5. O INSTITUTO MUNICIPAL DE BELAS ARTES DE BAGÉ (1921-1927)
5.5 Diretoras forasteiras e diretora local
Corte Real (1984) com base no depoimento de Celia Ferreira, afirma que Celia foi convidada a dirigir e lecionar no IMBA e que esta havia aceitado, contando com a “colaboração de sua genitora”. Fagundes (2012) afirma que Celia veio a substituir sua mãe na direção, em um segundo momento. No entanto, no primeiro anúncio pago publicado pelo IMBA n’O Dever (08/04/1921, p. 1), sua mãe Vicentina já assinou como diretora e a cobertura d’O Dever tratou Vicentina como diretora durante todo o período em que a família Ferreira esteve à frente do empreendimento99. Em 1923, a
99 Dado que, segundo Corte Real (1984), Vicentina havia sido indicada para as aulas de piano para as
alunas iniciantes e que, conforme se observa nos dados, Vicentina não se apresentou publicamente como pianista em nenhum momento dos dois anos em que dirigiu o IMBA (apesar de suas filhas
família Ferreira retorna a Porto Alegre, em um movimento concomitante com o convite feito àquela que foi a segunda diretora do IMBA: Jandyra Nunes Pereira. No dia 13 de março de 1923, O Dever anunciou que Jandyra estava se dirigindo a Porto Alegre por motivo do convite para ministrar as aulas de piano do IMBA. Dez dias depois, O Dever publicou que o Centro de Cultura Artística a havia nomeado diretora. No dia 28 do mesmo mês, Jandyra já assinava o primeiro anúncio pago de sua gestão como diretora. Filha do coronel Claudio Nunes Pereira, Jandyra, também solteira, se mudou com a família para Bagé onde permaneceu pelos três anos em que dirigiu o IMBA.
O ciclo de diretoras de fora da cidade nomeadas pelo Centro de Cultura Artística só se encerra em 1926, quando Rita Jobim Vasconcellos retornou à cidade para assumir a direção do IMBA, posto que ocupou por 37 anos até sua morte em 1964. Rita nasceu em São Gabriel (cerca de 130 Km de Bagé) no dia oito de outubro de 1905 (FAGUNDES, 2012) e era filha de Ildefonso Vasconcellos, guarda-livros100 atuante em Bagé e ex-presidente do Clube Caixeiral (a sede provisória do IMBA), posto que o fez participar da mesa da cerimônia de inauguração oficial do IMBA em 1921. Rita foi aluna do IMBA desde os primeiros dias da instituição na qual ingressou, já sendo uma pianista com considerável experiência, haja vista que participou do primeiro concurso de piano da instituição em 1921, concorrendo com Aracy Mariante, Genny Pereira e Renée Médici (irmã do ex-presidente do Brasil Emílio Garrastazu Médici)101. Rita participou ativamente (como aluna) dos eventos relacionados ao IMBA desde o início, recebendo convidados de fora, organizando festas de aniversários para professoras e tocando em todas as apresentações até 1923, apresentarem-se com frequência), sinto ser razoável duvidar que Vicentina tivesse se diplomada pelo Conservatório de Porto Alegre, tal como era previsto pelo Centro de Cultura Artística. Tal questão careceria de uma pesquisa específica para ser respondida a contento, o que, certamente, ajudaria a compreender um pouco mais da dimensão política por trás do discurso “técnico” empregado pelos dirigentes da época para justificar as indicações de diretores para os diferentes conservatórios criados pelo movimento concomitante com o convite feito àquela que foi a segunda diretora do IMBA: Jandyra Nunes Pereira.
100 A ocupação de guarda-livros corresponde às ocupações que hoje denominam-se “técnico em
contabilidade” ou “contador”.
101 No concurso Renée Medici conquistou o primeiro lugar executando uma das três peças a escolha do
juri: Bébé s' endort, Pierrot se Meurt (Henrique Oswald), Cracovienne Fantastique (Ignacy Paderewsky) e Eau courante (Massenet). As peças a serem executadas por Rita Vasconcellos foram:
Arabesque nº 2 (Claude Debussy), Gasoulliment d Primtemps (Christian Sinding) e Mazurka (Camile
Saint-Saëns). Graças ao trabalho do Grupo de Estudos em Educação, História e Narrativas da Unipampa, o programa do concurso está disponível no Repositório Tatu: <http://sistemas.bage.unipampa.edu.br/tatu/index.php/2018/08/09/folder-escola-musical-de-bage- concurso-publico-de-1921/>
quando já cursando o sétimo ano de piano no IMBA, mas interrompe a sequência do curso para estudar no Conservatório de Porto Alegre entre 1924 e 1925. Em dezembro de 1925, O Dever noticia o retorno da bageense diplomada pelo conservatório da capital do estado, ocasião em que a “jovem diplomada, recebida pela directora e alumnas da ‘Escola Musical’ local recebendo diversos ramalhetes de flores” (O DEVER, 08/12/1925, p. 2). Jandyra ainda encerraria o ano de 1925 com as audições de fim de ano e deixou a cidade assim que Rita assumiu a direção.
A prontidão com que a família Ferreira e Jandyra deixaram a cidade chama a atenção e parecem indicar que o tempo em Bagé tinha como principal razão o trabalho no IMBA. As primeiras diretoras tinham condições de permanecer como professoras da instituição, mas preferiram se ausentar da cidade, sempre em direção a Porto Alegre. Creio que esse fato diz algo sobre como as professoras abriram mão da convivência com familiares, amigos e colegas músicos e das condições de vida em cidades de maior porte, mais urbanizadas e com uma vida cultural mais intensa. Conhecer as condições de trabalho oferecidas a essas mulheres (informação à qual não se tem acesso através da documentação pesquisada) certamente contribuiria para compreender o campo de possibilidades que estavam à frente dessas que se dispuseram a uma mudança tão drástica em sua vida e de sua família por alguns anos em função do projeto de “interiorização da cultura artística” no estado do Rio Grande do Sul.
Essa é, a meu ver, a dimensão mais sensível da compreensão de como uma instituição como o IMBA se consolida em uma sociedade tal como a bageense. Seguramente, Guilherme Fontainha e José Corsi são figuras centrais nesse processo com suas capacidades de articular alianças políticas em níveis regionais e locais e administrar os diferentes interesses e oposições em relação aos conservatórios criados em cada cidade. No entanto, a empreitada só se fez possível através de uma grande dose de esforço humano empregado por diversos sujeitos para manter o projeto vivo mesmo após passados os primeiros momentos de euforia da população local quando os conservatórios deixam de ser novidade na cidade. Quando a bageense Rita Vasconcellos assume a direção do IMBA, em 1926, o ciclo de sacrifícios pessoais de professoras de música para assumir, em caráter provisório, a direção da instituição se encerra e dá-se início a um novo e longo ciclo que durará 37 anos.
O que a cobertura d'O Dever sugere é que a posse de Rita reposiciona o IMBA nas relações sociais entre estabelecidos e outsiders. Após sua posse, a diretora do
IMBA foi, na maior parte das vezes, em 1926 e 1927, identificada pel'O Dever, como senhorinha “Rittinha Vasconcellos”, filha de Ildefonso Vasconcellos, um tipo de tratamento no diminutivo que não era comum em seu período como aluna do IMBA e que demonstrava um nível de intimidade muito distante daquela com que foram tratadas Célia Ferreira e Jandyra Nunes. Rita foi tratada como um elemento familiar da cidade. Ela podia ser identificada nas redes locais de interdependência da época, fortemente dependentes da ideia de origem familiar; os jornalistas, assim como grande parte das camadas altas e médias da população adulta, conheciam seu pai e a viram crescer. Como diretoras, Celia foi celebrada por seu “talento” como pianista e Jandyra, além de seu “talento”, por sua elegência e beleza, o que a fez ser a única a ser tratada pelo pronome mademoseille por praticamente toda a cobertura de sua gestão. Ambas foramro de Cultura Artística. Em 1923, a família Ferreira retorna a Porto Alegre, em tratadas de forma muito respeitosa, mas, apesar da frequência com que participavam de eventos sociais (nem sempre diretamente ligados ao IMBA), sempre com certo grau de formalidade. Rita, apesar do diploma no Conservatório de Porto Alegre, do cargo ocupado, do respeito com que era tratada pelas alunas e do sucesso na negociação com a Intendência Municipal para a municipalização do IMBA em 1927, seguiu sendo a “Ritinha, filha do Ildefonso”.
Figura 20 - Rita Vasconcellos em material de divulgação do IMBA.
Creio que o modo como os jornalistas “relaxam” frente a uma figura conhecida como Rita, à qual não mais precisam sustentar o tratamento formal dedicado àqueles que não consideravam “um dos seus”, não representa um sentimento restrito aos “homens da imprensa”, mas, sim, um sentimento que se mostrou comum na sociedade bageense da época. Com Rita na direção, grande parte da sociedade bageense “relaxou” junto com os jornalistas. Na sociedade da região da Campanha, na qual as relações de animosidade (devido a um sentimento de estar sendo explorado) com a metade norte do estado se fazem presentes desde o século XIX (com a Guerra dos Farrapos), e em um período no qual o conflito entre moderno e tradicional encontram forte correspondência com o conflito entre o Brasil urbano e o rural, é certo que a chegada de músicos porto-alegrenses, apoiados pelo PRR, prometendo modernizar o ensino de música e a cultura musical da cidade não foi motivo de celebração para todos. A posse de Rita minimiza esse sentimento de desconfiança frente ao IMBA. As referências a ser um conservatório “filiado” ao Centro de Cultura Artística ou ao Conservatório de Porto Alegre diminuem bastante e, no ano da municipalização do IMBA, desaparecem da cobertura do jornal. A figura de Rita frente ao IMBA dá um toque “nativo” a uma instituição que, desde sua fundação, apesar da clara animação de parte da sociedade bageense pela existência do estabelecimento, foi tratada como “exótica” pelos jornalistas d'O Dever.