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3. PROCESSOS PSICOSSOCIAIS DA IDENTIDADE DOS

3.1 A CRISE IDENTITÁRIA DOS FIÉIS ANTES DA CONVERSÃO

3.1.1 Diferenças e Identidade no Contexto Iurdiano

O sistema de classificação do mundo é construído por cada cultura em determinada época histórica e, é através desse processo de classificação que se constroem os meios de atribuição de sentido, tanto ao mundo quanto aos significados da vida humana. Cada cultura estabelece limites e detalhadamente percebe as diferenças que são decisivas para se entender diversas identidades constituídas no campo das relações socioculturais.

Para Woodward (2000, p. 41) “a marca da diferença é, assim, o comportamento- chave em qualquer sistema de classificação”. A Identidade e a diferença são relações constutivas de uma experiência inseparável. Dullus faz a seguinte afirmação: “Toda identidade, para existir precisa de algo fora dela, de uma outra identidade que difere

dela. É preciso pensar, geralmente, primeiro no diferente para tomar consciência de quem somos nós. [...] A identidade é o que ela não é” (1996, p. 206).

Nessa perspectiva, a identidade é relacional, pois depende de uma outra diferente dela para existir; uma vez que esta lhe dá condições para se autoconceitualizar no universo plural da existência. Nessa linha de raciocínio, a diferença em oposição à identidade pode ser vista como positividade, porque diferente é o que o outro é: sou católico e o outro é evangélico.

Embora essas afirmações sejam marcadas pelas diferenças constituem-se como duas instâncias que constroem positivamente a identidade, como afirma Woodward (2000) a identidade e a diferença andam juntas, são inseparáveis. A identidade depende da diferença e a diferença depende da identidade. De fato, é a diferença quem fornece os dados, tanto para comparação quanto para conscientização das peculiaridades de cada indivíduo.

A contribuição do outro é dupla. Primeiro desperta a atenção para a diferença e depois dinamiza a expansão da identidade. E é justamente nesse processo de comparação e crescimento da identidade que se observa a não-neutralidade do seu estabelecimento. A identidade não é algo imutável, nem fixa e permanente. Ela está em constante dinamismo construtivo estrutural. Cabe ressaltar que o processo passivo e performativo da identidade, pode se sentir ameaçada pela diferença; quando esta de forma demasiada exerce menor pressão sobre a identidade. Isto se deve ao foto de que toda identidade necessita de um referencial que lhe falta para sua completude.

Segundo Ignatieff (apud Woodward, 2000),

A identidade, com freqüência, cerca-se de reivindicações essencialistas sobre a pertença e a não-pertença a determinado grupo identitário, onde a identidade é percebida como fixa e imutável [...] Às vezes estas reivindicações estão baseadas em alguma versão essencialista da história e do passado onde a história é construída ou representada como uma verdade imutável [...] A identidade e, de fato, relacional e a diferença é estabelecida por um sistema de símbolo concernentemente a outras identidades [...] tanto o processo social quanto o simbólico, embora sendo dois processos diferentes, são necessários para a construção e suporte das identidades (p. 8-9).

Quando a questão das mudanças que têm ocorrido no âmbito da identidade e que conduzem à crise de identidade, é importante estudar sobre como as identidades se formam, o implica estudar a diferença e também a ligação dos sistemas de representação

com o processo de construção das identidades. Nos processos de representação estão incluídos as práticas e os sistemas simbólicos, através dos quais os conceitos vão se construindo; pois é a partir dos significados produzidos por esses processos que cada indivíduo dar sentido a sua existência e a sua experiência.

É na dimensão simbólica que cada indivíduo desenvolve o autoconceito de ser quem é e do poder de se modificar no contexto físico e social, erigido pelos discursos e pelos sistemas de representação social; reconhecendo sua posição dentro do espaço socialmente constituído.

Segundo a reflexão de Woodward (200) a marca da diferença é feita de dois modos: pode ser determinada através dos sistemas simbólicos e por meio da exclusão do indivíduo do grupo. Ana em seu depoimento retrata bem a reflexão da autora:

Eu não me sentia a vontade na Igreja Católica, quando chegava lá ninguém mim dava atenção...lembro daquelas senhoras com o terço na mão rezando e nem se quer mim convidava. Um dia fui conversar com elas pra eu participar e elas perguntaram se eu já era batizada e se fazia parte da legião de maria. Eu diz que não, ai elas me olharam com a cara feia e começaram a rezar..isso fico na minha cabeça até hoje (outubro de 2008).

Percebe-se que Ana busca inseri-se dentro do simbolismo religioso mariano, mas não foi bem acolhida pelas pessoas que direcionam o encontro litúrgico. Daí pode-se compreender o relevo que a existência do simbólico tem na vida em sociedade, tanto na esfera laica quanto no campo religioso. Durkheim (2000) em seus estudos destacava a importância do simbólico para vida social. Sem eles a vida dos sentimentos socais se tornariam tão inconsistente, que não se manteria24. Dessa forma, a influência do simbólico é evidente nos estudos da identidade.

Desse modo, o estudo da reconstrução identitária pelo processo de conversão religiosa traz como subtemas a crise de identidade, a subjetividade, o pluralismo e os neopentecostais; como norteadores do sistema simbólico que permitem aos indivíduos firmarem uma identidade religiosa evidenciada pelas mudanças socioculturais.

Giddens (2005) diz que as mudanças têm provocado liberdade política e crescente autonomia do sujeito. Ortiz (apud SAUER, 2003) já é mais consensual ao dizer que esses movimentos têm provocado alterações simbólicas tanto positivas (pluralidade e autonomia) como negativas (fragmentação e crise).

24 À sua época o autor se referia aos sistemas de classificação como ordenadores da vida em sociedade,

Identidade e diferença, diz Silva (2003, p.81), são resultados de um processo de produção simbólica e discursiva. Elas são uma relação social. Identidade e diferença não são simplesmente definidas, são impostas, existe uma relação de poder. Denotam relações de poder: incluir/excluir (estes pertencem, aqueles não pertencem); demarcar fronteiras (nós e eles); classificar (bons e maus; puros e impuros).

De acordo com a tese de Silva (2003), quando o crente diz “sou evangélico, sou iurdiano”, existe aí uma forte cadeia de negação – “não sou católico, não sou da Assembléia de Deus”. A identidade é a referência, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença. Se antes Ana não sabia se definir, porque nunca tinha pensado nisso, mas sabia que era prostituta, alcoolista, e isso a deprimia, a nova identidade lhe concebe um status de identidade prototípica de mulher para a sociedade em que ela vive.

A identidade e a diferença traduzem-se em declarações sobre quem pertence e sobre quem não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído. Afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora.

A identidade está sempre ligada a uma forte separação entre nós e eles. A demarcação de fronteiras, de separação e distinção, supõe e ao mesmo tempo afirma e reafirma relações de poder.

Encontrou-se, por exemplo, um fiel que dizimava freqüentemente na IURD há mais ou menos cinco anos e, no entanto, não se considera convertido, diz que ainda não foi tocado pelo Espírito Santo, uma vez que ainda não conseguiu reatar o seu casamento. Este pode ser um sinal importante para ele de que Deus ainda não o tocou e pode demonstrar ainda sua fraqueza, fato que pode ser traduzido como processo de culpa pelas “erranças” a que esteve submetido. O que pode ser um sinal de pertencimento ou não ao mundo dos bons ou maus.

Essas particularidades são resultados das representações socioculturais que os seres humanos constroem. São fatos da vida, como geralmente são considerados, que precisam ser justificados nomeadamente pelos sistemas simbólico-transcendentais da crença religiosa, cuja função é a reestruturação do sentido existencial em meio às diferenças; porque é por elas que se definem nitidamente a pertença a este ou aquele grupo.

Neste sentido, não é sem razão que a Igreja Universal do Reino de Deus insiste na diferença que seus membros devem fazer no meio social onde vivem, mostrando as

características diferenciais da doutrina iurdiana. É justamente por esse processo de diferenciação que as pessoas se identificam e se constituem como partes da denominação religiosa que optaram.

Hoje eu me sinto orgulhosa porque sou uma mulher de Deus. Tudo mudou pra mim. Posso conversar com minha mãe e ninguém mim aponta mais na rua como uma bebarona. As pessoas são ruim não perdoa! Mais hoje eles não comenta porque estou na igreja agora eles sabem que sou uma mulher de respeito e trabalhadora. Fico feliz por ser evangélica da Igreja Universal (Ana, outubro de 2008).