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CAPÍTULO 1 “HOMO CREATUS EST”: O HOMEM CRIADO POR DEUS

1.2 POR QUE DEUS FEZ O HOMEM?

1.2.2 Para que Deus criou o homem?

Recuperando o que foi expresso pelo texto da Comissão Teológica Internacional, pode- se dizer, em outras palavras que, aquele que aceita na fé a revelação de Cristo torna-se, simultaneamente Imago Christi. Segundo o Novo Testamento, essa transformação em Cristo dá-se através dos sacramentos.

A comunhão com Cristo deriva da fé nele e do batismo, através do qual o fiel morre para o homem velho mediante o Cristo (Gl 3,26-28) e se reveste do homem novo (Gl 3,27; Rm 13,14). A Penitência, a Eucaristia e os outros Sacramentos nos confirmam e nos corroboram nesta radical transformação, que ocorre segundo o modelo da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo (n. 13)101.

O desenvolvimento do conceito da imagem na teologia cristã é sumamente instrutivo, embora não haja unanimidade nas compreensões. A escola alexandrina - fortemente influenciada por Fílon - viu na alma, mais concretamente na alma superior, o nous, o que é próprio do homem, excluindo de tal condição o corpo humano, modelado por Deus com o pó da terra (Gn 2,7)102. Junto a esta encontra-se a linha asiática e africana, na qual Santo Irineu e

Tertuliano são exemplos ilustres, reunindo e desenvolvendo uma tradição anterior (Clemente Romano, Teófilo de Antioquia, de ressurectione). Para estes, o modelo a partir do qual Deus criou o homem é o Filho que devia encarnar-se; por conseguinte, consideram que não só a alma, mas sobretudo o corpo foi criado à imagem e semelhança de Deus. Portanto, o corpo - e não a alma - será, para esses autores, o homem propriamente dito. A verdade fundamental do cristianismo, a saber, a ressurreição de Jesus e, consequentemente, a ressurreição dos mortos, da carne, é determinante nessa antropologia. Com efeito, dirá Irineu,

COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL. Comunhão e serviço: a pessoa humana criada à imagem de

Deus. Disponível em:

<http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_con_cfaith_doc_20040723_commu nion-stewardship_po.html#3/>. Acesso em 18 fevereiro 2019.

102 Sobre a antropologia patrística, cf. GROSSI, V. Lineamenti di antropologia patrística. Roma: Borla, 1983.

Mais diretamente sobre o tema da image, HAMMAN, A. G. L’homme image de Dieu. Essai d’une anthropologie chrétienne dans l’Église des cinq premiers siècles. Paris: Desclée, 1987. Apud, LADARIA, L. F. Introdução à antropologia teológica, p. 53.

nos tempos passados se dizia que o homem foi feito à imagem de Deus, mas não parecia tal, porque ainda estava invisível o Verbo, à imagem do qual o homem fora feito: e justamente por isso perdeu facilmente a semelhança. Mas quando o Verbo de Deus se fez carne, confirmou ambas as coisas: mostrou verdadeiramente a imagem, tornando-se ele mesmo o que era sua imagem, e restabeleceu integralmente a semelhança, tornando o homem semelhante ao Pai invisível por meio do Verbo que se vê103.

No Ocidente prevalecerá a ideia da alma como imagem da Trindade. Santo Agostinho é a influência mais significativa desse pensamento. Ele acentua a unidade divina chegando a eliminar certas categorias que poderiam dar lugar a interpretações subordinacionistas - o tema do Filho imagem é uma delas.

Prevalece então, porque assim se acentua mais a consubstancialidade do Filho, a interpretação de Gn 1,26, “façamos o homem...”, que insiste não tanto na participação das pessoas da Trindade na criação do homem (como aconteceria nos séculos anteriores), quanto na igualdade de essência entre elas, “ad

imaginem nostram”; qualquer referência privilegiada a uma pessoa da

Trindade podia, nesse contexto, ser objeto de uma interpretação equivocada104.

Irineu compreende que cabe ao Criador fazer o homem à sua imagem e semelhança. Ao gênero humano toca ser feito à imagem e semelhança de Deus. Para isso deve o homem abrir- se docilmente à ação divina. Fazer-se homem equivale a conscientizar-se de sua debilidade e, a partir daí, iniciar sua caminhada para a salvação que culminará na deificação humana mediante a participação na vida de Deus.

“Meu filho, dá-me o teu coração e que teus olhos gostem dos meus caminhos” (Pr 23,26). Através desta perícope Irineu de Lião recomenda a docilidade do ser humano ao trabalho de Deus. “Dá-me o teu coração” é um convite a colocar nas mãos de Deus não um coração duro e, sim, um coração brando, manso e dócil. Por outro lado, ressalta-se, assim, a maneira de Deus aproximar-se do ser humano respeitando sua liberdade. Cabe ao ser humano deixar-se, livremente, plasmar pelas mãos de Deus.

103 Cf, DE LIÃO, I. Contra as Heresias, p. 246-248

Se, porém, lhe resistes e te esquivas da sua mão deverás procurar em ti que não obedeceste a causa da tua imperfeição e não naquele que te chamou. Porque ele enviou a seus servos para convidar à festa de casamento e os que não escutaram privaram-se a si mesmo do banquete do reino. Não é arte de Deus que falta, porque ele pode suscitar de pedras filhos a Abraão, mas quem não a aceita é a causa da sua imperfeição. Não é luz que falta para os que se cegaram, mas enquanto ela fica sempre igual, estes cegos, por sua culpa, se encontram nas trevas. Ninguém está necessariamente submetido à luz, nem Deus obriga os que não querem conservar a sua arte. Os que se separaram da luz do Pai e transgrediram a lei da liberdade, por sua culpa se afastaram, porque foram criados livres e donos de seus atos105.

A docilidade do homem à ação criadora de Deus consiste em uma vida contínua de fé e obediência ao Criador, correspondendo ao seu amor. A antítese fazer/ser feito transforma a relação entre o divino e o humano. A acusação gnóstica que culpabilizava o demiurgo pela finitude e caducidade que caracterizava todas as ações humanas por estarem aprisionadas à matéria, e que, com isso, buscavam explicar o mal no mundo, não tem sentido se a finitude experimentada for um momento necessário da experiência do descobrir-se humano. Entretanto, segundo Irineu, o “não fazer-se” do humano não seria culpa do Criador, mas do próprio ser humano que não corresponde à sedução de Deus.

A caridade que transborda na justiça torna-se o grande sinal da adesão ao Cristo. O que Irineu aponta é o futuro que irrompe o presente. A perfeição à qual está destinado o gênero humano emerge, mesmo que parcialmente, em sua vivência concreta. Esta práxis é fruto da ação do Espírito no homem, ação modeladora do Filho que imprime à fé uma prática revelada na justiça para com o próximo.

Delineia-se, assim, o humano que, ao deixar-se fazer, estando aberto à inspiração do Espírito, caminha constantemente numa progressiva novidade de vida. Todo movimento realizado pelo Espírito no coração humano tem como fim sua conformação com a imagem e semelhança revelada por Cristo, o Verbo divino feito homem. Dessa forma, a modelação humana continua ao longo da história mediante a ação do Espírito que prepara a criatura para receber em seu corpo a força de Deus. No acolhimento da atuação do Espírito em si o homem percebe-se capacitado para frutificar os dons que lhe foram confiados. Com efeito, o homem foi confiado ao Espírito, para que sob sua moção progrida na semelhança do Filho106.

Em Santo Tomás a alma do homem é imagem da Trindade, e não apenas do Filho, como o sugere também santo Agostinho. Toda Trindade cria o homem à sua imagem. Embora o Doutor Angélico exclua o corpo da condição de imagem divina, afirma que nele encontra-se

105 DE LIÃO, I. Contra as Heresias, p. 509-510. 106 Cf, DE LIÃO, I. Contra as Heresias, p. 562-563.

vestigia de Deus. No entanto, o que chama a atenção em Santo Tomás é a razão pela qual justifica que a natureza intelectual é imagem de Deus.

Para que possa imitar a Deus naquilo que é mais próprio deste último: conhecer-se e amar-se. Assim, a imagem de Deus é a atitude natural do homem de conhecer e amar a Deus. A imagem é vinculada à capacidade de se relacionar com Deus; nisso se reconhece, sem dúvida, uma profunda intuição bíblica107.

A concepção cristã do homem, a condição de ser criado à imagem e semelhança de Deus, significa, principalmente, a capacidade de conhecer e amar o Criador, a capacidade de se relacionar com Deus. Claro que, a isso, soma-se o domínio sobre o mundo e sobre a criação, para que o homem a governe e use para uma maior honra e glória de Deus. A relação do homem com Deus, sua capacidade de conhecê-lo e ama-lo realizam-se com a mediação de Jesus Cristo. Ele é o único que o Pai constituiu Senhor de tudo.