4 DOS EFEITOS DECORRENTES DO GOZO DO AUXÍLIO-ACIDENTE
4.3 DO GOZO DO AUXÍLIO-ACIDENTE E SEU CÔMPUTO COMO TEMPO DE
Nesta abordagem faz-se imprescindível identificar quais períodos são considerados como tempo de contribuição.
Tem-se que os períodos computados para fins de tempo de contribuição, em regra, correspondem às atividades de qualquer das categorias de segurados previstas no artigo 11 da Lei 8.213/91.
No entanto, há outros períodos que a lei determina sejam considerados para o mesmo fim, ainda que anteriores à perda da qualidade de segurado, consoante o disposto nos incisos do artigo 55 da Lei 8.213/91:
Art. 55. [...]:
I - o tempo de serviço militar, inclusive o voluntário, e o previsto no § 1º do art. 143 da Constituição Federal, ainda que anterior à filiação ao Regime Geral de Previdência Social, desde que não tenha sido contado para inatividade remunerada nas Forças Armadas ou aposentadoria no serviço público;
II - o tempo intercalado em que esteve em gozo de auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez;
III - o tempo de contribuição efetuado como segurado facultativo, desde que antes da vigência desta lei;
III - o tempo de contribuição efetuada como segurado facultativo;
IV - o tempo de serviço referente ao exercício de mandato eletivo federal, estadual ou municipal, desde que não tenha sido contado para a inatividade remunerada nas Forças Armadas ou aposentadoria no serviço público;
IV - o tempo de serviço referente ao exercício de mandato eletivo federal, estadual ou municipal, desde que não tenha sido contado para efeito de aposentadoria por outro regime de previdência social;
V - o tempo de contribuição efetuado por segurado depois de ter deixado de exercer atividade remunerada que o enquadrava no art. 11 desta Lei;
VI - o tempo de contribuição efetuado com base nos artigos 8º e 9º da Lei nº 8.162, de 8 de janeiro de 1991, pelo segurado definido no artigo 11, inciso I, alínea "g", desta Lei, sendo tais contribuições computadas para efeito de carência (BRASIL, 1991b, grifo nosso).
Cabe destacar que os períodos em que não há recolhimento de contribuições previdenciárias, tais como de suspensão de contrato de trabalho, de interrupção de exercício e de desligamento da atividade, são descontados, tendo em vista que não há recolhimento de contribuições previdenciárias, nos termos do artigo 59 do Decreto 3.048/99 (BRASIL, 1999).
Nesse viés, salienta-se que o tempo de contribuição é contado por dia (dia-a-dia), tendo o termo de início na data da filiação para o segurado obrigatório ou da inscrição para o segurado facultativo e desde que haja pagamento da contribuição. Por sua vez, o termo final acontece quando o segurado obrigatório deixa de auferir renda do trabalho e, para o facultativo, quando opta em deixar de fazer recolhimentos das contribuições previdenciárias (BRASIL, 1999).
Do dispositivo supramencionado, depreende-se que o gozo de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez apenas serão computados quando estiverem intercalados com períodos de contribuição. Nesse sentido, tem-se ainda o disposto no artigo 60 do Decreto 3.048/99:
Art. 60. Até que lei específica discipline a matéria, são contados como tempo de contribuição, entre outros:
[...]
III - o período em que o segurado esteve recebendo auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez, entre períodos de atividade;
[...]
IX - o período em que o segurado esteve recebendo benefício por incapacidade por acidente do trabalho, intercalado ou não. (BRASIL, 1999, grifo nosso).
Assim, citado dispositivo vem a acrescentar as disposições da Lei 8.213/91, ao informar que o benefício por incapacidade decorrente de acidente de trabalho dispensa a necessidade de contribuição intercalada para sua contagem como tempo de contribuição.
Denota-se, ainda, que os artigos acima citados não esclarecem acerca da possibilidade do cômputo do período em auxílio-acidente como tempo de contribuição quando o segurado esteja apenas fruindo o benefício em comento.
Isso porque, caso o beneficiário esteja percebendo o auxílio-acidente e retorne ao mercado de trabalho ou passe a contribuir como segurado facultativo, o fato de estar
realizando contribuição já faz com que o período seja computado como tempo de contribuição.
Assim, a controvérsia reside apenas no tocante à possibilidade de computar o tempo em que o segurado esteve recebendo auxílio-acidente quando o beneficiário estiver desempregado, a fim de somar referido período ao tempo de contribuição para a concessão de aposentadoria.
Quando o auxílio-acidente for concedido em virtude de acidente de trabalho, há entendimento no sentido de que se aplicaria o disposto no artigo 60, inciso IX, do Decreto 3.048/99, sendo o período em fruição dessa prestação contabilizado para fins de tempo de contribuição, uma vez que o auxílio-acidente estaria compreendido no conceito de benefício por incapacidade.
Nesse sentido tem-se o posicionamento da terceira turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região:
PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR IDADE. TRABALHADOR URBANO QUE RECEBEU AUXÍLIO SUPLEMENTAR, ATUAL AUXÍLIO- ACIDENTE. CÔMPUTO. TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO. ART. 60, IX, DA LEI Nº 3.048/99. POSSIBILIDADE. TERMO INICIAL. DATA DO REQUERIMENTO ADMINISTRATIVO. JUROS. HONORÁRIOS.
1. O artigo 48, da Lei 8.213/91, estabelece que a aposentadoria por idade é devida ao segurado que completar 65 anos de idade, se homem, e 60 anos, se mulher, desde que tenha cumprido a carência exigida. 2. O art. 60, IX, do Decreto nº 3.048/99, garante a contagem, como tempo de contribuição, do tempo em que o segurado esteve recebendo benefício por incapacidade (auxílio-doença ou auxílio- acidente), intercalado ou não, quando se tratar de acidente de trabalho. 3. Apelante que recolheu 60 (sessenta) contribuições e que computadas ao período em que recebeu auxílio suplementar acidente de trabalho -docs. de fls. 8, 10, 11 e 42-, tal soma é superior ao mínimo legal exigido. 4. Satisfeitas as exigências legais da idade e do recolhimento de 132 (cento e trinta e duas) contribuições. Direito ao benefício, a partir da data do requerimento administrativo. (...). Apelação provida (BRASIL, 2010a, grifo nosso).
Contudo, cumpre ressaltar que há entendimento no sentido de que o benefício por incapacidade decorrente de acidente de trabalho citado no artigo 60, inciso IX, do Decreto 3.048/99, refere-se apenas ao auxílio-doença e à aposentadoria por invalidez. Essa restrição encontraria justificativa no fato de que referidos benefícios são concedidos àqueles considerados realmente incapazes para o exercício da atividade laboral, e que, por consequência, estão impossibilitados de contribuir para a previdência social, o que não se verifica com os beneficiários de auxílio-acidente (BRASIL, 2010b).
Por sua vez, quando referida prestação não decorrer de acidente de trabalho, a lei impõe a necessidade de que o beneficiário intercale os períodos em fruição da prestação em
questão com contribuições à previdência social, a fim de que esse lapso temporal seja considerado como tempo de contribuição.
Nesse sentido, a súmula 73 da Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais expõe que:
O tempo de gozo de auxílio-doença ou de aposentadoria por invalidez não decorrentes de acidente de trabalho só pode ser computado como tempo de contribuição ou para fins de carência quando intercalado entre períodos nos quais houve recolhimento de contribuições para a previdência social. (BRASIL, 2013a, grifo nosso).
Logo, tem-se que a origem do acidente, do qual decorreu a sequela que gerou a incapacidade parcial, produz critérios distintos para que seu período de fruição seja computado como tempo de contribuição.
Analogicamente, deveria ser aplicada uma única norma para os beneficiários de auxílio-acidente, independentemente da natureza do acidente, ou seja, se decorrente de acidente de trabalho ou de acidente de qualquer natureza.
Assim, utilizam-se do argumento de que o beneficiário do auxílio-acidente, por possuir apenas incapacidade parcial, poderá retornar ao mercado de trabalho, efetuando contribuições para o Instituto Nacional do Seguro Social e, assim, contabilizando o tempo de contribuição faltante para a concessão do benefício pleiteado (BACHUR, 2010).
Contudo, há que se considerar que mencionada possibilidade também se aplica ao beneficiário de auxílio-acidente decorrente de acidente de trabalho, uma vez que sua incapacidade parcial possibilita o retorno à atividade laboral. Em ambas as situações os beneficiários estão em condições análogas.
Ademais, importante ressaltar que as sequelas decorrentes do acidente poderão dificultar a reinserção do segurado ao mercado de trabalho. Nessa abordagem, o vitimado em razão de acidente de trabalho tem assegurado pelo prazo mínimo de doze meses, após a cessação do auxílio-doença acidentário, a manutenção do seu contrato de trabalho na empresa, nos termos do artigo 118 da Lei 8.213/91.
Assim, soa no mínimo destoante a necessidade do beneficiário de auxílio-acidente decorrente de acidente de qualquer natureza necessitar intercalar mencionado período com contribuições, enquanto àquele em que a sequela ocorreu em razão de acidente de trabalho, o qual tem garantida sua estabilidade, não necessitar verter contribuições para a contabilização do período como tempo de contribuição.
Portanto, constata-se que o cômputo do período em auxílio-acidente poderá ser realizado para fins de tempo de contribuição de seu beneficiário, suscitando-se questionamento acerca da necessidade de referido lapso temporal ter que ser intercalado com contribuições quando a sequela decorrer de acidente de qualquer natureza.