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CAPÍTULO 1 “HOMO CREATUS EST”: O HOMEM CRIADO POR DEUS

1.5 O MAL E O SOFRIMENTO

Uma das questões que mais intriga o homem refere-se ao problema do mal, pois este vai exatamente contra aquilo que o homem mais deseja: a felicidade. Afinal, se o homem, em sua dimensão teleológica, busca a felicidade, por que o mal existe? Santo Agostinho particularmente inquietava-se com estas questões. Assim, a concepção do mal, baseada na teoria platônica, significa, para ele, não um ser, mas ausência de um ser, ausência do bem. O mal é aquilo que “sobraria” quando não existe mais a presença do bem.

Em Agostinho tem-se dois silogismos acerca da inautenticidade do mal: primeiro, todas as coisas que Deus criou são boas; o mal não é bom, portanto, o mal não foi criado por Deus; segundo, Deus criou todas as coisas; Deus não criou o mal, portanto, o mal não é uma coisa. Deus seria a completa personificação deste bem, portanto, não poderia ter criado o mal. Assim, Agostinho observou que o mal não poderia ser escolhido, pois não era uma coisa a ser escolhida. Poder-se-ia, apenas, afastar-se do bem, isto é, de um grau maior para um grau menor (segundo a hierarquia de Agostinho) pois, quando a vontade abandona o que está acima de si e se vira para o que está abaixo, ela se torna má, não porque seja má a coisa para a qual se vira, mas pelo ato de virar que, em si, é mau. O mal, então, é o próprio ato de escolher um bem menor.

Do ponto de vista metafísico-ontológico, não existe mal no cosmos mas apenas graus inferiores de ser, em relação a Deus, graus esses que dependem da finitude do ser criado e dos diferentes níveis dessa finitude. O mal moral é o pecado. Esse depende da nossa má vontade. E a má vontade não tem “causa eficiente”, e sim muito mais, “causa deficiente”. O mal moral, portanto, é “aversio a Deo” e “conversio ad creaturam”. O fato de se ter recebido de Deus uma vontade livre é para nós grande bem. O mal é o mau uso desse grande bem. O mal físico, como as doenças, os sofrimentos e a morte, tem significado bem preciso para quem reflete na fé: é a consequência do pecado original, ou seja, é consequência do mal moral150.

Compreende-se, assim, que para Agostinho o mal ontológico não existe e que no universo criado e governado por Deus não há espaço para o mal físico. Mais ainda, que este se manifesta no mundo não como ser, mas como não-ser, não substância. Dessa forma, o mal caracteriza-se por uma ausência do que deveria ser, ou pelo que não é, sendo o mal moral a única forma propriamente dita do mal, cuja causa e origem encontra-se na má vontade do homem que, livremente, decide não se submeter à ordem estabelecida por Deus, amando mais as criaturas do que o Criador.

Fala-se, portanto, de mal moral, mal físico e mal metafísico, compreendido, este, não como substância e, sim, como ausência, do bem, de ser. O mal moral, como afirmado acima, reside na própria vontade do homem que, pelo fato de ter o livre-arbítrio, escolhe desordenadamente algum outro bem. Assim, o mal não vem de Deus, mas do próprio homem e da sua vontade desordenada. Já o mal físico, como as doenças, os sofrimentos e a morte são consequências do mal moral, sendo que a corrupção que pesa sobre a alma não é causa, mas pena do pecado original. No entanto, não basta voltar-se ao bem para que o mal desapareça da experiência humana. Ele está em toda parte, no homem e fora dele. Não se limita ao erro que depende do homem. A dor é um mal que o homem sente, que é obrigado a sofrer. Seja qual for a pureza da vontade, existem no homem tendências más que de súbito atravessam seu pensamento como um raio e o enchem de pavor. Existe o sofrimento dos outros. Existe a miséria moral. O mal se mescla aos desejos mais íntimos do homem, às suas iniciativas mais naturais; talvez seja um ingrediente de suas melhores ações.

O mal é alvo de todos os protestos da consciência: da sensibilidade, quando se trata do sofrimento, e do julgamento, quando se trata do erro; e é porque não podemos abdicar de nossa liberdade que temos o poder, mesmo repelindo- o, de cometê-lo. O mal é o escândalo do mundo. Constitui, para nós, um problema de suma importância: é ele que faz do mundo um problema para nós. Impõe-nos sua presença sem que possamos recusá-la. Não existe homem algum que seja poupado dela. Ela exige que busquemos a um só tempo explicá-la e aboli-la151.

Não se pode deixar de reconhecer que existe uma intuição imediata e primitiva da consciência que identifica o mal com a dor. No entanto, à medida que a consciência adquire mais delicadeza, a dor e o mal se dissociam, embora jamais o elo que os une se rompa. É que a dor, inúmeras vezes, impõe-se, contrariando a vontade humana, mostrando que ela é a marca da passividade e limitação, uma fronteira para a expansão do ser do homem. Além disso, a consciência repele-a com todas as suas forças como ao mal presente e indubitável, antes mesmo que a faculdade de julgar tenha começado a exercer-se. Mesmo que a dor não esgote a totalidade do mal, mesmo que não seja, ela própria, um mal, está direta ou indiretamente ligada a todas as formas do mal, até as mais sutis e sofisticadas.

A dor não apenas está associada a um pretexto, a uma revolta da consciência que busca expulsá-la, mas tamém adere a tal pretexto e a tal revolta. E sem dúvida poder-se-ia mostrar que a dor em si mesma não é um mal, um mal absoluto e radical. Aliás, ela até poderia ser a

condição de um bem maior. No entanto, como já afirmado, não se pode confundir o mal com a dor, pois a existência da dor não apresenta, para a inteligência, dificuldades insuperáveis.

Sentir dor é sofrer. Porém, a dor parece estar sempre vinculada ao corpo, levando em consideração o caráter de limitação ou de passividade que é inseparável da dor, o qual faz com que ela seja sempre sofrida e só possa sê-lo por intermédio do corpo. No entanto, embora a dor física possa apresentar uma acuidade e uma crueldade que a tornam, a cada instante, intolerável, a dor moral vence-a singularmente em significação e em valor assim que tenta abraçar o conjunto do destino do homem. Enquanto a dor física, embora possa ocupar inteiramente o homem, paralisa as potências da consciência, a dor moral, além de preencher verdadeiramente toda capacidade da alma humana, obriga todas as suas potências a exercer-se e até dar-lhes um extraordinário desenvolvimento.

[...] seria melhor, então, empregar aqui a palavra sofrimento e não a palavra dor, pois a dor é algo que sofro, mas o sofrimento é algo de que me apodero; o que procuro não é tanto rejeitá-lo, mas penetrá-lo. Eu o sei meu e o faço meu. Quando digo “estou sofrendo”, trata-se sempre de um ato que cumpro152.

A dor, por estar ligada ao corpo, está também ligada ao instante. O sofrimento, ao contrário, está sempre ligado ao tempo. Mais ainda, na dor é o corpo quem está em primeiro plano e é próprio do corpo relacionar o eu, o homem, com as coisas. O sofrimento, ao contrário, é muito mais complexo. O homem sofre nas relações com outros seres. A possibilidade de sofrer mede a intimidade e a intensidade dos laços que une a consciência de si, do homem, a outra consciência. O homem não sofre nas relações com indiferentes, pelo contrário, a indiferença chega a ser uma espécie de proteção contra o sofrimento153.

É evidente que o sofrimento não pode ser considerado uma sensação, pois é muito mais interior. Quando sofre, o homem todo sofre e para tal procura razões, justificativas. Admitindo- se, por outro lado, que a dor, por si mesma, não seja nada além de uma sensação, é evidente que só é boa ou má pela atitude da consciência diante dela, pelo ato que toma posse dela e, por assim dizer, pela maneira como a sofre.

Deve-se admitir que, diante da realidade do sofrimento, a atitude de muitos homens seja pender, naturalmente, para o materialismo, pois estão convencidos de que a verdadeira realidade pertence aos objetos e ao corpo, de que o espírito é uma realidade ilusória, que dá provas do que existe sem ser, ele próprio, dotado de existência. Então, compreende-se que, em

152 LAVELLE, L. O mal e o sofrimento, p. 67. 153 Cf., LAVELLE, L. O mal e o sofrimento, p. 68-70.

presença dos males da vida, as alternativas, para estes, são a negação, a fuga ou compensação com bens materiais, tentativas, estas, frustradas de enfrentar, superar ou ressignificar a realidade sofrida.

[...] é próprio da dor, justamente, ser uma experiência trágica, que nos obriga a reconhecer qual é a essência do real. Estará ela neste corpo alquebrado, que perde pouco a pouco a força e a vida? Ou estará na consciência que tomamos da própria dor, para então constituir, a um só tempo contra ela e graças a ela, apesar dela e por meio dela, nossa realidade mais autêntica, mais profunda e mais pessoal? Esta última, que é obra nossa, enxerta-se na outra, que deverá ser rejeitada um dia; a dor consuma, a cada dia, seu sacrifício. Isso não equivale a dizer que a dor possua valor por si mesma, nem que não se possa fazer dela o pior emprego. Equivale a dizer que seu valor reside exclusivamente numa operação de nossa atividade sobre ela, que permite a essa atividade transformá-la seja em bem, seja em mal, pela própria maneira como dispõe dela154.

CONCLUSÃO

Vive-se numa sociedade hedonista, compreendida como a era da civilização dos desejos, onde reina uma busca desenfreada pelo prazer, entendido não somente como prazer sexual. O homem e a mulher modernos, principalmente os jovens, não sabem lidar com suas limitações, não sabem o que fazer com suas dores e frustrações. Eles têm grande dificuldade de enxergar algo além das suas próprias necessidades. Nesse ambiente, a alienação social, a busca do prazer imediato, a agressividade e a dificuldade de se colocar no lugar do outro cultivam-se amplamente. Mais ainda, nesse ambiente evita-se a todo custo tudo o que faça referência à dor e ao sofrimento. No entanto, aquilo que não é resolvido em nível consciente fica no inconsciente, surgindo posteriormente com mais força.

A dor e o sofrimento fazem parte da existência humana. Não se trata de uma apologia ao sofrimento, mas de afirmar sua inegável realidade e sua inevitável presença no horizonte humano. Victor Frankl afirma que “se (o sofrimento) for evitável, o que faz sentido é remover a sua causa, porque o sofrimento desnecessário é masoquismo e não ato heroico”155. Portanto, se aquilo que ocorre ao homem é algo que não pode ser evitado, tem-se dois caminhos, duas possibilidades: revoltar-se ou aceitar o inevitável, como um dom de Deus. Assim, o sofrimento não pode ser transformado e mudado por uma graça que aja do exterior, mas por uma graça interior.

154 LAVELLE, L. O mal e o sofrimento, p. 70. 155 FRANKL, V. Em busca de sentido, p. 125.

Mais, o sofrimento coloca o homem em contato com aquilo que tem de mais criativo. Toda vez que toca a experiência do limite e o compreende como uma possibilidade, o homem vai além, supera. Diante disso, compreende-se que é fundamental saber sofrer pelas razões certas. Bento XVI afirma que “não há amor sem sofrimento, sem o sofrimento da renúncia a si mesmo, da transformação e purificação do eu para a verdadeira liberdade; onde não houver algo pelo qual valha a pena sofrer, também a própria vida perde o seu valor”156. E, isto

significa que se está em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe no homem o poder do amor. Só não sofrem, quando para isso há razões, aqueles que perderam a capacidade de amar.

O amor permanece, portanto, como fonte mais rica do sentido do sofrimento. E, ainda, enquanto tal, permanece um mistério. Dessa forma, compreender-se-á o porquê do sofrimento na medida em que se for capaz de compreender a sublimidade do amor divino. À pergunta “Por quê?” Deus responde ao homem, na Cruz de Cristo: “Deus amou tanto o mundo que deu o Seu Filho Unigênito para que não pereça todo aquele que nele crê, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

156 RATZINGER, J. Homilia na celebração das primeiras Vésperas da Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e

Paulo por ocasião da abertura do Ano Paulino. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/benedict- xvi/pt/homilies/2008/documents/hf_ben-xvi_hom_20080628_vespri.html/>. Acesso em 06 março 2019.