A atividade produtiva de uma organização pode ser entendida como resultante de uma série de trocas de bens e serviços especializados, os quais permitem a produção de novos bens
e serviços. A complexidade desta organização, dentro de um ambiente coordenado, foi vista como uma resposta minimizadora dos custos de transação associados aos contratos. Partindo- se desse pressuposto, as transações que ocorrem na economia, em determinado aspecto, podem ser entendidas como trocas de direitos de propriedade associadas a bens ou serviços. De tal forma, não se pode negligenciar as estruturas de direito de propriedade, contratos e instituições quando se estuda o ambiente econômico das empresas.
Dentro da análise sobre a questão da propriedade, surge a busca desses direitos e a lógica da integração de distintos ativos em uma mesma firma. Para tanto, contrastam o uso de um determinado grupo de ativos por uma firma por meio de uma relação contratual, com o uso dos mesmos ativos via propriedade direta do mesmo (HART, 1995). No primeiro caso, como não é possível escrever-se um contrato capaz de prever todas as reservas pertinentes ao mesmo, separam-se então os direitos de propriedade em relação aos referidos ativos, em direitos específicos e residuais, sendo os primeiros governados pelo contrato e os segundos permanecendo em poder dos proprietários dos ativos. Como os direitos residuais podem passar a assumir importância econômica significativa, pode ser mais apropriado que os ativos estejam sobre a propriedade direta da firma que os vai utilizar do que terem seu uso apenas suportado por um contrato (HART, 1995, 2001).
As pesquisas referentes à NEI colocam a empresa como um nexo de contratos, em que as instituições caracterizam as regras do jogo em uma sociedade (NORTH, 1990, COASE, 1937). As instituições, a partir daí, tendem a moldar não apenas o desempenho da economia do ambiente, mas também as estruturas de governança, bem como o modelo de governança corporativa adotado pelas empresas. Torna-se, então, necessário compreender o desenvolvimento das instituições em um determinado ambiente para compreender os padrões de governança corporativa existentes (COASE, 1962, DEMSETZ, 1967).
Conforme foi visto, sendo a firma um nexo de contratos, aceitos por todas as partes, surge a dificuldade em monitorar e remunerar individualmente o trabalho e os ganhos obtidos. Tal monitoramento é decidido pelos agentes em si, sendo o acionista quem monitora todos os membros da organização. Como forma de melhor monitoramento, e de evitar comportamentos oportunistas, o acionista deve ter o poder de revisar os termos dos contratos individuais de cada um da organização, sem ter de alterar os demais contratos da firma. Assim, destaca-se que a propriedade da organização é definida pelos seguintes direitos (DEMSETZ, 1967, ALCHIAN; DEMSETZ, 1972, JENSEN, 2001):
a) o acionista tem direito sobre o resultado residual da empresa; b) tem a prerrogativa de monitorar o comportamento dos indivíduos;
c) toma parte central de todos os contratos da firma;
d) tem o poder de alterar qualquer membro da gestão (em caso de ações com direito a voto);
e) pode vender em qualquer momento seus direitos de propriedade.
No modelo moderno da empresa de capital aberto, o capital é vendido pelo acionista de uma forma mais rápida e barata, via pulverização de ações. Tal pulverização gera um novo conflito de agência, pois tem-se que a empresa possuirá um número maior de stakeholders com poder decisório. Para resolver este conflito, o nexo contratual da governança corporativa dá direito que seja delegada a autoridade de decisões a um gestor (ou uma gerencia), ficando o mesmo comprometido com a máxima exposição das informações sobre a empresa, de forma a facilitar o monitoramento por parte dos acionistas. Esse gestor pode ser o proprietário da firma, um dos acionistas ou um executivo contratado, que passa a exercer uma ação especializada de coordenador e monitorador das ações administrativas da instituição. Surge, então, um outro conflito com as questões de como deve tal monitor ser remunerado,como deve ser estruturado o sistema de incentivos para fazer frente ao problema de monitoramento dos agentes e como deve ser monitorado o resultado deste próprio stakeholder (HEATH; NORMAN, 2004). Os acionistas, então, retêm para si a função de revisar o desempenho dos membros dessa gerência, bem como de atuar nas decisões estratégicas da firma. Independentemente disso, na empresa de capital aberto os acionistas têm o direito de vender a sua propriedade (ações) a qualquer momento, e sem a anuência do demais acionistas, quando sentirem um bom momento de liquidez ou não concordarem com as decisões que estão sendo tomadas pela empresa (DEMSETZ, 1967, ALCHIAN; DEMSETZ, 1972, JENSEN, 2000, 2001).
Ainda dentro da teoria dos direitos de propriedade, destaca-se que as estruturas existentes constituem uma resposta eficiente e minimizadora dos custos de transação. A teoria aí torna-se fundamental para o nexo da firma, onde a mesma tem como função auxiliar a ordenação das expectativas criadas na sociedade para lidar com outros agentes. Ou seja, em uma sociedade onde o pressuposto do comportamento maximizador individual prevalece, a definição dos direitos de propriedade permite reduzir os eventuais custos associados ao monitoramento dos agentes econômicos (DEMSETZ, 1967).
Esta necessidade de monitoramento dos agentes da firma é representada pela sobreposição de ações dos mesmos, cujos resultados intermediários são de difícil mensuração e a produtividade de um indivíduo é afetada pelas ações dos demais. Quando ocorrem dificuldades de monitoramento das equipes, surge um típico problema resultante da ação oportunista dos sujeitos, como visto anteriormente (free-riding). Assim, a alocação dos
direitos de propriedade sobre o produto final passa a sofrer um problema de mensuração (DEMSETZ, 1967, JENSEN, 2000).
Outra questão é a que envolve os efeitos da concentração da propriedade sobre o valor e o desempenho da organização. Essa abordagem argumenta que, caso se comprove que a concentração da propriedade ocorre como conseqüência de certas características das empresas, então, do ponto de vista econométrico, não seria correto afirmar que ela causaria qualquer influência sobre o desempenho corporativo. De forma técnica, argumenta-se que a estrutura de propriedade seria determinada de forma endógena por determinadas características corporativas e que, como conseqüência, os resultados obtidos na relação entre concentração da propriedade e desempenho corporativo seriam ilegítimos (DEMSETZ; LEHN, 1985).
A segurança relativa aos contratos e aos direitos de propriedade geram incentivos para que os stakeholders realizem todos os tipos de transação e deve refletir os ganhos e custos da cooperação mútua entre os indivíduos e agentes, o que nem sempre se alcança facilmente, pois existem distintas possibilidades de estabelecer o contato para dividir os custos benefícios. Dentro do panorama da governança corporativa, os contratos são efetivados principalmente entre a administração da empresa, os acionistas e os outros stakeholders, em negociações que levam ao equilíbrio ou ao desequilíbrio. Quanto mais completos forem esses contratos, e quanto maior for a transparência entre os mesmos, menor será o desequilíbrio causado por ações oportunistas entre as partes (HEATH; NORMAN, 2004).