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3. EDUCAÇÃO PÚBLICA, MÚSICA E POLÍTICA NA PRIMEIRA

3.3 Educação e sociedade na Bagé da Primeira República

3.3.3 O Dever como porta-voz da agenda castilhista em Bagé

A segunda razão pela qual se faz importante tomar em consideração o castilhismo como filosofia política hegemônica ao analisar o ensino público de música em Bagé na Primeira República é que, neste trabalho, a principal fonte histórica é o jornal O Dever, que, como já visto no capítulo dois, deixou evidente sua filiação ao PRR durante todo o período no qual se manteve em circulação. Em um período de grande polarização política e sendo o PRR um partido afeito a cultuar seus líderes proclamando sua superioridade moral, é de se esperar que as páginas d’O Dever não seja vista pelos correligionários do PRR como um espaço de autocrítica. No período pesquisado, as avaliações que O Dever fez dos governantes filiados ao partido e de suas ações como governantes são sempre positivas e dignas de celebração. Sendo tanto o CMMB quanto o IMBA fruto da iniciativa de governantes do PRR, ambas as instituições carregaram a marca de iniciativa do partido e foram elogiadas e celebradas, cada uma a seu modo.

O Dever representa a voz do PRR na cidade de Bagé que, por sua vez, é um importante núcleo do Partido Federalista que lhe faz oposição. O movimento federalista no Rio Grande do Sul

descendeu, sobretudo, do Partido Liberal (PL), dominante no estado gaúcho nas últimas décadas do Império. Uma vez proclamada a República, em 1889, grande parte dos antigos liberais, sob a liderança inconteste de Gaspar Silveira Martins, passaria à oposição,

dando origem, em 1892, no congresso realizado na cidade de Bagé- RS, àquele que seria o principal grupo político de oposição ao sistema castilhista: o Partido Federalista (1892-1928) (ROUSTON JR., 2015, p. 665)

Em síntese, o PRR, que foi o único partido no governo municipal durante toda a Primeira República, governará Bagé em forte sintonia com o governo estadual (também do PRR por praticamente todo o período da Primeira República) que implementava uma política autoritária onde a oposição política era fortemente combatida. O Partido Federalista, que lhe fazia oposição, no entanto, tinha sua base na Campanha gaúcha com particular apoio dos grandes proprietários de terra, apesar de disputar as eleições, era mantido de fora da administração municipal em parte pelos mecanismos fraudatórios característico das eleições brasileiras no período. É possível imaginar a tensão em uma cidade duplamente governada. Se de um lado, a maior parte dos barões do charque e dos grandes proprietários de terra bageenses exerciam larga e tradicional influência política, cultural e econômica na cidade e demandavam do governo estadual um tratamento especial em relação a seus negócios (em reconhecimento à sua importância na economia estadual), de outro lado os governos estadual e municipal estavam completamente dominados pelo PRR (apoiado pela Igreja Católica) cuja concepção de progresso a que perseguiam envolvia concepções modernizantes de industrialização e "eliminação das condições que vigoraram até quase o final do século XIX, marcadas pelo domínio da oligarquia rural tradicional"57 (CORSETI, 2007, p. 288).

Nesse sentido, a distância física entre a capital do estado (Porto Alegre) e a região da Campanha gaúcha cumpriu um importante papel nas diferenças políticas de cada partido visto que as características econômicas de cada região impunham suas próprias demandas. Na mudança de regime político que implementou a República, Porto Alegre mais urbanizada e industrializada e menos dependente do dinheiro oriundo da tradicional pecuária da região da Campanha, acabou por se mostrar o espaço propício para "virar a mesa" no estado. Através dos regimes castilhistas, cooptou a Serra gaúcha58 para o projeto castilhista e submeteu os estancieiros da

57 Esse contexto ajuda a compreender o tom audacioso d'O Dever ao estampar diariamente em Bagé,

terra comandada pelos grandes proprietários de terra, sua apresentação como "Orgam do Partido Republicano e dos interesses do commercio e industria do estado" sem fazer qualquer menção à pecuária e à agricultura que constituíam (e seguem constituindo até hoje) marca identitária da região.

58 Vale notar que, para cooptar a Serra, região de grande concentração de imigrantes italianos, o apoio

Campanha gaúcha a um regime político que, além de ser desfavorável a seus interesses, era mantido em grande parte pelo seu próprio dinheiro pago em forma de impostos para os dirigentes do PRR.

Figura 8 - Regiões do Rio Grande do Sul na Primeira República

Fonte: FONSECA, 1983 apud AREND; CARIO, 2010.

O conflito entre o Partido Republicano e o Partido Federalista no Rio Grande do Sul pode ser explicado, portanto, em termos de diferenças econômicas (os modernos modelos produtivos mais indústria e comércio versus a tradicional pecuária extensiva), regionais (a capital Porto Alegre mais a região litorânea e a Serra versus a região da Campanha), epistemológicas (liberais versus positivistas/castilhistas) e identitárias (novos grupos sociais versus oligarquias tradicionais). Estes estão entre os fatores que determinaram a cisão dentro do estado e dentro de um mesmo movimento republicano gestado pelo antigo Partido Liberal do Rio Grande do Sul. Essa disputa

entre o PRR e o Partido Federalista pela hegemonia política do estado é o cenário que precisa ser levado em consideração para se ler a posicionalidade d'O Dever como fonte histórica.

Em síntese, o contexto social no qual ocorre a criação e consolidação dos conservatórios aqui tomados como objeto de pesquisa é marcado por uma defesa da educação enquanto princípio republicano materializada pela emergência dos grupos escolares, pela valorização da instrução “metódica” e pelo crescente reconhecimento da importância de saberes específicos à docência que extrapolam o “saber fazer” ou a “boa conduta moral”. É nesse contexto em que a questão educacional vai ganhando independência e que a educação escolar vai deixando de se limitar à missão moralizante e catequizadora das escolas religiosas e rurais, que os conservatórios ganham maior projeção oferecendo um ensino de caráter laico que reforça o caráter independente dos saberes musicais e desloca a formação musical, antes limitada ao espaço de trabalho, para a sala de aula, tal como nas instituições escolares. Ambos, escolas e conservatórios, atendem a uma parcela muito reduzida da população em um período em que a ideia de que escolas e conservatórios não é para todos parecia muito bem aceita. No Rio Grande do Sul, particularmente, onde o positivismo castilhista ocupa uma posição hegemônica, os ideais de culto a um líder que exerce uma tutela sobre os governados (porque tido como “moralmente superior” e “desinteressado”) e de oposição ao princípio liberal da “soberania da maioria” contribuem para sustentar simbolicamente a premissa de que a educação não era um direito universal.

Dado esse contexto nacional e regional, os dois próximos capítulos analisam o cenário local e as duas instituições de ensino de música que são o foco do presente estudo: o Conservatório Municipal de Música de Bagé (CMMB), fundado em 1904, e o Instituto de Municipal de Belas Artes (IMBA), fundado em 1921. Buscando garantir uma “descrição altamente contextual de pessoas e eventos”, característica das pesquisas qualitativas (BRESSLER; STAKE, 2006), foi dedicado um capítulo inteiro para apresentar cada uma das instituições e analisar com maior profundidade sua organização e funcionamento. Após esses dois capítulos, serão apresentados dois eixos de análise que se dedicam a compreender o período aqui estudado (1904-1927) como um todo, tomando cada uma das duas instituições enquanto diferentes momentos dos mesmos processos sócio-músico-pedagógicos que tiveram a cidade de Bagé como cenário.

4. CONSERVATÓRIO MUNICIPAL DE MÚSICA DE BAGÉ