Capítulo 2 – Referencial Teórico
2.2 Bilingüismo
2.2.5 Diversidade Cultural e Lingüística e Etnocentrismo
“o nosso futuro será comum ou não será” F. Mayor 63
A diversidade cultural e lingüística, hoje presente nas escolas, é representada pelos alunos que falam outras línguas, que não o português, e pertencem às mais variadas origens culturais. Eles são filhos de estrangeiros, que vieram ao Brasil por razões acadêmicas ou laborais, ou imigraram para cá em busca de melhores dias. Frente a esta realidade, o acolhimento destes alunos na escola coloca um desafio: o de integrá-los à escola, inserindo- os no processo de escolarização, para que lhes seja garantida as mesmas oportunidades de progresso escolar que têm a maioria dos alunos nativos.
Quando a escola reconhece a riqueza da diversidade, encarando-a positivamente como uma grande oportunidade de capitalizar novas aprendizagens, está consolidando o princípio da escola inclusiva, pois defende a idéia de que a diversidade deve ser aceita e respeitada, na cultura e na língua do outro.
63 Federico Mayor Zaragoza foi eleito diretor geral da UNESCO (Organização Educacional, Científica e Cultural
Não é essa a essência das atuais políticas públicas de educação que buscam incluir e garantir uma educação de qualidade para todos? (Freitas, 2006)
Considerando o direito à educação que, nas sociedades democráticas o Estado garante a qualquer cidadão, Gouveia e Solla (2004, p. 28) propõem que “se pretendemos que a democratização do ensino seja uma realidade, o sistema educativo tem de ser capaz de lidar com a heterogeneidade social, cultural e lingüística que caracteriza a comunidade escolar na nossa sociedade”.
A população escolar, na grande maioria dos países, do ponto de vista cultural e lingüístico, reúne alunos estrangeiros de diversas procedências. Esta confluência de culturas e línguas tem ocorrido em função dos efeitos da economia globalizada, que impulsiona o movimento das pessoas, diminuindo distâncias e aumentando o contato entre povos e seus diferentes modos de viver.
Segundo Mendes e Caels (2003, p.2) “recai sobre a escola a imensa responsabilidade de acolher, de modo inclusivo, a diversidade lingüística e preparar os cidadãos e a sociedade para a diversidade lingüística”.
Reconhecemos, portanto, que compete à escola valorizar a diversidade cultural e lingüística dos alunos estrangeiros, respeitando a diferença, a identidade étnica, o sistema de crenças e valores ao qual pertencem os alunos estrangeiros e, principalmente, assegurando o direito ao ensino da língua portuguesa a estes alunos, que lhes proporcionará, conforme enfatiza Barbulescu (2005, p.4), “[..] a capacidade de expressão e compreensão da língua portuguesa, como instrumento de plena integração [..]”.
Por outro lado, Mendes e Caels (op.Cit.) asseveram que:
O não acolhimento da diversidade cultural e lingüística pela escola parece contribuir significativamente, um pouco por todo o mundo, para a manutenção e reprodução de índices elevados de exclusão ou de desnivelamento social das populações minoritárias.
Há que se ressaltar que a escola ao não valorizar a diversidade de seus alunos estrangeiros, destacando-a, segundo elabora Bernardo (2006, p.4) “como elemento dinamizador e enriquecedor na interação entre pessoas e os grupos humanos” estará assumindo uma postura discriminatória, etnocêntrica e preconceituosa, numa oposição frontal à política de inclusão escolar que acolhe o multiculturalismo64 e rechaça atitudes racistas e os preconceitos étnicos.
64 O termo multiculturalismo refere-se ao reconhecimento da diversidade cultural que existe num dado grupo [..]
É necessário atentar que, frente à intolerância acima descrita os alunos estrangeiros, segundo Coelho (2003, p.8), “podem estar vivenciando gestos e sentimentos de desvalorização e marginalização” pela escola, professores e colegas de turma, o que altera o equilíbrio emocional e interfere na aprendizagem.
A essa descrição acrescenta-se o que confirmam Gouveia e Solla (2004, p. 19) como se sentem os alunos estrangeiros em conseqüência da omissão da escola em reconhecer a diversidade ali presente:
Os alunos tomam consciência da sua diferença, sentida mais como inferioridade do que como uma particularidade aceite e apreciada e constatam o seu afastamento em relação à língua e à cultura veiculadas pela escola.
No campo da educação, as políticas públicas, alinhadas sob o paradigma da escola inclusiva, ensejam o combate à exclusão, segregação, preconceito, e o etnocentrismo estabelecendo metas que buscam, conforme postula Coelho (op.Cit., p.9) “construir posturas de abertura ao diálogo com o diferente”, e promover valores de inclusão e oportunidades de aprendizagem para todos os alunos.
A possibilidade de incorporar a cultura do outro é algo impensável se, no ambiente escolar, prevalecer a idéia de que a diversidade cultural e lingüística suscita manifestações etnocêntricas e é instrumento de segregação. Esta atitude é capaz de transmudar o que era para ser um recurso educativo com potencial para renovação escolar, em elemento desagregador de valores, que provoca entre os alunos mais divisão e afastamento, do que proximidade e tolerância (Carneiro, 2008).
Propondo uma síntese sobre o etnocentrismo, Telles (1987, p. 75) assim o define:
O etnocentrismo denota a maneira pela qual um grupo, identificado por sua particularidade cultural, constrói uma imagem do universo que favorece a si mesmo. Compõe-se de uma valorização positiva do próprio grupo, e uma referência aos grupos exteriores marcada pela aplicação de normas do seu próprio grupo, ignorando,
portanto, a possibilidade de o outro ser diferente. [..]o preconceito acrítico em favor
do próprio grupo e uma visão distorcida e preconceituosa em relação aos demais.
É imperativo que se conteste na escola, na sala de aula, em outros círculos sociais a atitude etnocêntrica, pois, há que se ter em conta que a pessoa alvo desse ataque sente-se ridicularizada, e, por conseguinte sua auto-estima é abalada (Santos, 2008).
Não caberia neste estudo, que se limita a elencar as dificuldades encontradas pelos alunos estrangeiros que não dominam a língua de ensino, aprofundar-se em questões do domínio antropológico, entretanto vale citar o que elabora Coelho (2003, p.9) a respeito da importância de a escola estabelecer metas para valorizar a diversidade cultural e lingüística:
Num mundo marcado definitivamente por conflitos étnicos, religiosos e sociais que chegam, não raro, às guerras e até ao genocídio, é fundamental preparar as crianças e jovens para valorizarem o ser humano em suas particularidades, em suas riquezas culturais, questionando os preconceitos.
Neste sentido, caberia uma reflexão que nos ajudasse a decidir se nos interessa de fato ter uma escola que respeite a diversidade de seus alunos e os prepare para a vida em sociedade (Bernardo, 2006).
Em suma, espera-se que a escola assuma o compromisso de assegurar ao aluno estrangeiro o ensino da língua portuguesa, pois reconhecemos que é esse o instrumento insubstituível e eficaz, se além do acesso garantido, quisermos também oferecer a ele a possibilidade de alcançar o sucesso escolar e a integração social, que resultam da verdadeira aplicação da política da escola inclusiva.