familiar francesa, e buscava-se solução para a questão relacionada à formação dos jovens rurais, que estavam migrando para a cidade em busca de escolas secundárias.
Como ‘pano de fundo’ para tais questões, havia o desinteresse do estado para as atividades agrícolas dessas famílias, refletindo, assim, na ausência de ações políticas para essa categoria, principalmente no que se refere à educação do campo.
As famílias e seus filhos não queriam tão somente uma escola convencional, descontextualizada de suas realidades, pois estas levavam os estudantes ao ‘fracasso escolar’, ao ensinar o que não tinha aplicação para aquela realidade. Identificava-se a necessidade de que ensinassem os saberes gerais para a vida e que atendesse as especificidades profissionais das atividades agrícolas desenvolvidas na comunidade. A busca de uma escola que não existia, a necessidade em resolver o problema, o enfrentamento desse problema pelas famílias, e uma ideia simples, fez surgir uma nova pedagogia.
A proposta se solidificou, criaram-se objetivos para a formação, ferramentas pedagógicas, metodologias de funcionamento das escolas e, acima de tudo, obtiveram-se excelentes resultados.
No caso brasileiro e argentino é possível, inicialmente, estabelecer pontos comuns nas questões sociais do campo que foram berço da Pedagogia da Alternância no continente americano. Inicialmente, a questão da agricultura familiar e sua desvalorização frente ao agronegócio, posto que as atenções dos governos de ambos os países buscavam o fortalecimento da agricultura em larga escala, objetivando a industrialização e o mercado externo. Os investimentos em tecnologia, financiamento e incentivos eram absorvidos em sua grande maioria pelos projetos da agricultura empresarial, aumentando ainda mais a distância econômica entre a agricultura familiar e os grandes empreendimentos agrícolas.
Também, em ambos os países, se registrou a presença de uma injusta concentração de recursos e terras na mão de uma parcela muito pequena da população rural. As ações políticas dos governos brasileiro e argentino, por outro lado, em prol da reforma agrária e fortalecimento das atividades agrícolas familiares, se demonstraram insuficientes diante do tamanho do problema social no campo.
Quanto à questão educacional, tal como na França, se observou que inexistiam escolas voltadas a atender a população rural brasileira e argentina para além das séries do antigo primário. De igual forma, os poucos que viam a possibilidade de seus filhos estudarem na cidade, não viam validade para a sua atividade rural a aplicação dos conhecimentos obtidos.
O processo de nascimento e expansão da Pedagogia da Alternância fez surgir um sistema formativo complexo que articula e potencializa os três polos da Teoria Tripolar: heteroformação; ecoformação; e autoformação. Alternando espaços e momentos da aprendizagem com forte vínculo com a família e a comunidade como corresponsáveis pelo processo formativo e pelo funcionamento administrativo da escola.
No que tange a formação, a pedagogia da alternância é compreendida a partir dos três polos da Teoria Tripolar, como visto no texto.
No que se relaciona ao funcionamento das escolas de alternância em si, o funcionamento dessas se explicam nos quatro pilares dos CEFFAS: a associação local, com a corresponsabilidade dos pais sobre as questões administrativas e pedagógicas; a Pedagogia da Alternância como processo formativo; a formação integral, humana e profissional dos estudantes (focando a sua realidade social, cultural e econômica); e como culminância o
desenvolvimento sustentável solidário do meio focado na formação do técnico em agropecuária e na agroecologia.
Relacionando o tema do desenvolvimento rural de base agroecológica e a Pedagogia da Alternância, percebe-se interações evidentes. Verifica-se que ambos os processos (de transição agroecológica e de implantação de uma escola de alternância) devem ser desencadeados por uma organização da comunidade, em fórum, associação, onde a população manifesta seus interesses e toma decisões a partir do consenso da maioria. Essa organização reforça a autonomia endógena da comunidade, minimizando intervenções negativas oriundas de elementos externos.
As duas proposições pretendem, com a organização da comunidade, a valorização da cultura e das raízes históricas; o resgate do saber tradicional da família no que se refere às formas de produzir; e a inserção de técnicas e métodos que contribuam para a transição ao modelo de produção agroecológica. Isto enquanto estratégia para criar condições de permanência das famílias e dos jovens no meio rural com qualidade de vida e trabalho, sendo estes, autores e sujeitos de suas histórias e das transformações que vivenciarão.
Os princípios para a implantação de um Desenvolvimento Rural de Base Agroecológica são também seguidos e aplicáveis dentro das metodologias de ensino da Alternância, principalmente no que tange ao manejo dos recursos naturais, humanos e econômicos necessários ao manejo racional dos mesmos. Busca-se com isso a harmonia e o equilíbrio entre a exploração dos recursos naturais; a produção econômica; a disponibilidade de recursos financeiros; a qualidade de vida e do meio ambiente; a autonomia de controle e gestão exercidos pela população local e o resgate, uso e valorização dos conhecimentos familiares e locais. Tudo isso interagindo com as bases científicas propícias a prática agrícola educacional e a Pluriatividade. No caso dos CEFFAs, a busca da Pluriatividade se dá pelo estímulo aos alunos para que executem um projeto profissional.
Para analogias entre os CEFFAS – Pedagogia da Alternância com a Agroecologia faz- se necessária uma análise mais ampla. Mas a rápida comparação aqui apresentada já aponta para muitas interações e complementaridades possíveis entre ambas as proposições. Tal como a agroecologia, os CEFFAS – Pedagogia da Alternância visam o desenvolvimento social do meio. Em sua prática, eles têm como meta conduzir as comunidades rurais para a transição de modelos de produção menos agressivos ao meio ambiente e menos dependentes de fatores externos. Cabe, assim, a evolução do saber científico de cada área estabelecer cada vez mais a interlocução e interação em prol de um meio rural mais sadio e mais justo e um meio ambiente equilibrado. E como meta final, alcançar o Desenvolvimento Rural com base nos princípios Agroecológicos.