Capítulo 01 Fundamentação teórica
1.7. Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade
A palavra “sustentabilidade” (SACHS, 2004) tem forte valor simbólico nas sociedades modernas. O termo reflete mais uma expressão dos desejos e valores de quem a utiliza do que algo concreto, de aceitação geral. Por isso mesmo, as definições correntes de desenvolvimento sustentável são vagas e amplas o suficiente para poder encampar o máximo de condições que se possa requerer do processo de desenvolvimento.
O desenvolvimento desejável pelas sociedades atuais deve promover a inclusão social, o bem-estar econômico e a preservação dos recursos naturais. Esse desenvolvimento é denominado, por Sachs (2004), como “includente, sustentável e sustentado”.
Com isso, na atual fase de modernização da agricultura brasileira, a utilização do conceito de desenvolvimento sustentável é, no mínimo questionável. Entretanto, o entendimento dessa discussão exige, inicialmente, inferências sobre os conceitos de desenvolvimento sustentável e sustentabilidade, o respectivo contexto desses.
O conceito de desenvolvimento sustentável foi utilizado pela primeira vez por Robert Allen, no artigo "How to Save the World" (BELLIA, 2001, p. 23). Mas o conceito se
consagrou em 1987, por meio do Relatório Brundtland, produzido pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. O documento apresentou desenvolvimento sustentável como o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer as futuras gerações (WCED, 1987, p. 46).
No Relatório a denominação de desenvolvimento não se aplica aos processos no qual o crescimento econômico não se traduz em melhoria da qualidade de vida das pessoas e das sociedades. Ao mesmo tempo, afirma-se a possibilidade de se alcançar alto nível de desenvolvimento sem destruir os recursos naturais, conciliando crescimento econômico com conservação ambiental (OLIVEIRA, 2002, p. 89).
Segundo Cunha (1994, p. 20), dentro do conceito de desenvolvimento sustentável, quatro aspectos estão relacionados entre si: a eficiência técnica, a sustentabilidade econômica, a estabilidade social e a coerência ecológica. A dimensão técnica tem a ver com o incremento da produtividade dos recursos naturais, indispensável para compatibilizar a conservação da natureza com aumento da produção.
O conceito de Desenvolvimento Sustentável foi incorporado às políticas públicas brasileiras a partir da na II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992 (II CNUMAD ou Rio 92), significando desenvolvimento social e econômico estável, equilibrado, com mecanismos de distribuição justa das riquezas geradas, bem como ser capaz de levar em consideração a fragilidade, a interdependência e as escalas de tempo próprias e específicas dos elementos naturais (BRASIL, 2000).
É também importante frisar que esta noção de sustentabilidade se constitui como referência básica e fundamental da legislação ambiental, nos níveis federal e estadual. De fato, a perspectiva de um desenvolvimento ambiental sustentável, que contemple a conservação dos recursos naturais e a elevação da qualidade de vida das populações, tem pautado a política ambiental de Goiás, assim como os vários programas federais implementados pelo Ministério do Meio Ambiente. Entretanto, o que se observa em muitos momentos é que o discurso de desenvolvimento sustentável destoa muito da prática.
A sustentabilidade da agricultura e dos recursos naturais se refere ao uso dos recursos biofísicos, econômicos e sociais segundo sua capacidade, em um espaço geográfico, para, mediante tecnologias biofísicas,econômicas, sociais e institucionais, obter bens e serviços diretos e indiretos da agricultura e dos recursos naturais para satisfazer as necessidades das gerações presentes e futuras.
O valor presente dos bens e serviços deve representar mais que o valor das externalidades e dos insumos incorporados, melhorando ou pelo menos mantendo de forma indefinida a produtividade futura do ambiente biofísico e social. Além do mais, o valor presente deve estar eqüitativamente distribuído entre os participantes do processo (IICA/GTZ, 1993, p. 30).
Identificam-se nesses conceitos as seguintes condições a que o desenvolvimento sustentável deveria, idealmente, atender: incremento da qualidade de vida, maior controle dos processos biológicos pela própria agricultura, uso mais eficiente dos recursos naturais pela agricultura, aumento da produção a custos marginais não- ascendentes, e aumento do nível de bem-estar de uma geração sem o sacrifício do bem-estar de qualquer outra geração.
A modernização da agricultura foi cercada de um otimismo excessivo por parte de diversos atores, principalmente o Estado, ao avaliarem a capacidade de o capitalismo superar os chamados “limites naturais” (RESENDE, 1997). A realidade, entretanto, demonstra um outro quadro. O crescimento da produção agrícola gerou e gera desigualdades socioeconômicas e fortes impactos ambientais: perda da fertilidade do solo, poluição, perda de cobertura vegetal, desequilíbrio hídrico, entre outros.
Uma avaliação da sustentabilidade da agricultura requer a análise de todos esses impactos e a adequação dos pacotes tecnológicos em, pelo menos, mitigar esses impactos, visto que a necessidade cada vez maior do aumento da produção de alimentos agravará ainda mais a situação ambiental, já considerada problemática.
O conceito de sustentabilidade, adotado hoje por diversos autores (SACHS, 2000; ESTEVA, 2000; SHIKI, 2000), e adotado para esta Tese, abrange tanto os aspectos econômicos, como os sociais e os ambientais . Com isso, o desenvolvimento da agricultura, para ser sustentável, deve considerar todos esses aspectos.
O crescimento da agricultura somente será sustentável se puder crescer a custos não-ascendentes, sendo a capacidade da tecnologia de afastar o espectro dos rendimentos decrescentes, sejam aqueles decorrentes da intensificação da exploração sobre uma base fixa de recursos naturais, ou os que poderão vir degradar a base de recursos (ESTEVA, 2000, p. 47). Ainda segundo o autor, essa noção de desenvolvimento sustentável pretende garantir a combinação da preservação ambiental com a possibilidade de melhoria de vida dos grupos menos privilegiados por meio da sua autonomia (idem).
Nos dias de hoje, pensar no processo de modernização da agricultura brasileira, impulsionado pela expansão dos pacotes tecnológicos para a produção de alimentos, é permitir avançar nas possibilidades e estratégias de ação em relação ao reconhecimento das particularidades, gestão do território e territorialidades dos diferentes atores envolvidos na questão. Isto implica reconhecer um espaço de negociações e reivindicações que visa provocar mudanças, possibilitar o reconhecimento de direitos e revelar as especificidades daqueles menos favorecidos no processo.
A discussão teórica mostra diferentes dimensões que permitem explicitar aspectos relevantes dos processos em estudo: a modernização agrícola, a gestão territorial e os efeitos sobre a sustentabilidade. Uma das dimensões relevantes para a compreensão dos efeitos sobre a sustentabilidade é a organização territorial, enquanto outra é a sustentabilidade. O processo de modernização da agricultura brasileira proporcionou uma nova forma de gestão do território. As inovações - técnicas, científicas e informacionais -, aliadas a uma política desenvolvimentista do Estado, geraram crescimento econômico nos espaços agrário-agrícolas, mas também geraram vários problemas territoriais e socioambientais. O entendimento desse cenário exige a reconstrução do contexto socioeconômico nacional, no que tange a esse processo de modernização, que seja seguido de uma análise das ações de gestão do território e os resultados dessas ações, no período 1956-2007. Esse será o conteúdo dos próximos dois capítulos desta Tese.
PARTE II
Capítulo 02
Brasil: políticas de desenvolvimento, gestão do território e
os efeitos da modernização da agricultura (1956-1985)
O Brasil, a partir de 1956, pretendia passar de uma agricultura tradicional, totalmente dependente da natureza e praticada por meio de técnicas rudimentares, para uma agricultura mecanizada, moderna (GONÇALVES NETO, 1997).
A Parte II desta Tese tem como objetivo responder à primeira questão de pesquisa, que trata de compreender como o processo de modernização da agricultura condicionou as ações de gestão do território e quais seus efeitos sobre a sustentabilidade no Brasil.
Este capítulo, alicerçado nos conceitos discutidos anteriormente, pretende estabelecer a relevância do contexto socioeconômico nacional, das ações de gestão e os resultados dessas ações, para a compreensão do objeto de estudo desta Tese: o processo de modernização da agricultura no Brasil. Para a construção do capítulo, adotou-se um procedimento metodológico de aproximações sucessivas ao foco de investigação.
Dessa forma, partiu-se de uma periodização dos processos históricos mais relevantes para a compreensão do objeto de investigação. A periodização aqui utilizada foi construída a partir de outras experiências acadêmicas (CIDADE e SOUZA, 2001; CIDADE e JATOBÁ, 2004; JATOBÁ, 2006; MEJIA, 2007, SANTOS, 2007), e compreenderá, neste capítulo, o período 1956-1985, subdividido em duas fases: 1) Fase de início do processo de modernização da agricultura (1956-1969) e 2) Fase de constituição dos Complexos Agroindustriais - CAIs (1970-1985).