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CAPÍTULO 1 “HOMO CREATUS EST”: O HOMEM CRIADO POR DEUS

1.4 DEUS E HOMEM NO SOFRIMENTO

O século XX trouxe consigo assustadoras ondas de sofrimento e os primeiros anos deste século subsequente não prometem melhorias. Violência, injustiças, aumento gradativo da reação das pessoas à estas com o agravante da proliferação de fontes de rápida informação documentada acerca desses males, reforçada por imagens drásticas. Diante dessa realidade brota o questionamento: como manter a integridade pessoal na fornalha de sofrimento, da qual não se pode escapar, no meio de ataques terroristas, desastres naturais e novas epidemias? Não é somente uma questão de sobrevivência física, pois na maioria dos casos isso escapa ao controle individual. É uma questão de como permanecer são, sem se resignar, ou de onde encontrar esperança e força necessárias para permanecer num mundo como este e de nele gerar e criar filhos.

Desde tempos imemoriais, o fascinante mistério do mal e do sofrimento tem conduzido as pessoas para Deus, mas também as tem afastado dele.

Que sentido tem um Deus que não sabe o que fazer do sofrimento, ou, se o sabe, não nos quer ajudar? Mas se nós lhe viramos as costas, será que isso ajuda a nos livrarmos do sofrimento, ou será que, pelo contrário, nos privará da força para confrontarmos e fazermos frente ao mal e ao sofrimento?143

142 LEWIS, C. S. O problema do sofrimento, p. 42.

O poeta alemão Georg Büchner chamava ao sofrimento “a rocha do ateísmo”. Quando confrontada com o sofrimento, muita gente tem concluído que a “hipótese de Deus” deve ser apagada da sua visão de mundo.

Está bem, vamos apagá-la, mas será que isso reduz de algum modo o grau de sofrimento do mundo? Não reduzirá antes o poder da esperança, dando assim ao mal uma oportunidade, não só de triunfar no mundo exterior, mas até de destruir o coração humano com cinismo e desespero?144

A fé, que pode ser aliada da humanidade na luta contra o mal da violência e contra o sofrimento e o cinismo, não deve multiplicar explicações espalhafatosas: deve irradiar esperança. No entanto, ter fé não significa poder livrar-se para sempre das perguntas que ardem na alma. Às vezes significa tomar sobre si a cruz das dúvidas e seguir a Cristo fielmente também com esta cruz. A força da fé não consiste na convicção inabalável, mas na capacidade de suportar também as dúvidas e incertezas - o fardo do mistério - e nisso perseverar com fidelidade e esperança.

Uma das características fundamentais da fé é a confiança. A necessidade neurótica de desempenhar o papel de Deus e de ter tudo sob controle resulta muitas vezes de uma atitude receosa e desconfiada frente à vida, de um sentimento de que o desconhecido esconde sempre um perigo potencial145.

Cada ferida, cada trauma, decepção, dor... enfim, cada sofrimento perturba o ser humano em sua confiança (na maioria das vezes implícito, irrefletido) no sentido do mundo e da vida. Todo homem vive dessa fé e dessa confiança em um sentido, mesmo que nem todos designem ou definam essa confiança com palavras religiosas. Trata-se daquela confiança primordial que todo homem compartilha em certa medida - embora, ainda, em medidas muito diversas.

Se existe algo que represente no ser humano um fundamento natural para a religião (muito distante, ainda, de quaisquer formas institucionais, doutrinárias ou rituais), trata-se desse “sim” a si mesmo e ao cosmo que, inconscientemente, confirma com seus atos e pensamentos sensatos. O aspecto mais doloroso do sofrimento é o fato de ele isolar o homem dessa experiência de sentido, o fato de o homem o questionar - Por quê? Por que eu? Por que esta pessoa e não outra? -, correndo o grave risco de minar para sempre, nele, essa confiança primordial.

144 HALIK, T. A noite do confessor: a fé cristã num mundo de incerteza, p. 185. 145 HALIK, T. A noite do confessor: a fé cristã num mundo de incerteza, p. 108.

Por outro lado, a pergunta que o sofrimento suscita no homem pode representar a oportunidade de procurar e encontrar aquele sentido. Muitas pessoas puderam reencontrar e experimentar de forma muito profunda este sentido justamente na noite do sofrimento. Ao referir-se a este tema Simone Weil146 utiliza-se de uma pequena história para tentar elucidar

uma possível revelação - não resolução - do tema.

Dois presos em duas celas vizinhas, que se comunicam por meio de batidas na parede. A parede é aquilo que os separa, mas é também aquilo que lhes permite comunicar-se. O mesmo vale para Deus e nós. Cada separação é uma conexão147.

O sofrimento transforma-se, então, naquele muro que separa e, ao mesmo tempo, conecta o homem com o sentido, com Deus. O sofrimento, compreendido como insensatez, contrassenso, é algo que abala o sentido; mas pode, também, transformar-se em um caminho para uma compreensão mais profunda do sentido. A resolução vai depender do modo como o homem interpretará as “batidas do outro lado”.

No sofrimento esconde-se uma força particular que aproxima interiormente o homem a Cristo. São as feridas de Jesus que demonstram sua solidariedade “sem distância” com os homens, solidariedade que o levou ao sacrifício da Cruz. A cruz de Jesus é um espelho no qual reconhece-se o mal e a violência em toda sua crueza. É uma afirmação brutal sobre o mundo em que Jesus vivia e sobre o mundo em que se vive, hoje.

O inglês John Harwood Hick (1922-2012), teólogo e filósofo da religião, considerado um dos teólogos com vasta reflexão sobre a teologia do pluralismo religioso, de tradição presbiteriana da Inglaterra, hoje ligada à Igreja Reformada, apresenta o sofrimento como aspecto positivo no processo que chama de “formação da alma”148. Segundo ele, o homem, num

146 Simone Weil (1909 - 1943) foi uma importante pensadora do século XX. Ela viveu em um contexto social

marcado por intensos movimentos sociais de luta por melhores condições de trabalho para os operários, bem como por um engajamento de intelectuais para promover a formação educacional dos trabalhadores. Com formação clássica rigorosa, leitora arguta da tradição grega (sobretudo Homero, os pitagóricos, Platão e os Evangelhos), das obras fundadoras da tradição oriental (Livro Egípcio dos Mortos, Bhagavad Gîta, Tao te King), dos filósofos modernos (Descartes e Kant, em particular); foi tanto discípula quanto crítica de Marx e dos marxistas. Participou das lutas sindicais, ministrou cursos educacionais para os trabalhadores em St-Etienne, além de lecionar filosofia em escolas públicas de nível médio em Puy, Auxerre, Roanne, Bourges, San Quentin. Lutou na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, junto à coluna Durruti. Experienciou tanto o trabalho de fábrica, como operária metalúrgica da Renault, quanto o trabalho agrícola em St- Marcel-d'Ardèche e em St-Julien-de-Peyrolas. Todas essas experiências remetem ao profundo desejo weiliano de “ter um contato direto com a vida”, entendendo este contato direto como aquilo que ultrapassa a mera especulação filosófica, unindo teoria (ciência) e prática (trabalho) ou pensamento e ação. Engajou-se por fim na Resistência francesa em Londres, onde veio a falecer. Em sua breve vida, compôs um conjunto de 16 volumes, ainda em curso de publicação.

147 WEIL, S. Aufmerksamkeit für das Alltägliche - Ausgewählte Texte zu Fragen der Zeit. Munique: Kösel, 1987.

P. 102, Apud. HALIK, T. Toque as feridas: sobre o sofrimento, confiança e a arte da transformação, p. 103.

primeiro momento, é criado à imagem de Deus. A segunda fase desta criação pressupõe o homem atingir bondade e valor pessoal. O argumento básico de Hick é a relação entre Deus e o homem, que o ingês compara a um relacionamento entre pai e filho, em grande escala.

Eu acho que é claro que um pai que ama seus filhos e quer que eles se tornem os melhores seres humanos que eles são capazes de se tornar, não trata o prazer como o valor único supremo. Certamente que buscamos o prazer para os nossos filhos, e tem prazer em obtê-lo para eles, mas não desejamos para eles completo prazer à custa do seu crescimento em tais valores ainda maiores como a integridade moral, altruísmo, compaixão, coragem, humor, reverência para com a verdade e, talvez acima de tudo, a capacidade para o amor. Nós não agimos na premissa de que o prazer é o fim supremo da vida, e se o desenvolvimento desses outros valores, por vezes, se choca com a prestação de prazer, então estamos dispostos a deixar os nossos filhos perderem uma certa quantidade disso, em vez de deixar para vir a possuir e ser possuído pelas qualidade mais finas e mais preciosas que são possíveis para a personalidade humana. Uma criança criada no princípio de que o único ou o valor supremo é prazer não seja suscetível de se tornar um adulto eticamente maduro ou uma personalidade atraente ou feliz. E para a maioria dos pais parece ser mais importante tentar promover a qualidade e força de caráter em seus filhos do que para preencher as suas vidas em todos os momentos com o máximo grau possível de prazer. Se, então, não há qualquer analogia real entre o propósito de Deus para suas criaturas humanas e o propósito de pais amorosos e sábios para seus filhos, temos de reconhecer que a presença do prazer e a ausênciade dor não pode ser o fim supremo e primordial para o qual o mundo existe. Pelo contrário, este mundo deve ser um lugar de formação da alma. E seu valor é para ser julgado, não principalmente pela quantidade de prazer e dor que ocorrem nele a qualquer momento particular, mas pela sua adequação a sua finalidade principal, o propósito da formação da alma149.

Poderia surgir o argumento de que Deus poderia ter criado o homem no estado final, aperfeiçoado desde o início. No entanto, Hick argumenta afirmando que isso seria semelhante a Deus criar o homem como animal de estimação em uma gaiola. Além disso, tal perfeição inicial não seria tão valiosa quanto a perfeição alcançada por tentativa e erro. Mais ainda, segundo Hick, seria impossível para a divindade ter criado homnes com livre arbítrio sem a capacidade de escolher, também, o mal: ou os seres humanos são livres, o que pressupõe a possibilidade do mal moral, ou são feitos sem liberdade, como robôs, o que tornaria possível evitar atos de maldade moral. O pressuposto por trás do argumento de John Hick é a existência de Deus e de que este tem um propósito especial na vida dos homens, inclusive com o sofrimento, sendo este necessário para o desenvolvimento dos filhos de Deus: a formação da alma por Deus provê o significado par ao sofrimento.