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2.4 Conceitos e contextos necessários

2.4.1 Suicídio assistido

Adentrando – de forma introdutória – em seu conceito, o suicídio assistido, por sua vez, é tido como a abreviação da vida feita pela própria pessoa que está com uma doença grave, incurável ou terminal. Nesse caso, a pessoa é ajudada por outrem (médico ou não), que concede os meios para que possa, por si mesma, abreviar sua vida (DADALTO, 2019, p. 4).

Luciano Dadalto, Camila Fagundes Lima Monteze Caneschi e Gabriel Frota (2020, p. 45) ressaltam a questão da pílula ou comprimido da vida completa, que não se pode confundir com suicídio assistido.

O ponto, por se tratar da realidade holandesa, será abordado quando da análise da realidade mundial sobre o suicídio assistido, mas é relevante estabelecermos que apenas um dos elementos acima estará presente quando avaliarmos a realidade da pílula ou comprimido: abreviação da vida feita pela própria

pessoa, posto que nem sempre ela está acometida de doença grave, incurável e/ou terminal, nem necessariamente há ajuda (médica ou não) para abreviar a vida.

O contexto do comprimido ou pílula por vida completa ou da vida completa relaciona-se, em grande parte, com a questão etária, de forma que, de antemão, não encararemos como uma forma de se realizar o suicídio assistido, uma vez que nem sempre se observará a assistência.

Luciano de Freitas Santoro delimita o conceito da seguinte maneira:

O suicídio assistido também pode ser conhecido como auto-eutanásia, que é a eutanásia realizada pelo próprio indivíduo, que dá fim à sua vida sem a intervenção direta de terceiro, apesar de sua participação por motivos humanitários, prestando assistência material ou moral para a realização do ato (SANTORO, 2011, p. 123).

Já de acordo com Patrícia Rizzo Tomé, o suicídio assistido é

[...] um ato praticado pelo próprio paciente, sob a orientação e auxílio de terceiro, que lhe fornece meios hábeis para colocar fim em sua própria vida. No entanto, este paciente poderá ser uma pessoa enferma, mas por razões de ordem pessoal pretende colocar fim a sua própria vida (TOMÉ, 2020, p. 8).

Por sua vez, para Ana Maria Marcos del Cano (1999, p. 45), o suicídio assistido também pode ser denominado “eutanástico”.

Na generalidade da literatura, entende-se assisted suicide (suicídio assistido) como o ato intencional de pôr termo à própria vida, com a ajuda de alguém que providencia o conhecimento ou os meios para realizá-lo. Tem sido utilizada a expressão physichan-assisted suicide (suicídio assistido médico), integrando a ajuda ao suicídio na prática médica, como resposta ao pedido de morrer decorrente do sofrimento de doentes em fim de vida; por isso, também tem havido quem defenda que a expressão deveria ser “ajuda médica no morrer” (medical-aid-in-dying) para descrever essa prática (ORENTLICHER; POPE; RICH, 2014).

As diferenciações são importantes, notadamente as relacionadas ao suicídio assistido, suicídio assistido médico (ou suicídio medicamente assistido) e a ajuda médica ao morrer. Para o desenvolvimento deste trabalho, no momento da prática do suicídio assistido, estar ou não presente um médico ou uma equipe médica não deve ser uma obrigatoriedade, ao nosso sentir, mas uma faculdade, já que em estágios anteriores, para que se possibilite o suicídio assistido, o diagnóstico de

doenças em fase terminal e sem expectativa de cura será realizado por uma junta ou equipe médica.

Oportunamente, nos ocuparemos de apresentar – em um primeiro momento – e defender – posteriormente – os critérios que nos parecem necessários a serem respeitados.

Neste momento do trabalho, por sua vez, reforçamos que a ideia de assepsia da morte, revelada por Marcelo Figueiredo (2008, p. 432), traz consigo a necessidade de que tudo ocorra em um hospital ou em uma clínica, quando na verdade, até para a preservar a dignidade, o paciente ou a paciente preferem que o local seja outro. Ressaltamos, uma vez mais, que a infraestrutura para o suicídio não é uma questão fundamental para este trabalho, posto que há fatores antecedentes que devem ser discutidos, antes de necessariamente pensarmos em delimitar questões mais subjetivas.

Lucília Nunes, Luis Duarte Madeira e Sandra Horta e Silva, inseridos na realidade portuguesa, delimitam a questão da seguinte maneira:

Compreende-se que pudesse ser designado como "suicídio farmacologicamente assistido", quando uma terceira pessoa fornece o produto letal; ou apenas "suicídio assistido", quando uma terceira pessoa não é profissional de saúde. Admitindo que a maior parte dos textos utiliza «suicídio assistido» ou «suicídio medicamente assistido» como consistindo em dar à pessoa os meios necessários para o suicídio, existindo uma autoadministração da pessoa quando decidir realizá-lo, ainda assim, a expressão não parece ser a mais adequada ao nosso léxico e cultura. Procurámos as expressões que têm sido utilizadas entre nós – «ajuda ao suicídio», «suicídio ajudado», «morte assistida», «suicídio medicamente assistido», – e, ainda que mantendo uma tradução para «assisted» nos textos em inglês, preferimos a utilização da noção de "suicídio ajudado", aliás, denominação já utilizada pelo Presidente do CNECV aquando da audição parlamentar ocorrida em 26 de Abril de 2017 no âmbito da apreciação da Petição n.250/XIII/2ª – "Toda a Vida Tem Dignidade"

(NUNES; MADEIRA; SILVA; 2020, p. 8-9).

Na realidade portuguesa, os autores consideram suicídio “ajudado” o seguinte:

1) A pessoa que considera suicidar-se a) se encontra numa condição de doença irreversível, "sem esperança" b) é competente, não sofrendo de perturbação depressiva ou psiquiátrica que altere a capacidade de decidir sobre si, c) realizou processo de deliberação, d) expressa vontade livre de pôr fim à sua vida, e) de forma repetida, f) e determina-se a realizar o ato. 2) A pessoa que ajuda a) coloca recursos à disposição, seja informação ou meios para a

concretização, b) desempenha um papel de auxílio, de ajuda, c) não intervém na decisão (não induz, persuade ou incentiva), d) e a morte não decorre diretamente da sua ação. Caso a pessoa que ajuda seja um médico, utiliza-se «suicídio medicamente ajudado» (NUNES;

MADEIRA; SILVA; 2020, p. 9-10).

Os autores ainda harmonizam as nomenclaturas da seguinte forma:

Suicídio ajudado quando uma pessoa decide suicidar-se, encontrando-se numa condição de doença irreversível, "sem esperança", é competente, capaz de decidir sobre si, não sofre de distúrbio depressivo ou psiquiátrico, realizou processo de deliberação, expressa vontade livre de pôr fim à sua vida, de forma repetida e determina-se a realizar o ato. A pessoa que ajuda coloca recursos à disposição, seja informação, seja os meios para a concretização, desempenha um papel de auxílio, de ajuda, não intervém na decisão (não induz, persuade ou incentiva) e a morte não decorre diretamente da sua ação (NUNES; MADEIRA; SILVA;

2020, p. 10-11).

Em que pese algumas diferenciações, há consenso no sentido de que “se trata de uma decisão inteiramente individual, deliberada, privada, tomada em plena posse das suas capacidades e de livre vontade, repetida ou reiterada, sem ser imputável a comportamento depressivo ou distúrbio mental” (NUNES; MADEIRA;

SILVA; 2020, p. 9).

A participação de um terceiro (médico ou não), todavia, é fundamental, posto que “se não houver qualquer participação de um terceiro, mínima que seja, não se poderá falar em suicídio assistido, mas tão somente de um suicídio por motivos eutanásticos” (SANTORO, 2011, p. 124).

Sob a perspectiva penal, Luciano de Freitas Santoro assim se posiciona:

Em verdade, a participação no suicídio assistido, mais do que o ato de induzir (criar na mente da vítima o desejo de se matar) ou de instigar (reforçar a ideia preexistente de suicídio), está ligada ao auxílio prestado pelo terceiro para que a vítima consiga se matar, fornecendo os meios necessários para a realização do ato.

Consubstancia-se em uma participação material (fornecimento de objetos), mas pode operar-se por meios morais, diversos do induzimento e da instigação, por exemplo, ministrando instruções de como levar ao cabo a sua intenção (SANTORO, 2011, p. 124).

E prossegue:

O comportamento do sujeito ativo dos crimes de auxílio ao suicídio e homicídio, ainda que consentido, é diverso, embora a sua origem seja a mesma (compaixão com o próximo). No primeiro, o ato

consumativo da morte é praticado pela vítima, enquanto que no homicídio consentido é o próprio sujeito ativo quem pratica o ato que será a causa executiva da morte. A diferença reside em quem efetivamente pratica a conduta que levará o paciente à morte e, portanto, se o sujeito ativo praticar qualquer conduta que pertença à execução, responderá por homicídio e não por auxílio ao suícidio.

Portanto, no suicídio assistido, como o próprio nome já diz, o paciente é apenas assistido em sua hora final, executando ele mesmo a conduta que o levará à morte, diversamente do homicídio consentido quando apenas aguarda inerte que o médico coloque termo à sua vida (SANTORO, 2011, p. 124).

Há, portanto, nítida diferença entre o suicídio assistido e o homicídio consentido. No suicídio assistido, o paciente pratica a conduta final, ponto que será melhor delineado quando tratarmos da diferenciação em relação a outros institutos, como também para asseverar a preservação da capacidade até o último instante.

O conceito inicial de suicídio assistido é fundamental, posto que, em grande parte, há aproximações ou elementos comuns entre alguns conceitos, o que se revela, principalmente, entre a eutanásia e o suicídio assistido, ainda que sejam distintos. Outro ponto relevante é a distinção de cada situação fática.

Compatibilizando o suicídio assistido com a eutanásia, nesta há administração de doses letais em um paciente por um médico, frequentemente pela via intravenosa, enquanto no suicídio assistido é entregue a dose letal ao paciente, que irá administrá-la pela via oral ou por facilitação de via intravenosa. Esclarece-se que, atualmente, outras podem ser as formas, como no caso da SARCO31, que vem despertando intenso debate sobre a dignidade ao se exercer a liberdade individual de escolha pela abreviação da vida.

Mencionemos, agora, o suicídio assistido, no ponto em que ele e a eutanásia são considerados sinônimos.

Para alguns autores, o suicídio poderia ser visto como uma espécie de eutanásia ativa, uma vez que, atingindo-se o mesmo resultado final, qual seja, a morte, pouco importa, moralmente, se um terceiro praticou a ação por determinação do paciente (eutanásia ativa direta), ou se este último ingeriu, sozinho, o medicamento prescrito (suicídio assistido) (AUBERT, 2019, p. 32).

Não se trata, ao nosso sentir, tão somente de uma questão moral, posto que os problemas revelados no consentimento, diversamente do ocorrido com a

31 O conceito de uma cápsula que poderia produzir uma rápida diminuição do nível de oxigênio, mantendo um baixo nível de CO2 (as condições para uma morte pacífica e até eufórica) levou ao desenvolvimento da Sarco (SARCO, s/d, online).

eutanásia, são limitados ou, melhor, diminuídos quando analisamos o suicídio assistido, justamente em razão de o último ato volitivo ser da pessoa que se encontra naquela determinada situação.

Uma das principais razões pelas quais os temas evidenciam-se diferentes, não apenas moralmente, mas na prática, já que o último ato é cumulado com a vontade manifesta nesse mesmo sentido, ou seja, ingerir determinado medicamento prescrito ou acionar um botão de uma máquina.

Sobre a diferenciação e o último ato volitivo, Roberto Germán Zurriaráin faz uma provocação:

Além disso, a possível legalização da eutanásia esquiva da questão chave e central desta questão, ou em outras palavras, o objeto da ação: a eutanásia significa eliminar rapidamente, extinguir ou terminar, matar... os doentes terminais, os idosos, os tetraplégicos....

a pedido do próprio paciente, seus parentes, um representante do paciente, um juiz ou os "chefes" do hospital32 (ZURRIARÁIN, 2019, p.

26).

Neste ponto, estabelecemos uma clara distinção entre eutanásia e suicídio assistido. No tocante a este, não só o pedido é realizado pelo paciente, como o ato final também o é, fazendo com que a percepção utilitarista da vida do outro dê lugar e espaço à percepção da própria pessoa em razão de sua vida e de sua condição de existência, o que faz com que o suicídio assistido seja capaz de eliminar que a decisão ou o convencimento parta de um terceiro, notadamente em razão dos procedimentos e dos requisitos objetivos que podem ser pensados para garantir que a vontade seja manifestada de forma livre.

Para Patrícia Rizzo Tomé, as diferenças entre os institutos do suicídio assistido e da eutanásia são claras:

Observa-se que legislação não pune o suicídio, uma vez que se trata da utilização da autonomia da vontade, bem como o exercício da liberdade de agir, que é um direito subjetivo, individual e disponível.

No entanto, o auxílio ao suicídio, em nada se confunde com a eutanásia. Naquele, temos um ato exclusivamente do paciente, ingerindo substância letal que o leva a morte. Neste, temos uma conduta de terceiro que administra a droga no paciente ou desliga os aparelhos, desencadeando a morte. Ambas tipificadas no Ordenamento Brasileiro (TOMÉ, 2020, p. 5).

32 No texto original: Además, la posible legalización de la eutanasia elude la cuestión clave y central de este asunto, o lo que es lo mismo, el objeto de la acción: la eutanasia supone eliminar por la vía rápida, terminar o acabar con, matar… al enfermo terminal, al anciano, al tetraplégico [...] lo pida el mismo, sus familiares, un representante del paciente, un juez o los “jefes” del hospital.

O modelo de abordagem também deve ser diferente, merecendo que se considere a autonomia e a diminuição das discussões sobre as razões pelas quais a autorização dessa prática no Brasil supostamente levaria a uma elevação do número de mortes através de suicídio assistido, o que é premissa equivocada quando comparamos os números em países que já autorizam a prática.

Relevante, neste contexto, introduzir a história de Philip Nitschke, fundador da Exit International (Saída Internacional, em tradução livre) e coautor da obra Peaceful Pill (2016)33, também relacionada com a SARCO.

Em 1996, Philip Nitschke tornou-se o primeiro médico no mundo a administrar uma injeção voluntária legal e letal sob os direitos de curta duração da Terminally ill Act 199534. Quatro dos pacientes terminais de Philip usaram esta lei para acabar com seu sofrimento antes que a lei fosse anulada em março de 1997 pelo Parlamento australiano, posto que uma lacuna na Constituição Australiana permitia que o governo federal fizesse leis para os territórios do país.

Nesse ínterim, a Lei da Eutanásia (conhecida como Lei Kevin Andrews) tornou ilegal para o Governo do Território do Norte, proibindo a elaboração de leis sobre a eutanásia.

Diante da questão legislativa, Philip Nitschke continuou a ser procurado por pessoas idosas e gravemente doentes que queriam ajuda para morrer. Em resposta a esta necessidade, fundou a Voluntary Euthanasia Research Foundation (Fundação de Pesquisa da Eutanásia Voluntária, em tradução livre), denominada Exit International, no início de 1997.

Philip Nitschke (2015) é um defensor do tema, no sentido de que o suicídio deveria ser um direito humano. Refuta-se, pois, a ideia de que a vida seria um presente, posto que mesmo os presentes podem ser rejeitados, refutados, devolvidos, doados. Assim, acredita que o direito de morrer não é apenas um direito a ser reconhecido, mais do que isso, é de que seja uma morte assistida.

Por razões políticas, em julho de 2014, o Conselho Médico Australiano suspendeu o registro médico de Philip Nitschke após a cobertura da mídia sobre a morte de Nigel Brayley, de 45 anos, em Perth West, Austrália. Todavia, em 7 de

33 Em livre tradução: pílula da paz ou pacífica.

34 Em 25 de maio de 1995, o Parlamento do Território Norte da Austrália aprovou o Northern Territory Rights of the Terminally ill Act, tornando legal a eutanásia voluntária. Esta lei permitia que médicos prescrevessem e administrassem substâncias letais a pacientes com doenças terminais que solicitassem formalmente assistência para encerrar suas vidas.

julho de 2015, a Suprema Corte australiana considerou ilegal a decisão do Conselho e imediatamente restabeleceu seu direito de ser registrado como médico na Austrália, no entanto, mediante uma extensa lista de condições, dentre as quais estavam a remoção de seu nome como coautor da Pílula Pacífica (2016), a renúncia ao seu trabalho na Exit International e concordar em não mais defender a eutanásia voluntária em público, em qualquer lugar do mundo.

As condições extraordinárias deixaram a Philip Nitschke a escolha de permanecer como médico registrado – apesar de não exercer medicina por anos – ou cessar o trabalho no tocante à eutanásia e demais estudos sobre morte digna e o suicídio. Diante disso, em 27 de novembro de 2015, Philip Nitschke queimou formalmente seu certificado de registro médico em Darwin, encerrou uma carreira de 25 anos na medicina australiana e mudou-se para a Holanda (EXIT INTERNATIONAL. Philip Nitschke, s/d, online).

Observamos que não só o tema do suicídio, mas do suicídio assistido, objeto deste trabalho, há muito tempo é controvertido. Entretanto, para além da questão histórica, pela qual passou a história de Philip Nitschke, o tema deve ser enfrentado, mais do que isso, demanda posicionamento, em razão de envolver uma multidisciplinaridade de questões. Nesse contexto, o direito é uma das ciências chamadas a analisar a questão, visto que entre seus papéis está o da organização do Estado, notadamente do Democrático de Direito.

Portanto, é com a ideia de enfrentamento e de posicionamento sólido que essa tese chega ao presente momento, tendo se debruçado sobre conceitos de suicídio assistido.

A pretensão, evidentemente, não é esgotar o tema, visto que sempre haverá novas perspectivas a serem debatidas, mas responder à pergunta inicial.

A reforçar a aproximação entre os temas do suicídio assistido e da eutanásia, não apenas no conceito e nos fundamentos, mas nos dilemas éticos da medicina, Fábian Bogado (2020) compreende que ambos (suicídio assistido e eutanásia) são práticas para encurtar a vida dos pacientes, desde que sofram de forma insuportável e sem perspectivas de melhora (BOGADO, 2020, p.11).

Outrossim, afirma que tanto a eutanásia como o suicídio assistido são englobados pelo termo “morte assistida” (BOGADO, 2020, p. 11). Na construção deste trabalho vamos além: não só são morte assistida, mas formas de morte digna, assim como a ortotanásia.

Segundo o autor, há argumentos favoráveis e contrários às práticas, mas ambos baseados no evidenciado princípio da autonomia, inserido no contexto da bioética. Em sentido oposto, alerta que os que advogam tese contrária à eutanásia e, assim, ao suicídio assistido, esclarecem que a medicina evoluiu e já é capaz de aliviar quase todas as dores humanas, logo, a permissão dessas práticas poderá levar a outras permissões, que levarão a outras e assim, sucessivamente (teoria da inclinação escorregadia).

O último ponto trazido pelo autor é o de que se a eutanásia – da mesma forma o suicídio assistido – fosse aceita e legalizada, não se poderia falar em autonomia por parte do médico. Sua identidade profissional não estaria preservada, tal como sua possibilidade de decisão, fundamento baseado no juramento hipocrático. Questiona-se qual seria o lugar do diálogo e da confiança entre médico e paciente se a opinião daquele tivesse subordinada aos desejos do paciente (BOGADO, 2020, p. 11).

Não se pode deixar de admitir que existem ao tema, tanto do suicídio assistido quanto da eutanásia, argumentos favoráveis e contrários, princípios bioéticos, dores aliviadas pela medicina moderna e pela revolução transumanista, teorias que garantiriam permissões das permissões, serviços de saúde, autonomia médica frente a autonomia do paciente, busca insaciável pela cura e consentimento informado. Tudo, ou melhor, todos esses assuntos passam a ser costurados na teia das respostas necessárias a responder a principal pergunta desta pesquisa.

Na construção necessária dessas respostas, há outros elementos abordados desde o início (pressupostos), o que evidencia nossa opção de, inicialmente, conceituar institutos para posteriormente aplicá-los.

Para finalizar a conceituação do suicídio assistido com implicações na questão prática, Marcelo Figueiredo elenca uma série de razões e recomendações que integraram o informe do New York State Task Force on Life and The Law, justamente para alterar as leis do Estado de Nova Iorque que proibiam o auxílio médico ao suicídio (também à eutanásia). Dentre elas, 8 são as conclusões contrárias:

1. A primeira é que a noma proibitiva se justifica pelo interesse que deve ter o Estado em prevenir erros e abusos que sucedem, de forma necessária, se se autorizasse os médicos e outras pessoas a ajudar a morrer;

2. A segunda é que a carga que impõem as leis que proíbem a eutanásia se refere a alguns indivíduos que estão em pleno uso de

suas faculdades mentais e que, como são bem informados, decidem encurtar a vida de forma artificial com apoio externo. Mas essa legalização supõe uma ameaça para um número maior de pessoas que poderiam escolher essa opção acometidas de depressão, coação ou a uma dor intensa e insuportável;

3. A terceira é que as leis que proíbem o auxílio ao suicídio servem a objetivos sociais valiosos, como são a proteção de indivíduos vulneráveis, o fomento do cuidado ativo e o tratamento dos doentes terminais, e impedem que se dê morte a doentes incompetentes (sem condições de avaliar seus atos);

4. A quarta é que, mesmo diante de uma petição do paciente, os médicos poderiam exercer coações ilegítimas. Por outro lado, com o aumento dos custos hospitalares, resultaria muito mais barato administrar uma injeção letal que manter um paciente em sua fase terminal;

5. A quinta é que a política não pode basear-se em uma situação ideal quando a realidade muitas vezes é muito distinta;

6. A sexta é que, ao legalizar essas práticas, embotamos nossas percepções morais enquanto a proibição da eutanásia reforça a noção de limites nas relações humanas;

7. A sétima é a dificuldade de trazer um limite para a eutanásia, uma vez que não se aceita que a enfermidade terminal seja um critério definidor e, portanto, um critério de avaliação que tende a ser subjetivo e a ampliar-se;

8. Finalmente, a oitava é que, constituída a eutanásia em um critério terapêutico parecerá arbitrário privar esse benefício aos pacientes incapacitados (FIGUEIREDO, 2008, p. 430).

A contextualização final evidencia que eutanásia e suicídio assistido possuem pontos de convergência; que a eutanásia é estudada e tratada há mais tempo, todavia, as delimitações conceituais são diferentes, de modo que conceituar a eutanásia e suas peculiaridade também é fundamental ao presente trabalho. Por ora, não enfrentaremos cada uma das questões acima visto que o faremos no capítulo 6.