2.4 Conceitos e contextos necessários
2.4.2 Eutanásia
suas faculdades mentais e que, como são bem informados, decidem encurtar a vida de forma artificial com apoio externo. Mas essa legalização supõe uma ameaça para um número maior de pessoas que poderiam escolher essa opção acometidas de depressão, coação ou a uma dor intensa e insuportável;
3. A terceira é que as leis que proíbem o auxílio ao suicídio servem a objetivos sociais valiosos, como são a proteção de indivíduos vulneráveis, o fomento do cuidado ativo e o tratamento dos doentes terminais, e impedem que se dê morte a doentes incompetentes (sem condições de avaliar seus atos);
4. A quarta é que, mesmo diante de uma petição do paciente, os médicos poderiam exercer coações ilegítimas. Por outro lado, com o aumento dos custos hospitalares, resultaria muito mais barato administrar uma injeção letal que manter um paciente em sua fase terminal;
5. A quinta é que a política não pode basear-se em uma situação ideal quando a realidade muitas vezes é muito distinta;
6. A sexta é que, ao legalizar essas práticas, embotamos nossas percepções morais enquanto a proibição da eutanásia reforça a noção de limites nas relações humanas;
7. A sétima é a dificuldade de trazer um limite para a eutanásia, uma vez que não se aceita que a enfermidade terminal seja um critério definidor e, portanto, um critério de avaliação que tende a ser subjetivo e a ampliar-se;
8. Finalmente, a oitava é que, constituída a eutanásia em um critério terapêutico parecerá arbitrário privar esse benefício aos pacientes incapacitados (FIGUEIREDO, 2008, p. 430).
A contextualização final evidencia que eutanásia e suicídio assistido possuem pontos de convergência; que a eutanásia é estudada e tratada há mais tempo, todavia, as delimitações conceituais são diferentes, de modo que conceituar a eutanásia e suas peculiaridade também é fundamental ao presente trabalho. Por ora, não enfrentaremos cada uma das questões acima visto que o faremos no capítulo 6.
eutanásia pode ser entendida como o ato de privar a vida de outra pessoa acometida por uma afecção incurável, por piedade e em seu interesse, para acabar com os seus sofrimento e dor. O móvel do agente, portanto, é a compaixão para com o próximo (SANTORO, 2011, p. 117).
Maria Elisa Villas-Bôas define eutanásia como “antecipação da morte de paciente incurável, geralmente terminal e em grande sofrimento, movido por compaixão para com ele” (2008, p. 68).
Por sua vez, Roberto Dias (2012, p. 148) entende que eutanásia é o momento em que um médico, passiva ou ativamente, antecipa ou não adia, respectivamente, o momento da morte de um enfermo terminal ou, ainda, de quem sofra de condição irreversível que lhe cause sofrimentos insuportáveis (do ponto de vista físico ou moral), em atenção à sua vontade expressa ou tacitamente manifestada, e em atenção aos seus interesses fundamentais, considerados a partir da noção de dignidade por ele adotada, de modo autônomo.
Há, portanto, uma dupla possibilidade de se atingir o mesmo resultado morte: com ações que a antecipem e/ou pelo não oferecimento ou interrupção dos tratamentos em curso.
Quando analisamos o primeiro caso (ações que efetivamente antecipem a morte), estamos diante da eutanásia ativa e, no tocante ao não oferecimento ou interrupção dos tratamentos em curso, nos referimos à eutanásia passiva, também chamada por parte da doutrina de ortotanásia35.
Destarte, a eutanásia ativa pode ser direta e indireta, conhecida como eutanásia de duplo efeito. A eutanásia ativa direta tem como meta causar efetivamente a morte; por sua vez, na eutanásia ativa indireta, o que se busca é o alívio do sofrimento através da administração de medicamentos capazes de aplacar a dor, sabendo-se que eles causarão, com grande probabilidade, a morte, mas sem que se deseje, efetivamente, esse resultado, diferente, portanto, da eutanásia ativa direta (DIAS, 2012, p. 149; 202-207).
Nesse diapasão, Luciano de Freitas Santoro traz alguns apontamentos:
A eutanásia ativa será aquela em que o evento morte é resultado de uma ação direta do médico ou de interposta pessoa, como, por exemplo, o ato de ministrar doses letais de drogas ao paciente. A
35 O entendimento de que eutanásia passiva é diferente de ortotanásia pode ser bem esclarecido em:
SANTORO, 2011 e LOPES; SANTORO, 2018.
eutanásia passiva, ao contrário, é uma conduta omissiva, em que há a supressão ou interrupção dos cuidados médicos que oferecem um suporte indispensável à manutenção vital. A eutanásia ativa pode ser subdividida em direta e indireta. Enquanto na primeira persigue el acortamiento de la vida del paciente mediante actos positivos (ayuda a morir), a eutanásia indireta, apesar de também haver a aceleração do processo mortal em face da utilização de fármacos, estes são utilizados não para provocar a morte, mas, sim, para aliviar a dor e o sofrimento do paciente, o que acabará por ser a causa de seu óbito (SANTORO, 2022, p. 118).
Conceituada a eutanásia ativa direta, no que se refere à eutanásia ativa indireta, o autor considera:
[...] o ato principal é positivo, consistente em aliviar dor insuportável, enquanto que o efeito secundário é negativo, pois levará o paciente à morte. Inversamente, na eutanásia ativa, o efeito principal é negativo, enquanto que o secundário é positivo, já que se matará alguém para aliviar-lhe o sofrimento (SANTORO, 2011, p. 119).
A delimitação do conceito não é adotada apenas pela doutrina nacional, mas também pela estrangeira. Nesse contexto, relevante destacar o posicionamento português:
Porém, pela variedade de definições nacionais e internacionais, elencamos 7 elementos que parecem constituir a definição de eutanásia ativa direta: a) a existência de um pedido para b) a morte provocada de forma deliberada e intencional, c) a existência de um segundo elemento que acolhe o pedido, d) sendo este elemento obrigatoriamente médico, e) o doente encontra-se em estado de doença grave, incapacitante ou terminal, f) é competente, não sofrendo de perturbação depressiva ou psiquiátrica que altere a capacidade de decidir sobre si, g) ajuíza-se a inevitabilidade da morte para o estado atual, h) o doente encontra-se em estado de sofrimento cruel ou i) em estado de sofrimento indigno (NUNES;
MADEIRA; SILVA; 2020, p. 10).
Lucília Nunes, Luis Duarte Madeira e Sandra Horta e Silva, assim como fizeram no suicídio assistido, harmonizam as nomenclaturas da seguinte forma:
Eutanásia ativa direta que consideramos como morte provocada a pedido, quando uma pessoa realiza um pedido para a morte lhe ser provocada, pedido que é deliberado e intencional; a possibilidade existe institucionalmente, um médico acolhe o pedido e administra o meio letal; o doente é competente, capaz de decidir sobre si, não sofre de distúrbio depressivo ou psiquiátrico, encontra-se em sofrimento e ajuíza-se a inevitabilidade da morte face a doença incapacitante ou terminal (NUNES; MADEIRA; SILVA, 2020, p. 11).
Por sua vez, há outras formas de eutanásia, assim resumidas por Ana Maria Marcos del Cano:
Eutanásia eugênica, relacionada ao aprimoramento da raça, ou seja, morte às pessoas com malformação; eutanásia criminal, relacionada à morte de pessoas consideradas perigosas socialmente; eutanásia econômica, morte aos considerados como inúteis, incapazes de gerar proveito econômico, seja por invalidez, seja pela própria idade;
eutanásia experimental, relacionada à realização de experiências científicas; eutanásia solidária, realizada em doentes denominados
“desenganados”, com a finalidade de utilização de tecidos e órgãos para transplante. Óbvio que não se relacionam ao conceito adotado para a eutanásia e com os elementos e objetivos relacionados à eutanásia disposta nas linhas antecedentes (DEL CANO, 1999, p.
49-51).
Valemo-nos das demais conceituações apenas para apresentar outras perspectivas sobre o tema, mas nenhuma delas (seja a eugênica, a criminal, a econômica, a experimental ou a solidária) se relacionam com os elementos destacados para a construção deste trabalho, especialmente nas seções 2.1, 2.2 e 2.3.
Ainda, questiona-se, não obstante, se a eutanásia de duplo efeito seria uma espécie de eutanásia, já que não há intenção do médico de causar a morte, de modo ativo ou passivo.
Nessa perspectiva, a Corte Constitucional Colombiana (COLÔMBIA, 2014, s/p), quando da sentença T-970/14, manifestou-se sobre o tema, concluindo que a presença da intencionalidade seria essencial para configurar a eutanásia.
Atualmente, a mesma Colômbia (2021), na sentença C-233/21 (COLÔMBIA, Sentencia C-233/21, j. 21-07-2021, online) autorizou, pela primeira vez no país, a eutanásia em um caso de doença que não está em sua fase terminal, tema também relacionado ao do comprimido por vida completa (completed life pill), conforme explica Sálvia de Souza Haddad (2022). Tanto a realidade colombiana quanto a do comprimido por vida completa serão abordados no último capítulo, mas a questão do duplo efeito da eutanásia merecia o apontamento.
Percebemos, uma vez mais, pontos de convergência de fundamentos para a defesa da eutanásia e do suicídio assistido. Nesse aspecto, uma classificação, que também auxiliará, diz respeito à voluntariedade.
Destarte, a eutanásia pode ser, segundo o critério da voluntariedade:
involuntária, não voluntária ou voluntária (CASTRO; ANTUNES; MARCON;
ANDRADE; RÜCKL; ANDRADE, 2016, p. 355-367).
A primeira modalidade, involuntária, nada mais é do que uma forma de homicídio, ou seja, matar alguém contra sua vontade expressa ou tacitamente manifestada. Ainda que o façamos em prol do que entendemos ser seus interesses fundamentais, estamos praticando assassinato, prática repudiada na construção deste trabalho, sob o aspecto das formas de morte digna.
No que tange à não voluntariedade, não é possível saber qual teria sido sua vontade, de maneira que uma decisão é tomada com base em seus interesses fundamentais, a partir de uma perspectiva heterônoma.
Por fim, na espécie voluntária, o paciente manifesta, expressa ou tacitamente, sua vontade de morrer (DIAS, 2012, p. 145; CALSAMIGLIA, 1993, p.
343; COSTA, 2004, p. 126; SINGER, 2018, p. 241-243), ou seja, estamos diante de mais definições que evidenciam a aproximação entre eutanásia e suicídio assistido.
Assim como adotado no final da seção anterior, sobre o suicídio assistido, também elencamos argumentos relacionados à não legalização da eutanásia, os quais contribuem com o debate e o desenvolvimento deste trabalho, a serem enfrentados oportunamente.
Para Ronald Dworkin, por exemplo,
Outro conhecido argumento contra a legalização da eutanásia para as pessoas conscientes – o de que os idosos são vulneráveis e podem às vezes ser pressionados a optar pela morte – incorre no mesmo erro: não reconhece que forçar as pessoas que realmente querem morrer a permanecer vivas é um procedimento danoso para elas. O mesmo se pode dizer do conhecido argumento da “encosta escorregadia”, segundo o qual a legalização da eutanásia, mesmo que em casos cuidadosamente limitados, aumenta a probabilidade de que venha a ser legalizada mais tarde em casos mais duvidosos, e que o processo possa terminar na eugenia nazista. Esse argumento também perde força assim que compreendemos que a não legalização da eutanásia é, em si, danosa a muitas pessoas, então nos damos conta de que fazer o melhor possível para traçar e manter uma linha diferente no futuro, e tentando nos proteger de tal risco, é melhor que abandonar totalmente essas pessoas. Existem riscos tanto na legalização quanto na recusa a legalizar; é preciso atentar para o equilíbrio desses concorrentes, e nenhum deles deve ser ignorado (DWORKIN, 2009, p. 278-279).
Na mesma esteira, José Afonso da Silva, ao elencar os motivos de Remo Pannain para a punibilidade da eutanásia, além da questão religiosa, indica mais 3 motivos que se oporiam a sua impunidade:
(a) motivos científicos e de convivência, tais como a possibilidade de um erro de diagnóstico, da descoberta de um remédio, bem como a eventualidade de pretexto e de abusos; (b) motivos morais (e mesmo jurídicos), pois que, dado o valor atribuído à vida humana pela consciência comum e pelo ordenamento jurídico, não se pode privar a criatura humana nem de um só átimo de existência; (c) de resto, a prevalência do motivo de piedade sobre a natural aversão à supressão de um semelhante revela, em quem pratica a eutanásia, uma personalidade sanguinária ou, pelo menos, propensa ao delito.
A eutanásia não mereceu maior atenção na Constituinte (SILVA, 2008, p. 202).
Além dos motivos acima, José Afonso da Silva revela que a “eutanásia não mereceu maior atenção na Constituite”, todavia, não esclarece quais as razões para isso, tampouco concorda ou discorda sobre a ausência de importância ou atenção relegada ao tema. Parece-nos que naquele momento o assunto ainda era muito mais distante da realidade brasileira, mais ainda do que é hoje, o que não significa que não se possa rever a necessária atenção à eutanásia e ao suicídio assistido.
Em que pese os motivos apresentados, Ronald Dworkin sugere uma primeira resposta sobre o que fazer em relação aos argumentos de não legalização a serem enfrentados:
[...] queremos ter o direito de decidir por nós mesmos, razão pela qual deveríamos estar sempre dispostos a insistir em que qualquer Constituição honorável, qualquer Constituição verdadeiramente centrada em princípios, possa garantir esse direito a todos (DWORKIN, 2009, p. 343).
Conforme expusemos, o capítulo não se destina a enfrentar os pontos favoráveis ou desfavoráveis. Neste momento, o intuito é delimitar os conceitos relacionados ao tema principal da tese, o que nos leva a passar, de imediato, à delimitação da ortotanásia.