4. A VIOLÊNCIA
4.4. A violência sofrida
4.4.3. Despejo da Fazenda Santa Filomena
Marilena, seu filho Carlos, o filho mais novo e o marido moravam no Paraguai e decidiram voltar para o Brasil, por intermédio do MST, motivados por um boato que corria de que, por meio do movimento, era possível se conseguir um lote de terra em 60, 90 dias. A família chegou e foi direto para um acampamento na cidade de Três Barras, região sudoeste do Estado. Ficaram pouco tempo lá e foram para o município de Guairaçá, para ocupar a Fazenda Santa Filomena. Ficaram quase um ano nesta fazenda e para Marilena, um dos grandes sofrimentos na época eram os conflitos com os sem terra de outro grupo, que também ocupavam a fazenda.
O despejo da área ocorreu no dia 25 de fevereiro de 2000, aproximadamente 11 horas da manhã, realizado por parte do efetivo policial que já havia despejado a Fazenda Cobrinco. Marilena conta que os policiais chegaram num caminhão “boiadeira” e que ela avistou de longe, avisou os companheiros e correu para o barraco para arrumar as coisas: “Daí eu peguei minha sacolinha que eu tenho aí, ía saíndo, daí peguei uma mamadeira de leite pro menino e eu tinha feito um bolinho, feito em casa e deixado em cima da mesa, pensei, depois eu pego pra levar, pros menino comerem. Aí eles já vieram, já cortaram a lona assim, já derrubaram a tampa do fogão por cima da panela ...”.
Marilena afirma que os policiais chegaram no acampamento com uma lista com o nome dos coordenadores, sendo um deles seu marido. As primeiras perguntas que lhe fizeram foi sobre o paradeiro dele, que desconfiado de que estavam ocorrendo despejos na região, saiu para averiguar. Os policiais estavam com ela no barraco e enquanto ela arrumava as coisas, eles conversavam com o filho de dois anos, na tentativa de comprovar se o pai da criança era de fato quem eles estavam procurando: “Ali eles começaram a pesquisar o pequeninho: ‘Como é seu nome?’ Cleiton da Silva, ele falava. Aí eu vi que um deles fez assim ó [faz gesto de puxar algo do bolso da camisa]. Pegou no bolso, um papelzinho, olhou pro outro e fez assim ó [gesticula balançando a cabeça em sinal de afirmação] combinou a assinatura do Irineu né. E eu: ai meu Deus!”
Certa de que seu marido seria preso, Marilena caiu em desespero. Lembrou-se que o filho mais velho, na época com nove anos de idade, estava na escola juntamente com outras crianças do acampamento. Procurou os policiais e explicou a situação: “Ó vocês dê um jeito
de ir buscar os menino que tão num ônibus cheio de menino daqui de dentro que tá estudando pra lá e nós não vamo deixar nossos filho!”. Depois de algumas horas o ônibus chegou. As crianças não puderam descer do ônibus, porque o motorista não foi autorizado pela polícia a abrir a porta. “Aí nisso o ônibus chegou, mas não abriam o ônibus. Fazia uma hora e as criança tudo chorando, já tinha ficado uma hora e meia fechado dentro do ônibus, naquele calorão e ali eles não abriam, não sei o que eles queriam. Aí eu endoidei.” Conta que reuniu as outras mães e foram até os policiais exigirem a liberação das crianças, que a essa altura já estavam em prantos:
“Oh, vocês abre o ônibus e solta nossos filho, porque agora é o último tirão!” Eu mesmo falei: “eu morro e derramo o último pingo de sangue pelo meu fio e, por esses fio, não só pelo meu, por esses fio de cada um pai que tá aí!”. E fui juntando pedra, quando nós ameaçamo que chegamo pra cima do ônibus, mandaram abrir o ônibus e as criança foram saindo. As criança saíram tão revoltada, esse menino, esse meu piá mais velho xingava, olha dava até coice neles, porque eles tava tão morto de cansado, porque eles amanheceram rondando a outra fazenda que eles tavam deitado, davam coice, xingava e tudo e eles nem reagia.
Nisso o marido de Marilena chegou ao acampamento e em seguida foi detido. Ela conta que o filho mais velho que lhe deu a notícia: “Aí menina, eu fui lá em cima e voltei!”. Falou para os policiais o seguinte: “vocês tão levando meu marido, só que vocês vão tê que levar tudo, os quatro, pai e mãe e filho junto! (...) Vocês vão ter que levar, porque eu quero vê o que que meu marido fez pra vocês tá prendendo ele!”. Um policial se irritou com ela mas outro interviu para acalmar os ânimos: “ ‘oh, mãe vamo lá pro ônibus, a senhora tá nervosa, o nênê chorando – o pequeno começou a chorar, o outro chorando – vamo lá pro ônibus, vamo lá que os menino não tão legal e assim irrita mais as criança e fica ruim, vamo pra lá, depois isso aí nós resolve!”. “Não resolve, eu quero é meu marido!”. Mesmo relutante ela foi para o ônibus com as crianças. Passados uns minutos deixou as crianças no ônibus e foi até o camburão onde o marido estava preso. Foi trazida novamente pelos policiais. Repetiu esse gesto mais algumas vezes, até que o marido falou: “ ‘vai, vai Marilena, vai lá pro assentamento da nossa prima, vai lá pra onde os outros ir você vai, pode ir que daí nós vê o que que faz!’. Ai eu embarquei” .
Quando estavam há uns três quilômetros do assentamento onde iriam ficar, “a polícia queria larga nós! Já jogou dentro da cidade de Mirador tudo os caminhão, descarregou, jogou tudo, como quem jogava um.... um bicho assim, as coisa nossa. Aquilo ia jogando, os que tinham – que tinha muitos que tinha – toda a mudança inteira foi quebrada, fogão de perna pra cima, guarda-roupa quebrado, foram jogando em cima né”. Os policiais que escoltavam os ônibus e caminhões com as mudanças, não queriam permitir que os sem terra ultrapassassem o limite da cidade de Mirador, contrariando o acordo que tinham feito durante o despejo, de que as famílias ficariam em um assentamento do MST em outro município. Quando estavam parados no meio da estrada, chegou uma militante do movimento que interviu na situação:
Daí ela falou: –“ó rapaz, dentro de cinco minuto você tire essas duas viatura da estrada aqui!”. Aí a polícia falou: –“não, não pode, ir pra frente não pode!”. –“Vocês tire e toque pra frente, que dentro de meia hora vai ter 300, 500 família aqui e nós vamos fazer pedaço desse camburão de vocês!”. Ah, aquilo só fez dzzzzzz [gesticula mostrando o movimento dos carros fazendo a volta e retornando] e foi saindo.
Conseguiram chegar até a fazenda. Ao adentrar no assentamento, os quatro caminhões com as mudanças foram retidos pelos sem terra, e utilizado como moeda de negociação, para conseguirem a liberdade dos homens que haviam sido presos, lona para novos barracos e alimento. Ao fim, conseguiram.
No dia seguinte reocuparam a fazenda Cobrinco. Depois de um embate entre os homens sem terra e os pistoleiros da fazenda, a ocupação foi concretizada. Depois de oito dias, chegaram as mulheres e as crianças, compondo o acampamento com uma média de 300 famílias. “Só que daí quando menos esperava o despejo chegou de novo!”62.
Depois do despejo, ficaram alguns meses no assentamento Água do Corvo e depois foram para o assentamento São Paulo, onde ficaram por mais três meses. Só então, foram para a área que é hoje assentamento Dom Hélder Câmara.