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5. O INSTITUTO MUNICIPAL DE BELAS ARTES DE BAGÉ (1921-1927)

5.4 Ingresso, ensino e currículo no IMBA

Apesar de o IMBA ter se iniciado com uma lista de alunas interessadas preenchida conforme o desejo das alunas, o modo como o regulamento de 1927 (o mais antigo disponível. Ver Anexo II) previa o ingresso de alunos era através de exames de admissão. Para a realização do exame de admissão, segundo o regulamento, deveria ser paga uma taxa específica que daria acesso a uma banca examinadora composta por dois professores mais o diretor do conservatório. As condições para o ingresso na instituição estavam previstas no Artigo 6 do regulamento:

São condições essenciaes para admissão em qualquer dos cursos: - Moralidade

- Aptidão natural para a musica ou para o desenho conforme o curso:

- Idade conveniente, segundo o curso;

- Sanidade reconhecida e constituição physica adaptada ás exigencias do estudo;

- Conhecimento sufficiente da lingua portuguesa e operações arithmeticas as mais elementares.

Além desses requisitos, era demandado da aluna de canto o conhecimento das línguas francesa e italiana. A cobertura d’O Dever não faz qualquer menção a esse tipo de processo seletivo: não divulga datas para realização das provas nem divulga os classificados, o que reforça a hipótese de que o regulamento não era adotado à risca

pelas diretoras e professoras do IMBA. Em todos os anúncios publicados pelo IMBA n’O Dever, a instituição se limita a informar que as matrículas estavam abertas. Diversas podem ser as razões para essa particularidade no ingresso de alunas ao IMBA em relação ao ingresso no conservatório de Porto Alegre. Talvez a questão financeira tenha sido um dos fatores considerados para a não realização de exames de admissão. Com uma mensalidade estimada, antes da inauguração, em US$ 12396 (o mesmo valor do acesso ao camarote dos concertos de inauguração), os alunos do IMBA teriam acesso, como previsto antes da inauguração, às aulas de instrumento, Teoria e Solfejo, História da Música e Harmonia (O DEVER, 15/01/1921, p. 3). Não é possível saber, através da documentação analisada, como estava a situação financeira da instituição em seus primeiros anos, mas me parece pouco provável que um conservatório pensado nos moldes do de Porto Alegre, mas localizado em uma cidade com população menor e ainda operando em sede provisória, tenha se dado ao luxo de abrir mão das mensalidades dos alunos que não se enquadravam nos requisitos previstos no regulamento.

Sobre o currículo da escola, além de obedecer também ao recorte curricular por instrumentos musicais, vale notar o modo como as disciplinas teóricas se reduzem ao longo dos anos. Mesmo tendo sido previstos os cursos de Teoria e Solfejo, História da Música e Harmonia antes da inauguração, não há, qualquer registro no jornal sobre os cursos de História da Música e Harmonia. No primeiro anúncio da escola, em oito de abril de abril de 1921 (p. 1), a diretora Vicentina anuncia, entre as disciplinas teóricas, apenas Teoria e Solfejo e Harmonia. Nos demais anúncios, até 1927, além dos cursos de instrumentos, apenas o curso de Teoria e Solfejo estava previsto. Essa redução dos cursos teóricos será explorada através da perspectiva de gênero, no capítulo seis, mas pode também ser reflexo de cortes de gastos ou falta de professores na instituição.

Ainda em termos curriculares, a oferta de cursos de instrumento também se reduz drasticamente. O primeiro anúncio da escola, em 1921, previa cursos de Canto, Piano, Violino, Violoncelo e Bandolim, mas, como o quadro 1 ilustra, a tendência à redução da oferta curricular apenas para curso de piano se observa até o ano de 1927, quando os cursos de violino e canto voltam a ser ofertados.

96 Na moeda da época 25 contos de réis. No momento em que escrevo (setembro de 2019), o

Quadro 1 - Ofertas de cursos do IMBA a partir dos anúncios n’O Dever. Data do anúncio Instrumentos ofertados Diretora

08/04/1921 Canto, Piano, Violino,

Violoncelo e Bandolim

Vicentina Ferreira

28/03/1923 e 05/04/1923 Piano e Canto Jandyra Nunes Pereira

22/03/1924 Piano Jandyra Nunes Pereira

24/03/1925 Piano Jandyra Nunes Pereira

25/03/1926 Piano Rita Jobim Vasconcellos

29/03/1927 Piano, violino e canto Rita Jobim Vasconcellos Fonte: organizado pelo autor.

A gestão de Jandyra Nunes Pereira (1923-1925) é aquela na qual se vê a redução acontecer de forma mais acentuada, mas o piano surge como símbolo da instituição desde o seu início, o que se pode observar pela realização de concursos de piano. Os concursos de piano eram eventos competitivos nos quais as pianistas se apresentavam a uma banca composta de algum professor do IMBA mais músicos de fora da instituição (professores do Conservatório de Porto Alegre ou de Pelotas, mas também o músico local José Servan, sobre o qual tratarei no capítulo sete) que elegia a vencedora do concurso. O evento teve um cronograma padrão para todos os anos pesquisados (1921-1927) que consistia na execução de uma invenção a duas vozes de J. S. Bach, uma leitura a primeira vista e, por fim, a execução de uma peça escolhida pela banca entre três oferecidas pela candidata. Não houve, durante o período estudado, qualquer concurso sendo realizado ou evento voltado a outro instrumento que não o piano. A propósito, não há, na cobertura d’O Dever sobre os recitais de alunas, qualquer menção a alunas se apresentando com outro instrumento que não o piano. Isso indica que, desde o início, a escola tinha uma forte predisposição à formação de pianistas e promovia, ainda que não de forma explícita, uma certa hierarquização entre os cursos oferecidos, tendo sempre o piano um destaque desproporcional em relação aos outros instrumentos. Esses dados reforçam os argumentos apresentados sobre o CMMB no que se refere ao conceito de instrumento- monumento e como o piano ocupa uma posição privilegiada em termos de legitimidade social.

De forma geral, a consolidação do IMBA, cujo marco se situa no fim do ano de 1926 (quando a questão da municipalização foi acertada entre as partes), acontece quando este opera exclusivamente como escola de ensino de piano, tendo os cursos teóricos exercido um papel secundário e complementar ao único curso de instrumento oferecido, como previsto no regulamento. As barreiras sociais para o ingresso na instituição (localização, custo da mensalidade e dos materiais e aquisição do único instrumento disponível para estudo) certamente limitava o acesso à maior parcela da população. Talvez essas características tenham sido observadas pelo intendente Carlos Mangabeira para propor a municipalização da instituição pelo argumento de poder oferecer o ensino de música para aqueles que, “demonstrando aptidão para música”, não tivessem recursos para dar seguimento a seu estudo no IMBA. No ano da municipalização, a oferta curricular se amplia, abrindo cursos de violino e canto. Difícil saber como a sociedade bageense da época via essa concentração da instituição em um único instrumento, mas os dados sugerem que a criação de novos cursos permitiu que o conservatório fizesse novas matrículas para alunos que haviam evadido do IMBA na época em que esse era uma escola voltada apenas ao piano. Das 115 alunas cujo nome foi citado ao longo da cobertura d’O Dever como alunas do IMBA, ao menos seis fizeram o movimento de retornar ao IMBA, após ter evadido do curso de piano, para cursar canto.

Esse acompanhamento do histórico de cada uma das alunas na instituição só foi possível porque O Dever publicou o nome das alunas que se apresentaram nos exames públicos97 e nas audições de alunas98. Apesar de a lista de 115 alunas contemplar todas aquelas que se apresentaram em público, a necessidade de que cada professor desse seu aval sobre a possibilidade de cada uma das alunas se apresentar (previsto no regulamento de 1927 e mantido no de 1929) faz com que as listas não representem o conjunto completo de alunas. Consciente dessa limitação, é possível levar em consideração o histórico daquelas que se apresentaram com base na cobertura d’O Dever. Das 97 alunas que ingressaram até 1926, 84 interromperam o curso em algum momento de sua trajetória no IMBA antes de completar os 9 anos previstos para o curso de piano, sendo que a média de anos nos quais essas alunas que evadiram permaneceram na instituição é de 2,4 anos. Tomando essa estimativa com base no

97 Exames de teoria, solfejo e piano abertos ao público. Os procedimentos, os conteúdos e os

instrumentos de avaliação não puderam ser identificados a partir da documentação consultada.

98 Recitais nos quais as alunas se apresentavam com seu instrumento de estudo. Cada peça e cada aluna

número de alunas que se apresentou em audições e exames públicos, é possível perceber que a evasão representava um problema para a instituição à época. Se esse índice é encontrado entre as alunas que mais se destacavam (alunas cuja participação nas audições era permitida pelo professor), de que forma essa questão atingia as que menos se destacavam? Os dados disponíveis não permitem responder essa questão, mas esse tipo de estimativa permite ter uma ideia de como, apesar do explícito apoio político, do contexto histórico de valorização do piano, do esforço humano empregado para a concretização do projeto, a consolidação do IMBA dependia sobretudo de sua capacidade de contemplar questões pessoais de cada uma das alunas para mantê-las na instituição. Questões como dificuldade para custear os estudos, problemas de convivência entre alunas ou entre aluna e professora, incompatibilidade com o tipo de ensino ou o tipo de repertório ofertado, entre outras questões internas à instituição, podem ter contribuído para os altos níveis de evasão, mas, para compreender essa dimensão da consolidação do IMBA outras documentações precisariam ser consultadas. O que parece importante pontuar é que, entre todas as questões observadas visando consolidar o IMBA como instituição, a evasão (gerada por insatisfação das alunas e sua família, dificuldades de manutenção no curso ou mesmo proibição do marido após o casamento, como será visto no capítulo seis) representou uma importante força contrária que demonstrou a dificuldade das alunas bageenses em se adaptar à instituição e ao percurso discente na instituição planejado antes mesmo das primeiras matrículas.