3 OS DIREITOS FUNDAMENTAIS EM QUESTÃO: RESTRIÇÃO E RENÚNCIA
3.1 Direito à vida: realmente um direito ou um dever?
Tão complexa quanto impossível é conceituar a vida; na mesma proporção, complexa é a definição do direito à vida.
Ocorre que adotaremos ao menos um conceito de direito à vida, para nossa delimitação. Assim, o direito à vida pode ser considerado “premissa dos direitos proclamados pelo constituinte; não faria sentido declarar qualquer outro se, antes, não fosse assegurado o próprio direito de estar vivo para usufruí-lo” (MENDES;
BRANCO, 2017, p. 256).
Percebemos que a dicotomia entre viver e exercer direitos é bastante presente na definição acima e, não por outra razão, foi a primeira a ser adotada.
Em que pese ser a vida um pressuposto para o exercício de outros direitos proclamados pelo constituinte, não significa dizer, em absoluto, que a vida é hierarquicamente superior a outros direitos, justamente porque o enfrentamento dicotômico de determinados temas não permite a sua adequação com a dialeticidade necessária, especialmente quando do enfrentamento de temas multidisciplinares como o proposto nesta tese.
Outrossim, o direito à vida “aparece vinculado aos direitos à integridade física, alimentação adequada, a se vestir com dignidade, a moradia, a serviços médicos, ao descanso e aos serviços sociais indispensáveis” (MENDES; BRANCO, p. 256).
Todavia, os autores alertam para uma questão crucial: “o direito à vida cola-se ao cola-ser humano, desde que este surge e até o momento de sua morte” (MENDES;
BRANCO, p. 257). Portanto, admite-se, também de pronto, que viver não é o suficiente, se desprovida – a vida – de outros fundamentos.
O direito à vida sofre inúmeros influxos, mas a corroborar a defesa feita desde o princípio deste trabalho, vida e morte são apresentadas como duas faces de uma mesma moeda, a ponto de Gilmar Mendes e Paulo Gustavo Gonet Branco (p.
256-257) estabelecerem que o direito à vida é “colado” ao ser humano, ou seja, a nós – e hoje também aos animais – desde o seu surgimento até o momento de nossa morte.
Uma vez mais, não nos ocuparemos de verificar as inúmeras teorias acerca do início da vida, tampouco a maneira de realizar a “prova de vida”, mas tão somente nos ocuparemos, eleita uma definição de direito à vida, dentre uma gama de possibilidades e definições, a analisar elementos fundamentais e circundantes a esse direito.
O primeiro deles se apresenta na forma de entendimento de que “o homem não vive apenas para si, mas para cumprir uma missão própria na sociedade, assim, absoluto, fundamental” (COAN, 2001, p. 259-260).
Logo, comparando o momento em que o texto citado fora escrito (ou ao menos publicado, 2001) e o atual (em que este trabalho é escrito, 2021/2022), em que se discute na realidade europeia o suicídio assistido por vida completa62, questiona-se: não se pode conceber a ideia de “cumprir uma missão” como finalizada?
Ou, em outras palavras, o fato de o ser humano já entender como cumprida a sua missão em vida? A quem cabe decidir sobre qual ou quais missões os seres humanos devem se debruçar e dedicar seu tempo e, assim, a sua própria vida? E, ainda, e se não houver pretensão de cumprir missão alguma?
O direito a se manter vivo é, certamente, um dos nossos direitos mais fundamentais, mas a inviolabilidade ao direito à vida, disposta no art. 5º, X, da Constituição Federal de 1988, não evidencia a vida como um dever, nem para consigo mesmo, tampouco para com os outros. Nesse sentido, Roberto Dias (2010, p. 104) esclarece: “tampouco pode ser entendida como um direito absoluto, indisponível e irrenunciável”.
Portanto, a construção apresentada é no sentido de discordar sobre a inviabilidade da vida em relação a si mesmo, quando analisada sob o viés de seu próprio titular, pois se temos direito à vida, também temos o direito de decidir sobre a nossa própria vida, sobre a nossa própria finitude e, por quê não, sobre a nossa própria morte.
A inviolabilidade da vida tem relação estrita com terceiros, justamente porque a ação ou omissão contra a vida do outro é proibida, mas não se admite – embora existam entendimentos em sentido diverso – a leitura de nossa Constituição como proibitiva no sentido de qualquer pessoa poder decidir sobre a duração de sua
62 Em livre tradução para a língua inglesa: assisted suicide by completed life.
própria vida (SZTAJN, p. 156).
Destarte, viver bem não significa viver muito, mas com qualidade de vida e, em especial, com dignidade. Novamente, a análise é feita no campo da disponibilidade da vida humana. Todavia, se a condenação do paciente é certa, se a morte é inevitável, estamos realmente protegendo a vida ou apenas postergando a morte, com sofrimento, crueldade e indignidade?
Para não avançarmos muito nessas questões, reforçamos que o art. 5º, X, da Constituição Federal ou seu caput trata do termo “invioláveis”, não aborda, por suposto, irrenunciabilidade. Ademais, essa inviolabilidade se verifica justamente na proteção da vida de cada um em relação a terceiros, ou seja, a vida não pode ser ceifada de maneira arbitrária ou de qualquer outra forma.
Até por uma questão semântica, ainda que criticável esse posicionamento inicial, não se verificam as palavras irrenunciáveis ou indisponíveis na construção constitucional do direito à vida.
Sobre a irrenunciabilidade, Virgílio Afonso da Silva (2005, p. 61-65) defende que os direitos fundamentais não têm como característica a irrenunciabilidade, ressalva esta feita quando abordamos as principais características atribuídas aos direitos fundamentais.
A justificativa de Virgílio Afonso da Silva é acompanhada de exemplos, dentre eles, a do próprio suicídio, mas no caso não assistido, ou seja, a pessoa pode cometer suicídio, renunciando ao direito à vida, mas qual a razão para que tal possibilidade não seja uma opção, constitucionalizada e a revelar a dignidade da pessoa que assim opta por fazê-lo?
Outro exemplo, nas páginas referenciadas, é a exposição aos trabalhos insalubres ou perigosos, havendo contrapartida pecuniária para tanto. Em síntese, ceder “parte” da vida e da saúde para receber uma contrapartida pecuniária é constitucional e legalmente aceito, mas se este argumento é sobre a totalidade da vida, passa a não o ser?
Outro ponto da análise do direito à vida é sua relação com a moral coletiva e as arbitrariedades dela decorrentes63. Não apenas moral coletiva e suas arbitrariedades, mas também questões relativas à religião, ao proselitismo e ao Estado confessional, o que acaba impedindo a renúncia a um direito fundamental, à
63 Sobre o tema: H. SILVESTRONI, set. 1999.
vida, justamente se valendo de outro direito igualmente fundamental, a liberdade, e obrigando uma pessoa a sofrer com uma morte dolorosa, renunciando, assim, o que a ela deveria ser garantido, qual seja, a sua dignidade enquanto pessoa humana, ainda que no final da vida.
Do que se verifica até o momento, estamos aptos, tendo – ainda que brevemente – definido o direito à vida juridicamente e apresentado as principais implicações com o tema proposto nesta tese, a estabelecer que inviolabilidade não é sinônimo de indisponibilidade ou de irrenunciabilidade.
Estabelecemos acima que normas, compreendidas aqui regras e princípios, integram nosso ordenamento, entretanto, os direitos fundamentais, seja por sua universalização ou por sua globalidade, não assumem condição de regra, mas geralmente de princípio. Assim, em cada colisão entre princípios é que se verifica a aplicação, em outras palavras, no caso concreto.
Em síntese, ao verificar que a inviolabilidade não significa que os direitos em questão não sejam passíveis de ponderação, já que se revestem de princípios, Roberto Dias revela:
Como se nota, numa série de situações, a Constituição trata um direito como “inviolável” e isso não significa que ele não seja passível de ponderação, pois princípios que veiculam esses direitos, quando em colisão, exigem que se faça uma análise das condições sob as quais um deles deve preceder ao outro, realizando um sopesamento de modo a harmonizá-los.
Não é diferente em relação ao princípio que consagra o direito à vida, pois, apesar da previsão constitucional de sua inviolabilidade e de se tratar de um pressuposto para o exercício dos outros direitos, não significa que tal princípio não se submeta a sopesamento, cedendo espaço a outros princípios jusfundamentais que com ele se choquem (DIAS, 2010, p. 107).
Vida e morte são indissociáveis, mas para analisá-las devemos verificar o direito à liberdade, posto que sendo a morte um dos mais elevados momentos da vida ou a única certeza, precisamos encará-la de forma a analisar sua disposição, assim como dispomos sobre a vida e a maneira de viver.
Nessa perspectiva, Ingo Sarlet, quando trata dos direitos embrionários, conclui e passa aos direitos relacionados ao final da vida:
Já no outro extremo da vida, merecem atenção diversas hipóteses que envolvem a atribuição da titularidade de direitos fundamentais àqueles que se encontram pelas mais diversas razões, em situações limítrofes, como é o caso da manutenção artificial da vida, da
capacidade de ser titular de direitos (e de quais direitos), nos casos de demência e senelidade aguda, onde a falta de consciência até mesmo de eventuais violações da dignidade e da própria condição pessoal, acaba, tal qual em outras hipóteses, implicando a discussão a respeito de um direito a uma morte digna e, em termos gerais, guarda relação íntima com todo o debate em torno das diversas formas de eutanásia e suicídio assistido (SARLET, 2012, p. 222).
Finalmente, analisando e contextualizando o direito à vida, mas sobre a renúncia ao direito ou ao exercício ao direito – que será diferenciada na sequência – esclarece-se que alguns “não permitem uma renúncia apenas ao exercício, ficando comprometido o direito como um todo na eventual adoção de posição renunciatória”, como é o direito à vida (ADAMY, 2011, p. 55).
Para tanto, enfrentaremos a liberdade, como direito assegurado pela Constituição Federal de 1988, liberdade esta, aliás, contemplada de forma igualmente inviolável pelo art. 5º da Constituição.