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O art. 122 do Código Penal e o seu necessário enfrentamento

4 A MORTE NA REALIDADE PENAL BRASILEIRA

4.2 O art. 122 do Código Penal e o seu necessário enfrentamento

seguinte flexão “tenho” (presente do indicativo, em uma rápida análise de flexão verbal e conjugação).

O Estado exerce o direito deliberado à morte em raras exceções legalmente previstas, mas, indubitavelmente, também o faz no dia a dia às margens da sociedade, por opções que sim, se revelam políticas.

Outro ponto a merecer destaque é o trazido por Carlos Roberto Siqueira Castro (2007, p. 290), para quem mesmo diante da não flexibilização da lei penal no Brasil, médicos, profissionais da saúde e famílias de pessoas acometidas por doenças terminais e agonizantes reivindicam a possibilidade de abreviação do sofrimento. O autor analisa a interrupção com base na interrupção dos tratamentos de custos vultosos, que utilizam aparelhos que podem prolongar indefinidamente a vida vegetativa do paciente. Em relação aos custos, não nos filiamos ao posicionamento, uma vez que dissonante da questão relacionada à dignidade da pessoa humana e, ainda, da autonomia, reforçando que esses pontos sempre deverão ser preservados.

Ocorre que, em alguns casos, como o de Rámon Sampedro (2005)80, não se tem o pleno poder, fundamental à abordagem proposta por este trabalho, a fim de que se tenha poder ainda que sobre alguma coisa, ou seja, sobre a própria vida e a decisão em relação à própria morte, para que seja digna. E que essa decisão, através de determinados parâmetros, seja cumprida, com a ultimação da vontade do paciente.

Sob o viés da punibilidade, como o art. 122 está alocado no capítulo de

“crimes contra a vida”, o suicida em si não é punido, até pela impossibilidade disso.

A lei brasileira, portanto, não incrimina a prática do suicídio, por três principais razões, na qual a primeira decorre da segunda, de forma lógica: a primeira, estabelecida no art. 5º, XLV, da Constituição Federal; a segunda, decorrente, de forma fisiológica, da primeira; e, ainda, uma envolvendo a política criminal.

O mencionado inciso, nos primeiros termos, estabelece: “nenhuma pena passará da pessoa do condenado”. Em outras palavras, a pena não pode ultrapassar a pessoa do condenado, máxima esta traduzida como princípio da alteridade.

A segunda razão, decorrente da primeira e de natureza fisiológica, é que a pessoa não mais está viva, em razão da prática do suicídio e, assim, não será apenada, até porque com a morte ocorre a extinção da punibilidade (art. 107, I, do Código Penal).

Ademais, avançando sobre esta perspectiva, não há punibilidade à tentativa de suicídio pelo ordenamento jurídico, para a própria vítima, mesmo quando o resultado seja lesão corporal de natureza grave.

Neste caso, não há razão para que o Estado agrave com uma pena a situação da pessoa que almejou a morte, com maior razão nas condições em que muitas vezes essas práticas acontecem. Concebe-se, assim, a terceira questão de política criminal, o que reforça a relação com a ideia de ser o direito penal também uma opção política sobre o que criminalizar. Denota-se que não há razão para agravar a situação de quem almejou a própria morte, também pelo princípio da alteridade, uma vez que não existe lesão de bens alheios.

Sobre as justificações, André Estefam, há algum tempo, estabelece:

O suicídio não é (obviamente) crime, nem mesmo a tentativa. Várias razões são apontadas para a não incriminação do ato de tentar suprimir a própria vida. Uma delas consiste em que, com a punição da conduta, pode-se dar ao suicida motivos mais fortes para tentar completar o ato frustrado. Ademais, haveria ofensa ao princípio da alteridade, porquanto estar-se-ia punindo alguém que não lesou bens alheios (ESTEFAM, 2012, p. 133).

O debate construído em razão do suicídio é que ele atinge, para o direito, majoritariamente, o bem jurídico mais tutelado e considerado mais precioso, que é

justamente a vida humana, a ser interpretada a partir de outras matizes, não apenas sob o viés literal e gramatical de apego a expressões como “inviolabilidade”.

A adoção do pressuposto de que é através da vida que se exerce os demais direitos, e que ela seria o “super trunfo” dos direitos é hierarquizar sua condição, enquanto direito, o que não se admite na teoria majoritária acerca dos direitos fundamentais, sem necessariamente verificar outros elementos, conforme trabalhados no início da pesquisa.

O debate que enreda em torno do direito à vida, como demonstramos anteriormente, mas agora mais detidamente em relação ao suicídio, recebe também influxo religioso, agora na perspectiva penal, razão pela qual contextualizamos brevemente sua influência no enfrentamento do tema:

Sob a influência do cristianismo o suicídio, além de passar a ser considerado crime, passou a ser concomitantemente pecado contra Deus, sendo negada aos suicidas a celebração de missas. O Direito Canônico equiparou o homicídio ao suicídio a ponto de, sob as Ordenações de São Luís, ser instaurado processo contra o cadáver do suicida, sendo seus bens confiscados. Em algumas cidades, o cadáver do suicida, segundo os estatutos, devia ser suspenso pelos pés e arrastado pelas ruas, com o rosto voltado para o chão (CAPEZ, 2010, p. 121).

Inegavelmente, estabelecer o pressuposto da laicidade neste trabalho foi fundamental, não para que parecesse mais fácil ou menos combativo cada um dos argumentos e o próprio debate em si, mas o fato é que por ser o Brasil um Estado laico, é essencial nos desfazermos dessas amarras. A essencialidade é tamanha que seria inconcebível, analisando a questão sob a perspectiva do direito canônico, um processo em que o sujeito no polo passivo estivesse morto.

Percebemos, ademais, que o suicídio foi equiparado ou enquadrado em outro artigo, conforme o direito canônico, revelado por Fernando Capez, como o do próprio homicídio, ponto até hoje levantado, não no tocante ao cadáver do suicida, mas de quem efetivamente realizou alguma das condutas previstas no art. 122 do Código Penal, a serem equiparadas às do art. 121 do Código Penal.

Em síntese, o suicídio é fato antijurídico, “é um delito que parece não admitir uma pena propriamente dita, pois ela só poderia recair ou sobre inocentes, ou sobre um corpo frio e insensível” (BECCARIA, 2002, p.112).

Embora não constitua ilícito penal, o suicídio não deixa de ser conduta antijurídica. Assim, impedir, mediante violência ou grave ameaça, que uma pessoa

pratique ato antijurídico não pode constituir constrangimento ilegal, como se verifica do art. 146, § 3º, do Código Penal.

Trata-se, para Damásio Evangelista de Jesus (1999, p. 471), de estado de necessidade de terceiro elevado à categoria de causa excludente da tipicidade.

Mesmo atualmente sendo o suicídio em si considerado como fato antijurídico, vale salientar que já fora considerado como crime, fato típico.

Sobre o enfrentamento em si, evidencia-se que antes de se decidir o que fazer com o art. 122 do Código Penal, a fim de viabilizar o suicídio assistido na realidade brasileira, é necessário apresentar o artigo e nos valer de construções provenientes do direito penal, razão pela qual nas linhas seguintes faremos as necessárias conceituações.

Portanto, se o suicídio não é ilícito penal, a “lei pune comportamento de quem induz, instiga ou auxilia outrem a suicidar-se” (DELMANTO, 1991, p. 212) e 3 são as formas previstas: induzir (incitar), instigar (estimular ideia já existente) e auxiliar (ajudar materialmente), passemos, então, à análise do art. 122 do Código Penal. Ressalta-se que o Código Penal Militar também traz previsão nesse sentido, de acordo com o art. 207 (Decreto-Lei n. 1001/1969), todavia, a análise deste trabalho restringir-se-á, por opção metodológica, e pelas especificidades envolvendo a Justiça Militar, ao art. 122 do Código Penal.

Comecemos, pois, com o artigo em si, que possui a seguinte redação:

Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação Art. 122. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou a praticar automutilação ou prestar-lhe auxílio material para que o faça:

Pena – reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos.

§ 1º Se da automutilação ou da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 129 deste Código:

Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.

§ 2º Se o suicídio se consuma ou se da automutilação resulta morte:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos.

§ 3º A pena é duplicada:

I – se o crime é praticado por motivo egoístico, torpe ou fútil;

II – se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

§ 4º A pena é aumentada até o dobro se a conduta é realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real.

§ 5º Aumenta-se a pena em metade se o agente é líder ou coordenador de grupo ou de rede virtual.

§ 6º Se o crime de que trata o § 1º deste artigo resulta em lesão corporal de natureza gravíssima e é cometido contra menor de 14

(quatorze) anos ou contra quem, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime descrito no § 2º do art. 129 deste Código.

§ 7º Se o crime de que trata o § 2º deste artigo é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime de homicídio, nos termos do art. 121 deste Código.

Em primeiro lugar, assim como tecemos críticas sobre quando o Código Penal fora conformado (1940), em relação ao artigo transcrito, em 2019, houve a alteração legislativa pela Lei n. 13.968/2019, justamente para modificar o crime de incitação ao suicídio e incluir as condutas de induzir ou instigar à automutilação, e de prestar auxílio a quem a pratique.

Destarte, o tipo penal que até então estava relacionado apenas ao suicídio, passou também a conformar a automutilação, mas dessa não nos ocuparemos de forma tão detida quanto faremos em relação ao suicídio em si.

Apenas vale o registro de que a alteração fora criticada em razão da nova figura típica estar alocada no título Crimes contra a vida, posto que a automutilação não ofenderia a vida humana, tão somente a integridade corporal, uma vez que com a automutilação não há intenção de suicídio.

Logo, mais apropriada seria a inclusão em local diverso do Código Penal, como no artigo que dispõe sobre lesão corporal. Esses esclarecimentos são relevantes no intuito de se demonstrar, uma vez mais, que o principal direito tutelado ao tratarmos do tema é a vida em si, tanto que condutas que não necessariamente coloquem fim a ela ou que possam levá-la ao fim são passíveis de serem alocadas em outros locais do Código Penal.

Em que pese o tipo penal tratar também da automutilação, nos ateremos a cada um dos núcleos do tipo penal, mas em relação ao suicídio em si, quais sejam:

induzir, instigar e auxiliar ou prestar auxílio.

De antemão esclarecemos que nos importará mais o “auxílio”, mas é importante, antes disso, realizar um contraponto com doutrinas anteriores à alteração de 2019 e com doutrinas mais recentes, nas quais já constam também as considerações acerca da alteração e da aplicabilidade no tocante à automutilação, conjugando alterações com novas interpretações acerca do suicídio, notadamente em razão da utilização da tecnologia, da internet e dos meios digitais.

Ademais, há autores que serão utilizados em diferentes momentos, ou seja, em edições de anos diferentes, também no intuito de revelar que sobre o tema do artigo 122 do Código Penal, não percebemos grandes alterações doutrinárias, nem mesmo jurisprudenciais, salvo algumas que serão expostas mais ao final da presente seção.

Edgard Magalhães Noronha estabelece as definições a partir de ação física:

Induzir, instigar ou auxiliar constituem o núcleo do tipo. Os dois primeiros verbos geralmente são apresentados como sinônimos. Mas há nuanças entre eles. Induzir (do latim inducere) significa não só instigar, mas levar, mover, resolver, persuadir. [...] Instigar é animar, estimular e acoroçoar. [...] Auxiliar é ajudar, favorecer, facilitar. Diante da oração do dispositivo é assistência física; é forma de concurso material. Auxilia quem dá ao suicida o revólver ou o veneno; quem ensina ou mostra o modo de usar a arma; quem impede a intervenção de pessoa, que poderia frustrar o ato de desespero etc.

(NORONHA, 1996, p. 37).

Realizada esta definição mais geral, é relevante observarmos cada um dos verbos. A primeira conduta, segundo Fernando Capez (2010, p. 123), é a do induzimento, aquela “quando a ideia de autodestruição é inserida na mente do suicida, que não havia desenvolvido o pensamento por si só”. Outra definição clássica é aquela em que o “sujeito faz penetrar na mente da vítima a ideia de autodestruição” (JESUS, 1999, p. 386).

Mais contemporaneamente, Cezar Roberto Bitencourt (2014, p. 135) revela que: “Induzir significa suscitar o surgimento de uma ideia, tomar a iniciativa intelectual, fazer surgir no pensamento de alguém uma ideia até então inexistente”.

Para Guilherme de Souza Nucci (2014, p. 600), “significa dar a ideia a quem não a possui, inspirar, incutir. Portanto, nessa primeira conduta, o agente sugere ao suicida que dê fim à sua vida”.

Por sua vez, Wiliam Wanderley Jorge parte literalmente de perguntas simples:

O que é induzir? Persuadir, sugerir, aconselhar, em suma, é fazer nascer a idéia para o suicídio. [...] O que é instigar? [...] a idéia suicida já existe no espírito da vítima, cuidando, então, o sujeito ativo, de estimulá-la, excitá-la. [...] O que é auxiliar? É ajudar, participar materialmente, conceder meios para a execução. Conceder meios não significa participar da execução, o que configuraria homicídio, como veremos. O auxílio traduz assistência física, concurso material ao ato de outrem, com caráter meramente secundário (JORGE, 2006, p. 68-69).

A segunda, por sua vez, é a instigação. Diversamente do induzimento, na instigação, o sujeito ativo não sugere a ideia ou a insere, mas a potencializa, encorajando a ideia de suicídio que já permeava a mente da vítima. Não há, todavia, tomada de parte nem na execução nem no domínio do fato. Para Damásio de Jesus (1999, p. 386), “ocorre quando a vítima já pensava em suicidar-se e esta ideia é acoroçoada pelo partícipe”.

Cezar Roberto Bitencourt (2014, p. 135) esclarece que “Instigar, por sua vez, significa animar, estimular, reforçar uma ideia existente”, e é acompanhado por Guilherme de Souza Nucci (2014, p. 600): “instigar é fomentar uma ideia já existente. Trata-se, pois, do agente que estimula a ideia suicida que alguém anda manifestando”.

Nas duas primeiras hipóteses, instigação e induzimento, é a própria vítima que se (auto)executa:

O induzimento e a instigação são espécies de ‘participação moral’

em que o sujeito ativo age sobre a vontade do autor, quer provocando para que surja nele a vontade de cometer o crime (induzimento), quer estimulando a ideia existente (instigação), mas, de qualquer modo, influindo moralmente para a prática do crime (BITENCOURT, 2004, p. 121).

Julio Fabbrini Mirabete e Renato Fabbrini (2014, p. 49) evidenciam a diferença entre induzir e instigar, já que a primeira “traduz a iniciativa do agente, criando na mente da vítima o desejo de suicídio quando esta ainda não pensara nele”; e a segunda, ato de instigar, “se refere à conduta de reforçar, acoroçoar, estimular a ideia preexistente de suicídio”.

Contrariamente, analisando doutrinas anteriores à alteração legislativa de 2019, há o auxílio. Prestar auxílio ao suicídio é uma forma mais concreta e ativa de agir na participação ao suicídio, exatamente daquela que mais se ocupa o presente trabalho acadêmico.

Auxílio é o apoio, a ajuda à prática do suicídio e, diferente das duas primeiras condutas, nas quais a participação é moral (ou seja, interfere na vontade da vítima), no auxílio, terceira forma, a participação ocorre de maneira material, ou seja, sem interferência no propósito do agente, em que apenas se viabiliza o suicídio.

O auxílio se caracteriza com a cessão de meios (ex. substância necessária para tanto) ou o apoio intelectual (ex. ensinar como ministrar, para si mesmo, doses

do medicamento). Uma definição, assim como as demais, clássica, é a de que o auxílio é forma de participação material e ocorre quando o agente presta efetiva assistência material à vítima, como fornecer uma arma para que o suicida leve a cabo seu plano (CAPEZ, 2010, p. 122-123). Para Damásio Evangelista de Jesus (1999, p. 386), “é meramente secundário, como, v.g., o empréstimo do punhal, do revólver, a indicação do local próprio para a prática do fato”.

Ao tratar do auxílio, Guilherme de Souza Nucci (2014, p. 600) pondera:

“auxiliar é a forma mais concreta e ativa de agir, pois significa dar apoio material ao ato suicida. Ex.: o agente fornece a arma utilizada pela pessoa que se mata”. Já Cezar Roberto Bitencourt, ao adotar o verbo “prestar” auxílio, delimita da seguinte maneira:

[...] representa, ao contrário das duas modalidades anteriores, uma

“participação” ou contribuição material do sujeito ativo, que pode ser exteriorizada mediante um comportamento, um auxílio material. Pode efetivar-se, por exemplo, por meio do empréstimo da arma do crime.

Auxiliar, segundo o magistério de Magalhães Noronha, “é ajudar, favorecer e facilitar. Diante da oração do dispositivo é assistência física; é forma de concurso material. Auxilia quem dá ao suicida o revólver ou o veneno; que ensina ou mostra o modo de usar a arma;

quem impede a intervenção de pessoa, que poderia frustar o ato de desespero etc. (BITENCOURT, 2014, p. 135).

Sobre a coexistência de cada uma das ações, Luiz Regis Prado, Érika Mendes de Carvalho e Gisele Mendes de Carvalho (2014, p. 650) preceituam: “É perfeitamente admissível a coexistência do auxílio com o induzimento ou a instigação a suicídio. A pluralidade de condutas, porém, não implica duplicidade de delitos”81.

Em relação à participação, Damásio Evangelista de Jesus (1999, p. 386) revela que “pode ser moral ou material. Moral é a praticada por induzimento ou instigação. Material é a realizada por meio de auxílio. Nesse sentido: TACrimSP, HC 279.188, RT, 721:432 e 434”. No entendimento de Rogério Grecco,

Ocorre participação moral nas hipóteses de induzimento ou instigação ao suicídio. Induzir significa fazer nascer, criar a ideia suicida na vítima. Instigar, a seu turno, demonstra que a ideia de eliminar a própria vida já existia, sendo que o agente, dessa forma, reforça, estimula essa ideia já preconcebida.

Na participação material o agente auxilia materialmente a vítima a conseguir o seu intento, fornecendo, por exemplo, o instrumento que será utilizado na execução do autocídio (revólver, faca, corda para a

81 Doutrina recente sobre o tema: BITENCOURT, 2021.

forca, etc.), ou mesmo na participação material encontra-se implícita uma dose de instigação. Aquele que fornece, por exemplo, uma pistola para que a vítima atire contra a própria cabeça, ao entregar-lhe a arma está, com isso, aprovando e estimulando a prática do ato de autoextermínio (GRECCO, 2014, p. 205).

No que tange à possibilidade de auxílio “por omissão”, a doutrina diverge e Guilherme de Souza Nucci sintetiza:

Trata-se de questão controversa na doutrina e na jurisprudência, havendo duas correntes: a) não se admite, pois a expressão contida no tipo penal “prestar auxílio”, implicando ação (cf. Frederico Marques, Bento de Faria, Roberto Lyra, Euclides Custódio da Silveira, Paulo José da Costa Júnior, Damásio de Jesus, entre outros); b) admite-se, desde que o agente tenha o dever jurídico de impedir o resultado (cf. Magalhães Noronha, Nélson Hungria, Ari de Azevedo Franco, Mirabete, entre outros). [...] Ex.: o pai que, sabendo da intenção suicida do filho menor, sob poder familiar, nada faz para impedir o resultado e a enfermeira que, tomando conhecimento da intenção suicida do paciente, ignora-a por completo, podem responder pela figura do auxílio, por omissão, ao suicídio (NUCCI, 2014, p. 602).

Adiantando-nos, os núcleos do tipo são diferentes, por sua vez, instigar e induzir parecem retirar a espontaneidade e a vontade manifesta de quem poderia optar, a exemplo, pelo suicídio assistido, diferenciando-se da prestação de auxílio ou do auxílio em si.

A reflexão tem lugar, neste momento, posto que alguns temas relacionados com a morte digna, especialmente com a dignidade em si, são objeto de análise ao se tratar do tipo penal em questão:

Testemunha de Jeová

Na hipótese de ser imprescindível a transfusão de sangue, mesmo sendo a vítima maior e capaz, em caso de recusa, tal comportamento deverá ser encarado como uma tentativa de suicídio, podendo o médico intervir, inclusive sem o seu consentimento, uma vez que atuaria amparado pelo inc. I do § 3º do art. 146 do Código Penal, que diz não se configurar constrangimento ilegal a intervenção médica cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida (GRECO, 2016, p.

355).

A matéria penal, evidentemente, preocupa-se com a preservação da vida, até pela própria responsabilização penal, mas há diferença entre o direito penal que protege a vida em relação a terceiros e em relação a si mesmo.

Outrossim, percebe-se uma evolução nos próprios exemplos, até pelas novas experiências. Nas doutrinas mais antigas, o auxílio tem consigo acompanhado sempre um exemplo de entrega de arma de fogo ou de punhal, sempre a distanciar o auxílio ao suicídio de um contexto de dignidade, posto que pode ser este o intuito de quem presta o auxílio. Incontestavelmente, pode também não ser com uma finalidade altruísta e a preservar a dignidade e a autonomia, mas são premissas básicas adotadas quando das conceituações necessárias ao desenvolvimento do tema.

Contudo, em que pese as definições mais clássicas, a partir de 2019, houve alteração legislativa. Em razão disso, trazemos doutrinas contemporâneas sobre a conceituação do tipo penal e de cada um dos seus núcleos, justamente para estabelecer um contraponto com as doutrinas anteriores à alteração legislativa e, assim, verificar se houve ou não mudança significativa no entendimento sobre cada uma das ações constantes do tipo penal (induzir, instigar ou prestar auxílio ou auxiliar), e sobre a interpretação mais atual dos desdobramentos provenientes do tipo penal em si.

O suicídio ou autocídio ou, ainda, autoquíria, ainda hoje é definido como

“destruição deliberada da própria vida” (MASSON, 2021, p. 660). Ademais, por opção do legislador, não houve a tipificação da conduta para os casos em que a pessoa que buscou suicidar-se sobrevive.

Contudo, em que pese a ausência dessa previsão, Cleber Masson (2021, p.

660) evidencia que “não há que falar em licitude do suicídio – inteligência do art.

146, § 3º, II, do CP. O suicídio é ilícito, embora não seja criminoso”.

Antes de prosseguirmos à análise do suicídio sob o viés penal, e posterior à alteração legislativa de 2019, verifiquemos o art. 146 do Código Penal, que aborda o constrangimento ilegal e estabelece exceção:

Constrangimento ilegal

Art. 146 – Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda:

Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.

Aumento de pena

§ 1º – As penas aplicam-se cumulativamente e em dobro, quando, para a execução do crime, se reúnem mais de três pessoas, ou há emprego de armas.

§ 2º – Além das penas cominadas, aplicam-se as correspondentes à violência.

§ 3º – Não se compreendem na disposição deste artigo:

I – a intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida;

II – a coação exercida para impedir suicídio.

Em síntese, constranger alguém (qualquer pessoa), mediante violência ou grave ameaça (emprego de força bruta ou violência moral) ou depois de lhe haver reduzido a capacidade de resistência (violência imprópria e não prevista em lei, mas capaz de tolher a liberdade de autodeterminação da vítima), a não fazer o que a lei permite ou a fazer o que a lei não manda (ou seja, adotar conduta ilegal) é crime.

Entretanto, o § 3º, especialmente o inciso II, estabelece uma exceção, de exclusão da prática criminosa, justamente no caso de se constranger alguém, através de coação, a não se suicidar (impedir suicídio), posto que o dispositivo em si permite o uso de coação para combater outro ato ilícito, que visa preservar a vida.

Uma vez mais, delineamos a preocupação do direito penal com a preservação da vida, em razão da não punibilidade do constrangimento ilegal para a coação exercida para impedir suicídio.

Ressaltamos que o exercício do constrangimento ilegal para impedir suicídio para aquelas pessoas que assim não desejam é louvável, e é parte do escopo de se ter um Código Penal, representando, pois, a proteção da vida em relação a terceiros.

O que se torna questionável, portanto, chamamos atenção para o referido artigo, é quando a suposta vítima não se coloca nessa condição, já que ela livremente expressa sua vontade em, por exemplo, ser auxiliada em seu suicídio.

A coação, nesses casos, seria sim ilegal, ao passo que encaramos o suicídio como um direito aos que assim escolham, mas dessas definições nos ocuparemos adiante, estabelecendo inclusive requisitos para tanto; por ora, avançaremos na análise do art. 122 do Código Penal que, atualmente, veda expressamente a prática do auxílio ao suicídio.

Assim, regressando ao art. 122, o consentimento da vítima não é considerado, portanto, irrelevante, uma vez que o bem jurídico em questão, no Brasil, é considerado indisponível.

Sobre as condutas analisadas a partir de uma doutrina atual, os conceitos seguem assim delineados (MASSON, 2021, p. 660-661):