5. A dignidade da pessoa humana na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: um caso de trivialização e constitucionalização simbólica?
5.6 Estudo empírico do conceito de dignidade humana na jurisprudência do STF
5.6.7 Dignidade humana e células-tronco
Ao julgar a ADI 3510, o STF julgou improcedente ação que visava a declarar inconstitucional a lei de n. 11.105/05, chamada de Lei da Biossegurança, que autoriza, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não usados no respectivo procedimento, e estabelece condições para essa utilização. Durante o julgamento, muito se discutiu sobre a dignidade humana.
Em breves palavras, buscar-se-á sintetizar o que ficou assentado durante o julgamento quanto ao conceito de dignidade humana.
81 Estavam ausentes o MINISTRO GILMAR FERREIRA MENDES e o MINISTRO CELSO DE MELLO. 82 cf. Voto do MIN.AYRES BRITTO no MS 28720/DF.
Parece ser razoável concluir da leitura do acórdão em questão que o Supremo Tribunal Federal entendeu que a dignidade humana não implica uma proteção da vida intrauterina. No voto do relator, MINISTRO AYRES BRITTO, frisou-se bastante o entendimento de que a dignidade é “da pessoa humana”. Logo, não há uma “dignidade de embriões”. Segundo essa perspectiva, a dignidade humana está irremediavelmente ligada ao conceito de pessoa, isto é, ser humano que nasceu com vida.
Dessa forma, não há uma “pessoa por nascer”, porque pessoa é apenas aquela que já nasceu. Nesse contexto, asseverou-se “(...) que as pessoas físicas ou naturais seriam apenas as que sobrevivem ao parto, dotadas do atributo a que o art. 2º do Código Civil denomina personalidade civil, assentando que a Constituição Federal, quando se refere à ‘dignidade da pessoa humana’ (art. 1º, III), aos ‘direitos da pessoa humana’ (art. 34, VII, b), ao ‘livre exercício dos direitos... individuais’ (art. 85, III) e aos ‘direitos e garantias individuais’ (art. 60, § 4º, IV), estaria falando de direitos e garantias do indivíduo-pessoa. Assim, numa primeira síntese, a Carta Magna não faria de todo e qualquer estádio da vida humana um autonomizado bem jurídico, mas da vida que já é própria de uma concreta pessoa, porque nativiva, e que a inviolabilidade de que trata seu art. 5º diria respeito exclusivamente a um indivíduo já personalizado.”83
Conquanto se reconheça, no voto mencionado, a presença, no ordenamento jurídico infraconstitucional, de alguns “direitos do nascituro”, da vedação à gestante de dispor de tecidos, órgãos ou partes de seu corpo vivo e do ato de não oferecer risco à saúde do feto, e da criminalização do aborto, concluiu-se que não se pode derivar daí um conceito de dignidade humana que alcance embriões humanos.
O voto do MINISTRO AYRES BRITTO foi seguido pela maioria do STF. Praticamente todos os ministros que seguiram Sua Excelência partilharam do entendimento de que apenas pessoas são dotadas de dignidade. Nesse particular, os votos do MIN. JOAQUIM BARBOSA e da MIN. CARMEN LÚCIA foram bastante claros.84
O voto do MIN. CELSO DE MELLO, por exemplo, não reconhece que a lei impugnada violaria a dignidade. Contudo, ele enfatiza, positivamente, em seu voto, que as prescrições penais contidas na lei buscam “preservar” os embriões utilizados, de modo que sejam usados de maneira meticulosamente cuidadosa. Dessa forma, o ministro parece entender
83 cf. Voto do MIN.AYRES BRITTO na ADI 3510.
que a lei se encontra dentro da margem de conformação dada ao legislador, tendo em vista que tomou as cautelas necessárias para lidar com um espinhoso tópico.85 Contudo, em nenhum momento, fica claro, durante o voto, se a lei é, ou não, uma ingerência (Eingriff), ainda que legítima, no direito à dignidade humana.
Já o voto do MIN. MARCO AURÉLIO é no sentido de que a dignidade humana inclui o direito à saúde e que, em virtude dos possíveis avanços científicos a serem obtidos por meio das pesquisas com células-tronco embrionárias, a Lei da Biossegurança seria verdadeira concretização da dignidade humana, sem apresentar-lhe qualquer contrariedade, nem mesmo potencial.86
Nem todos os votos foram claros no que concerne a existir, ou não, uma proteção da vida intrauterina oriunda da dignidade humana, inclusive porque cinco ministros decidiram por dar interpretação conforme a Constituição a alguns dispositivos da lei. Certo é que, com base nos votos, ainda que tal proteção à vida intrauterina possa ser reconhecida, ela não abrange embriões humanos como aqueles descritos na Lei da Biossegurança. Ao final, prevaleceu o entendimento de que a lei é constitucional, sem que fosse necessário dar-lhe interpretação conforme.
Há ao menos um excerto doutrinário que parece sumarizar o entendimento que se pode deduzir dos votos, ainda que não muito transparentes, dos membros da Corte que compuseram a maioria prevalecente naquela oportunidade. Vejamos, porquanto, o seguinte trecho de CARMEN LÚCIA ANTUNES ROCHA (2004, p. 47):
Em geral, os sistemas jurídicos afirmam que ser considerado pessoa em direito, vale dizer, dotar-se de personalidade para os fins de titularizar direitos, depende do nascimento com vida. Todavia, quanto aos direitos humanos, os direitos que cada ser humano titulariza não se há fazê-los depender da personalidade (…) Há que se distinguir, portanto, ser humano de pessoa humana. E, de pronto, há que se antecipar que o princípio da dignidade, que se expressa de maneira relevante quanto à pessoa humana, não se circunscreve a ela, senão que haverá que ser respeitado para a espécie humana, tomada esta em sua integralidade. (…) O embrião é, parece-me, inegável, ser humano, ser vivo, obviamente, que se dota da humanidade que o dota de essência integral, intangível e digno em sua condição existencial. Não é, ainda, pessoa, vale dizer, sujeito de direitos e deveres, o que caracteriza o estatuto constitucional da pessoa humana.
85 cf. Voto do MIN.CELSO DE MELLO na ADI 3510. 86 cf. Voto do MIN.MARCO AURÉLIO na ADI 3510.
O trecho acima deixa claro que a dignidade humana está ligada à ideia de pessoa. Logo, não há que se falar que a dignidade humana obstaria pesquisas com células-tronco embrionárias. Entretanto, infelizmente, os vários votos proferidos durante o julgamento da ADI 3510, embora longos, não demonstram, com clareza, que motivos levam a dignidade humana a não abarcar os embriões de que trata a Lei da Biossegurança.
Como visto, alguns votos limitam-se a dizer que a dignidade humana protege a saúde e que, portanto, a lei dá-lhe efetividade. Entretanto, seria necessário esclarecer, primeiramente, se, em algum caso, a vida intrauterina está abrangida pela dignidade humana. Posteriormente, seria imprescindível explicitar melhor os motivos que fazem com que alguns tipos de vida intrauterina, como no caso dos embriões, não sejam objeto de tutela por meio da dignidade humana.
Os votos proferidos durante o julgamento da ADI 3510, ao menos do ponto de vista conceitual e doutrinário, parecem obscurecer, e não esclarecer, o que seja a dignidade humana. O STF perdeu uma propícia oportunidade para delimitar melhor os contornos desse importante conceito.