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Deuses que viajam, Deuses que curam

1 As figuras Divinas

2.3 Em que se tocam Dioniso e Jesus?

2.3.4 Deuses que viajam, Deuses que curam

Outro paralelo que podemos traçar é o de as duas divindades serem marcadas por uma certa errância viajante. Tanto Dioniso como Jesus tem a necessidade de se mover constantemente. Dioniso, logo apôs o nascimento, é obrigado a fugir para Orcómeno e depois para Nisa, na Ásia. Já adulto, e depois de ter enlouquecido por intervenção de Hera, Dioniso vagueia pelo Egipto e pela Síria, regressando depois à Frigia, onde é curado por Cíbele e é iniciado nos cultos mistéricos. O deus passa depois pela Trácia, onde se dá o episódio com o rei Licurgo, indo depois para a Índia, numa expedição em parte militar, regressando depois à Grécia, especificamente a Tebas, onde se desenrola ao enredo das

419 Vide Just. 1Apol. 54; Dial. 69.

420 Vide Walter Burkert, Religião e Mitologia…. p. 136.

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Bacantes. Dioniso partiu depois para Argos, onde enlouquece as filhas do rei Preto,

querendo de seguida dirigir-se a Naxos acabando por ser enganado pelos piratas tirrenos, episódio narrado por Ovídio422. Só depois de todas estes episódios é que Dioniso comprovaria o direito ao seu estatuto divino e ascenderia aos céus423. Obviamente, estes

dados estão espalhados por diferentes tradições mitológicas referentes ao deus, não existindo uma fonte, como os evangelhos, que compile toda a informação sobre Dioniso. A errância é algo comum aos Evangelhos, no que diz respeito à vida de Jesus, sendo as suas viagens restritas a um espaço bastante mais circunscrito. Segundo o

Evangelho de Mateus, em criança, Jesus fora obrigado a fugir para o Egipto, regressando

apenas apôs a morte do rei Herodes-o-Grande. Após entrar na vida adulta, e de ter sido baptizado nas margens do Jordão, Jesus abandona Nazaré para ir viver para Cafarnaum, sendo nesta cidade que começou a pregar. Junto ao lago da Galileia, o Nazareno conheceu os seus primeiros discípulos, partindo depois para pregar por toda essa região. Jesus regressa depois a Nazaré, onde é mal recebido. Ele prega depois na região de Genesaré, em Tiro e Sídon. De seguida, Jesus viaja para os lados de Magadã (ou Magdala), para a cidade de Cesareia de Filipe, para a Judeia e entra em Jerusalém. Já depois de morto e ressuscitado, o Nazareno regressa à Galileia424.

Em ambos os casos, as viagens são complementos do meio necessário para atingir o fim comum aos seus percursos mortais, a ascensão aos céus ou apoteose. No caso de Dioniso, as viagens são sinais das suas aventuras, que acabariam por comprovar o seu valor sobre-humano. No caso de Jesus, é a forma de transmitir a palavra de Deus.

Justino, no diálogo com Trifão, dá conta dos debates que existiam na sua época e que valem a pena recuperar:

For when they tell that Bacchus, son of Jupiter, was begotten by [Jupiter's] intercourse with Semele, and that he was the discoverer of the vine; and when they relate, that being torn in pieces, and having died, he rose again, and ascended to heaven; and when they introduce wine into his mysteries, do I not perceive that [the devil] has imitated the prophecy announced by the patriarch Jacob, and recorded by Moses? And when they tell that Hercules was strong, and travelled over all the world, and was begotten by Jove of Alcmene, and ascended to heaven when he died, do I not perceive that the Scripture which speaks of Christ, 'strong as a giant to run his race,' has been

422 Vide Ovi. Met. 3.581 e seguintes. 423 Vide Pierre Grimal op. cit. p. 122.

424 Vide Mt 3,13-17; 4,13; 4,18; 4,23; 8,28; 13,53-58; 14,34-36; 15,21; 15,29; 15,39; 16,13; 19,1; 21,10;

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in like manner imitated? And when he [the devil] brings forward Æsculapius as the raiser of the dead and healer of all diseases, may I not say that in this matter likewise he has imitated the prophecies about Christ?425

Justino refere que um dos pontos de comparação entre Jesus e Hércules era esta errância viajante. Como é possível observar no mesmo passo, o apologista refere que o Nazareno era comparado a Dioniso pelo facto de ambos terem morrido, ressuscitado e ascendido aos céus, e com Asclépio, por também levar novamente vida aos mortos e ter a capacidade de curar qualquer doença. O testemunho de Justino demonstra que, no século II d.C., estes eram traços comuns que promoviam analogias na mente dos indivíduos que os apologistas procuravam converter. Contudo, é curioso observarmos que practicamente todas as referências que o apologista faz se encaixam em Dioniso.

Em relação a Héracles/Hércules, Justino refere as muitas viagens do herói, a sua força e o facto de aquele herói greco-romano ser fruto da relação de um deus com uma mortal. A questão da gestação é directamente comparável com as referências que o apologista faz de Baco: também neste caso ambos são fruto da relação de um deus e uma mortal. A questão da errância viajante de Dioniso já foi aqui explicada. A força é o ponto em que se afastam um pouco mais, visto esta ser a principal característica de Hércules, ao ponto de o seu verdadeiro nome, Alceu ou Alcides, evocar a ideia de força física, ἀλχἡ426. Esta característica é marcada desde o nascimento, como no mito em que Hércules aperta o seio de Hera com tamanha violência que magoa a deusa, ou quando mata as serpentes que a deusa tinha enviado para o matar. Sem esta força sobre-humana, o herói não teria conseguido realizar os trabalhos de que fora incumbido com êxito. Esta característica não é tão marcante em Dioniso, onde a sua astúcia muitas vezes se revela um traço mais importante. Contudo, o deus não é desprovido de força bruta. O êxito do empreendimento militar de Dioniso na India é um exemplo desta característica, submetendo regiões pela força das armas. Ele participou também na luta contra os Gigantes, derrotando Êurito com um golpe de tirso427. Todavia, ao longo do seu percurso Dioniso tem mais demonstrações do seu poder do que de força bruta propriamente dita, algo à semelhança de Jesus, cuja pujança física nunca é realçada.

425 Vide Just. Dial. 69.

426 Vide Pierre Grimal op. cit. p. 205. 427 Vide Idem, ibidem p. 122.

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Em relação a Asclépio, Justino refere a capacidade de ressuscitar os mortos e de curar todas as doenças. Em relação à primeira, Dioniso foi capaz do mesmo, resgatando a sua mãe Sémele do inferno, além de ele próprio ressuscitar. Quanto à capacidade de cura, na tradição clássica não é algo tão característico do deus do vinho como é de Asclépio e mesmo de Jesus. Contudo, reconhece-se a Dioniso pelo um momento que merece ser mencionado. No mito relacionado com a instituição do festival das Grandes Dionísias, em Atenas, é contado que um homem chamado Pégaso, provavelmente um sacerdote do culto do deus, trouxe uma estátua de Dioniso. Contudo, a imagem não teria sido bem recebida, sendo os Atenienses castigados com uma doença, da qual seriam libertados apôs fabricarem falos em honra do deus428. Temos então um momento no qual Dioniso tem a capacidade de curar uma epidemia, ainda que provocada por ele429. Curiosamente, esta noção de intencionalidade de causa para demonstração de poder é também encontrada em Jesus. No caso de Lázaro, após receber a notícia da doença do seu amigo, o Nazareno responde da seguinte forma:

“Essa doença não é de morte, mas sim para mostrar o poder de Deus. Por ela vai Deus manifestar a glória de seu Filho.”430

Se optarmos por uma leitura literal das palavras de Jesus, podemos interpretar que a doença que afligia Lázaro era propositadamente causada por Deus, para o seu filho ter a capacidade de mostrar o seu poder ao povo.

428 Vide Isabel Castiajo O Teatro Grego em Contexto de Representação, Coimbra, Imprensa da

Universidade de Coimbra, 2012, p. 20

429 Vide Arthur Pickard-Cambridge, The dramatic festivals of Athens, Oxford, Clarendon, 1969, p. 57. O

autor salienta que esta tradição é relatada pelo escoliasta de Aristófanes (Schol. Ar. Ach. 243).

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Outro momento interessante de analisar é o relato da prisão de Jesus. No momento em que é traído por Judas, os discípulos demonstraram desejo de defender o Mestre com as suas espadas. Um deles, Simão Pedro, segundo o relato de João, não espera pela ordem de Jesus e ataca o criado do chefe dos sacerdotes, um homem chamado Malco, cortando- lhe a orelha direita. Perante a demonstração de violência, o Nazareno ordena aos discípulos que parem, passando de seguida a sua mão pela ferida do homem, curando- o431. Este é, efectivamente, o último milagre de Jesus antes da ressurreição.

A questão mais curiosa subjacente a este passo é o porquê de Pedro, um pobre pescador da Galileia, ter uma espada? De facto, o apóstolo só estava armado por ordem

431 Vide Mt 26,47-56; Mc 14,43-50; Lc 22,47-53; Jo 18,1-14. Características de Hércules, segundo Justino Mitos de Dioniso Características de Asclépio, segundo Justino Mitos de Dioniso Filho de um deus, Júpiter, e de uma mortal, Alcmena (Just. Dial. 69).

Filho de um deus, Zeus, e de uma mortal, Sémele (E. Ba. passim;Apollod.

Bibl. 3.4.3).

Ressuscita os mortos (Just. Dial. 69).

Resgatou a sua mãe, Sémele, do Inferno (Diod. 4.25).

A sua força tremenda é uma das características mais realçadas do herói (Just. Dial. 69).

Liderou uma campanha militar que logrou a conquista da India (Str. Geog. 11.5.5; Paus. 10.29.4). Participou na guerra com os Titãs, derrotando Êurito (Apollod. Bibl. 1.6.2).

Fez a casa de Penteu cair

(E. Ba. 580 e ss).

Capacidade de curar qualquer doença

(Just. Dial. 69).

Livra os atenienses de uma epidemia, que ele próprio tinha lançado ( Schol. Ar. Ach. 243).

Viajou por todo o mundo (Just. Dial. 69).

Viajou por todo o mundo (E. Ba. 1-20).

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do Mestre. No momento da Última Ceia, Jesus ordena aos seus discípulos que comprem uma espada, e que quem não tenha posses para o fazer que venda a sua capa para adquirir a arma432. Este passo tem suscitado várias interpretações. Dale Martin sugere que o facto de os seus discípulos estarem armados terá sido um ponto crucial para a detenção de Jesus433. Jacques Ellul considera ridícula a ideia de lutar com apenas duas espadas,

defendendo que a acção do Nazareno escondia a intenção de cumprir a profecia de Isaías434, segundo a qual o Messias teria de ser considerado criminoso435. Apesar da

plausibilidade da afirmação de Ellul, podemos também ressalvar que a situação de Jesus não sofreria grande alteração mesmo que todos os discípulos estivessem armados. A Páscoa era a época mais preocupante em Jerusalém, em termos de segurança, e seguramente que existiria um reforço de forças romanas na cidade. Na mesma linha de pensamento, podemos questionar: que êxito poderiam ter os apóstolos em combate, sendo eles homens nada versados na arte da guerra, frente à multidão que gritava a favor da crucificação de Jesus e da libertação de Barrabás?

Independentemente do sentido da acção do Nazareno, ela adequa-se à linha que estávamos a tentar analisar. Jesus possibilitou o acto violento de Pedro, conseguindo dessa forma demonstrar novamente o seu poder, ao curar Malco.

Ao referirmos os momentos em que Dioniso é relacionado com episódios de cura, centramo-nos simplesmente numa análise dos mitos do deus da época clássica. Contudo, na análise da obra de Nono de Panópolis encontramos vários exemplos. Na epopeia dionisíaca, o deus cura Ino, que tinha sido enlouquecida por Hera436, a ressurreição de Ampelo437 e de Estáfilo438, a cura de um cego439, a cura dos filhos de Areto440, entre

outros441. Como David Hernández de la Fuente ressalva, existe um Dioniso diferente

432 Vide Lc 22,35-38.

433 Vide Dale Martin, “Jesus in Jerusalem: Armed and Not Dangerous”, Journal for the Study of the New

Testament, 37/1, 2014, pp. 3-24. 434 Vide Is 53,12.

435 Vide Jacques Ellul, Anarchy and Christianity, Grand Rapids, MI, Eerdmans Publishing Company, 1991,

p.64. 436 Vide Non. D. 9.276-280. 437 Vide Non. D. 12.188-192. 438 Vide Non. D. 19.178-180. 439 Vide Non. D. 25.287. 440 Vide Non. D. 26.285-290.

441 Para uma análise detalhada destes passos ver David Hernández de la Fuente, “Parallels between

Dionysos and Christ in Late Antiquity: Miraculous Healings in Nonnus’ Dionysiaca” A. Bernabé, M. Herrero de Jáuregui, A. Jiménez San Cristóbal, R. Martín Hernández (eds.) Redefining Dionysos, Berlin, De Gruyter, 2013, pp. 464-487. Konstantinos Spanoudakis (“The Resurrections of Tylus and Lazarus in

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antes e depois de Nono442, deixando de existir o deus cruel descrito por Euripides, para dar lugar uma figura paralela à divindade mais importante da época: Jesus. Nas suas duas obras, Nono procura aproximar as duas figuras, mesmo utilizando vocabulário semelhante quando trata Dioniso na epopeia e Jesus na Parafráse. Tendo analisado diferentes paralelos entre o deus grego e a divindade cristã, especialmente as correlações observáveis na iconografia e nas obras de Nono, de la Fuente chegou à seguinte conclusão:

In short, for Nonnus, Dionysos is a character partly modelled upon the biographic-mythical pattern of Christ, and not only upon stories char- acteristic of pagan mythology. The fact that he composed as well a theologically learned Paraphrase of the Gospel of John, added to the parallel treatment and descriptions of the mythical heroes Dionysos and Christ and of their miraculous deeds, seems to equate both divinities in Nonnus’ work. Also, in light of the iconographic evidence and that from Greek literature of Late Imperial times, we will be predisposed to better understand one of the most interesting transitional chapters between the ancient and the medieval worlds – the definite struggle between Christianity and paganism, and the syncretism between both religions – exemplified in an always-changing god, who has survived throughout history revisited, redefined and reused in Western arts,

letters and thinking: Dionysos.443

Nonnus of Panopolis (Dion. XXV, 451–552 and Par. Λ)”, D. Lauritzen, M. Tardieu (eds.), Le voyage des

légendes. Hommages à Pierre Chuvin, Paris 2013, pp. 191–208. ) explorou o passo de Icário das Dionysiaca

(47.1-264), demonstrando que Nono procurou identificar o pai de Erígone com Jesus, atribuindo a Dioniso um episódio de paixão semelhante ao que acontece nos relatos bíblicos em torno do Nazareno. Noutro artigo, (“Icarius Jesus Christ. Biblical Narrative and Dionysiac Passion in Nonnus’ Icarius Episode (Dion. 47,1–256)”, WSt, 120, 2007, pp. 35–92.) Spanoudakis cruzou os relatos da ressurreição do companheiro de Dioniso e da ressurreição de Lázaro, na epopeia dionisíaca e na Parafráse, respectivamente. Os dois artigos são bem-sucedidos em mais uma vez demonstrar a intencionalidade do autor destas obras em aproximar as duas divindades.

pp. 473-479.

442 Vide Idem, ibidem p. 483. 443 Vide Idem, ibidem p. 484.

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