3. Dignidade humana como conceito jurídico
3.11 Dignidade humana e impenhorabilidade de bens
Feitas essas considerações sobre as relações entre a dignidade humana e a liberdade de expressão, é importante compreender que tipo de ligação há entre a dignidade e a impenhorabilidade de bens.
Não é incomum encontrar nos escritos de civilistas brasileiros que a impenhorabilidade de bens é decorrência da dignidade humana (por todos, CHAVES; ROSENVALD, 2012, pp. 536ss.). Diz-se, por exemplo, que a impenhorabilidade da “televisão”, da “geladeira”, do “aparelho de som”, do “forno de micro-ondas”, do “freezer”, do “exaustor de fogão”, do “ar-condicionado”, do “computador”, da “máquina de lavar”, dentre outros utensílios domésticos, decorre do entendimento de serem eles “(...) essenciais à dignidade humana.” (CHAVES; ROSENVALD, 2012, p. 537).
Essa discussão é antiga na doutrina alemã. Em seu seminal artigo acerca da dignidade humana, publicado em 1956 e que representou um marco no estudo do tema, GÜNTER DÜRIG (1984, p. 142) já citava as proteções em face de penhora (Pfändungsschutz) sobre bens necessários à vida (lebensnotwendige Sachen) e sobre o salário (Arbeitseinkommen) previstas, respectivamente, nas §§ 811 e 850 da ZPO, como normas infraconstitucionais de concretização do direito fundamental à dignidade humana.
De fato, sempre que a impenhorabilidade servir como garante do mínimo existencial, compreendido como o valor necessário à sobrevivência fisiológica e à participação mínima na vida social, cultural e política, estar-se-á a falar de uma causa de impenhorabilidade com fulcro na dignidade humana.
Ocorre, todavia, que o legislador cria hipóteses de impenhorabilidade por motivos contingentes, de ordem político-legislativa, os quais, amiúde, não guardam relação com o mínimo existencial e nem, consequentemente, com a dignidade humana.
Com efeito, a impenhorabilidade do salário nem sempre é corolário da dignidade humana. Salários que ultrapassem o mínimo existencial, como frequentemente ocorre, podem ser (e de fato são) impenhoráveis, mas única e exclusivamente por uma questão de opção político legislativa.
Chegou-se a aprovar, no Congresso Nacional, o projeto de lei de n. 51 de 2006, que autorizava a penhora de até 40% dos vencimentos acima de 20 (vinte) salários mínimos. Entretanto, a parte do projeto que continha essa previsão foi vetada pelo Presidente da República.
O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) também entendeu por relativizar a impenhorabilidade dos salários. Contudo, em recente julgado (REsp. n. 904.774/DF, rel. MIN. LUIS FELIPE SALOMÃO, julgado em 18.10.11), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reformou o entendimento do TJDFT, reafirmando o caráter absoluto da impenhorabilidade de salário.
Essa impenhorabilidade, bem como qualquer outra, não deve ser enxergada apenas à luz da dignidade humana, pois esta última só assegura a impenhorabilidade do estritamente necessário à subsistência do executado e à sua participação mínima na vida social, cultural e política da sociedade em que se vive.
Nesse sentido, a impenhorabilidade de bens com espeque no mínimo existencial guarda semelhança com um dos fragmentos que nos restaram do jurista romano PAULO, o qual trata do beneficium competentiae, e que é citado no Digesto (Paul. 6 ad plaut., D. 42.1.19.1), nos seguintes termos: “Immo nec totum quod habet extorquendum ei puto; sed
ei ipsius ratio habenda est, ne egeat.”43
À luz do mesmo raciocínio e com ainda mais razão, impõe-se enxergar a impenhorabilidade de vaga em garagem como hipótese de impenhorabilidade dissociada da garantia da dignidade humana. Embora essa não seja a opinião transcrita nos precedentes do STJ e em alguns manuais de direito civil, é difícil enxergar como uma vaga em garagem possa ser pressuposto para a efetivação da dignidade. Sobretudo se se nota, com base no que prevê o enunciado sumular de n. 449 do STJ, que a vaga de garagem é ora penhorável, ora impenhorável, a depender de possuir matrícula própria no respectivo registro de imóveis ou estar vinculada, do ponto de vista registral, a um imóvel.
43 “Em absoluto, julgo dever ser extorquido dele tudo que possui; mas sim, deve-se cuidar para que não passe
Sob esse mesmo prisma, é possível entender, outrossim, a impenhorabilidade do imóvel que, conquanto bastante valioso, seja o único da família. Esse tipo de impenhorabilidade, vigente na ordem jurídica brasileira (cf. REsp. n. 715.259/SP, rel. MIN. LUIS FELIPE SALOMÃO, julgado em 5.8.10), é também mera opção legislativa e não decorrência e implicação da dignidade humana. Em outras palavras, possuir um imóvel suntuoso não é exigência para a concretização do mínimo existencial. Não obstante, se tal imóvel de valor elevado for o único bem familiar, recairá sobre ele o manto da impenhorabilidade, de que se reveste o bem de família legal, nos termos do art. 1º da lei de n. 8.009.
A despeito da plausibilidade da argumentação segundo a qual nem todas as impenhorabilidades devem ser vistas como decorrência do mínimo existencial e, consequentemente, da dignidade humana, o STJ continua invocando, indistintamente, a dignidade humana para decidir todos os casos de impenhorabilidade. A postura do STJ afigura-se implausível jurídicamente.
Ao decidir que o valor de até 40 (quarenta) salários mínimos depositado em conta- poupança é impenhorável, mesmo que esse valor esteja distribuído em diversas contas, a Terceira Turma do STJ afirmou, em julgado unânime, que o “objetivo” da impenhorabilidade de até 40 (quarenta) salários mínimos, prevista no inciso X do art. 649 do CPC, é “(...) claramente, garantir um ‘mínimo existencial’ ao devedor, com base no princípio da dignidade da pessoa humana.” (cf. REsp n. 1.231.123/SP, rel. MIN. NANCY ANDRIGHI, julgado em 2.8.12).
Não nos parece que possuir 40 (quarenta) salários mínimos em uma conta-poupança seja condição necessária para a garantia dos pressupostos faticamente indispensáveis para o exercício da autonomia. Na verdade, o valor parece ser bem superior a uma mera proteção do absolutamente imprescindível para a subsistência do executado e para a sua participação mínima na vida social, cultural e política da sociedade em que vive. Se o mencionado valor é impenhorável, tudo indica que isso se deve à história do Brasil (a mencionada hipótese de impenhorabilidade foi criada em 2006 e, portanto, depois do congelamento dos ativos financeiros ocorrido no ínicio de década de 90) e à tentativa de inspirar confiança nos pequenos investidores que, por meio de contas-poupanças, mantêm ativa uma importante parte do sistema financeiro nacional.
Nenhuma dessas garantias, seja a do imóvel suntuoso, seja a do valor de até 40 (quarenta) salários mínimos depositados em conta-poupança, tutela os pressupostos fáticos
da autonomia, conforme delineados pela doutrina constitucional. Logo, não parece ser possível invocar a dignidade humana para fundamentar as mencionadas hipóteses infraconstitucionais de impenhorabilidade, ressalvados os casos, como dito, em que a impenhorabilidade resguarda o próprio mínimo existencial.
Como normas infraconstitucionais concretizadoras do mínimo existencial e da dignidade humana, podemos citar, por exemplo, as prescrições do art. 548 e do parágrafo único do art. 928 do Código Civil, que, respectivamente, tornam nula a doação sem reserva de bens para a “subsistência do doador” (assim chamada “teoria do patrimônio mínimo”) e obstam a indenização por ilícito civil realizado por incapaz quando o seu pagamento privar o incapaz ou seus responsáveis do que lhes for “necessário”.
Nesses dois últimos casos, é sim possível falar em tutela do mínimo essencial à existência digna.