2.4 Conceitos e contextos necessários
2.4.3 Ortotanásia
Na mesma esteira, José Afonso da Silva, ao elencar os motivos de Remo Pannain para a punibilidade da eutanásia, além da questão religiosa, indica mais 3 motivos que se oporiam a sua impunidade:
(a) motivos científicos e de convivência, tais como a possibilidade de um erro de diagnóstico, da descoberta de um remédio, bem como a eventualidade de pretexto e de abusos; (b) motivos morais (e mesmo jurídicos), pois que, dado o valor atribuído à vida humana pela consciência comum e pelo ordenamento jurídico, não se pode privar a criatura humana nem de um só átimo de existência; (c) de resto, a prevalência do motivo de piedade sobre a natural aversão à supressão de um semelhante revela, em quem pratica a eutanásia, uma personalidade sanguinária ou, pelo menos, propensa ao delito.
A eutanásia não mereceu maior atenção na Constituinte (SILVA, 2008, p. 202).
Além dos motivos acima, José Afonso da Silva revela que a “eutanásia não mereceu maior atenção na Constituite”, todavia, não esclarece quais as razões para isso, tampouco concorda ou discorda sobre a ausência de importância ou atenção relegada ao tema. Parece-nos que naquele momento o assunto ainda era muito mais distante da realidade brasileira, mais ainda do que é hoje, o que não significa que não se possa rever a necessária atenção à eutanásia e ao suicídio assistido.
Em que pese os motivos apresentados, Ronald Dworkin sugere uma primeira resposta sobre o que fazer em relação aos argumentos de não legalização a serem enfrentados:
[...] queremos ter o direito de decidir por nós mesmos, razão pela qual deveríamos estar sempre dispostos a insistir em que qualquer Constituição honorável, qualquer Constituição verdadeiramente centrada em princípios, possa garantir esse direito a todos (DWORKIN, 2009, p. 343).
Conforme expusemos, o capítulo não se destina a enfrentar os pontos favoráveis ou desfavoráveis. Neste momento, o intuito é delimitar os conceitos relacionados ao tema principal da tese, o que nos leva a passar, de imediato, à delimitação da ortotanásia.
Por isso, não se pode aceitar que se entenda por sinônimos os termos eutanásia passiva e ortotanásia, porque isso leva o aplicar da norma a uma conclusão equivocada, decorrente da ausência de percepção da real condição que leva o paciente ao resultado morte.
Portanto, embora o nome seja uma questão de somenos importância, acaba adquirindo um realce diverso todas as vezes que o operador do direito olvida-se de apurar a causa do evento e aceita passivamente a consequência jurídica de determinada situação no lugar da outra (SANTORO, 2011, p. 108).
A expressão ortotanásia, etimologicamente, remete à morte no tempo certo, já que orthos, em grego, significa “normal” e, thanatos, “morte” (SÁ; MOREIRA, 2015, p. 87).
Para além da construção etimológica, temos o conceito classificado como a suspensão de medicamentos ou o tratamento de um paciente, permitindo o desencadeamento do processo natural da morte (DINIZ, 2010, p. 411).
A medicina não se apresenta, assim, para curar, mas para mitigar dores. O
“o meio-termo a ser buscado, evidentemente, é aquela morte ocorrida em tempo oportuno, quando a vida não se mostra mais possível” (SANTORO, 2011, p. 132).
Para Débora Diniz,
Não se define obstinação terapêutica em termos absolutos. Um conjunto de medidas terapêuticas pode ser considerado necessário e desejável para uma determinada pessoa e excessivo e agressivo para outra. Esta fronteira entre o necessário e o excesso nem sempre é consensual, pois o que há por trás desta ambigüidade são também diferentes concepções sobre o sentido da existência humana. Há casos de pessoas que, mesmo diante de situações irreversíveis e letais, desejam fazer uso de todos os recursos terapêuticos disponíveis para se manterem vivas. Outras pessoas definiram limites claros à medicalização de seu corpo, estabelecendo parâmetros que nem sempre podem estar de acordo com o que os profissionais de saúde considerariam como a conduta médica adequada e recomendada. O desafio ético para os profissionais da saúde, tradicionalmente treinados para sobrepor seu conhecimento técnico às escolhas éticas de seus pacientes, é o de reconhecer que as pessoas doentes possuem diferentes concepções sobre o significado da morte e sobre como desejam conduzir sua vida (DINIZ, 2007, p. 295-296).
Nessa perspectiva, Luciano de Freitas Santoro define ortotanásia:
A ortotanásia, assim, é o comportamento do médico que, frente a uma morte iminente e inevitável, suspende a realização de atos para prolongar a vida do paciente, que o levariam a um tratamento inútil e a um sofrimento desnecessário, e passa a emprestar-lhe os cuidados
paliativos adequados para que venha a falecer com dignidade. Por isso, a ortotanásia pode ser considerada como a conduta correta frente à morte, a qual será realizada a seu tempo e modo, já que não antecipará ou a retardará, mas sim, aceitará que, tendo iniciado o processo mortal, deve-se continuar a respeitar a dignidade do ser humano, não submetendo o paciente a uma verdadeira tortura terapêutica (SANTORO, 2011, p. 133).
Revela-se, portanto, que as pessoas doentes possuem diferentes concepções, tanto sobre a vida, quanto sobre a própria vida; sobre a morte e sobre a própria morte; conclusões que retomam o argumento de multi e interdisciplinaridade do tema. Assim, utilizamos conceitos de outras ciências para nossa discussão, mas no intuito de garantir uma análise jurídica do suicídio assistido e de todos os demais temas a ele correlatos.
Em sede de contextualização, e diante do pressuposto estabelecido da laicidade, a Igreja Católica, desde o século IV, aceita a modalidade indireta do que denominou ser eutanásia ativa. Em 1957, o Papa Pio XII declarou, oficialmente, sua compatibilidade com os dogmas católicos (LEPARGNEUR, 1999, s/p), o que evidencia uma evolução também a ser questionada em outros casos de mortes consideradas dignas, exatamente como evidenciamos na Declaração sobre Eutanásia da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.
Nesse ponto, assim como realizado no início deste trabalho, a referida Declaração, aprovada em 05 de maio de 1980, apresentada acima como modalidade indireta da eutanásia, é também entendida como definição de ortotanásia, na perspectiva dos autores que entendem existir diferença entre a conceituação, como exposto. Por ser relevante ao contexto desta seção, observemos o seguinte trecho do documento:
[...] Na iminência de uma morte inevitável, apesar dos meios usados, é lícito em consciência tomar a decisão de renunciar a tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem contudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes. Por isso, o médico não tem motivos para se angustiar, como se não tivesse prestado assistência a uma pessoa em perigo (VATICANO, 5 maio 1980, online).
Prosseguindo no campo da moral médica relacionada à igreja católica, três questões sobre a reanimação foram respondidas pelo Papa Pio XII, em 1957:
Teremos prazer em responder a estas três perguntas; mas antes de examiná-las, gostaríamos de estabelecer os princípios que nos permitirão formular a resposta. A razão natural e a moral cristã dizem que o homem (e qualquer pessoa a quem seja confiado o cuidado de seu semelhante) tem o direito e o dever, em caso de doença grave, de tomar as medidas necessárias para preservar a vida e a saúde.
Este dever, que ele tem para consigo mesmo, para com Deus, para com a comunidade humana e na maioria das vezes para com determinadas pessoas, deriva da caridade bem ordenada, da submissão ao Criador, da justiça social e até mesmo da justiça estrita, assim como da piedade para com a família. Mas geralmente obriga apenas ao uso de meios comuns (de acordo com as circunstâncias das pessoas, lugares, tempos, cultura), ou seja, meios que não impõem nenhum ônus extraordinário a si mesmo ou a outrem. Uma obrigação mais severa seria muito pesada para a maioria das pessoas e tornaria mais difícil a aquisição de bens superiores mais importantes. A vida, a saúde e toda a atividade temporal estão de fato subordinadas aos fins espirituais. Por outro lado, não é proibido fazer mais do que o estritamente necessário para a preservação da vida e da saúde, desde que não se descuide de deveres mais sérios (VATICANO, Discurso..., 24 nov. 1957, online)36.
A diferença entre eutanásia passiva e ortotanásia estaria em um ponto fundamental, o início do processo de morte, posto que na ortatanásia o evento morte já se iniciou e na eutanásia passiva “esta omissão é que será a causa do resultado”
(SANTORO, 2011, p, 138)37.
Para finalizar a apresentação das diferenças entre o suicídio assistido, a eutanásia e a ortotanásia, a Associação Médica Mundial (World Medical Association) reiterou, em 2019 (WMA, 23 nov. 2021, online), sua oposição aos dois primeiros institutos, com base nos seguintes termos:
36 No original: Nos responderemos de muy buena gana a estas tres cuestiones; pero antes de examinarlas querríamos exponer los principios que permitirán formular la respuesta.
La razón natural y la moral cristiana dicen que el hombre (y cualquiera que está encargado de cuidar de su semejante) tiene el derecho y el deber, en caso de enfermedad grave, de tomar las medidas necesarias para conservar la vida y la salud. Tal deber que tiene hacia él mismo, hacia Dios, hacia la comunidad humana y lo más a menudo hacia personas determinadas, deriva de la caridad bien ordenada, de la sumisión al Creador, de la justicia social y aun de la estricta justicia, así como de la piedad hacia la familia. Pero obliga habitualmente sólo al empleo de los medios ordinarios (según las circunstancias de personas, de lugares, de épocas, de cultura), es decir, a medios que no impongan ninguna carga extraordinaria para sí mismo o para otro. Una obligación más severa sería demasiado pesada para la mayor parte de los hombres y haría más difícil la adquisición de bienes superiores más importantes. La vida, la salud, toda la actividad temporal están en efecto, subordinadas a los fines espirituales. Por otra parte, no está prohibido hacer más de lo estrictamente necesario para conservar la vida y la salud, a condición de no faltar a deberes más graves.
37 No mesmo sentido: VILLAS-BÔAS, 2005, p. 80.
Adotado pela 70ª Assembléia Geral da WMA, Tbilisi, Geórgia, outubro de 2019
A WMA reitera seu forte compromisso com os princípios da ética médica e que deve ser mantido o máximo respeito pela vida humana.
Portanto, a WMA se opõe firmemente à eutanásia e ao suicídio assistido por médicos.
Para fins desta declaração, a eutanásia é definida como a administração deliberada de uma substância letal ou a realização de uma intervenção para causar a morte de um paciente com capacidade de decisão a pedido voluntário do próprio paciente. O suicídio assistido por médico refere-se aos casos em que, a pedido voluntário de um paciente com capacidade de decisão, um médico permite deliberadamente que um paciente termine sua própria vida prescrevendo ou fornecendo substâncias médicas com a intenção de provocar a morte.
Nenhum médico deve ser forçado a participar da eutanásia ou do suicídio assistido, nem qualquer médico deve ser obrigado a tomar decisões de encaminhamento para este fim.
Separadamente, o médico que respeita o direito básico do paciente de recusar o tratamento médico não age de forma antiética na renúncia ou retenção de cuidados indesejados, mesmo que o respeito a tal desejo resulte na morte do paciente38.
A Associação Médica do Mundo apresentou o documento em 2019, mas antes já o havia feito. O fato é que, mesmo diante desse posicionamento, há quem defenda que não é só a ortotanásia que deve ser considerada como boa morte, posto que existem questões sobre o tempo e o modo: Afinal, quanto tempo é o tempo necessário? Qual é o modo necessário?
Em síntese, se a morte é um processo, tem início, tem meio e tem fim; início, meio e fim da própria morte, mas o paciente talvez possa não desejar esperar este tempo, por mais curto que ele possa ser, com base em sua dignidade, autonomia e concepção de vida, além das suas crenças e valores.
Delimitado mais um conceito relevante, apresentemos a definição de distanásia, também relacionada diretamente ao tema até aqui verificado.
38 No original: Adopted by the 70th WMA General Assembly, Tbilisi, Georgia, October 2019
The WMA reiterates its strong commitment to the principles of medical ethics and that utmost respect has to be maintained for human life. Therefore, the WMA is firmly opposed to euthanasia and
physician-assisted suicide. For the purpose of this declaration, euthanasia is defined as a physician deliberately administering a lethal substance or carrying out an intervention to cause the death of a patient with decision-making capacity at the patient’s own voluntary request. Physician-assisted suicide refers to cases in which, at the voluntary request of a patient with decision-making capacity, a physician deliberately enables a patient to end his or her own life by prescribing or providing medical substances with the intent to bring about death. No physician should be forced to participate in euthanasia or assisted suicide, nor should any physician be obliged to make referral decisions to this end. Separately, the physician who respects the basic right of the patient to decline medical treatment does not act unethically in forgoing or withholding unwanted care, even if respecting such a wish results in the death of the patient.