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3. A QUESTÃO AGRÁRIA NO PARANÁ E O DESENVOLVIMENTO DO MST

3.3. Sem terra e sem pátria: o caso dos brasiguaios

Com a construção da usina de hidrelétrica de Itaipu, restavam poucas opções aos camponeses desalojados: a resistência no local de origem, aguardando uma solução de longo prazo, opção feita principalmente por aqueles que tinham o título de posse da terra (como no caso relatado no tópico anterior); a adesão aos projetos de colonização nas regiões Norte e Centro-Oeste do país; ou a emigração para o Paraguai. Esta última foi a alternativa “escolhida” por milhares de famílias camponesas, alimentadas pela ilusão da aquisição de

da terra, sob o efeito da umidade do rio Iguaçu, que corre ali bem próximo. Pois o rio de camponeses que correu pelo asfalto noite adentro, ao desembocar defronte da porteira da fazenda, pára e se espalha como as águas de uma barragem. As crianças e as mulheres são logo afastadas para o fundo da represa humana, enquanto os homens tomam posição bem na frente da linha imaginária para o eventual confronto com os jagunços da fazenda.

Ante a inexistência de reação por parte do pequeno exercito do latifúndio, os homens da vanguarda arrebentam o cadeado e a porteira se escancara; entram; atrás, o rio de camponeses se põe novamente em movimento; foices, enxadas e bandeiras se erguem na avalanche incontida das esperanças nesse reencontro com a vida – e o grito reprimido do povo sem-terra ecoa uníssono na claridade do novo dia: “REFORMA AGRÁRIA, UMA LUTA DE TODOS!” Paraná, 1996.( Salgado, 1997, p.143, grifos meus).

terras mais baratas e abundante oferta de trabalho no país vizinho. Cácia Cortêz (1993) afirma que, a partir de 1975, chegavam no Paraguai de oito a dez famílias por dia.

Esse processo de migração, que se intensificou a partir da década de 70, teve início na década de 50, no contexto da revolta dos posseiros no sudoeste do Estado. Nesse período (1950-1969) as migrações eram motivadas pelos violentos conflitos com as colonizadoras, pelo baixo preço e pelo bom nível de fertilidade das terras paraguaias. Os brasileiros que foram para o Paraguai em busca de terra e uma vida digna ficaram conhecidos como brasiguaios:

Os brasiguaios são o resultado da expropriação e expulsão violenta de centenas de milhares de agricultores do Sul do país, iniciada na década de cinqüenta, no sudoeste do Paraná, quando as terras devolutas, ocupadas por colonos, foram sendo anexadas às das colonizadoras, para serem comercializadas ou incorporadas a novos latifúndios, iniciando assim, a concentração de terras na região (Cortêz, 1993, p. 13).

Contudo, o período compreendido entre os anos de 1970 e 1979, constitui-se no momento de maior emigração de brasileiros para o Paraguai, motivados principalmente pelo fato de que na política de modernização da agricultura incentivada pelo Estado, não havia lugar para a agricultura camponesa. No caso específico da região oeste do Paraná, somavam- se ainda as desapropriações geradas pela construção da hidrelétrica de Itaipu. A autora afirma, que “para as famílias do oeste paranaense, restaram as terras paraguaias do outro lado do rio. Deixaram para trás estradas, pontes, colônias e cidades que ajudaram a erguer e a povoar” (op.cit, p.21) e o mais grave, segundo Cortêz, é que estas famílias embarcaram,

sem saber que estavam sendo objeto de um projeto previamente traçado pelo regime militar, que previa o esvaziamento dos conflitos, limpando a região para a instalação de grandes empresas agroindustriais e a consolidação da monocultura mecanizada; e, ainda, da estratégia expansionista dos militares: as fronteiras precisavam ser ocupadas, o ‘Brasil Grande’ tinha que alargar e garantir os seus domínios (Cortêz, op.cit, p. 21).

Aproveitando esse momento, muitos fazendeiros paranaenses compravam grandes propriedades no Paraguai e para lá levavam os agricultores, a fim de trabalharem como arrendatários.

As ilusões dos camponeses brasileiros, de construir uma vida digna no país vizinho, foram se desconstruindo em pouco tempo. A modernização que chegara nos campos brasileiros a partir da década de 60, atingiu o solo paraguaio no início da década de 80, levados pelas grandes empresas agroindustriais que, segundo Cortêz (1993, p. 22), tal como no Brasil, se instalaram quando “os colonos já tinham ‘amansado’ a maioria das terras, onde haviam construído novos povoados. E as colonizadoras passam a agir na especulação imobiliária, retirando violentamente os agricultores de suas posses”.

Em decorrência do processo de modernização, a partir de 1985 os contratos de arrendamento com os agricultores foram suspensos, já que o aluguel da terra para a cultura de subsistência não era tão rentável como a produção da monocultura em larga escala. Assim, os mais de quinhentos mil agricultores que foram empurrados para o território paraguaio, alguns há mais de trinta anos, estavam novamente sem terra, vítimas de um novo processo de expropriação e expulsão, e começavam a pensar em voltar para o Brasil.

A iniciativa de começar a planejar o retorno foi motivada pelas notícias do plano de reforma agrária na nova república (PNRA) e pelo crescimento do MST no Brasil, somados ao fim dos arrendamentos para os brasiguaios e ao abusivo valor cobrado pela documentação exigida dos brasileiros pelo governo paraguaio, além das constantes denúncias de violência contra os brasiguaios.

Entretanto, diferentemente da ida, a volta não foi facilitada pelos governos envolvidos, já que a ida fazia parte de um projeto militar ligado à “estratégia colonialista brasileira sobre o Paraguai”, como afirma o documento final de um dos congressos que reuniu movimentos sociais, sindicais e populares, sob a reivindicação de repatriamento aos brasileiros:

A expressiva presença brasileira no Paraguai faz parte dos acordos firmados entre os dois países, nos quais o governo paraguaio paulatinamente foi cedendo a soberania do país em troca da ‘modernização e desenvolvimento’, oferecido pelos governos brasileiros desde Getúlio Vargas, passando por Juscelino Kubitschek e culminando com a assinatura dos tratados de Itaipu, em 1975, no governo Geisel, que previa ocupar uma área de 121.889

quilômetros quadrados (33 por cento do território paraguaio) com 1.200.000 brasileiros (45 por cento da população do Paraguai). Assim, estava selada a entrega da soberania paraguaia ao subimperialismo brasileiro. Para isso, os brasiguaios formam a cerca viva ao redor do lago de Itaipu, assegurando a expansão da fronteira brasileira no Paraguai e garantindo o projeto expansionista (...) Hoje os chamados brasiguaios, sem terra e sem pátria, são calculados em torno de quinhentos mil. Ocupam as terras mais férteis, representam mais de oitenta por cento da população da fronteira paraguaia e quinze por cento dos eleitores. Sobrevivem como posseiros, meeiros, bóias- frias, arrendatários e agregados, em condições de exploração e miséria. (Trechos da Carta Dourados, de 22 de agosto de 1991, apud Cortêz, 1993., p.199).

O governo brasileiro não queria receber de volta os brasiguaios e, com ajuda do governo paraguaio, foram criadas barreiras policiais nas fronteiras dos dois países.

Mesmo sabendo dessas dificuldades, algumas famílias começaram a preparar o retorno. Em junho de 1985, aproximadamente 1.000 famílias atravessaram a fronteira entre Paraguai e Mato Grosso, montando acampamento no centro da cidade de Mundo Novo, a aproximadamente 14 quilômetros da fronteira. O governo do Estado correu para fechar a fronteira e evitar que outras famílias brasiguaias se juntassem ao acampamento. As famílias permaneceram acampadas por seis meses, período no qual 27 pessoas morreram em decorrência das péssimas condições do local e à falta de assistência por parte das autoridades locais. Em janeiro de 1986, as famílias acampadas foram assentadas naquela mesma região.

Em abril deste mesmo ano, aproximadamente 4.600 famílias brasiguaias iniciaram as negociações junto ao ministro da reforma agrária no Brasil, Nelson Ribeiro, a fim de retornar. Diante dos relatos de sofrimento destas famílias e diante da afirmativa de que as mesmas pretendiam retornar com ou sem a ajuda do governo, o ministro prometeu garantir o direito de retorno e de manutenção destas famílias no Brasil. Entretanto, não cumpriu a promessa. Segundo Cortêz (1993), as barreiras policiais não permitiam que os agricultores alcançassem sequer a fronteira do país. Os carros que cruzavam a fronteira eram revistados, os caminhões de mudança eram detidos e as casas nas cidades de fronteira eram revistadas para averiguar se “escondiam” brasiguaios. A segurança na fronteira era realizada pelo Grupo de Operações de Fronteira – GOF, criado na época pelo governador do Mato Grosso do Sul, Marcelo Miranda, e apoiado por pistoleiros armados. A autora afirma que o GOF foi denunciado pela imprensa paraguaia, por atuar como esquadrão da morte.

Os anos que seguiram foram marcados por esse conflito entre as famílias que desejavam voltar e os governos que não permitiam o retorno. No início da década de 90 foi criada uma comissão de brasiguaios que buscava o apoio de outras organizações e entidades que pudessem auxilia-los nesse processo de repatriamento (MST, CPT, CUT, PT, Via Campesina, entre outras). Ao relatar a estas entidades os problemas que viviam no Paraguai, bem como os motivos que os levavam a desejar retornar ao Brasil, afirmavam que:

O Brasil já nos rejeitou há mais de três décadas, quando nos arrancou da terra e nos obrigou a buscar refúgio no Paraguai. Hoje o Paraguai, da mesma forma, não nos dá condições de sobrevivência e uma cidadania digna. Estamos sem terra e sem pátria. Nem brasileiros (pois não temos nossa cidadania reconhecida) e nem paraguaios, pois lá somos estrangeiros. Somos os brasiguaios e lutamos pelo direito de voltar ao Brasil e dar aos nossos filhos uma pátria que os receba. (...) Porque as autoridades brasileiras não nos dão o direito de retornar para o nosso país? Por que nos tomam instrumentos de trabalho para ‘evitar’conflitos, e não desarmam os jagunços e os fazendeiros, que estão com metralhadoras e escopetas e agem com a proteção da própria PM? Será que somos menos cidadãos brasileiros que os jagunços e os fazendeiros que nos ameaçam? (...) Se não tivermos o apoio e a garantia dos nossos direitos, romperemos a primeira cerca, não só a da fronteira, para fugir da marginalidade e da miséria que querem nos atirar. (Trecho da carta endereçada às entidades de defesa dos direitos humanos, nacionais e estrangeiras em 26 de maio de 1992, apud, Cortêz, 1993, p.182).

Os brasiguaios viviam um clima de terror. Os fazendeiros das regiões de fronteira colocavam suas milícias armadas com escopetas e metralhadoras automáticas, para montar guarda nos arredores das propriedades e desfilar pelas cidades, atemorizando os agricultores. Mesmo assim, muitos conseguiam burlar as barreiras e cruzar a fronteira de ônibus, caminhão, bicicleta e até a pé, tamanha era a necessidade de sair daquele país (Cortêz, op.cit). Egídio Bruneto, um dos coordenadores do MST que acompanhou a trajetória dos brasiguaios, afirmou o seguinte:

É um povo sem pátria em busca de sua cidadania. E, guardadas as proporções, estão nas mesmas condições do povo palestino, pois no Paraguai não tem condições de ter sua terra e continuam com a referência cultural brasileira. Poucos se naturalizaram, a maioria ainda não possui documentos de migrante. Muitos, pela teimosia em continuar como brasileiros, atravessam a fronteira para casar e registrar os filhos no Brasil (...) esta falta de identidade é angustiante para os jovens, que cresceram na expectativa do regresso à terra de seus pais (...) eles estão num vácuo histórico, passaram

por duas ditaduras e agora, com a abertura política e a redemocratização dos dois países, procuram voltar ao Brasil da forma que lhes é mais familiar, isto é, migrando – desta vez em regresso – na busca de terra para produzir. (Bruneto, apud Cortêz, 1993, p. 166).

Os brasiguaios que conseguiam retornar acampavam nas cidades de fronteira, o que levou a antropóloga Márcia Sprandel, a afirmar que: “verifica-se um ‘rosário’ de acampamentos de brasiguaios e trabalhadores rurais sem terra nessas mesmas regiões, o que abre uma perspectiva de futuro onde o cidadão estaria compulsoriamente vivendo uma situação de limbo, sem acesso aos seus direitos básicos, à terra e à cidadania. A categoria brasiguaios está sendo empurrada para acampados, exilados dentro de seu próprio país. (Márcia Sprandel, apud, Cortêz, op.cit., p.197).

Na década de 90, milhares de brasiguaios retornaram para o Brasil e, muitos deles, engrossaram as fileiras do MST, como é possível constatar na formação do assentamento Dom Hélder Câmara, onde uma parte considerável das famílias são brasiguaias. Segundo os relatos dos assentados, o MST realizou um grande trabalho de frente de massa no Paraguai, convidando as famílias para integrarem o MST. Um dos assentados, Vitor de 26 anos, afirma ter conhecido o movimento através da televisão: “Conheci o MST pela televisão, e desde criança sempre simpatizei com o MST (...) eu morava no Paraguai na época da novela Rei do Gado e gostava de ver os sem terra na TV (...) depois de um tempo o pessoal da frente de massa passou pelo Paraguai e convidou a gente pra vim, e nós aceitamos”.

Essa vivência no Paraguai se constitui num elemento importante na vida destas famílias, o que é possível observar a partir do desenho de Eduardo48, um menino de 12 anos à época. Eduardo retornou ao Brasil com a família por meio de um trabalho de frente de massa do MST. A família foi assentada no assentamento Dom Hélder Câmara, depois de cinco anos de acampamento no Brasil.

Diante da solicitação de realizar um desenho com um tema livre, Eduardo desenhou sua família e as bandeiras do Brasil e do Paraguai lado a lado, sendo que na bandeira do Paraguai se observa um detalhamento maior entre cores e forma, em relação ao desenho da bandeira do Brasil. Curiosamente o que separa as duas bandeiras, ou os dois países, é um elemento da arquitetura urbana, um prédio tão alto e imponente quanto as bandeiras. Ao lado

da bandeira do Paraguai, aparecem as siglas MST, representando, de alguma forma, o veículo pelo qual a família conseguiu o repatriamento.