10. Dispensa de medicamentos
10.6. Dispensa e aconselhamento de outros produtos de saúde
O aconselhamento, em farmácia de oficina, não se restringe aos medicamentos, existe uma enorme variedade de produtos de saúde cuja dispensa deverá ser igualmente acompanhada do devido aconselhamento, assegurando o uso correto dos mesmos. O farmacêutico deverá estar apto a prestar todas as informações necessárias e sentir-se confortável para responder às questões colocadas pelos utentes.
10.6.1.Produtos cosméticos e de higiene
Os produtos cosméticosf, embora não necessitem da obtenção de autorização administrativa
prévia para a sua colocação no mercado, são também regulados e supervisionados pelo INFARMED, por forma a assegurar o cumprimento das exigências legais que recaem sobre os mesmos, garantindo a salvaguarda da saúde pública59.
Deste modo, estes produtos também se encontram sob o olhar atento do INFARMED, devendo esta entidade reportar às farmácias todas as irregularidades detetadas. O Instituto Nacional de Emergência Médica, I.P. também assume um relevo particular, através do Centro de Informação Antivenenos60.
Na FP, devido à grande maioria dos utentes pertencer à população idosa, os produtos dermocosméticos não são efetivamente os mais procurados. Todavia, a farmácia dispõe de uma variedade de produtos deste tipo, passíveis de aconselhamento, especificamente: cremes e produtos de limpeza para o rosto (produtos antienvelhecimento, anti manchas, pele sensível ou intolerante); desodorizantes; cremes de mão, corpo e pés, bem como protetores solares. Entre estes produtos, prevalecem os da marca La Roche-Posay®, contudo existem também
produtos da marca Avène®, A-Derma®, Vichy® e Uriage®.
Por sua vez, no que diz respeito aos produtos de higiene oral, predominam os produtos da marca Elgydium®, nomeadamente, pastas, escovas, colutórios, elixires e produtos de fixação dentária.
O aconselhamento farmacêutico pode constituir um importante contributo para uma boa saúde oral. O uso de uma pasta dentífrica branqueadora (com bicarbonato de sódio) de manhã e de uma pasta fluorada à noite permite obter melhores resultados na medida em que promove a permanência de fluor, durante mais tempo, na boca. A escova também deverá ser apropriada tendo em conta a predisposição dos dentes e gengivas do utente. Os colutórios são também muito procurados na FP, devendo, igualmente, ser acompanhados do respetivo aconselhamento. Os colutórios com clorohexidina (normalmente de cor vermelha) devem ser usados pontualmente uma vez que destroem a flora natural da boca e quando usados continuamente podem escurecer os dentes; por sua vez, os colutórios fluorados podem ser usados diariamente, contribuindo para a limpeza e boa higiene após a lavagem dos dentes. Os
f “qualquer substância ou mistura destinada a ser posta em contato com as diversas partes superficiais do corpo humano, designadamente epiderme, sistemas piloso e capilar, unhas, lábios e órgãos genitais externos, ou com os dentes e as mucosas bucais, com a finalidade de, exclusiva ou principalmente, os limpar, perfumar, modificar o seu aspeto, proteger, manter em bom estado ou de corrigir os odores
colutórios mais procurados são o Eludril Perio® e o Eludril Pro®, seguindo-se os da marca Hextril®
e Tantum®.
No que diz respeito aos produtos capilares, a FP dispõe de champôs e de uma série de produtos para tratamentos específicos, concretamente para a alopécia, caspa seca/seborreica e pediculose. Entre estes produtos destacam-se os da marca Vichy®, Nizoral®, Tedol®, Selenix®,
Z.P. Dermil®, Piky® e Nix®.
10.6.2. Produtos de alimentação especial
Os géneros alimentícios destinados a uma alimentação especial correspondem a produtos com composição característica ou submetidos a processos especiais de fabrico. Diferenciam-se visivelmente dos alimentos de consumo corrente e encontram-se adequados a um determinado objetivo nutricional61.
Estes produtos pretendem satisfazer as necessidades nutricionais especiais de determinadas grupos de indivíduos, especificamente:
a) Pessoas cujo processo de assimilação ou cujo metabolismo se encontra alterado Nesta categoria, incluem-se os alimentos adaptados a pessoas com intolerância ao glúten, adaptados a pessoas diabéticas, e ainda os alimentos dietéticos destinados a fins medicinais específicos.
Este último conjunto de produtos corresponde a géneros alimentícios sujeitos a um processamento e formulação especial e estão reservados à alimentação exclusiva ou parcial de indivíduos com capacidade alterada para ingerir, digerir, absorver, metabolizar ou excretar géneros alimentícios correntes ou alguns nutrientes neles contidos ou cujo estado de saúde determina necessidades nutricionais específicas. A composição destes produtos tem como base princípios médicos e nutricionais sólidos, cumprindo critérios de composição particulares62, 63.
b) Pessoas que se encontram em condições fisiológicas especiais e que podem retirar benefícios de uma ingestão controlada das substâncias presentes nos alimentos Correspondem a géneros alimentícios com fins nutricionais específicos, nomeadamente os alimentos com reduzido valor energético, utilizados em dietas de restrição calórica para redução/controlo do peso ou os alimentos adaptados a esforços musculares intensos.
Também estes produtos obedecem a critérios específicos no que diz respeito à sua constituição em proteínas, lípidos, fibras dietéticas, vitaminas e minerais. Apresentam como denominação de venda na respetiva rotulagem: “substituto integral da dieta para controlo do peso” ou “substituto de refeição para controlo de peso”, tendo em conta se pretendem substituir toda a dieta diária ou apenas algumas refeições63, 64.
c) Lactentes e crianças
Correspondem aos produtos alimentares infantis destinados a lactentes (até aos 12 meses) ou crianças de pouca idade (12 a 36 meses) em bom estado de saúde61.
Tal como referido anteriormente (ponto 10.4.3.), alguns destes produtos, nomeadamente os descritos na alínea “a)” são alvo de uma comparticipação de 100%, todavia durante o meu
período de estágio não tive a oportunidade de presenciar a dispensa de nenhum destes produtos.
Na FP, podem ser encontradas algumas gamas destinadas a carências nutricionais, como é o caso da gama Fresubin® e Fortimel®.
10.6.3. Produtos alimentares infantis
São vários os géneros alimentícios que compreendem a alimentação infantil e que se encontram diretamente relacionados e adaptados à idade da criança.
Existem disponíveis, no mercado, leites e fórmulas, com indicações nutricionais específicas:
para lactentes – destinados à alimentação durante os primeiros meses de vida, satisfazendo as suas necessidades nutricionais até à introdução de alimentação complementar adequada65;
de transição – destinados a lactentes, uma vez introduzida uma alimentação complementar adequada (entre os 4 e 6 meses de idade), constituindo o componente líquido principal de uma dieta progressivamente diversificada65;
para fins medicinais específicos, nomeadamente, leites hipoalergénicos extensamente hidrolisados, sem lactose ou antidiarreicos, anti-regurgitação, para prematuros ou recém-nascidos de baixo peso, dietas elementares e semi-elementares e fórmulas de soja.
Por sua vez, existem também indicações particulares para os leites/fórmulas para lactentes e de transição, designadamente, leites hipoalergénicos, anti-obstipantes, anti-cólicas, saciedade e para desconforto digestivo.
Ainda que estas fórmulas e leites tenham como referência o leite materno e que, em algumas circunstâncias, são efetivamente indispensáveis66, o aleitamento materno deve ser sempre
encorajado. O farmacêutico tem a obrigação de informar às futuras mães os benefícios do aleitamento materno, tanto para a mãe como para o lactente, e aconselhar a sua prática, particularmente às mais indecisas67.
Durante os primeiros 6 meses de vida, o aleitamento materno exclusivo é a melhor forma de alimentar o lactente, todavia, a partir desta idade, para a suprimento adequado das necessidades alimentares do lactente, torna-se necessário a introdução de alimentos sólidos e líquidos complementares e de textura tendencialmente menos homogénea68. Estes géneros
alimentícios poderão igualmente ser adquiridos na farmácia, como por exemplo, as farinhas lácteas ou não lácteas, com glúten ou sem glúten, os boiões de legumes, fruta e carne. Na FP, são muito poucos os produtos presentes na área de puericultura, o que se deve precisamente à escassez de procura associada ao envelhecimento crescente da população da vila. Por norma, os produtos alimentares infantis apenas são adquiridos pela FP, após a solicitação do produto por parte de um dos seus utentes. Contudo, tal como está supramencionado, tomei conhecimento das diversas gamas de produtos existentes e as suas respetivas indicações.
10.6.4. Suplementos alimentares e fitoterapia
Definem-se como suplementos alimentares, os géneros alimentícios que servem de complemento a um regime alimentar variado e que integram uma fonte concentrada de vitaminas, minerais e seus derivados, aminoácidos, ácidos gordos essenciais, entre outros componentes. Estes produtos, com efeito nutricional ou fisiológico, são comercializadas sob forma doseada, nomeadamente em cápsulas, comprimidos, saquetas de pó, ampolas e frascos com conta-gotas, e, na sua rotulagem, apresentam obrigatoriamente a menção “suplemento
alimentar”69.
Na FP, os suplementos alimentares mais requisitados são os multivitamínicos, como é o caso do Vitaminex®, Centrum®, Magnésio OK®, Ceregumil® e ampolas energéticas - Bioritmo®, Panvitol®,
Bêlisina®, Tonicê® e Forticol®.
Relativamente à dispensa destes produtos é relevante questionar o utente quanto ao seu quadro clínico e farmacoterapêutico, de modo a evitar possíveis interações ou efeitos aditivos desnecessários. É importante também salientar ao utente a dose diária recomendada e elucidar que estes produtos visam apenas complementar uma alimentação variada e saudável, nunca devendo ser tomado como substituto da mesma69.
Relativamente aos produtos fitoterapêuticos disponíveis na FP, destacam-se os Chás Moreno® e
os Arkocápsulas®.
A crença da inocuidade destes produtos é do entendimento do senso comum, sobretudo da população mais idosa. É, por isso, relevante que o farmacêutico seja conhecedor das potenciais interações medicamentosas, efeitos adversos e contraindicações destes produtos. É crucial que o farmacêutico esclareça aos seus utentes que estes produtos, embora de origem natural, não são desprovidos de efeitos adversos e, por isso, o seu uso deve ser feito com prudência, evitando o consumo desmedido.
10.6.5. Dispositivos Médicos
Considerando a vulnerabilidade do corpo humano, bem como os potenciais riscos decursivos da sua conceção técnica e fabrico, os DMg podem ser agrupados em quatro categorias. Esta
classificação tem como base os pressupostos descritos no anexo IX ao Decreto-lei nº145/2009, de 17 de junho, que definem as regras de classificação de acordo com a sua duração (temporário, curto ou a longo prazo); se é invasivo ou não invasivo (dos orifícios do corpo ou do tipo cirúrgico); implantável; instrumento cirúrgico reutilizável; DM ativo; DM ativo de
g “qualquer instrumento, aparelho, equipamento, software, materialou artigo utilizado isoladamente ouem combinação (…) cujo principal efeito pretendido no corpo humano não seja alcançado por meios farmacológicos, imunológicos ou metabólicos, embora a sua função possa ser apoiada por esses meios, destinado pelo fabricante a ser utilizado em seres humanos para fins de:
Diagnóstico, prevenção, controlo, tratamento ou atenuação de uma doença;
Diagnóstico, controlo, tratamento, atenuação ou compensação de uma lesão ou deficiência;
Estudo, substituição ou alteração da anatomia ou de um processo fisiológico
Controlo da conceção” 70. Decreto-Lei n.º 145/2009, de 17 de junho, Diário da República, 1.ª série, N.º 115 (2009). Disponível em: http://www.dre.pt/pdf1s/2009/06/11500/0370703765.pdf.
caráter terapêutico ou para diagnóstico; bem como as “regras complementares aplicáveis aos dispositivos ativos” e as “regras especiais”.
Atendendo a estes preceitos, é possível organizar os DM disponíveis em FC nas diferentes categorias, como seguidamente é apresentado:
DM de classe I - Meias de compressão; pulsos e joelheiras elásticas; fraldas; termómetros; seringas sem agulha; algodão hidrófilo; canadianas; pensos, para feridas superficiais, usados como barreira mecânica ou para absorção de exsudados; entre outros;
DM de classe IIa - Compressas de gazes e adesivos; agulhas de seringa; lancetas; medidores de tensão arterial;
DM de classe IIb - Canetas de insulina; preservativos masculinos; diafragmas;
DM de classe III - Pensos com medicamentos impregnados, preservativos com espermicidas, dispositivos intrauterinos que não libertam progestagénios, entre outros. Aquando da dispensa de DM é importante questionar o utente relativamente à sua utilização e proceder à explicação do uso dos mesmos perante casos de desconhecimento ou dúvidas. Por vezes, é essencial tomar conhecimento do historial clínico do utente. A título de exemplo, os pensos impregnados com ácido acetilsalicílico, utilizados para a remoção de calosidades dos pés, podem suscitar a ocorrência de complicações do pé diabético em utentes com diabetes mellitus.