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CAPÍTULO 1 “HOMO CREATUS EST”: O HOMEM CRIADO POR DEUS

1.3 O SOFRIMENTO DO HOMEM

Quando se fala em antropologia, quando fala-se do homem, inevitavelmente toca-se em realidades inseparáveis deste. Uma destas é o sofrimento. Por vezes a dor é utilizada como sinônimo de sofrimento. Este abrange aquele, mas supera, vai além.

A dor possui o privilégio de estar presente em todos os extratos do homem. Em suma, há uma dor periférica e uma dor visceral, há uma dor humoral e, inclusive, uma dor neural. A dor ameaça o instinto de conservação e aos sentimentos produz tristeza, reações de defesa,

131 Cf., BALTHASAR, 2001, p. 239. 132 ACKERMANN, 2002, p. 243.

apatia e resignação. Diante da dor o homem sucumbe ou vence133. A dor esmaga iniciativas e faz descobrir poços profundos e grutas insondáveis na pessoa, dobra o homem sobre si mesmo e acorda o indivíduo ensimesmado, fazendo que levante voo para a transcendência.

A dor não é uma simples percepção sensorial, senão uma verdadeira ressonância interior dos sentimentos, de tal modo que a sensação é somente um jogo prévio ao núcleo do processo doloroso, que tem sua origem na psique. A dor se interpreta como paixão da alma, que é suscitada a partir de uma sensação dos sentidos134.

A diferença entre as compreensões está no fato de que, enquanto as afirmações anteriores consideravam a dor como paixão do corpo, agora a dor é uma paixão da alma, quer dizer, algo que partindo da psique move o corporal e no corpo encontra seu termo. Além disso, o homem sabe que a dor o atinge mais profundamente que uma simples reação emotiva. A dor repercute em todo o ser do homem enquanto é uma realidade anímico-corporal e influi em sua erradicação subjetiva no mundo que o rodeia, quer dizer, em sua relação homem-mundo.

Segundo o Dicionário Houaiss135 a dor é “sensação penosa, desagradável, produzida pela excitação de terminações nervosas sensíveis a esses estímulos, e classificada de acordo com o seu lugar, tipo, intensidade, periodicidade, difusão e caráter”. O sofrimento é algo mais amplo, mais complexo e, ao mesmo tempo, algo mais profundamente enraizado na humanidade. Referente ao sofrimento, pode-se falar de sofrimento físico ou sofrimento moral: o sofrimento físico dá-se quando, seja de que modo for, “dói” o corpo; o sofrimento moral é a dor da alma (não apenas num sentido psíquico, mas espiritual). A amplidão do sofrimento moral e a multiplicidade das formas não é menor que o sofrimento físico. Ele é, apenas, mais difícil de ser identificado e ser atingido pela terapia, por exemplo.

É necessário, no entanto, redirecionar o olhar para o problema do sofrimento. Ao se fazer isso, dá-se conta que, como afirmado anteriormente, é um problema inerente ao homem todo e a todos os homens, de todos os tempos. Sófocles, gênio da literatura e profundo conhecedor do homem, apresenta em seus escritos, em suas tragédias, um canto ao sofrimento sem esperança. Para ele a vida é um lugar de dor que só pode dar lugar a mais dor.

133 Cf., FARNÉS, J. V. P. Antropología del dolor: sombras que son luz, p. 15-16 134 FARNÉS, J. V. P. Antropología del dolor: sombras que son luz, p. 25-26.

135 HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. Versão

Não ter nascido é a maior das aventuras, e uma vez nascido o menor mal é voltar-se quanto antes para lá de onde se veio. Pois já que para o homem a mocidade é pesada..., que trabalhosos pesadelos lhe faltam? Que males não leva consigo? Invejas, facções, contendas, guerras, mortes. Até que ao final lhe vem por sorte, em conclusão, a aborrecida, a sem forças, a intratável, a sem amigos, a velhice, golfo em que estão albergados os males de todos os males136.

A tradição bíblica não é muito mais otimista: “o homem, nascido de mulher, com dias escassos e farto de tormentos” (Jó 14,1). Essa é uma realidade perene que, desde Jó, poucos se atreveram a negar por sua evidência declarada. A dor e o sofrimento, a tristeza e o medo, são companheiros inevitáveis da vida humana. Quando sobrevém o sofrimento e desaparece a alegria tudo parece destinado a fracassar. Nesses momentos o mal, o pranto, a doença e o cansaço desdobram suas sombrias asas sobre o homem. Aliás, o homem sofre quando experimenta um mal qualquer. O homem é constitutivamente limitado e experimenta essa limitação de inúmeros modos. O sofrimento, em todos, é algo que já aconteceu, que está por acontecer e que sempre sairá ao encontro do homem, pelo menos no limite da própria morte.

Ao falar em mal e sofrimento percebe-se que, na Sagrada Escritura, de modo especial no antigo testamento, havia uma associação entre mal e sofrimento. Devido à falta de um vocábulo específico para designar a palavra “sofrimento” utilizava-se o vocábulo referente ao mal. Já o novo testamento, e as versões gregas do antigo, referindo-se ao sofrimento, servem- se do verbo pátxw, que significa ser afetado por, experimentar uma sensação, sofrer. Portanto, o sofrimento não é mais identificável com o mal. Diante desta situação o homem sente o mal e torna-se sujeito de sofrimento.

O homem sempre sentiu a tentação de afirmar que “toda vida é dor”137, ou que toda realidade está fecundada por ela. Por vezes as circunstâncias parecem afirmar que o sofrimento é a estação de chegada onde o homem está chamado a permanecer definitivamente. Assim, a dor, o abandono, a falta de sentido e de razões para lutar pelo bem, pela excelência que o homem busca, pelo sorriso na habitual situação de instabilidade em que transcorre a existência humana, faz surgir um questionamento: afinal, o sofrimento tem a última palavra? Ou então, por que se sofre? Por que o sofrimento?

Essa é uma pergunta que tortura muitas pessoas, até que concluam que carece de resposta. Para estas não só lhes parece impossível que exista um Ser todo-poderoso e

136 SÓFOCLES. “Edipo en colono”, versos 1213-1237, em Tragedias, volume I; ed. de I. Errandonea, Alma Mater,

Barcelona, 1959, Apud STORK, R. Y.; ECHEVARRÍA, J. A. Fundamentos de antropologia: um ideal de excelência humana, p. 457-458.

137 SCHOPENHAUER, A. El mundo como voluntad y representación. Buenos Aires: Ateneo, 1956, p. 56. Apud,

infinitamente bom que consinta nas desgraças que acontecem no mundo, como, em tais circunstâncias, a vida nem sequer vale a pena ser vivida. Correndo o risco de se ser muito limitado na exigência de respostas à pergunta existencial pelo sofrimento, é preciso afirmar que o sofrimento existe porque o homem é um ser vivo e a psicologia de todo ser vivo inclui o sentir-se atraído pelo que é bom para ele, mediante o prazer e a esperança, e estar incomodado e assustado por aquilo que supõe um mal para ele.

O prazer, segundo o filósofo Aristóteles, exerce um papel relevante na formação do caráter e na regulação das ações morais do homem. Ele define o prazer como “um certo movimento da alma e um regresso total e sensível ao estado natural138”. A dor é o seu contrário.

O que produz a disposição para o prazer é agradável e o que destrói é doloroso. Certamente o prazer é, também, um bem. Se assim não fosse, por que razão os seres vivos, e não apenas os seres humanos, o desejam? As coisas agradáveis e belas são necessariamente boas, pois as agradáveis produzem prazer e as belas são agradáveis. Mas, o prazer não é um bem em si mesmo. Somente é o bem quando é consequente com uma atividade boa. Assim, “a dor e o prazer prolongam-se por toda vida e são de grande importância para a virtude e a vida feliz, uma vez que as pessoas decidem fazer o que lhes é agradável e evitam o que é penoso139”.

Também Clive Staples Lewis (C. S. Lewis), escritor e apologista cristão, em sua obra O problema do sofrimento afirma que

o mesmo fogo que alivia o corpo, situado a distância conveniente, o destrói quando a distância é suprimida. Daí a necessidade, inclusive em um mundo perfeito, de sinais de perigo, para cuja transmissão as fibras nervosas sensíveis à dor parecem estar desenhadas140.

Isso significa que o cumprimento das leis inexoráveis da matéria pode favorecer ou dificultar a vida segundo as circunstâncias concorrentes em cada caso. Por outro lado, essa necessidade natural também pode ser aproveitada pela liberdade de uma maneira ou outra. Segundo Lewis, “a natureza imutável da madeira, que nos permite utilizá-la como viga, também nos brinda com a oportunidade de usá-la para golpear a cabeça do vizinho”141.

Conclui-se, assim, que a relação entre as tendências vitais do homem e a força da matéria e da vida exteriores a ele pode ser harmônica ou desarmônica: em um caso origina-se o prazer, em outro, o sofrimento.

138 ARISTÓTELES. Retórica. Trad de Manuel Júnior. Lisboa: INCM, 2005. p. 83. 139 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, p. 266.

140 LEWIS, C. S. O problema do sofrimento, p. 39. 141 LEWIS, C. S. O problema do sofrimento, p. 40.

O sofrimento e o prazer são companheiros inseparáveis de todos os seres vivos. Sem o sofrimento o homem colocar-se-ia, continuamente, em perigo. Lewis continua afirmando que “se tratássemos de excluir o sofrimento, ou a possibilidade do sofrimento que a ordem natural e a existência de vontades livres causam, descobriríamos que para consegui-lo seria preciso suprimir a própria vida”142.

O homem, ao fazer sua a dor física, interioriza e converte-a em sofrimento. Ao mesmo tempo, a percepção inteligente de males fisicamente ausentes constitui o mais típico modo humano de sofrer. Assim se converte em homo patiens, em homem dolorido. O sofrimento é uma situação na qual o homem se encontra antes ou depois, uma matéria pendente para todos, uma etapa necessária para a maturidade plena.