[A LEANDRO BARBASSA].
Meu bom, velho e mais caro amigo,
1.– Por inoportuno que tenha sido, me ocorreu outro dia uma insólita ideia a respeito dos assuntos constitucionais.
Bem sabes que muito me perturba o tema da organização do Estado. Com maior afinco me inquieta, nessa epígrafe, as de-cisões supremas de Estado, das quais se não pode mais recorrer.
Preocupa-me, ao fim e ao cabo, saber, no dizer de Juvenal, quis custodiet ipsos custodes.
De nenhum modo consigo ser adepto da aristocracia ju-diciária, partidária do protagonismo dos juízes na República, pelo que lhes carece legitimidade para pôr ponto final aos assuntos po-líticos; não se me parece adequado, igualmente, que seja ao chefe executivo conferida a última palavra, pelo que é um só e facil-mente poderia pender à corrupção ou à tirania; nem, de igual ma-neira, me convence a ideia de que seja o parlamento um corpo político coeso e representativo o bastante para dar a decisão der-radeira nos inerentes conflitos de poder.
Bem sabes, no entanto, como o é inafastável na diária ad-ministração do Estado a premente necessidade desse caráter ter-minativo a uma decisão que se não revoga e se não cassa. É mister da segurança e garantias basilares dos cidadãos que se tenham as palavras definitivas e que se não anulam, para que conheçam, fi-nalmente, o Direito da Cidade.
Pois, se é preciso que haja num Estado de Direito um dizer fatal e inabalável, e se não é razoável confiar a nenhum Poder do Estado, isoladamente, tal inarredável competência, está posto di-ante de nós um aparente óbice à melhor organização do Estado pela Constituição.
Sucede que lendo as notas de Rui Barbosa sobre o parla-mentarismo em sua Teoria Política, adveio-me, pois, ao espírito um incomum parecer, ao que se afigura, do qual ainda se não fez uso em nenhuma democracia: por mera ilustração, chamo-o
“Conselho Maior da República”.
E se fosse confiada aos chefes de cada Poder do Estado a prerrogativa de um voto para que, reunidos em solenidade, se di-rimissem os conflitos de atribuições que entre eles há? E se fosse esse o Poder Moderador?
2.– É notório que os problemas políticos do Estado cada vez mais se resolvem judicialmente. Mas não é obscuro nem desco-nhecido que as decisões judiciais se revestem dessa mesma indu-mentária, para dizer e aplicar o Direito, fruto por natureza de de-liberações políticas. Ora, e não são os juízes supremos da Nação diretamente apontados pelo presidente e sabatinados pelos sena-dores? O mesmo não se dá com todos os 33 ministros da Corte pacificadora da jurisprudência? Acaso não são indicados um quinto dos desembargadores de cada Tribunal de Justiça da Fede-ração pelo dedo de um chefe político? Pois é natural que se veja entranhada no exercício da magistratura as relações eminente-mente políticas. Não é que sejam os juízes agentes políticos, mas, na esfera de sua atuação judicante, não se pode dizer, sem mentir,
que não é a política o fundamento de toda e qualquer decisão de sua lavra, nem que não sejam políticos os seus efeitos.
Digo tais coisas porquanto se poderia apontar algum es-cândalo em fazer figurar num Conselho entre chefes de poderes naturalmente políticos o chefe de um Poder judiciário. Pelo con-trário, há benefício em ter nesse Trio Soberano um dos votos fia-dos à sabedoria e ao profundo conhecimento do Direito, bem como apegado à imparcialidade; não elidindo daí a importância mesmo daqueles que se disporão em favor de seus individuais pendores.
Não há equívoco em dizer que num tal Conselho os chefes políticos estarão propensos à defesa de suas bandeiras; que terão por interesse a defesa de seus partidos, o que, sendo apenas eles os seus membros, o relegaria tão somente à conveniência política do instante. Pelo oposto, muito maior bem faria haver nele o voto de independência, apartado da mera ocasião e dos sabores mo-mentâneos da política de prazos feitos.
Cumpre ressalvar que esse bem não é aquele mesmo que se pode encontrar numa Suprema Corte. Isso porque todos os vo-tos de uma corte suprema são entregues juízes que, no pleno gozo de sua independência, poderão tomar uma decisão com lastro e efeitos políticos, sem que com isso se observe a opinião política dos cidadãos. Numa Suprema Corte, o dizer sem volta é confiado à inteligência dos homens mais próximos do Direito, porém os mais distantes dos jurisdicionados. No Conselho que me veio à mente, é tomada em conta a opinião do líder de cada um dos Po-deres, sendo um deles o Judiciário, pelo que compartilhar de uma deliberação política em nada afeta a sua dignidade.
Aos demais poderes creio que se não tentaria impor ne-nhum óbice moral à sua reunião e deliberação conjunta.
Abstratamente, sugeriria eu que fosse presidida a sessão pelo Presidente ao tempo da Corte Constitucional, todavia, é for-çoso indicar que tenham os votos todos o mesmo peso e valor. A mim me parece, salvo melhor juízo, que uma República com tal Conselho teria com muito maior legitimidade dirimidos os seus conflitos de Poder que aquelas que simplesmente os entregam ao arbítrio dos homens togados. Inclusive, muito mais claro aos olhos seria o vigia que vigia o vigia.
Com meus cumprimentos de estilo, peço desde logo o vosso caríssimo parecer, meu amigo e irmão. Sei que são podero-sos os fundamentos de vossas ponderações, pelo que às vezes têm o poder de me dissuadir. Na euforia da aparente originalidade, a mim me pareceu de algum valor essa lucubração.
Com entusiasmo,
Bruno Marques Rodrigues.
Campo Grande, MS, 25 de abril de 2019.