3. EDUCAÇÃO PÚBLICA, MÚSICA E POLÍTICA NA PRIMEIRA
3.3 Educação e sociedade na Bagé da Primeira República
3.3.1 O contexto político-institucional em Bagé na Primeira República
A política gaúcha merece uma discussão própria nesse contexto do Brasil da Primeira República. Diferente do restante do país onde o pensamento liberal domina o pensamento das elites políticas, no Rio Grande do Sul, o que se observa é uma hegemonia de um pensamento positivista que, em solo gaúcho, ganha uma versão própria baseada também no pensamento de Augusto Comte, mas significativamente adaptada para os interesses de uma parcela das elites gaúchas. Essa corrente positivista é chamada de castilhismo em homenagem à sua principal liderança: Júlio de Castilhos (1860 - 1903). Para compreender esse contexto, é preciso conectar alguns aspectos econômicos e políticos que contribuem para compreender a expansão dos conservatórios no estado.
A economia bageense do século XIX e início do século XX, assim como praticamente toda a economia da região da campanha gaúcha54, é marcada pela pecuária e pela indústria saladeiril, levadas a cabo, principalmente, por grandes
54 Dá-se o nome de Campanha gaúcha à região situada no sudoeste do Rio Grande do Sul. Também é
proprietários de terra, também chamados de estancieiros55. É a indústria saladeiril gaúcha a maior responsável pela oferta de charque, couro e outros produtos de origem animal para o mercado nacional e parte do mercado internacional durante todo o período imperial e parte da República. Em uma economia como a brasileira entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, predominantemente voltada para a exportação de artigos primários (café, açúcar, cacau, borracha, entre outros) para grandes mercados internacionais, a produção de charque na região da campanha gaúcha era, em geral, voltada ao mercado interno, particularmente dirigido à alimentação dos mais pobres e dos negros escravizados no período anterior à abolição da escravatura (VARGAS, 2014). A crescente industrialização nos Estados Unidos e em alguns países da Europa na segunda metade do século XIX fez crescer a demanda por produtos como couro, chifres, sebo, graxa, cabelos e garras, demanda, essa, que contribuiu para a expansão da atuação dos estancieiros da região da campanha no mercado internacional (VARGAS, 2014).
A industrialização, o rápido amadurecimento de um "mercado global", e a expansão da malha ferroviária (responsável por escoar a produção para o porto de Rio Grande, de onde eram enviados os produtos para o exterior) foram fatores que contribuíram fortemente para as fortunas acumuladas por esses estancieiros e pela drástica mudança na demografia gaúcha. O mercado gaúcho do charque cuja origem remonta ao fim do século XVII, é o grande responsável por essa mudança. Em cerca de 8 anos (entre 1814 e 1822) a população gaúcha cresceu cerca de 50%, concentrando-se principalmente entre Rio Grande (na região litorânea, onde se localiza o porto desde 1850) e Pelotas (pouco mais de 50 km de Rio Grande com acesso fluvial pela Lagoa dos Patos) (FONSECA, 1985). Esse rápido crescimento demográfico voltado a suprir a demanda por mão de obra associado à expansão do mercado de produtos de origem animal e a característica econômica da região baseada em grandes propriedades de terra concentrada nas mãos de poucos potencializou o crescimento da riqueza e uma forte concentração da mesma, principalmente na segunda metade do século XIX. Vargas (2014), em pesquisa com inventários post- mortem dos charqueadores da cidade de Pelotas, aponta que, dentro da própria elite econômica da cidade, entre 1810 e 1836 os mais ricos tinham um patrimônio 11 vezes
55 O termo estancieiro, vem da palavra estância que significa propriedade rural destinada
principalmente à criação de gado bovino. O charque é produto do salgamento da carne (daí o nome indústria saladeiril).
superior aos menos ricos. Já entre 1871 e 1885 a diferença média é de um patrimônio 59 vezes maior que o patrimônio dos menos ricos. Se essa era a distância entre ricos, é possível imaginar o quão distantes estes super ricos estavam da renda dos mais pobres, o que representa uma enorme acumulação de capital e justifica a expressão "barões do charque" para designar essa classe de super ricos dentro da região. A participação de Bagé nesse mercado do charque foi crescendo desde sua fundação ao ponto de o censo agrário de 1859 identificar que a cidade possuía o segundo maior rebanho de gado da província de São Pedro, atual estado do Rio Grande do Sul (FLORES, 2007).
A cidade de Bagé possuía à época perfis econômicos e sociais muito semelhantes aos de Pelotas, o que possibilitou o surgimento de seus próprios barões do charque, tal como em praticamente toda a região da Campanha gaúcha. Esses grandes proprietários de terra com enormes fortunas exerciam forte influência política na cidade e na região e eram identificados também pelo nome de caudilhos, termo que, frequentemente, é explicado em analogia com os coronéis em outras regiões do país. O capital econômico e político desses caudilhos lhes dava uma enorme influência no contexto local, no entanto, no contexto regional e nacional, sua influência estava sujeita a outros fatores próprios dos conflitos de interesse entre elites econômicas de diferentes regiões do país. Os caudilhos da campanha gaúcha não deixaram de explorar o potencial da política institucional para favorecer seus próprios negócios bem como seu status social e poder econômico, como ilustra Vargas (2016).
No Brasil Império, as portas da elite política abriam-se mais facilmente aos portadores de um diploma de bacharel, o que torna a correlação entre elite bacharelesca e elite política nítida. Os ricos charqueadores possuíam maior capacidade de manter um filho estudando nas Academias imperiais e os resultados acabavam sendo convertidos num maior acesso a cargos na burocracia ou na política e em bons casamentos. O acesso à alta política geralmente rendia bons frutos à família e aos aliados do indivíduo consagrado. O auge da elite charqueadora em termos de poder político nacional ocorreu quando Francisco Antunes Maciel, membro de uma das principais famílias charqueadoras, tornou-se ministro do Império do Gabinete Liberal de 1883. Tratava-se de uma pasta extremamente poderosa e que fornecia ao seu portador, por exemplo, o direito de intervir na nomeação dos Executivos provinciais. Na época, Maciel não apenas nomeou o seu parente Barão de Sobral para a presidência do Rio Grande do Sul, como parece ter influído para que sua família recebesse mais 3 títulos de nobreza. Logo que ocupou a pasta, o seu primo Francisco Antunes Gomes da Costa recebeu o título de Barão do Arroio Grande (1884), o seu irmão Leopoldo Antunes Maciel
tornou-se o 2º Barão de São Luís (1884) e outro parente, Aníbal Antunes Maciel, foi titulado Barão de Três Serros (1884) (VARGAS, 2016, p. 185-186).
A relação dos caudilhos da campanha com outras elites nacionais, no entanto, nem sempre favoreceu os gaúchos. A Guerra dos Farrapos (1835 - 1845) ocorre como efeito da forte insatisfação entre as elites agrárias da região da campanha da Província de São Pedro, atual estado do Rio Grande do Sul, com as políticas imperiais de taxação dos principais produtos comercializados pela região56. Com o fim da guerra e a derrota dos estancieiros gaúchos, "produzir-se-á no seio político da Província Rio- Grandense, duas forças políticas antagônicas e divergentes que irão disputar o cenário político durante todo o Segundo Reinado no Brasil" (BICA, 2013, p. 65). A derrota na guerra contra o Império brasileiro fortalece na região da campanha a defesa do fim da monarquia (fortalecendo o republicanismo) e de maior autonomia financeira e administrativa aos estados (em relação ao império) para legislar conforme suas particularidades regionais de forma independente do poder central (liberalismo/federalismo). É esse o contexto que faz de Bagé uma cidade onde a corrente liberal se mostrou muito forte no estado do Rio Grande do Sul. Não por acaso, Bagé sediará a fundação do Partido Federalista em 1892, sobre o qual falaremos adiante. Essa cisão dentro das elites brasileiras se refletirá também nos conflitos internos seguintes, a Revolução Federalista e o tenentismo.
A cisão, no entanto, não foi observada apenas entre os caudilhos e as elites externas ao estado, mas também entre as elites dentro do próprio estado do Rio Grande do Sul. Essa cisão dentro do próprio estado também remete à Guerra do Farrapos (1835-1845), pois não foram todos os grupos gaúchos que defenderam as bandeiras farroupilhas e a maior parte da elite de Porto Alegre ficou ao lado do Império no conflito. Com a chegada dos imigrantes europeus ocupando em massa a região da Serra gaúcha e implantando uma economia baseada em pequenas
56 Os tributos impostos pelo império brasileiro desfavoreciam a tal ponto os estancieiros gaúchos que o
charque uruguaio e argentino acabava por se tornar mais barato que o brasileiro. Os estancieiros reivindicavam tributação igual ao charque argentino e uruguaio, mas os interesses dos grandes proprietários de terra das outras regiões do país (com sua alta demanda por charque para alimentar seus escravos) era o de manter os preços como estavam. No conflito de forças, o Império não atendeu às demandas dos estancieiros gaúchos e os gaúchos da Campanha tentaram declarar independência fundando a República Rio-Grandense em 1836, o que não foi aceito pelo imperador. O impasse deu origem à guerra que foi vencida pelas forças imperiais dando um fim à proclamada República Rio- Grandense após dez anos de vigência e reunificando-a sob o domínio da coroa imperial brasileira. Mesmo tendo perdido a guerra, a chamada Revolução Farroupilha ocupa uma posição central em certa mitologia tradicionalista gaúcha acerca de sua identidade.
propriedades de terra (o oposto da região da Campanha), o jogo de forças dentro do estado ganhou novas configurações e um modelo econômico oposto à tradicional pecuária e monocultura cultivadas em grandes propriedades de terra ganha força. Como aponta Alfredo Bosi,
O Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina, ressalvadas as diferenças de escala, eram formações sócio-econômicas similares. Nas três, a economia pecuária e exportadora, firmemente implantada ao longo do século XIX, teve de enfrentar, desde os fins deste, a alternativa menor, mas dinâmica, da policultura voltada para o mercado interno e das novas atividades urbanas de indústria e serviços. Agricultores operosos, carentes de crédito oficial, industriais de pequeno e médio porte estabelecidos nas cidades maiores e uma crescente classe de assalariados vindos com as grandes migrações européias passaram a constituir pólos de necessidades e projetos não raro opostos aos dos velhos estancieiros e ganaderos (BOSI, 1992, p. 281).
Esse conflito entre grandes proprietários de terra e novos grupos sociais que buscavam uma maior modernização dos modos de produção, além de uma economia baseada na pequena propriedade (agricultura familiar) reforça as fronteiras políticas no estado e o projeto republicano se divide entre os liberais e os positivistas/castilhistas. A Proclamação da República (1889) mexe com o equilíbrio de forças políticas o que acaba por trazer Júlio de Castilhos à presidência do Rio Grande do Sul em 1891. Deste ano até 1930, quando Getúlio Vargas deixa a presidência do estado do rio Grande do Sul para assumir a presidência da República, o que se vê é a completa hegemonia do Partido Republicano Rio-Grandense. Assim, durante praticamente todo o período aqui pesquisado, o PRR é o partido que "dá as cartas" no estado em uma espécie de ditadura republicana (RODRÍGUEZ, 2000). Essa hegemonia é construída e sustentada por um trato muito duro com a oposição política e pelas eleições fraudulentas que também marcam praticamente a totalidade dos estados brasileiros. Para se ter uma ideia, Castilhos escreveu sozinho a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul, que entrou em vigência em 1891 e seguiu em vigência até 1930. O governo de Castilhos representa um período no qual o caráter marcadamente autoritário de sua gestão é sustentado por um modo particular de se conceber o bem público e o papel do poder público.
Para os pensadores liberais, o bem público resultava da conciliação dos interesses individuais que se concretizavam no Parlamento,
como organismo representativo dos mencionados interesses. Para Castilhos, o bem público só poderia encontrar-se onde se achasse a essência mesma da sociedade ideal, que ele entendia [...] em termos de “reinado da virtude”. O bem público confunde-se, para o castilhismo, com a imposição, por parte do governante esclarecido, dum governo moralizante, que fortaleça o Estado em detrimento dos egoístas interesses individuais e que zele pela educação cívica dos cidadãos, origem de toda moral social [...] A novidade em Castilhos consiste na suposição de que há um ponto de vista privilegiado, aquele que se baseia numa ciência social que afirma ter descoberto o curso da humanidade, a sua marcha ascensorial (inelutável, determinada) no sentido da positividade (sociedade não maculada pelo “interesse” porquanto eqüivale à própria instauração da moralidade). A crença na situação privilegiada de seu ponto de vista é que explica o caráter missionário (sacerdotal) de que se revestiu o exercício do seu governo e dos castilhistas. (RODRÍGUEZ, 2000, p. 24)