Restabelecendo a discussão que fomentou o presente texto, cumpre destacar os pontos mais relevantes sobre o novo instituto jurídico da tutela de urgência na modalidade de tutela antecipada antecedente, que enseja a propositura de uma petição inicial limitada ao requerimento da tutela antecipada pretendida, pelo que a lei exige apenas a exposição da lide, do direito que se busca realizar e a narrativa do perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo.
É imperioso destacar que a característica principal de um provimento anteci- pado específico é sua provisoriedade e a necessidade do prosseguimento do feito para obtenção de cognição plena até a sentença final de mérito, o que se diferen- cia da proposta de tutela antecedente consagrada na nova legislação processual vigente no Brasil.
Neste contexto, sua diferenciação se concentra na possibilidade de estabili- zação da decisão judicial concessiva da medida, a priori provisória, se não houver oposição das partes e eventual interesse no prosseguimento da ação principal, hipótese em que a aludida decisão ganha status de “definitiva”.
Para que esta situação aparentemente inusitada se realize, é inequívoco um procedimento diferenciado de modo que as partes possam manifestar a intenção ou não de prosseguir com o feito e deflagrar a demanda principal, o que é dema- siadamente confuso segundo o texto legal.
Neste jaez, mister destacar os critérios diferenciadores desta demanda antece- dente que tem o condão de propiciar a estabilização da decisão judicial, vejamos. Ainda no que tange a petição inicial é conveniente demonstrar a existência de outros requisitos desta peça incipiente e antecipada expressos na lei, pelo que pode dar ensejo à sua emenda, em que pese seu caráter de urgência, tais como, a indicação do valor da causa, que deve levar em consideração o pedido da tutela final, ou seja, o(s) pedido(s) que será(ão) formulado(s) na petição de aditamento (artigo 303, §1º); a necessidade de afirmação de que se trata de pedido antecipado antecedente (artigo 303, §5º); e, como consequência lógica, o adiantamento total das custas processuais (artigos 303, § 3º c/c 82).
Isto porque, tais requisitos mínimos estão condicionados ao enfrentamento inicial do pedido antecipatório, eis que após a decisão judicial inaudita altera pars, o autor deverá analisar seus efeitos e tomar as seguintes medidas exigidas, a saber:
a. Se a decisão for denegatória: competirá ao autor aditar a petição inicial antecedente para inclusão dos demais pedidos e complementação da causa de pedir, no prazo de cinco dias úteis, sob pena de indeferimento e extinção do processo sem resolução de mérito (art. 303, §6º c/c 219);
b. Se a decisão for concessiva: competirá ao autor aditar a petição inicial an-
tecedente para inclusão dos demais pedidos, inclusive confirmação do pedido de tutela final, sem prejuízo da complementação da causa de pedir e juntada de novos documentos, no prazo de quinze dias úteis ou outro prazo maior que o juiz fixar (art. 303, §1º, I c/c 219), sob pena de extinção sem resolução de mérito (art. 303, §2º).
Em complementação a esta última hipótese exposta, qual seja, diante da con- cessão da tutela antecipada requerida em caráter antecedente, é que se permitirá a devida estabilização da decisão se não houver oposição do Réu.
Registre-se que a lei se vale da expressão ‘se da decisão não for interposto o respectivo recurso’, merecendo uma análise mais aprofundada da mens legis.
Alguns doutrinadores já ousaram enfrentar a controvérsia valendo-se de regras hermenêuticas, pelo que se expõe:
Para Cássio Scarpinella Bueno,92 é imperioso que o mandado de citação e
92 BUeNO, Cassio Scarpinella. Manual de Direito Processual Civil. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 261-262: “Dúvida pertinente, prezado leitor, é saber se a estabilização só pode se dar na falta do recurso apropriado para seu reexame. São variadas as possibilidades: e se o réu não recorreu, mas compareceu à audiência de conciliação ou de mediação? E se ele se manifestou nos autos
intimação expedido ao réu em cumprimento ao disposto no art. 303, §1º, II, con- tenha expressamente a advertência acerca da real possibilidade de estabilização da tutela concedida em seu desfavor, em caso de inércia.
No mesmo sentido é a orientação de Fredie Didier Jr.,93 ao doutrinar que a
estabilização da decisão concessiva da tutela antecipada é uma técnica de moni- torização do processo civil brasileiro.
Considerando a técnica acima exposta, é possível concluir que a estabiliza- ção ocorrerá quando o réu quedar-se inerte na exibição de defesa sobre a decisão judicial concessiva do pedido principal, hipótese em que não haveria, em tese, a necessidade de prosseguir-se com a demanda.
em breve síntese, no nosso entendimento, a intenção legislativa é evitar o prosseguimento de demandas em que o interesse de agir do autor limita-se a uma tutela de urgência liminar, em que obteve êxito, sem que o réu demonstrasse qualquer tipo de oposição.
Na verdade, como a própria proposta do código desvela uma maior autono- mia da vontade das partes, não se poderia permitir entendimento diverso ao de que a intenção legislativa é deixar a cargo das partes a decisão acerca da conveniência, ou não, da propositura ou prosseguimento do feito para fins de apuração de provas e atividade decisória jurisdicional, através da sentença de mérito.
Com esta decisão, repita-se, a cargo das partes, torna-se premente o afasta- mento da atividade jurisdicional de modo a permitir a monitorização do procedi- mento mediante a possibilidade de estabilização da tutela pretendida no pedido principal, através de uma tutela sumária, não exauriente, objetivando garantir a efetividade pela redução do tempo do processo.
pugnando pela revogação da tutela provisória concedida? E se ele, dando-se por citado e independentemente da referida audiência, contestar? E se ele apresentou embargos de declaração de decisão concessiva indicando vício que tem a aptidão de conduzir o magistrado a retratar-se? em suma: é possível interpretar ampliativamente o disposto no caput do art. 304 para afastar, diante desses acontecimentos, a estabilização da tutela provisória? A melhor resposta, penso, ao menos por ora, é a de aceitar a interpretação ampliativa do texto do caput do art. 304. Qualquer manifestação expressa do réu em sentido contrário à tutela provisória antecipada em seu desfavor deve ser compreendida no sentido de inviabilizar a incidência do art. 304. [...]”
93 DIDIeR JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil. Vol.II, 10.ed. Salvador: Jus Podium, 2015, p. 604: “A estabilização da tutela antecipada ocorre quando ela concedida em caráter antecedente e não é impugnada pelo réu, litisconsorte ou assistente simples (por recurso ou outro meio de impugnação). Se isso ocorrer, o processo será extinto e a decisão antecipatória continuará produzindo efeitos, enquanto não for ajuizada ação autônoma para revisá-la, reformá-la ou
Merecem destaque as observações de Talamini94 de que: a estabilização da
tutela antecipada antecedente reúne as características essenciais da técnica moni- tória: a) há o emprego de cognição sumária com o escopo de rápida produção de resultados concretos em prol do autor; b) a falta de recurso do réu contra a decisão antecipatória acarreta-lhe imediata e intensa consequência desfavorável; c) nessa hipótese, a tutela antecipada permanecerá em vigor por tempo indeterminado – de modo que, para subtrair-se de seus efeitos, o réu terá o ônus de promover ação de cognição exauriente. Ou seja, sob esta perspectiva, inverte-se o ônus da instauração do processo de cognição exauriente; e d) não haverá coisa julgada material.
Torna-se forçoso concluir que esta tendência de monitorização procedimental tem fomento na real necessidade de redução do tempo do processo, o que resulta, ainda, na redução de seu custo.
Por oportuno, registre-se que desde o projeto de Firenze capitaneado por Cappelletti e Garth95 na década de 1970 do século passado já deixavam claro que o
tempo é o maior inimigo do processo e das partes, destacando que a demora maior que dois ou três anos por uma solução judicial torna a Justiça inacessível, o que já era consolidado pela Convenção europeia para Proteção dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais que assim delimitava explicitamente no artigo 6º, §1º.
Ressalte-se que o aludido dispositivo legal traz à colação a possibilidade de revisão de seus efeitos, por intermédio de demanda própria, requerida nos mesmos autos do processo em que a decisão se estabilizou, objetivando sua reforma, revisão ou invalidação, no prazo de até dois anos de sua ciência, o que evidentemente afasta qualquer violação ao direito fundamental ao contraditório e ao devido processo legal.
A análise das consequências do não ajuizamento das aludidas demandas no prazo decadencial de dois anos também tem sido objeto de diversas críticas na doutrina, eis que a lei é expressa no sentido de que não há formação da coisa julgada da decisão estabilizada (art. 304, §6º), restando silente, entretanto, quanto à sua possibilidade após o término do prazo disposto no art. 304, §5º, mas tal análise mereceria ser discutida em outro artigo.
Feitas tais considerações, é forçoso concluir pela real necessidade de fomento da medida em voga, por ser evidente seu caráter de celeridade, hipótese em que milhares de ações, de fato, poderiam sofrer os efeitos desta estabilização, cujos
94 TALAMINI, eduardo. Arbitragem e Estabilização da Tutela Antecipada.In: MACeDO, Lucas Buril de. et all (Org.). Procedimentos Especiais, Tutela Provisória e Direito Transitório. 2.ed. Salvador: Jus Podium, 2016, p. 176.
95 CAPPeLLeTTI, Mauro e GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2002, p.20.
impactos seriam muito positivos para uma redução considerável de demandas, a nosso sentir.
A título de exemplificação, é possível citar a expressiva quantidade de deman- das judiciais em que se pretende a antecipação da tutela em obrigações de fazer em face de planos de saúde que obstam, em quase sua totalidade, a execução de cirurgias e exames caros, hipótese em que o imediato deferimento da medida em caráter antecedente poderia obstar aos grandes planos de saúde a contratação de advogados e gastos com processo judicial se não opusesse resistência à decisão, cumprindo-a de imediato.
A parte autora também poderia optar pelo não ajuizamento de qualquer demanda judicial, considerando que sua intenção consistia apenas na obrigação já satisfeita, não se justificando a propositura de ação judicial para prosseguimento de uma lide que já se findou.
Não é demasiado relembrar que a decisão estabilizada não sofre os efeitos da coisa julgada, consoante redação expressa do §6º do artigo 304.
Ainda em relações consumeristas, que têm o condão de ensejar multiplici- dade de litígios que certamente poderiam ser reduzidos com a consagração da estabilização da tutela, podemos citar as demandas em que se pretendem a sim- ples troca do produto ou o cancelamento da compra e devolução do dinheiro ou, ainda, abatimento do preço, na exata forma prevista no artigo 18, §1º do Código de Defesa do Consumidor,96 quando houver decisão concessiva da medida e o
Réu não opuser resistência.
Perceba-se que tal possibilidade pode ser vislumbrada no âmbito dos Jui- zados especiais Cíveis,97 eis que não se pode refutar a possibilidade de aplicação
do fenômeno da estabilização da tutela nesta sede por ausência de qualquer in- compatibilidade de aplicação subsidiária da norma, em especial como forma de redução do tempo e custo do processo.
Outro exemplo clássico que podemos subsumir da análise do aludido dis-
96 Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso;II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos;III - o abatimento
positivo legal acerca da estabilização da tutela decorre de sua aplicação em varas de família, cujas complexidades de causas acabam por abarrotar os cartórios em processos que poderiam ser dispensados, como nas hipóteses de formulação de pedidos de divórcio ou dissolução de união estável, apenas em relação ao rompi- mento do vínculo, eis que as divergências patrimoniais, que são as mais calorosas, dar-se-ão em ação autônoma de partilha, na exata forma da Súmula 197 STJ.98
Assim, se um dos consortes formular o pedido na forma de tutela antecipada antecedente e o outro não se opuser, nada obstará a estabilização.
Evidente que as situações concretas são meramente exemplificativas e a reali- dade forense cotidiana certamente provará que este instituto veio com a proposta inovadora de redução considerável de demandas que geram inequívoco conges- tionamento de processos no âmbito dos mais diversos foros nacionais.
Ocorre que, para que tal visão positiva possa, de fato, ser percebida pelos operadores do direito, é preciso que seja dada à redação do artigo 304 do novo CPC interpretação adequada que o propulsione, o que será demonstrado adiante.