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CAPÍTULO II: Direitos humanos: tradição e modernidade

1. Os direitos humanos na diacronia

1.4. Direitos humanos, democracia e Estado de Direito

Na atualidade, a hodierna democracia, resultante da luta através do tempo, consolidou, com a contribuição do constitucionalismo, um sistema que garante expressamente a defesa e a proteção dos direitos humanos, como maneira de garantir o seu efetivo cumprimento. O Estado desenvolveu, assim, um sistema de jurisdição constitucional de carácter democrático, que garante a vontade suprema definida na Constituição e anula as disposições inconstitucionais que violam os Direitos Humanos.

Só quando conhecemos efetivamente o sistema de jurisdição constitucional de um Estado e os seus pressupostos e desenvolvimentos, associados a uma postura ativa no que respeita à atividade judicial, é possível garantir o cumprimento efetivo da proteção da pessoa humana. Portanto, é primordial a abordagem do processo de evolução e afirmação dos direitos humanos a partir de uma perspetiva histórica geral.

Só assim poderemos perceber que a luta pelo reconhecimento dos direitos humanos data de tempos imemoriais, sendo um anseio das sociedades de há muitos séculos. Ao longo de muitos anos, por meio de lutas infindáveis entre o homem e o Estado, foram sendo reconhecidos sucessivamente os direitos humanos, limitando-se, como tal, os poderes outrora ilimitados do Estado em prol da afirmação da dignidade humana, tantas vezes ameaçada pelo uso abusivo do poder absoluto do próprio Estado.

Hoje, por conseguinte, a democracia moderna, fruto da luta histórica entre governantes e governados, acabou por se impor, com o contributo do constitucionalismo, a afirmação dos direitos humanos e um sistema judicial para a sua defesa e garantia, pois de nada adiantaria atribuir extrema importância ao cumprimento dos direitos humanos dentro dos ordenamentos jurídicos internos dos Estado se não existisse um sistema ou órgão capaz de defender a vontade suprema da Constituição do Estado.

Esta preocupação com o “cumprimento estrito” da Constituição é muito antiga, obrigando todos os Estados a constituir uma jurisdição que assegure a vontade da Constituição, com competência para anular as disposições inconstitucionais violadoras dos direitos humanos conquistados através dos tempos, (ver Anexo III).

Podemos dizer, em suma, que nasce assim a jurisdição constitucional baseada na atuação de órgãos judiciais destinados à fiscalização do cumprimento das normas e dos princípios da Constituição de um Estado, no sentido de pôr termo ao “poder pelo poder”, fazendo valer a vontade da Constituição face à lei ordinária. Destaque-se, porém, que a

jurisdição constitucional não se limita ao controlo da constitucionalidade das leis e atos normativos, mas também abrange o controlo da legalidade, como se pode constatar por uma mera leitura da definição de jurisdição constitucional produzida por Gomes Canotilho, segundo o qual ela,

consiste em decidir vinculativamente, num processo judicial, o que é direito, tomando como parâmetro material a constituição ou o bloco de legalidade reforçada, consoante se trate de fiscalização da constitucionalidade ou da legalidade (Canotilho 1998: 859).

Deste modo, a responsabilidade pelo controlo e repressão das violações aos direitos humanos por meio de leis ou atos normativos incumbe ao poder judicial, que tem a função de dirimir conflitos jurídicos, decidindo em defesa dos direitos humanos. Segundo as palavras pertinentes de Manoel Gonçalves Ferreira Filho,

o controle de constitucionalidade é, pois, a verificação da adequação de um acto jurídico (particularmente da lei) à Constituição. Envolve a verificação tanto dos requisitos formais – subjetivos, como a competência do órgão que o editou – objectivos, como a forma, o prazo, o rito, observados em sua edição – quanto dos requisitos substanciais – respeito aos direitos e garantias consagrados na Constituição – de constitucionalidade do acto jurídico (Filho 1994a: 34).

Esta ideia é reforçada por Alexandre de Moraes da seguinte forma quando afirma que,

o controle de constitucionalidade configura-se, portanto, como garantia de supremacia dos direitos e garantias fundamentais previstos na constituição que, além de configurarem limites ao poder do Estado, são também uma parte da legitimação do próprio Estado, determinando seus deveres e tornando possível o processo democrático em um Estado de Direito (Moraes 2004: 599).

Na mesma linha de pensamento Dallari, acrescenta o que se segue:

É preciso ter muito claro que para a real proteção judicial dos direitos humanos não é suficiente e, pelo contrário, é perigoso só cumprir formalidades judiciárias, ter uma aparência de proteção judicial, que adormece a vigilância e que não é, porém, mais do que uma ilusão de justiça (Dallari 2007: 38).

Esta inclinação excessiva pelas formalidades judiciais, acaba muitas vezes por transformar-se, de forma despercebida, num meio pelo qual muitas vezes os próprios juízes, indiretamente, cometam violações contra a garantia e defesa dos direitos humanos, transformando-se assim em agentes violadores sem dar por isso.

Atente-se no que diz Dalmo de Abreu Dallari acerca destas violações realizadas pelos juízes indiretamente contra os direitos humanos:

Condicionados por uma visão exclusivamente formalista do direito, esses juízes concebem o respeito das formalidades processuais como o objectivo mais importante da função judicial. Não se sensibilizam pelas mais graves violações de direitos humanos, desde que sejam respeitadas as formalidades. Por isso se pode dizer que os juízes formalistas são cúmplices inconscientes dos violadores de direitos humanos e concorrem de maneira significativa para combater a sua impunidade (Dallari 2007: 40).

Este excesso de lógica formalista-positivista, que tem muitas vezes origem numa formação jurídica viciada, faz com que os juízes se esqueçam de facto que esta posição passiva é um verdadeiro obstáculo à construção da justiça, das liberdades e garantias do ser humano neste processo da constitucionalidade dos direitos humanos.

Numa outra perspetiva, no mundo moderno, a tutela, a defesa e a garantia efetiva dos direitos humanos fundamentais pela Constituição dos Estados carece da internacionalização da proteção judicial desses mesmos direitos de forma universal, exigindo-se não só reconhecimento da competência dos organismos internacionais de fiscalização e proteção, como também a concessão de maior eficácia e aplicabilidade aos tratados e convenções internacionais relativos aos direitos humanos. Segundo António Augusto Cançado Trindade,

com a desmistificação dos postulados do positivismo voluntarista, tornou-se evidente que só se pode encontrar uma resposta ao problema dos fundamentos e da validade do direito internacional geral na consciência jurídica universal, a partir da asserção da ideia de uma justiça objectiva. Como uma manifestação desta última, têm-se afirmado os direitos do ser humano, emanados diretamente do direito internacional, e não submetidos, portanto, às vicissitudes do direito interno (Trindade 2006: 401).

Sendo assim, é primordial o despertar desta “consciência jurídica universal”, por todos os Estados, como factor de humanização do direito internacional contemporâneo, colocando-se a pessoa humana num plano central com vista à erradicação dos problemas que afligem toda a humanidade, de modo a despertar a confiança na própria justiça humana, tantas vezes desacreditada (Trindade 2006: 402-404).

Por fim, é imperativo criar junto da sociedade civil uma “cultura dos e para os direitos humanos” e que a sociedade civil seja “intérprete diária” da Constituicão. Atualmente impõe- se de forma democrática uma “educação para os direitos humanos” da população, começando desde logo pelos mais jovens, pois quanto mais cedo melhor para que possa imperar a ideia de que é importante para a vida humana a defesa e o cumprimento dos direitos humanos para o fomento da paz, da vida e da dignidade humana.

A base de uma sociedade democrática reside no facto de os seus cidadãos serem pessoas esclarecidas e terem consciência dos seus direitos, para que sejam devidamente respeitados e

protegidos, pois não há paz, liberdade, desenvolvimento ou dignidade humana sem educação e cultura para os direitos humanos.

Nos nossos dias, os direitos humanos estão associados a um movimento (designado movimento internacional dos direitos humanos) que envolve o direito e as instituições internacionais, assim como a propagação de constituições liberais entre os Estados. Os desenvolvimentos internos em muitos Estados foram bastante influenciados pelo direito e instituições internacionais, assim como pelas pressões de outros Estados, na tentativa de fazer cumprir o direito internacional no que respeita aos direitos humanos universais.

Compreendemos que, para além de serem uma categoria jurídica, os direitos humanos são direitos inalienáveis e inerentes a cada ser humano, apenas pelo facto de se ser um ser humano.

Sendo direitos pessoais, a validade dos direitos humanos é independente do seu reconhecimento por algum direito positivo ou poder político. Neste caso, de facto, o que acontece é precisamente o contrário: o direito positivo só é válido se incorporar os direitos humanos e o poder político só tem legitimidade se respeitar os direitos humanos.

Na realidade, desde o fim da II.ª Guerra Mundial, “é inadequado ou mesmo enganador” estudar os direitos humanos em qualquer Estado sem incluir como um dos principais ingredientes, os aspetos políticos e jurídicos do direito internacional público.

O direito internacional público dos direitos humanos consiste num conjunto de normas e princípios jurídicos respeitantes à proteção internacional do ser humano. A grande inovação do direito internacional público dos direitos humanos é a consideração do ser humano e da dignidade como valores autónomos da sociedade internacional.

No passado, o modo como o Estado tratava os seus cidadãos não era regulado pelo direito internacional clássico. Assim, se um Estado violava os direitos humanos de indivíduos nacionais, esta violação dos direitos humanos era um assunto da exclusiva jurisdição interna do Estado onde ocorria esse facto, que impedia a intervenção de outros Estados a favor desses nacionais.

Atualmente, porém, o direito internacional público regula as relações entre o Estado e os indivíduos sob a sua jurisdição, bem como as relações entre Estados. Além disso, existem diversas instituições internacionais com competência para proteger os indivíduos contra as violações dos direitos humanos, cometidas pelos seus Estados ou por outro Estado.

Apesar dos mecanismos internacionais serem ainda escassos para assegurar uma proteção eficaz dos direitos humanos, a Carta das Nações Unidas (CNU) internacionalizou o

assunto dos direitos humanos (ONU 2012: 19-20). Logo, a violação dos direitos humanos passou a ser uma questão que diz respeito a toda a comunidade internacional.

A adoção da Carta das Nações Unidas (CNU), a subsequente criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) em 1948 e de outros instrumentos internacionais de direitos humanos, entre os quais se salientam os dois principais tratados criados em 1966 – o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais (PIDESC) – e o trabalho desenvolvido pelos diversos órgãos internacionais com competência ao nível dos direitos humanos teve um tal impacto que, nos nossos dias, é geralmente reconhecida a proibição de violações graves e em grande escala dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos pelos Estados.

Para a maioria dos autores que se dedicaram a este assunto, os direitos humanos internacionais refletem a conceção liberal dos direitos humanos.

Isto é, defendem que existe uma correspondência entre o liberalismo e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Tal afirmação baseia-se sobretudo no facto de a maior parte das fontes da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) serem textos provenientes de países ocidentais e de origem anglo-saxónica, e da constatação de semelhanças concetuais entre o discurso contemporâneo internacional dos direitos humanos e a conceção liberal do homem e do Estado. É assumido que os direitos humanos “são o idioma contemporâneo dos direitos naturais” (ONU 1948). Compreende-se, deste modo, que na página

online da ONU, com o título L ́ONU et Les Droits de L ́Homme, se diga o que se entende por

direitos humanos:

Um conjunto de direitos essenciais à nossa existência como seres humanos. Sem estes direitos, não podemos desenvolver, nem exercer plenamente as nossas qualidades humanas, a nossa inteligência, o nosso talento e a nossa espiritualidade (Direito Internacional 1948).

Num relatório da ONU lê-se: “Os direitos humanos são os direitos possuídos por todas as pessoas, em virtude da sua humanidade, para viver uma vida de liberdade e dignidade” (ONU 1948: 3).

Também na Ficha de Informação do Alto-Comissariado das Nações Unidas sobre os direitos humanos se afirma que o direito internacional dos direitos humanos tem “uma conceção do ser humano como sujeito ativo e informado que participa na vida pública do Estado onde se encontra e nas decisões que lhe dizem respeito, em vez de ser passivamente o seu objeto” (ONU 1948).

Muitos outros exemplos poderiam ser dados, como escreve Jack Donnely:

Os direitos humanos baseiam-se e procuram realizar uma concepção particular da natureza humana, dignidade, bem-estar ou prosperidade. Os seres humanos são vistos como indivíduos autónomos e iguais em vez de titulares de papéis sociais específicos. Os indivíduos também são membros de famílias e de comunidades, trabalhadores, praticantes de uma determinada religião, cidadãos e exercem outras funções sociais. Uma concepção de direitos humanos, contudo realça que essencial à sua dignidade, e a uma vida digna de um ser humano, é o simples facto de serem seres humanos. Isto dá-lhes um valor irredutível que lhes confere a igual consideração e respeito por parte do Estado e a oportunidade de fazerem escolhas fundamentais sobre o que constitui uma vida boa (para eles), com quem se associam (Donnelly 1999: 71-102).

Por outras palavras, “os direitos humanos são um mecanismo particular – um conjunto particular de práticas – para realizar um certo tipo de conceção de dignidade humana” (Donnelly 1999: 73). Note-se, contudo, que o conceito de “direitos humanos” e o conceito de “dignidade humana”, apesar de estarem relacionados, são diferentes.

A maioria dos estudiosos que se dedicam a este tema consideram que a definição dos direitos humanos mais de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos é a seguinte: “direitos que cada um tem só por ser um ser humano (ou em virtude da sua humanidade)” (Donnelly 1999: 75).

Por sua vez, esta definição também levanta problemas, porque temos que saber o que é que o discurso internacional dos direitos humanos entende por “direito” e o que é que o termo “humano” acrescenta aos direitos.

Vejamos: a palavra “direito”, no discurso internacional dos direitos humanos, significa “direito subjetivo”. Por sua vez, dizer que um direito é um “direito subjetivo” é o mesmo que dizer que é um poder de vontade (ou uma faculdade de agir ou de exigir) que certo indivíduo tem perante o Estado ou outras pessoas individuais ou coletivas sujeitas ao poder do Estado.

Já o termo “humano” implica que os direitos humanos não são direitos específicos de uma cultura ou de um grupo, mas são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente da nacionalidade, sexo, raça, classe, riqueza, religião, origem étnica, idade, etc. Isto é, para se ter direitos humanos basta pertencer à espécie humana. É por isto que se diz que os direitos humanos são universais, iguais para todos os seres humanos e inalienáveis.

Os direitos humanos refletem uma conceção particular da dignidade humana, mas também representam e procuram realizar uma conceção particular de valores promotores da vida, da paz, da dignidade humana e da justiça social.

É evidente que os direitos humanos exprimem valores de segurança, alimentação adequada, expressão do pensamento, etc, e que estes constituem o conteúdo dos direitos.

Todavia, no discurso internacional dos direitos humanos considera-se que existe uma relação entre os direitos e os valores, porque, se por um lado os direitos humanos implicam a seleção de certos valores, por outro lado também envolvem a escolha de um mecanismo específico para defender esses valores, os direitos humanos.

Logo, tudo quanto dissemos demonstra que no discurso dos direitos humanos os valores que lhe estão subjacentes dependem da sua aceitação social como algo com grande importância.

Neste sentido, leiam-se as palavras de Vincent R. J.:

Os direitos não só constituem uma parte importante da linguagem moral, como têm um papel único nessa linguagem. Que é exprimirem uma atitude moral específica. O comportamento de alguém que reivindica os seus direitos não é o de alguém que mendiga ou suplica, e a resposta se a reivindicação for satisfeita não é de gratidão. Igualmente, se a reivindicação não for satisfeita, a resposta não é de desapontamento, mas de indignação. Isto acontece porque os direitos são defendidos como fazendo parte do estatuto da pessoa (Vincent 2001: 17).

Também Louis Henkin afirma:

Os direitos humanos não são um abstracto, incipiente “bem”. Os direitos são expressões bem conhecidas, definidas e específicas do respeito pela dignidade individual e autonomia individual, e de um sentimento comum de justiça e injustiça (Henkin 1986: 9).

Nesta linha, John Finnis sublinha,

a moderna linguagem dos direitos “é um instrumento multifacetado para relatar e afirmar as exigências e as implicações de uma relação de justiça do ponto de vista da pessoa que beneficia dessa relação” (Finnis 2005: 205).

Isto é, a linguagem dos direitos coloca a ênfase no titular do direito, surgindo o dever do Estado como a contrapartida do direito do indivíduo. Como realça Joel Feinberg:

Podem existir deveres num mundo sem direitos, nem todos os deveres de fazer algo a A são deveres (devidos) a A correlativos a direitos de que A é titular. Em vez disso, eu posso ter um dever correlativo a um direito de Deus que obriga a fazer algo por A. Se eu falhar no cumprimento desse dever, posso ter feito de algo errado. Posso não ter sido correto para com A, posso ter prejudicado A. Mas posso ter feito tudo isto sem ser injusto para com A (mesmo sendo A o objecto do dever), porque o cumprimento do dever não era devido a A. Dizer que A tem um direito acrescenta a ideia de que algo é devido a A (embora possa significar mais do que isso) (Feinberg 2004: 477-478).

Ou seja, embora não tenha sido sempre assim ao longo da História, atualmente, no que respeita à justiça coletiva, a ideia de justiça, como forma de organização de uma sociedade justa e de um Estado justo, enquadra-se no respeito pelos Direitos Humanos. Não adianta falar muito

sobre a relação entre os direitos humanos e a justiça, mas não deixaremos de dizer que quando se afirma que os direitos humanos são direitos morais, o que se quer na verdade, é afirmar a obediência do direito e do Estado à justiça. O que é o mesmo que dizer obediência a ideias transcendentes que radicam no direito natural (ou em valores éticos superiores). É por isso que os juristas usam os termos justo e injusto quando elogiam ou condenam o direito existente numa determinada sociedade.

Para que não subsistam ambiguidades, todos percebemos que a democracia é o único sistema de governação que se auto-corrige e que oferece esperança para a realização dos direitos humanos e liberdades fundamentais sejam garantidos e respeitados face ao totalitarismo. O papel de supervisão dos parlamentos, como guardiões dos direitos humanos, deve ser apoiado e aumentado.

Os parlamentos, que representam a vontade do povo, são essenciais ao governo democrático. Assim reafirmamos que o pleno exercício dos direitos humanos e liberdades fundamentais só pode ter lugar em sistemas democráticos e jamais em sistemas absolutos ou totalitários.

Explicando melhor, a democracia não significa governo absoluto da maioria. A democracia dada a sua relação com os direitos humanos tem que ser democracia fundada no respeito pelo ser humano, uma democracia que respeita e cumpra os direitos.

A democracia e o Estado de direito estão relacionados. Ambos são necessários para criar um ambiente em que os direitos humanos possam ser cumpridos. Segundo as Nações Unidas:

O conceito holístico de democracia envolve o processual e o substantivo, instituições formais e processos informais, maiorias e minorias, homens e mulheres. Governos e sociedade civil, o político e o económico, o nacional e o internacional (United Nations 2005: 28).

A “expressão democracia, nascida há mais de vinte e cinco séculos” (Kelsen 1929: 32), tem sido um dos conceitos “mais abusivamente empregue entre todos os conceitos políticos” (Amaral 2006: 194).

Já a expressão Estado de direito, segundo Tamanaha é “o mais proeminente ideal político das democracias liberais ocidentais” (Tamanaha 2006: 130), nascido no contexto da história do constitucionalismo britânico e vulgarizado pela linguagem comum em outros contextos. Como não cabe no âmbito deste estudo entrar na análise inesgotável destes conceitos, iremos apenas lembrar o que diz as Nações Unidas:

A democracia é o único sistema de governação que se auto-corrige e que oferece esperança para a realização dos direitos humanos e liberdades fundamentais. O papel

de supervisão dos parlamentos, como guardiões dos direitos humanos devem ser apoiados e aumentados. Os parlamentos que representam a vontade do povo são essenciais ao governo democrático (United Nations 2005: 76).

E ainda que,

os elementos essenciais da democracia incluem o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais, liberdade de associação, liberdade de opinião e de expressão, acesso ao poder e seu exercício em conformidade com o Estado de direito, realização de eleições periódicas livres e honestas através de sufrágio universal e voto secreto, um sistema pluralista de partidos políticos e organizações, separação de poderes, independência do poder judicial, transparência e responsabilidade da administração pública e meios de comunicação social livres, independentes e