3 AUXÍLIO-ACIDENTE
3.1.2 Requisitos concessórios do auxílio-acidente
Constituem requisito específico para a concessão do auxílio-acidente a verificação da existência de sequelas que reduzam a capacidade, de forma parcial e permanente, para o exercício da atividade laboral habitual e que a causa esteja relacionada com acidente de qualquer natureza. No dia do sinistro (acidente), deverão estar presentes os demais requisitos inerentes a essa espécie de prestação e àquela que a precede.
Depreende-se do exposto que, nos termos do artigo 86 da Lei 8.213/91, o benefício em análise é devido após a consolidação das lesões resultantes de acidente de qualquer natureza, das quais decorram sequelas que impliquem redução da capacidade para o trabalho que o segurado habitualmente exercia (BRASIL, 1991b). Logo, não são apenas as lesões derivadas de acidentes de trabalho que possibilitam o gozo do benefício, todas as sequelas que têm origem acidentária ou decorrente de doenças ocupacionais estão cobertas pela espécie.
Ressalta-se na redação original da Lei 8.213/91, isto é, anteriormente às alterações promovidas em razão da Lei 9.032/95 e da Lei 9.528/97, a prestação em comento somente era concedida na hipótese de ocorrência de acidente de trabalho. Atualmente tal benefício abrange o acidente de qualquer natureza, comportando, também, o acidente do trabalho.
Por isso, importante mencionar o conceito de acidente de qualquer natureza apresentado pelo artigo 30, parágrafo único, do Decreto 3.048/99:
Entende-se como acidente de qualquer natureza ou causa aquele de origem traumática e por exposição a agentes exógenos (físicos, químicos e biológicos), que acarrete lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, a perda, ou a redução permanente ou temporária da capacidade laborativa (BRASIL, 1999).
Assim, constata-se que o conceito supracitado é mais amplo do que o de acidente do trabalho constante nos artigos 19, 20 e 21, da Lei 8.213/91.
O acidente típico do trabalho só terá importância no ramo previdenciário quando se discute competência judicial (artigo 109, inciso I, da Constituição Federal) e o valor da
renda mensal inicial. Por sua vez, o acidente do trabalho também repercute na esfera trabalhista, eis que gera garantia da manutenção do contrato de trabalho por um ano após a cessação do auxílio-doença acidentário, nos termos do artigo 118, da Lei 8.213/91.
Logo, “confundindo o gênero (acidente de qualquer natureza) com duas de suas espécies (acidente não laboral e o laboral, nas suas três vertentes tradicionais)”, o supramencionado dispositivo legal “atribui título genérico para abranger todas as hipóteses infortunísticas e, aparentemente, acabou descrevendo o acidente típico com suas três variantes usuais, esquecendo-se do seu objetivo, que era distinguir o acidente de qualquer natureza do propriamente dito” (MARTINEZ, 2006, p. 22).
O Decreto 3.048/99, em seu artigo 104, aponta as situações em que o benefício será devido, quais sejam:
Art. 104. O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado empregado, exceto o doméstico, ao trabalhador avulso e ao segurado especial quando, após a consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultar sequela definitiva, conforme as situações discriminadas no anexo III, que implique:
I - redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exerciam;
II - redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exerciam e exija maior esforço para o desempenho da mesma atividade que exerciam à época do acidente; ou
III - impossibilidade de desempenho da atividade que exerciam à época do acidente, porém permita o desempenho de outra, após processo de reabilitação profissional, nos casos indicados pela perícia médica do Instituto Nacional do Seguro Social (BRASIL, 1999).
Denota-se que as hipóteses de concessão apresentadas exigem ou a redução ou a perda da capacidade para o trabalho habitual. Nesse sentido, faz-se necessário mencionar que referida perda ou redução pode ser analisada sob o aspecto quantitativo ou qualitativo.
No primeiro caso, consoante Kugler (2014, p. 216), o “trabalhador não consegue manter a mesma produtividade que tinha antes do acidente, em decorrência de uma sequela motora”. Por sua vez, na hipótese de redução qualitativa, “o trabalhador não consegue manter o mesmo padrão de atendimento aos clientes, em função de uma sequela mental-cognitiva”.
Complementando as situações elencadas no dispositivo legal supracitado, tem-se o anexo III, do Decreto 3.048/99, o qual apresenta, de forma exemplificativa, as sequelas que dão direito ao auxílio-acidente.
Importante esclarecer que a Comunicação do Acidente do Trabalho (CAT) é exigência legal quando a lesão decorrer de sinistro trabalhista, nos termos do artigo 22 da Lei 8.213/91:
Art. 22. A empresa deverá comunicar o acidente do trabalho à Previdência Social até o 1º (primeiro) dia útil seguinte ao da ocorrência e, em caso de morte, de imediato, à autoridade competente, sob pena de multa variável entre o limite mínimo e o limite máximo do salário-de-contribuição, sucessivamente aumentada nas reincidências, aplicada e cobrada pela Previdência Social (BRASIL, 1991b)
Entretanto, a não realização da referida comunicação não faz desaparecer o interesse previdenciário no acidente de trabalho (MARTINEZ, 2006, p. 75).
Frisa-se que após a superveniência da alta médica do auxílio-doença, seja comum ou acidentário, com ou sem Comunicação de Acidente do Trabalho, constatada a presença de lesões consolidadas relacionadas à perda da capacidade parcial e permanente da aptidão para o trabalho, impõe-se o auxílio-acidente (MARTINEZ, 2006, p. 75).
No tocante aos efeitos, o auxílio-acidente somente é devido quando o processo de tratamento para a recuperação da capacidade já se esgotou, ou seja, o segurado já pode retornar ao trabalho eis que não há incapacidade, entretanto, restaram sequelas que o limitam ao pleno exercício de seu labor ou, ainda, faz com que tenha que depreender mais esforços físicos do que anteriormente ao acidente.
Deste modo, o auxílio-acidente será concedido com o escopo de compensar a redução da capacidade laboral verificada.
Reconhecido e consolidado o quadro sequelar, deve o segurado comprovar que está incluído entre aqueles aos que a lei prevê o gozo dessa espécie de prestação, bem como possuir qualidade de segurado no dia do acidente.
Outrossim, a condição de desempregado não impede a concessão do referido benefício, desde que observados os prazos legais, eis que o segurado conserva todos os direitos durante o período de graça, nos termos do artigo 15, §3º, da Lei 8.213/91.
Cabe salientar que, antes da alteração promovida pelo Decreto 6.722/2008, o artigo 104, §7º, do Decreto 3.048/99, dispunha acerca do não cabimento do auxílio-acidente quando o segurado estivesse desempregado, mesmo durante o período de graça.
À vista disso, tem-se que o auxílio-acidente é concedido como indenização quando, “após a consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultar sequela definitiva, conforme as situações discriminadas no Anexo III do Decreto 3.048/1999” (DIAS; MACÊDO, 2008, p. 246).
Postos os requisitos inerentes a essa espécie de prestação previdenciária, necessário ainda averiguar a questão relativa à atividade habitual.